MUHAMMED YASİN SIVİŞ
2. ENDÜSTRİYEL TASARIM SÜRECİ
Segundo Gaiarsa (1978, p. 78), “Os desejos reprimidos pelo puritanismo, foram, pouco a pouco, aparecendo nos jornais e revistas burgueses, que respondiam, assim, ao apelo secreto de seus leitores”. No entanto, a relação entre mídia e fofoca cresceu e ganhou muito mais expressão nos veículos atuais. Falar da vida de pessoas públicas é hoje uma das mais lucrativas atividades do campo midiático.
Dessa forma, ao propor pessoas como modelos positivos e/ou negativos para outras pessoas, a mídia transforma sujeitos em objetos com valores e condutas negociáveis. Faz parte da constituição de uma sociedade criar personagens com os quais os sujeitos buscam identificação e outros que os sujeitos buscam não se identificar. Por isso, os veículos midiáticos criam os tipos a serem exaltados e os tipos serem rebaixados. Tal qual afirma Gaiarsa (1978, p. 81):
[...] os sonhos são O CONTRÁRIO da fofoca. Os sonhos do cinema são publicamente tudo aquilo que publicamente todos desejam ter e ser. Os filmes propõem as aspirações ACEITAS, os modelos ideais de sucesso na vida, quaisquer que eles sejam. A TV seguiu a pista e inventou a NOVELA, que só a TV podia ter assim, inteira, audiovisual. Ao mesmo tempo, com a TV se ampliava de muito o público das notícias e das novelas. Aumentava-se o número de pessoas que assistiam AO MESMO PROGRAMA – e assim a fofoca ia crescendo se fazendo pública CADA VEZ MAIS (GAIARSA, 1978, p. 81).
Se no seio das relações pessoais a fofoca aparece como uma forma de manter as pessoas imóveis, coagidas pelo medo de serem fofocadas - ou, contraditoriamente, as coloca como intérpretes de papéis e máscaras teatrais -, ao se tornar mundialmente pública, ela seguirá o mesmo padrão, porém em proporções bem maiores. Assim, a fofoca coletiva “[...] poderá tornar-se o maior instrumento de CONTROLE e/ou MODELAGEM de
comportamento de todos os tempos”, isso porque “Cada dia aumenta mais o número de pessoas que pensa A MESMA COISA AO MESMO TEMPO” (GAIARSA, 1978, p. 81 – 82).
Assim, a fofoca midiatizada ganhou constitutivas subjetivas e mercadológicas quando os meios de comunicação começaram a publicar notícias sobre o cotidiano das pessoas influentes: seus amores, viagens, brigas, enfim, sua existência humana.
Esse processo fez com que a fofoca mudasse de nível e amplitude. De um fenômeno comunicacional usado para coagir um pequeno grupo ou comunidade, ela passou a coagir pessoas públicas. Hoje, qualquer fato envolvendo uma celebridade midiática se faz tema de conversa. E é nesse contexto que “Os grandes personagens do cinema e TV, do esporte e da política, da ciência e do crime, se fazem verdadeiramente arquétipos” (GAIARSA, 1978, p. 93).
Essas celebridades são tenazmente seguidos por repórteres e suas ações são fotografadas, publicadas e comentadas por um grande número de espectadores.
Cada um desses personagens se faz propriedade de um número incalculável de pessoas que, ao tomar posição contra ou a favor, ao falar, admirar, execrar, invejar, mas sobretudo ao imitar cada um desses personagens, ao mesmo tempo que se integra a eles, integra-os a si. (...) Quer isso dizer que todo personagem de jornal ou TV se dá a todo seu público, é “comido” pela multidão, como Cristo na Comunhão. Deste modo, muitos assumem ou adquirem características do Pequeno Deus. A fofoca coletiva faz fermentar a massa. Ao mesmo tempo, ela massifica e individualiza porque na fofoca propriamente dita – na conversa de um para um – cada pessoa assimila, do mini-deus, apenas o que lhe convém. (GAIARSA, 1978, p. 93 - 94)
Além do fator de constante negação da presença da fofoca na vida cotidiana e da sua resignação a algo que subverte o que entendemos como ordem social, existe um fator de intimidade, reciprocidade, diria até que de afeto regendo as fofocas. Pois, sem esses fatores, ela não teria graça e não operaria socialmente do modo que opera.
Assim, observamos que aos poucos as fofocas individuais (pertencentes a pequenos grupos) foram se fundindo às fofocas coletivas, ou midiatizadas. Atualmente, as conversas cotidianas dizem mais respeito à novela e aos shows de realidade, ou seja, a novela familiar de cada um está sendo absorvida pela novela da TV como assunto de conversa. Sendo, portanto, o momento da fofoca definido como:
[...]o momento do arauto. O hábito e a rotina trazem a inconsciência – sabemos. Acordaremos com o tic-tac do despertador, se ele parar de repente ou se,
de repente, se fizer mais forte. Quando alguém faz um ato digno de merecer fofoca, este fato deve ter sido uma quebra da rotina, do regulamento ou do costume. Certo ou errado o ato fofocado é inerentemente vivo enquanto novo ou novidade. Diante do monótono, não nos sentimos ou nos sentimos mortos. Diante do inesperado, acordamos e vivemos [...] O protagonista foi o outro. Somos apenas auditório. Mas estamos experimentando nem que seja tangencialmente, por identificação, aquele pecado contra o estabelecido. (GAIARSA, 1978, p. 163)
Com isso, além de modificar as estruturas subjetivas e objetivas do novo imaginário social, o olimpo contemporâneo ajudou a alterar as estruturas que diferenciavam os espaços público e privado, quebrando as barreiras existentes entre a vida pessoal e a vida pública dos sujeitos pós-modernos. Para isso, ela se apropriou da existência de meros mortais e os incumbiu de uma representatividade divina, concedendo a esses mortais a glória da fama como um fator extra-humano, mas alimentado de necessidades humanas.
Dessa forma, o recurso simbólico e discursivo da fama é capaz de conjugar poder e desejo por meio da utilização da fofoca como estratégia para manter os novos olimpianos, isto é, as personas midiáticas, em evidência. Como dissemos, foi essa característica humanizada dos deuses gregos que serviu como um fator de identificação entre o povo grego e suas divindades.
A mídia, por sua vez, seguiu as pistas e também humanizou seus heróis dando-lhes imperfeições, afetos e fazendo disso notícia e produto.
PARTE 4
TV FAMA:
4 TV FAMA: O TEMPLO TELEVISUAL DO OLIMPO MIDIÁTICO