Entende-se aqui por era da máquina o período histórico da humanidade, especialmente quando se considera a civilização ocidental, que se sucede à Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra no século XVIII e que consolidou o sistema capitalista, separando o capital (detentor dos meios de produção) e o trabalho, acelerando o ritmo econômico e aumentando a produtividade54.
Esse período é caracterizado pela industrialização e pela presença de novos arranjos de natureza urbanístico-ambiental (ruas, avenidas, áreas livres, recuos, zonas), influenciados, principalmente, pela massificação dos transportes (ferroviários, rodoviáreios, aquáticos e
52 HUGON, Paul. História das doutrinas econômicas. 14 ed. São Paulo: Atlas, 1980, p. 91.
53
VICENTINO, Cláudio. História geral. São Paulo: Scipione, 1997, p. 238.
54 Para uma visão geral da Revolução Industrial, cf. MARQUES, Adhemar. Pelos caminhos da História.
aéreos), aumentando a velocidade de deslocamento, encurtando distâncias e facilitando a circulação de pessoas, bens e mercadorias, tanto no interior das cidades quanto nas circunvizinhas e até entre países.
Nesse cenário, relevantes mudanças ocorrem no espaço urbano, especialmente em função da rápida aglomeração das pessoas, do processo de verticalização e do consequente aumento da densidade demográfica, o que implicou numa série de problemas para morar, trabalhar, locomover-se e divertir-se.
Formata-se então uma luta ou correlação de forças entre as vantagens e as desvantagens do intenso processo de urbanização que tem ocorrido desde o advento da chamada Idade Moderna. É esse o objeto de reflexão agora.
Para Laécio Noronha Xavier55, “a chegada da humanidade na Idade Moderna, a partir do século XVI, levou, paulatinamente, a consolidação da cidade frente ao campo, instituindo- se com a Revolução Industrial (1760-1830), o ‘modo urbano de vida’”. E mais: provocou o
surgimento de “grandes contingentes populacionais a buscarem a cidade como espaço de reprodução da vida”, concluindo que “se anteriormente a preocupação geral estava voltada
para a defesa das Cidades-Estado ou cidades militares, com a Revolução Industrial a ordem militar romana transformou-se no ‘caos das grandes aglomerações’”.
Nesse novo contexto, a economia se destaca com a produção em grande escala e a ampliação dos mercados. Mas, o meio ambiente sofre degradação e o equilíbrio ecológico é ameaçado pelos altos níveis de poluição.
No aspecto urbanístico, esse período foi decisivamente influenciado pelas ideias do arquiteto suíço Le Corbusier56, que descreve o cenário da cidade dos tempos modernos a partir de um enfoque no urbanismo e nos processos arquitetônicos. Assim, o influxo das máquinas (na sociedade das máquinas) e das descobertas científicas provocou uma revolução arquitetônica nas cidades contemporâneas, sendo possível identificar novos padrões na construção, como se explica a seguir.
Para Corbusier, um dos mais importantes paradigmas desse novo momento é a separação entre funções portantes (vigas e pilares, que passam a ser de aço e concreto armado, com bases no subsolo) e as partes portadas (alvenaria das paredes ou divisões). Esse modelo permitiu outras opções estético-ambientais. É o caso da fachada, que não tem mais função
55 XAVIER, Laécio Noronha. Estatuto da Cidade: caixa de ferramentas do planejamento urbano no Brasil.
Apresentação oral. Conselho Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Direito (CONPEDI). Niterói-RJ, 31 de out. a 03 de nov. 2012, p. 4.
portante, podendo ser totalmente ou parcialmente envidraçada, o que possibilita a penetração da luz solar no interior das construções.
Pode-se concluir que esse novo padrão arquitetônico tem a vantagem de possibilitar que a iluminação e a ventilação sejam naturais, que se reduza o consumo de energia e que se amplie a visão da paisagem. E, em consequência dessa independência entre vigas e divisórias foi a conservação de um espaço livre sob o imóvel, devido a construções em pilares, permitindo a circulação das pessoas, inclusive com seus veículos, mostrando-se extremamente necessário nas grandes cidades, que precisam aproveitar bem todos os espaços.
Também para Harouel57, a Revolução Industrial foi decisiva nas configurações urbanísticas e ambientais a partir do Século XVIII, quando se lançaram populações de operários nas cidades, que não estavam preparadas para recebê-las, gerando a proliferação de cortiços e amontoados de pessoas em condições insalubres, como os subsolos em Lille, Liverpool e Manchester, na Inglaterra.
Na longa e profunda descrição que Le Corbusier58 faz acerca da unidade de habitação no contexto das cidades modernas, é perceptível o viés ambiental, no sentido hoje de meio ambiente artificial. Isso fica evidente no momento em que ele explica que essa unidade de habitação se constitui em ferramenta que facilita as condições de existência, realiza a saúde moral e física dos habitantes, proporciona a alegria de viver, enfim. E que a morada é um continente que estabelece relações úteis entre o meio cósmico e os fenômenos biológicos humanos. Um homem ou uma família nela viverá dormindo, andando, ouvindo, vendo e pensando. Necessidades biológicas requerem a presença de elementos e de condições precisos: sol, espaço, vegetação. E justifica: para os pulmões, ar; para os ouvidos, algum silêncio; para os olhos, luz favorável.
Assim, mostra-se acertada a visão de acordo com a qual o verdadeiro direito à moradia se concretiza quando o cidadão tem acesso a outros bens e serviços, quando tem o direito à cidade como um todo59, ou seja, além de dispor do abrigo, precisa do trabalho, das opções de circulação e de lazer.
Tanto que, ainda segundo Le Corbusier60, o padrão humano moderno são se satisfaz apenas com essas condições, daí se referir ao prolongamento da morada, como o
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HAROUEL, Jean-Louis. História do urbanismo. Tradução: Ivone Salgado. 2 ed. São Paulo: Papirus, 1990, p. 114-115.
58 LE CORBUSIER. Planejamento urbano. 2 ed. São Paulo: Perspectiva, 1971, p. 67.
59 MINISTÉRIO DAS CIDADES. Secretaria Nacional de Habitação. Trabalho social e intervenções
habitacionais: reflexões e aprendizados sobre o seminário internacional. Brasília: Publisher Brasil, 2011, p. 15- 16.
abastecimento de água, a rede de saneamento, a creche e a escola, cujas ausências criam uma situação de desconforto cotidiano. Em verdade, conclui ele, a modernidade exige o equacionamento tempo-distância. E a resposta veio com a arte de construir, especialmente na edificação vertical ou, usando-lhes as palavras, “na edificação de cidades-jardim verticais, substituindo as cidades-jardim horizontais”.
Portanto, nessa concepção, a moradia passa a ser elemento essencial da cidade, estimulando os arquitetos a pensarem funcionalmente nas necessidades e desejos dos habitantes, desde a estrutura interna (divisão dos cômodos), circulação, salubridade e acesso aos serviços (escolas, hospitais, comércio e lazer). Esses fatores se agigantam mais ainda na realidade das metrópoles, que serão analisadas no próximo item.