Seriam, precisamente, 21 horas, quando Silveira Marinho, sondando o espaço, com o dial do seu excellente Philips, encontrou, casualmente, a voz maviosa de Bidu, podendo logo compreender que se tratava de uma irradiação exepcional, como effectivamente foi aquella da estação PRA3, da Radio Clube do Brasil, com os novos e aperfeiçoados aparelhos recentemente installados.
Não é, de certo, sem grande emoção, sem verdadeiro enthusiasmo, sem vibração indizível, que a gente, aqui, distante, no socego de um lar, alta hora da noite, ouve, através do rádio, a voz de uma grande artista, da maior artista patrícia, cantando a mais sublime criação de um compositor nacional. Pode-se dizer que o “Guarani” é um himno da pátria, é a alma do Brasil, a da nacionalidade evocativa do nosso passado, da nossa tradição!...343
Antes da instalação da emissora local era possível captar na cidade a irradiação da programação de emissoras localizadas em outros lugares através das transmissões em ondas curtas. Segundo o trecho citado, em 1° de setembro de 1933 iniciaram as transmissões em ondas curtas da PRA-3. Apesar de não ser possível confirmar se esta informação é verdadeira ou se as transmissões em ondas curtas dessa estação eram recorrentes, para as intenções dessa pesquisa a data é significativa, pois a partir daí tomou-se conhecimento dessas irradiações na cidade.
Em pesquisa realizada nos Anuários Estatísticos do Brasil (II, III, IV e V) notou-se que as primeiras emissoras a transmitir em ondas curtas no país datam de 1937 – Rádio Club de Pernambuco e a emissora pertencente ao Governo do Estado do Amazonas.344 O que não significa que “experiências”
não tenham acontecido nos anos anteriores. No mesmo ano, o colunista de
Comentando – coluna publicada no jornal O Estado – reclamava da
inexistência de uma emissora brasileira que transmitisse – além dos 45 minutos da Companhia Rádio Telefônica Brasileira – uma programação em ondas curtas, apontando que em Fortaleza só era possível escutar nitidamente, além da emissora local, a “voz embrulhada” dos filhos da Alemanha, Inglaterra, França e Estados Unidos, além de uma emissora de Portugal e outras três do
343 O Nordeste, Fortaleza: 02 Set 1933, p. 4.
Uruguai.345 O projeto de uma imprensa que alcançasse todo o território
nacional – que se tornou a principal bandeira em defesa do rádio desde os seus primeiros movimentos no país – esbarrava no alcance proporcionado pelo comprimento das ondas. Somente na década de 1940 houve um aumento na quantidade de emissoras irradiando em onda curtas – em 1946 eram 15 emissoras transmitindo em ondas curtas no Brasil, entre elas uma pertencente à Ceará Rádio Club, instalada em Fortaleza no ano de 1941.
Na década de 1930, os países europeus e os Estados Unidos utilizavam as irradiações em ondas curtas na propaganda política dos seus governos no exterior. O Estado Alemão possuía a D.J.A. que realizava – segundo programação publicada no jornal O Nordeste – irradiações diárias das 19 às 22:30, em alemão e castelhano, de números musicais e noticiários. A utilização do castelhano, além do alemão, nos números irradiados pela emissora germânica aponta que essa programação se destinava aos sulamericanos e alemães residentes na América Latina. Além disso, a publicação da programação num periódico de grande circulação na cidade demonstra algum interesse local por essas irradiações. Além das irradiações alemãs, as emissoras norte-americanas CBS e NBC realizavam irradiações para a América Latina.346
Essas irradiações, possivelmente, eram costumeiramente escutadas pelos poucos receptores existentes em Fortaleza durante os primeiros anos da década de 1930, conforme o colunista de “Respingando...” que declarava passar o dia entre “pilhas de autos processuais e um novo e magnífico
aparelho de rádio ‘Philco’, cuja voz, alta como a de um louco em fúria, leva a todo o quarteirão da minha residência as palavras incompreensíveis de um inglez ou de um alemão (...)”.347 Assim, para se aproximar dos sentidos da programação local é necessário levar em conta o contentamento apontado anteriormente pela audição da ópera “O Guarani”.
Uma emissora local não era apenas uma garantia que a sondagem no espaço seria bem sucedida, ela poderia aproximar a programação do rádio ao
345 O Estado, Fortaleza: 2 Fev 1937, p.8.
346 SOUSA, Marquilandes Borges de. Rádio e Propaganda Política: Brasil e México sob a mira
norte-americana durante a Segunda Guerra. São Paulo: Annablume; Fapesp, 2004, p. 54.
gosto dos proprietários de aparelhos, além de apresentar uma programação em português.
No início da década de 1930, quando os transmissores da Ceará Rádio Club iniciaram ainda de forma experimental suas irradiações, os dias escolhidos foram segunda e sexta e o horário das 19 às 22 horas – horário nobre do rádio, quando o maior número de pessoas, e principalmente de homens, a quem o rádio se destinava nesse momento, estava em casa.348
Pouco da programação desses primeiros anos de irradiações chegou aos dias de hoje, não existe documentação interna da emissora e a programação, diferentemente do que aconteceu nos anos seguintes, não era publicada nos periódicos locais.349 No entanto, a partir de alguns poucos relatos memorialísticos e crônicas publicadas nos jornais é possível conhecer um pouco mais dessa programação.
Por intermédio de uma crônica escrita por Demócrito Rocha, já citada anteriormente, têm-se notícias de certo “discurso” humorístico de José Luis Rodrigues Calazans – Jararaca – gravado em disco e reproduzido pela emissora.350 Trata-se – pela dada de publicação e pelo contexto da crônica – do discurso “O Momento Atuá”, que se tornou muito conhecido na cidade, gravado no lado B em 78 rotações pela Columbia no ano de 1930.351 A gravação trás Jararaca simulando um “caipira” que resolve ir a público fazer um discurso sobre o momento político atual do país – daí o título. É possível que as primeiras tentativas de aproximação tenham se realizado a partir dos discursos e canções jocosas de Jararaca e Ratinho.
A programação da emissora era dividida em quartos de hora em que se revezavam discos, noticiários e palestras.
Todos nós cearenses devemos auxiliar os irmãos Dumar, que, lá no seu palacete, nos enviam, talvez, numa hora de tristeza, de amargura e de spleen, as maviosas notas musicais que nos confortam, os duetos alegres, os sambas estonteantes, as notícias inesperadas que nos rejubilam.352
348 A Rua, Fortaleza: 10 Nov 1933, p.8.
349 Segundo alguns informantes que preferem não divulgar o seu nome, toda a documentação
existente, assim como grande parte da discoteca de cera e acetato, foi destruída propositadamente, salvos alguns poucos registros sonoros que estavam na posse do pesquisador Miguel Ângelo de Azevedo.
350 “Nota”. O Povo, Fortaleza: 12 Out 1942.
351 No lado A está gravada a embolada “Itararé”. RODRIGUES,Sonia Maria Braucks Calazans. Jararaca e Ratinho: a famosa dupla caipira. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1983.
Durante todo o ano de 1935 a programação da emissora local passou por algumas mudanças. As transmissões tornaram-se diárias: de segunda a sábado, em dois horários, das 11:30 às 12:30 e das 18:00 às 22:00 horas; e aos domingos, também em dois horários, das 11:30 às 12:30 e das 15:00 às 18:00 horas.353 A partir do horário das irradiações é possível observar uma relação com o tempo, ou com o tempo do trabalho, diferente da atual. Nesse período, o Centro da cidade – onde se localizavam os escritórios, consultórios e comércios – costumava fechar para o almoço. Prática que perdurou por muito tempo e que ainda é cultivada, no subúrbio, pelos pequenos comerciantes.
A programação iniciava no momento em que as pessoas iam almoçar. O rádio propiciava uma música calma para o horário das refeições, ocupando mais um horário possível para a programação, pois fora disso, acreditava-se correr o risco de “irradiar para ninguém”.
Atendendo às reclamações da crítica radiofônica local, os números de estúdio tornaram-se mais recorrentes na programação: das 20 às 22 horas o programa “A Hora da Arte” nas noites de sábado e o programa “Miscelânea” – “Um bom bocado para todos os paladares”354 – das 20:30 às 22 horas nas noites de segunda. Afinal, conforme escreveu Hermes Gomes, em coluna publicada no jornal Gazeta de Notícias, “disco por disco é melhor não se ter
rádio”.355 O rádio haveria de oferecer alguma coisa que despertasse o desejo pelo aparelho e demarcasse a diferença entre as demais máquinas falantes, adquiridas ainda recentemente por muitos. O caminho encontrado, nesses primeiros dias, foi a veiculação de números de estúdio: palestras, apresentações musicais, leituras de crônicas e noticiários.
