A questão social começa a aparecer como tema político em governos ditatoriais como o de Vargas, como discurso de amenização de conflitos176-
178
. A vertente caritativa e de benemerência vai sendo substituída nas legislações por uma laicização do atendimento, ainda fortemente vinculado às instituições religiosas e filantrópicas. Por ser também uma estratégia política para potencializar e centralizar no governo o canal de resposta às demandas de grupos estratégicos, o governo passa a ser ele próprio um “Leviatã Benevolente”179.
No período Vargas, os direitos sociais se encontravam vinculados aos trabalhadores sindicalizados e não a “todo cidadão”. Os avanços nas políticas sociais eram garantidos por meio de leis que também traziam novas regulamentações para a atuação de organizações voluntárias já existentes e com larga experiência em assistência.
Em 1964, o Golpe Militar inicia um período de ditadura que perdura até 1985, marcado por forte repressão e pelo desmantelamento das instituições políticas clássicas (partidos políticos, sindicatos, diretórios acadêmicos, entidades de bairro), fazendo surgir grupos de base que agiam clandestinamente como canais da demanda de grupos populares180.
Às reivindicações ligadas aos polos de produção e consumo de bens vão se somando outras de cunho social e político, extrapolando a dimensão capital/trabalho180. