Em 1986 Watts e Zimmermam publicaram o livro "Positive Accounting Theory", o qual se tonou uma referência nos roteiros de estudos da pesquisa empírica positiva contábil. O objetivo da obra é o de oferecer uma forma de compreender a teoria e metodologia subjacente às bases econômicas da literatura empírica contábil. O conceito de teoria descrito no livro pelos autores é acompanhado de uma metodologia de pesquisa, resultado de acumulados anos de experiência de pesquisadores empíricos na produção de teorias.
Para compreender a nova teoria em consolidação, oriunda dos conceitos construídos em Economia e popularizada com o termo “teoria positiva” pelo famoso economista Milton Friedman, é preciso diferenciá-la da “teoria normativa”. Para tanto, por sua vez, faz-se necessário estudar os conceitos de dedução e indução. Hendriksen e Breda (1999) ensinam que o raciocínio dedutivo em Contabilidade é o processo de iniciar com objetivos e postulados e, destes, derivar princípios lógicos que proveem as bases para as aplicações práticas ou concretas. De acordo com Watts e Zimmermam (1986) o raciocínio dedutivo é típico da teoria normativa e adota a forma “Dadas as condições A, a alternativa B deve ser escolhida”. O processo indutivo, por sua vez, no qual se pauta a teoria positiva, consiste em obter conclusões generalizantes a partir de observações e mensurações parciais detalhadas. Trata-se de averiguações sobre “how the world works” do tipo “Se C então D”, sendo estas refutáveis. Iudícibus (2010) exemplifica como aplicação de indução em contabilidade a observação e análise das demonstrações financeiras relativas a entidades.
Em termos de teoria da contabilidade, até o final da década de 60, prevalecia a teoria normativa, que era essencialmente dedutiva, baseada na criação de regras e normas e sua interpretação. Trata-se de uma fase em que a contabilidade estava mais ligada ao direito e às normas. A teoria positiva, ao contrário da normativa é essencialmente indutiva e tem como principal característica testar a validade prática das normas, fundamentada em sólidas teorias de finanças e economia.
Os trabalhos de Ball e Brown (1968) e Beaver (1968) são apontados por Watts e Zimmermam (1986) como precursores da teoria positiva, também denominada de pesquisa contábil baseada no mercado de capitais (financial accounting capital markets research), na medida em que buscam encontrar uma relação entre a informação contábil e o mercado de capitais (LOPES, 2002). Tais artigos apresentaram uma nova metodologia para testar o efeito da informação contábil no mercado de capitais e demonstraram sua eficácia, abrindo campo para inúmeras pesquisas que se seguiram em diversos mercados. Dessa forma, não há como falar de teoria positiva da contabilidade sem mencionar esses dois estudos seminais.
Ball e Brown (1968) investigaram se os resultados contábeis podem ser empiricamente relacionados com o preço das ações. Em sua pesquisa analisaram também se os resultados contábeis refletem fatores já incorporados ao preço das ações ou se são tais resultados que transmitem conteúdo informacional ao mercado, alterando a expectativa dos investidores. Através da metodologia de estudos de eventos e do cálculo dos retornos anormais em bases mensais, os autores dividiram a amostra em duas sub-amostras: resultados inesperados positivos e resultados inesperados negativos. Uma das formas de segregação da amostra foi feita utilizando o modelo ingênuo de cálculo do lucro anormal, segundo o qual o resultado esperado para o próximo ano é o resultado corrente. Nesse caso, as empresas com resultado negativo foram alocadas em uma sub-amostra e as empresas com resultado positivo foram alocadas em outra sub-amostra.
Contudo, observou-se que, no referido trabalho, muito do ajuste de preços das ações ocorreram antes do mês da divulgação do resultado. O retorno anormal, tanto para as amostras de variações positivas quanto negativas moveu-se em direção ao sinal do resultado em cada um dos meses anteriores à divulgação. Wattz e Zimmerman (1986) conjecturam que a antecipação pode se dever ao resultado dos relatórios trimestrais ou a fontes não contábeis de informação. Em função dessa grande movimentação dos preços anteriormente ao anúncio, os autores concluíram na oportunidade que o resultado anual talvez não fosse uma fonte de informação muito oportuna.
De maneira geral, Ball e Brown (1968) concluíram que as informações contábeis possuem conteúdo informacional, bem como, que mais da metade das informações de uma empresa disponível durante um ano são capturadas a partir das demonstrações contábeis anuais.
Beaver (1968), em estudo pioneiro segundo Watts e Zimmerman (1986), objetivava medir a percepção dos investidores em relação às informações contábeis, analisando não apenas a movimentação do preço das ações como também o volume de negociação, em data
próxima à divulgação das demonstrações contábeis. Nesse caso as observações foram semanais.
O autor utilizou a variância do retorno anormal como uma medida da informação contida nos anúncios anuais de resultados. A ideia é que a referida informação altera a expectativa do investidor em relação à probabilidade de distribuição dos fluxos de caixa futuros e, portanto, altera o valor das ações da empresa. Se os anúncios transmitem informações ao mercado, com a sua divulgação haverá alteração no preço das ações, logo, a expectativa de Beaver (1968) era encontrar retorno anormal dos papéis em torno da data dos anúncios de resultados anuais. Uma vez que em um mercado eficiente o retorno anormal em torno da data de tais anúncios deve ser zero, a mudança dos preços resulta em uma maior variância de retornos anormais nos dias de anúncio. Portanto, a hipótese de que os resultados contábeis transmitem informações ao mercado pode ser testada observando-se o aumento da variância do retorno anormal, na medida em que os anúncios de resultados tornam-se públicos.
Para comparar a variância do retorno anormal nas semanas em torno da divulgação, Beaver (1968) compôs um índice U e comparou a sua distribuição nos períodos de não divulgação com os períodos em que teria havido o efeito da divulgação (o período de divulgação foi considerado da semana -8 a +9, e, portanto, 17 semanas em torno da divulgação).
A constatação foi de que embora a maior atividade de preços tenha ocorrido na semana zero, houve significativa movimentação e os retornos foram maiores também nas semanas imediatamente anteriores à divulgação. Segundo Beaver (1968), as variações de preços acima da média, na semana imediatamente anterior à divulgação, podem refletir vazamento de informações, ou o fato de que o jornal Wall Street possa não ter sido a primeira única fonte de informação de relatórios de resultado em alguns casos. Movimento de preços acima do normal (indicando aumento de variância) também foi verificado nas duas semanas que sucederam à divulgação, tempo durante o qual os relatórios anuais são publicados e avaliados pelos investidores. O autor, então, concluiu que a divulgação de resultado anual contém informação relevante para a avaliação de ações.
Com o desenvolvimento das metodologias precursoras acima, na mesma época em que Fama (1970) deu impulso à hipótese de eficiência de mercado, como visto no capítulo 2.1, diversos outros trabalhos seguiram essa linha de investigação contábil alicerçada no mercado de capitais, nas décadas de 70 e 80, culminando com a designação de Teoria Positiva da
Contabilidade a partir de Watts e Zimmerman (1986), quando cada vez mais pesquisas com essa abordagem começaram a se desenvolver.
No capítulo a seguir serão apresentadas e discutidas algumas pesquisas empíricas desenvolvidas sob o enfoque da teoria positiva da contabilidade.