O programa “A Hora da Arte” era voltado para números eruditos: normalmente ouvidos nos saraus elegantes da cidade e no Teatro José de Alencar. Apresentavam-se cantores líricos de passagem pela cidade, estudantes das escolas de música ou senhoras “prendadas” – a expressão aparece na documentação – de Fortaleza. Sobre “A Hora da Arte”, os redatores do jornal Gazeta de Notícias escreveram:
353 Gazeta de Notícias, Fortaleza: 2 Ago 1935, p. 2. 354 Gazeta de Notícias, Fortaleza: 12 Ago 1935, p. 6. 355 Unitário, Fortaleza: 25 Maio 1935, p.5.
Esteve, assim, a “hora da arte” da P.R.E.9 com um programa digno dos melhores e mais seletos auditórios.
Desejamos salientar, aqui, o bom gosto, a “finêsse” que preside a organização desses programas irradiados pela estação do Ceará Rádio Clube que, assim, dia a dia, vai se tornando apreciada pela população e aumentando o número de ouvintes ao mesmo passo que vai fazendo agradáveis surpresas aos seus ouvintes.356
As críticas destinadas aos dois principais programas musicais de estúdio oferecidos pela emissora demonstravam, por parte dos jornais, conceitos e noções de música que diferiam entre os periódicos, como entre diferentes grupos da sociedade local. Assim, a emissora buscava agradar à crítica acreditando estar agradando aos ouvintes, o que de fato era verdade nos primeiros anos de funcionamento da rádio. Afinal, quem escrevia e tinha acesso aos jornais eram os mesmos que poderiam possuir um aparelho. Mesmo o programa “Miscelânea”, que trazia estilos mais variados – sambas, marchas, canções, fox, valsas etc. – estava sob o olhar atento da crítica que não permitia o uso “exagerado do pandeiro”, conforme citado anteriormente.
Em 1938, foram anunciadas outras alterações na programação que perduraram – no que diz respeito à estrutura da grade – até o final do período pesquisado.357 Este ano é importante, pois demonstra não apenas uma mudança na programação, mas uma série de outras mudanças por que passou a emissora: de estúdio, de programação e de diretor artístico – Kalu’a. Mesmo com as colunas de críticas ainda exercendo uma pressão importante na programação, observa-se uma busca em agradar “diferentes” audiências, em diferentes horários e classes sociais. No ano seguinte, a programação do Ceará Rádio Club passou a ser publicada diariamente nos jornais Gazeta de
Notícias e O Estado. Assim, é possível acompanhar o que era levado ao ar
pela emissora, bem como a organização dos números na grade da estação. Diariamente, as irradiações da P.R.E.9 iniciavam às 11:00 horas com o “Programa do Almoço” – no qual eram, normalmente, transmitidos discos de música instrumental. No início de 1939, tentou-se abrir a programação com o programa “Peça o que Quiser”, mas, atendendo a solicitações por uma música mais “calma” para o almoço, foi alterado em março para o horário das 11:30, sendo interrompido às 12:00 horas para a exibição do “Hora Certa” – “O
356 Gazeta de Notícias, Fortaleza: 19 Jul 1935, p.5. 357 Gazeta de Notícias, Fortaleza: 05 Maio 1938, p.3.
noticiário falado da emissora” – e retomado às 12:10, se estendendo até às 13:00 horas quando era interrompida, exceto aos domingos, a programação.
As irradiações eram retomadas às 18:00 horas, com o “Programa do Jantar” seguido pelo Noticiário às 18:10. Das 18:15 até às 18:45 eram exibidos discos, de janeiro até o carnaval eram exibidas “gravações carnavalescas” – às segundas, quartas e sextas – e “gravações em primeira audição” – às terças quintas e sábados. Às 18:45 iniciava o quarto de hora do Departamento de Publicidade.
Às 19:00 tinham início os programas de estúdio, sendo interrompidos por uma hora – das 20:00 às 21:00 – pelo “Hora do Brasil” de exibição obrigatória. As irradiações encerravam às 22:05 com a programação para o dia seguinte e “Boa Noite”.
De segunda a sábado, a Ceará Rádio Club irradiava seis horas diárias de programação. A maior parte – 2 horas e 30 minutos – era reservada para a veiculação de discos, além disso, eram destinadas 2 horas e 15 minutos para programas de estúdio e 1 hora e 15 minutos para os programas oficiais – Hora do Brasil e Programa do Departamento de Publicidade.
