O aborto passou a ser definitivamente condenado com a emergência do cristianismo. Entretanto, data do século XIV a concepção de São Tomás de Aquino de que o feto não possuía alma, sendo esta ideia acompanhada de uma maior aceitação da igreja em relação ao aborto. Apenas em 1869 que esta ideia foi derrubada e o aborto e os métodos contraceptivos foram censurados pela Igreja (Rebouças & Dutra, 2011).
A questão moral, que está pautada em crenças religiosas, é a que mais sustenta a criminalização do aborto no Brasil (Diniz & Menezes, 2012). Os preceitos religiosos exercem grande influência lutando a favor da criminalização do aborto alegando que o aborto provocado é um pecado grave aos olhos de Deus, em que tanto aqueles que o praticam quanto aqueles que ajudam a praticar estão sujeitos a excomunhão (Dantas et al., 2011). Segundo Hurst (2006), grande parte da hierarquia eclesiástica considera o aborto provocado como um pecado grave e razão para excomunhão. Segundo Digiovanni (2008), a Igreja defende a posição de que a vida surge no momento da concepção, visão esta que é compartilhada pelo Estado Brasileiro Laico de forma que eles consideram que o aborto é crime contra a vida. Ao contrário, o movimento feminista alerta para “hipocrisia da ilegalidade”, com base em índices elevados de mortalidade devido a prática do aborto ilegal, defendendo fortemente a descriminalização do aborto (Digiovanni, 2008).
Nessa luta pela descriminalização destaca-se o Movimento Feminista com a premissa “nosso corpo nos pertence” (Pimentel & Villela, 2012). Sendo assim, o Movimento Feminista e os preceitos religiosos revelam visões bem diferentes sobre o aborto, enquanto o primeiro considera-o uma questão de direito, o segundo coloca-o no prisma da ética e da moralidade, avaliando-o como um crime contra a vida de um inocente (Aldana, 2008). Para o Movimento Feminista para que haja democracia e justiça social é necessário que seja instituído o direito ao aborto, a escolha de ter ou não filhos e o exercício livre da sexualidade (Pimentel & Villela, 2012). Tal discurso feminista em prol do aborto coloca um pouco de lado o direito à
decisão compartilhada do aborto, ou seja, aquela em que o homem também tem o direito de opinar e escolher junto a sua parceira de forma igual. Essa desigualdade também nos leva a pensar sobre à penalização única e exclusiva da mulher que provoca aborto em casos de abandono pelo parceiro.
Até mesmo em casos extremos pode-se perceber uma posição contrária da igreja em relação ao aborto, como no caso da menina de 9 anos que engravidou de gêmeos suspeita de ter sido estuprada pelo padrasto em Pernambuco. Nesse caso a menina estava correndo risco de morte e os médicos que realizaram o aborto e a mãe da menina foram excomungados (A Folha de São Paulo, 2009). Apesar dessa grande defesa da Igreja e do Estado em relação à criminalização do aborto, percebe-se que isso não é impedimento para a realização do mesmo. Sendo assim, ser adepto a uma ou outra religião não leva a obediência e adesão a todos os seus preceitos (Digiovanni, 2008). Mas, apesar da religião não influenciar a prática do aborto, o mesmo pode não acontecer quando o assunto é percepção e crenças em relação ao aborto. Ademais, como Santos (2008) alerta, existe uma moral dupla quanto ao aborto, em que considera-se como sendo algo errado, mas quando o caso de uma gravidez não planejada refere-se a própria pessoa, sua opinião quanto a esse caso se modifica, passando a ser favor, no entanto é a favor apenas nos casos que dizem respeitos as pessoas próximas ou a própria pessoa. Segundo a autora, essa ambiguidade tem como consequência um sofrimento psíquico para aqueles que estão em uma situação que precisam realizar um aborto.
Na religião católica e protestante o aborto provocado é considerado um pecado e um desrespeito à vontade de Deus, sendo assim, o atendimento a mulher que está passando por uma situação de abortamento provocado torna-se complicado devido as crenças religiosas dos profissionais, que por vezes consideram que provocar aborto (legal) e dá assistência as mulheres que provocaram seriam um pecado e um desrespeito à Deus (Costa et al., 2012). Como a Igreja Católica defende o direito à vida, pondo como iguais a vida da mãe e do feto,
Aldana (2008) considera que tal defesa tem caráter essencialista por levar em consideração apenas o aspecto biológico da vida, escanteando a parte social, cultural, subjetiva e política da vida da mulher, destacando apenas o fato da sobrevivência biológica do feto. Diante disso, a autora coloca que isso não diz respeito apenas a uma questão de proteger a vida a qualquer custo, mas sim de ter direito a uma vida realmente “humana”.
Diniz (2013) aponta para a importância de se considerar a religião – e seus preceitos – como algo privado, chamando a atenção para o fato de que as políticas públicas não devem estar fundamentadas em religiões ou em seus preceitos, salvaguardando também a característica laica do estado, em que a neutralidade religiosa, a pluralidade e democracia do Estado devem ser exercidas. No entanto, a ordem jurídica democrática trabalha em função de crenças religiosas e filosóficas que estão baseadas na moralidade (Diniz & Menezes, 2012).
Como aponta Costa et al. (2012):
Apesar de não oficiais, as normas religiosas ainda penetram a composição sócio-moral do Brasil e influenciam a construção psicológica do núcleo familiar e da maternidade no País. Experimentando expor a experiência das “normas” ou do pensamento do “normal”, “saudável”, “regular” etc., tanto na vida em sociedade assim também no atendimento público de saúde.
Então, apesar de não ser efetivada a punição legal do aborto, não deixa de existir a punição moral em relação a esse ato, mesmo assim, os casos de aborto provocado só tendem a crescer (Costa et al., 2012).
Tem-se por pressuposto que as crenças religiosas são um tipo de crenças essencialistas, em que atribui-se ao aborto provocado explicações naturais religiosas para cometê-lo, como sendo uma pessoa pecadora, sem amor, cruel e fria, analogamente ao que Lacerda, Pereira e Camino (2002) propõem em relação à explicações naturais religiosas à homossexualidade. Acredita-se que há a presença de crenças que utilizam explicações
naturais religiosas em relação à percepção do aborto. Com isso, crenças religiosas em relação ao aborto que o colocam como um pecado aos olhos de Deus, falta de fé e fraqueza espiritual, como na pesquisa de Lacerda et al. (2002) quanto à homossexualidade, são entendidas como crenças essencialistas religiosas, pois há a desconsideração de aspectos sociais, econômicos e emocionais na explicação do aborto provocado, deixando de analisar as questões sociais que o levaram a acontecer, colocando o problema como sendo algo interno da pessoa que o realizou. Sendo assim, percebe-se que as crenças religiosas exercem uma influência considerável em relação às crenças que as pessoas formulam sobre o aborto e consequentemente às percepções sobre ele.