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A pré-avaliação evidenciou que o contexto da Maternidade, como serviço de referência e de ensino e a demanda aberta a todos os casos de abortamento, justifica a escolha do local da avaliação. Também, afirma que a Norma Técnica para a Atenção Humanizada ao Abortamento foi implantada com períodos de incremento inicial, descontinuidades e constrangimento à normatização e protocolização devido à grande demanda.

A Norma Técnica foi considerada um programa avaliável, na medida em que se pôde descrever os aspectos que a fundamentam, disponibilizando subsídios para a criação de indicadores de avaliação da estrutura e processo. Desta forma, tornou possível avaliar a sua implementação e dimensionar os processos que possibilitam a sua adequada operacionalização e consequente aprimoramento, de acordo com a diversidade dos diferentes contextos.

Considerando em conjunto o modelo lógico, a matriz e as perguntas avaliativas, elaborou-se um protocolo validado pelo grupo de especialistas. Este protocolo poderá ser adaptado tanto para autoavaliação institucional da Maternidade quanto como estratégia usual do planejamento, subsidiando a tomada de decisão pelos gestores. Contribuirá, também, para avaliação da qualidade dos serviços de Atenção Integral à Saúde da Mulher no contexto estudado e em outros cenários de prática.

O Estudo de Avaliabilidade permitiu, ainda, elaborar as perguntas avaliativas, que envolvem a visão ampliada do contexto político, jurídico, ético e bioético e dos processos constituintes da Política de Atenção Humanizada ao Abortamento que viabilizou melhor direcionar as ações para a elaboração de um efetivo protocolo de avaliação.

Essa investigação também possibilitou uma aproximação com as mulheres que utilizam o serviço público de referência para o Estado do Rio Grande do Norte, bem como com os profissionais que, neste, atuam e gestores da rede de atenção à saúde, observando suas percepções acerca da assistência, e a partir da riqueza desta vivência, foi possível contribuir para ampliar o número de estudos que avaliam a implantação da Norma Técnica de Atenção Humanizada ao Abortamento nos serviços públicos do país.

Os resultados das entrevistas demonstraram satisfação das usuárias quanto à resolutividade do atendimento na realização do abortamento e facilidade no acesso. Percebe-

se que há fatores subjetivos que implicam nesta opinião, dentre eles, o desfecho final, que culmina com a resolução das suas necessidades. Entretanto, é clara a falta de uma estratégia de acolhimento efetiva aliada à ausência de escuta qualificada, que amenize a situação de ansiedade, fragilidade e desconforto que as pacientes se encontram. Desse modo, é imperativo a necessidade de efetivar a sistematização do trabalho em equipe como forma de implementar as estratégias de escuta qualificada para usuários e trabalhadores da saúde, como ouvidorias, e pesquisas de satisfação com garantia de análise e encaminhamentos, a partir dos problemas apresentados, a fim de melhor estabelecer a relação interpessoal e humanizada entre usuários e profissionais.

Ressalta-se o potencial de influência positiva que o atendimento seguro, prestado pela Maternidade, tem para atenuar a percepção de aborto perpassado por morte e insegurança e suas consequências emocionais e sociais. Contudo, após o atendimento, não há nenhuma responsabilização ou acompanhamento destas mulheres que passaram pela experiência do abortamento, não se avaliando nem as possíveis complicações biológicas, emocionais ou sociais, o que demonstra que elas, de uma maneira geral, são tratadas, porém, não são cuidadas.

Embora informadas sobre os procedimentos de esvaziamento uterino, como AMIU e curetagem, não prevaleceu o direito de escolha compartilhado entre profissionais de saúde e as mulheres sobre a adoção de um dos diferentes procedimentos, ambos considerados, pela Norma Técnica, adequados sob o ponto de vista técnico, embora a AMIU requer menor tempo de internação e não exige anestesia geral, o que contribui para reduzir, também, o tempo de espera, favorecendo à humanização. A escolha do tipo de método para o abortamento é preconizada como garantia para o exercício pleno do direito da mulher, particularmente, nos casos de aborto, legalmente, admitidos no Brasil.