O “Hora do Brasil” foi criado pelo Departamento de Propaganda e Difusão Cultural – DPDC, em 22 de julho de 1935. Era transmitido em cadeia por algumas emissoras e objetivava divulgar as “realizações” do Governo. Em 1937, adquiriu o caráter compulsório, devendo ser transmitido, obrigatoriamente, em rede nacional, em ondas curtas, médias e longas. O programa buscou sair do formato “sisudo” de relatório do movimento burocrático e passou a exibir palestras, notícias de propaganda política e uma parte musical – na qual costumeiramente eram irradiadas músicas de Herivelto Martins, Donga, Carmen Miranda e Francisco Alves, além de música orquestral.358 Apesar de ser de transmissão obrigatória em cadeia nacional –
irradiado de segunda a sábado no mesmo horário por todas as emissoras localizadas no território nacional – e em pontos comerciais que possuíam aparelhos rádio receptores – segundo o decreto-lei n° 1.949/39 – a “Hora do Brasil” não seria ouvida se não fosse minimamente atrativa para os ouvintes.
358 HAUSSEN, Dóris Fagundes. Rádio e Política: tempos de Vargas e Perón. Porto Alegre:
EDIPUCRS, 1997, p. 30; SOUZA, José Inácio de Melo. O Estado contra os meios de
Afinal, se não era possível mudar de emissora, ainda seria possível, em casa, desligar o aparelho ou, nos comércios, abaixar o volume.
Quando o Departamento de Imprensa e Propaganda iniciou o seu funcionamento, em 1° de janeiro de 1940, entre as s uas atribuições estava a organização e direção do programa de rádio-difusão oficial do Governo.359 O
D.I.P. não só cuidava de divulgar as ações do Governo através do programa, como promovia ações, entre elas concursos para escolher as melhores canções votadas pelo público. Mesmo assim, o programa ficou conhecido popularmente pela alcunha de “o fala sozinho”.360
Em âmbito local, era transmitido o programa do Departamento de Publicidade narrado por Limaverde e por Mariano Martins361, que, em 1940, por alterações advindas da criação do Departamento de Imprensa e Propaganda, mudou de nome para “Programa do Departamento de Cultura, Divulgação e Propaganda”. Não foi possível ter acesso aos textos que eram lidos aos microfones da emissora nesse programa. No entanto, o citado departamento, publicou algumas notas nos periódicos locais, por onde é possível ter uma ideia do tipo de programação que era irradiada. O “Departamento de Cultura, Divulgação e Propaganda” publicou 5 textos no jornal O Estado durante o mês de julho de 1940 nos quais louvava o trabalho, criticava alguns costumes da população de Fortaleza – que segundo o redator não eram condizentes com a cidade que se “modernizava” –, elogiava o governo de Menezes Pimentel, apontava a necessidade de uma “alimentação racional” – a expressão foi retirada do texto – e buscava convencer a população a participar do recenseamento.362
Não há motivos para crer que os conteúdos desses programas diferiam, em relação aos temas, dos apontados nos textos escritos. Assim,
359 BRASIL. Decreto-Lei N. 1915 – 27 de dezembro de 1939. Coleção de Leis de 1939 –
Volume VIII. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1939, p. 465.
360 LENHARO, Alcir. A sacralização da política. Campinas-SP: UNICAMP, 1989, p.40.
361 Jornalista e locutor. Durante o Estado Novo pertenceu aos quadros do Departamento
Estadual de Imprensa e Propaganda – D.E.I.P – como censor. Conferir: ABREU, Berenice. O
Raid da Jangada São Pedro: Pescadores, Estado Novo e Luta por Direitos. Tese. (Doutorado
em História) – Universidade Federal Fluminense. Departamento de História, Niterói, 2007, p. 176.
362 Conferir, respectivamente: “A Crise Universal”. O Estado, Fortaleza: 10 Jul 1940, p.8;
“Progresso e progresso”.O Estado, Fortaleza: 11 Jul 1940, p.5; “Um Governo Assinalado”. O
Estado, Fortaleza: 12 Jul 1940, p.7; “Alimentação”. O Estado, Fortaleza: 20 Jul 1940, p.6; “O
essa programação buscava, a partir das questões locais, afinal os textos sempre partiam da cidade de Fortaleza ou do Estado do Ceará, ligar os ouvintes da emissora às questões em voga na política do Estado Novo: trabalho, ordem e divulgação dos feitos políticos.
Em maio de 1941, o programa passou a se chamar “Programa do Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda”, seguindo o mesmo modelo apresentado do anterior. Veiculava textos assinados por J. Martins Rodrigues, Andrade Furtado, Djacir Menezes, Raimundo Girão, Pe. Bruno Teixeira e outros, todos reconhecidos como homens de letras na cidade e simpatizantes do Estado Novo.363
Os programas oficiais – “Hora do Brasil” e “Programa do Departamento de Cultura, Divulgação e Propaganda” – além de “tomarem” uma parte significativa do “horário nobre” da programação, se tornaram um problema para as emissoras que deveriam fazer o ouvinte não desligar o rádio para ouvir o restante da programação diária.
Ao que parece, a emissora local não foi a primeira a perceber isso em Fortaleza. Em carta enviada à Gazeta de Notícias, mas destinada ao locutor Cabral, um “Rádio-Ouvinte Ocupado” pedia que o programa “Hora do Calouro” exibido às 19 horas mudasse de horário para as 21 horas. Como argumento ele escreveu que neste horário a mocidade ia às retretas, ao cinema, à Praça do Ferreira, ia visitar ou namorar, ou seja, “às 7 horas não fica ninguém em
casa.”364 Além disso, ele asseverava que com a “interrupção” para a “Hora do Brasil” muitos não continuavam com o rádio ligado e que com a mudança no horário do programa a audiência continuaria sintonizada esperando a “Hora do Calouro”.
Outras palestras, além das proferidas nos programas oficiais, eram veiculadas pela Ceará Rádio Club. Na primeira fase do rádio em Fortaleza, até 1938, essas palestras eram comuns e tinham lugar de destaque na programação.
Entres as palestras de que hoje se tem notícia – uma vez que foram publicadas nos periódicos locais –, as de Leota – Leonardo Mota – eram uma
363 “Novo Programa do D.E.I.P.” O Estado, Fortaleza: 10 Maio 1941, p.8.
364 Grifo no original. “Hora do Calouro – apelo à P.R.E.9.” Gazeta de Notícias, Fortaleza: 04
constante na emissora. Leota normalmente buscava o riso dos ouvintes, seja fazendo graça de si – “a literatura pode dar o pão, mas não dá a manteiga” – ou contando trechos dos costumes e músicas do sertão.365
Não é possível mensurar a quantidade de palestras que foram ao ar na P.R.E.9. Provavelmente não foram poucas, afinal, era função primordial do rádio “educar”. Entre os poucos textos que nos chegaram, ou que foram possíveis encontrar durante esta pesquisa, um chamou a atenção. Trata-se de uma palestra proferida pelo médico J. J. de Almeida, em 1935, e intitulada “O Alcoolismo e suas Conseqüências”. Que por ter sido encontrada ainda no início da pesquisa motivou uma busca sem sucesso por outras palestras similares.
O texto aponta que uma das piores consequências do alcoolismo é a
dipsomania, que ele define como “a herança que o filho dos alcoólatras recebem, da tendência mórbida ao abuso das bebidas”.366 No texto, Almeida cita uma série de casos de famílias que tinham pais alcoólatras e os filhos nasceram com problemas de saúde e famílias que não tinham pais alcoólatras e os filhos nasceram sadios, assim ele conclui que “a hereditariedade alcoólica
é, pois, um fato incontestável”.367
Esses textos buscavam manter os “ideais” educativos do rádio. Afinal, esse era o principal argumento para fazer as emissoras solicitarem constantemente subsídios ao Governo e para se defenderem de críticas proferidas sobre a utilidade do rádio.
O domingo era o dia em que o rádio se tornava o entretenimento “da família”. Na primeira parte da programação eram irradiadas “Músicas de Carnaval” – no início do ano – ou “Discos Variados” – no restante do ano –, interrompidas às 12 horas pelo noticiário “Hora Certa”, que durava 15 minutos. No turno da tarde o destaque era para o “Programa Infantil” e o “Programa das Donas de Casa”.
Do “Programa das Donas de Casa” apenas o título, na programação, ficou registrado no impresso. Diferentemente do “Programa Infantil” que foi fartamente registrado. Sua fundação é contemporânea à instalação da emissora e já em 1935 era possível encontrar notas comentando o programa.
365 A Rua, Fortaleza: 3 Ago 1935, p. 3; O Estado, Fortaleza: 3 Fev 1937, p. 12.
366 “O Alcoolismo e suas Conseqüências”. Gazeta de Notícias, Fortaleza: 1 Set 1935, p.5.