A ambiência da Maternidade foi a categoria enfatizada pelas mulheres e pelos profissionais como o aspecto que mais necessita de mudanças. Além disso, foi, também, um ponto bastante considerado na observação de campo dos pesquisadores, uma vez que é notória a precariedade das instalações e a insuficiência das acomodações e espaços físicos, o que corresponde a um fator limitante para o desenvolvimento de práticas humanizadas e acolhedoras.

No que diz respeito à qualidade técnica, os profissionais de saúde da Maternidade não instituem uma rotina periódica de planejamento das condutas e sistematização dos processos inerentes aos serviços de saúde, os procedimentos clínicos são pautados, basicamente, no

manual interno do serviço, sem associação direta com a Norma Técnica, que deveria ser norteadora das práticas adotadas na Maternidade, uma vez que a ela aderiu, com o propósito de efetivar uma assistência humanizada e multidisciplinar.

As evidências, obtidas através dos relatos das usuárias, profissionais e alguns gestores, demonstraram a não institucionalização do planejamento reprodutivo como a norma preconiza, retratada por meio da escassa oferta de métodos contraceptivos orais e injetáveis e práticas isoladas de encaminhamentos para outros serviços com esta finalidade. Havendo a necessidade da incorporação de orientações e disponibilização de uma pluralidade de métodos e possibilidades de escolhas para o planejamento familiar.

A rede de cuidados, em Natal, como em casos mostrados em outros estudos, no tocante à saúde da mulher, aparece fragilizada, sem um número suficiente de serviços que atendam não apenas ao aborto, mas a outras causas de gestação de risco. Evidenciou-se a não institucionalização da referência e contrareferência na rede de serviços de saúde, inviabilizando a integralidade da atenção proposta pela política vigente, como, também, a ausência de parcerias com a comunidade, não havendo, sequer, um registro de articulação com outros serviços de atenção integral à saúde e de inclusão social para as mulheres, tão importantes para o apoio psicológico e emocional das mesmas e para a aquisição de conhecimentos sobre os seus direitos humanos e reprodutivos.

Embora os resultados tenham mostrado uma adesão parcial à Norma Técnica, é importante destacar o empenho da gestão da Maternidade-Escola, traduzida em tentativas de melhoria na implementação dessas práticas humanizadas, no serviço. Aparece como consensual entre os três níveis de gestão (municipal, estadual e federal-Maternidade ) a necessidade de um funcionamento integrado da rede de atenção à saúde, no sentido de implementar todas as ações de saúde da mulher, em particular, o planejamento reprodutivo que amplie as possiblidades de prevenção do abortamento.

Para que ocorra a efetiva incorporação da Norma Técnica para a atenção humanizada ao abortamento pelos serviços, se faz necessário que ela seja, antes de tudo, não somente compreendida, mas incluída nos planos de ações dos gestores, como uma das prioridades na construção das estratégias de atenção à saúde da mulher, visto que ela não se restringe a um compilado de informações técnicas acerca da conduta profissional, a ser adotada, mas consiste em uma ferramenta importante que, aliada às diretrizes consensuadas em documentos oficiais e às orientações técnicas e políticas preconizadas pela OMS, se constituem como

direcionadoras de práticas e programas voltados para a adequada atenção a essa problemática.

Um aspecto, extremamente, relevante da Maternidade é ser um “serviço de portas abertas”, onde todas as mulheres, expostas ao risco de morrerem por abortamento independente da condição de legalidade e que buscam este serviço, são atendidas em ambiente seguro. Entretanto, a grande demanda interfere na assistência, comprometendo a humanização e sobrecarregando os profissionais, o que pode acarretar prejuízos na qualidade técnica e ética do atendimento ofertado.

Há, portanto, a urgente necessidade de reforçar, criar e implementar estratégias voltadas à saúde da mulher, que viabilizem a real integração entre serviço de conduta segura, rede de cuidados primários e organizações sociais, a fim de garantir o respeito aos direitos humanos e um atendimento humanizado adequado, como forma de atenção e prevenção do aborto.

 

   

 

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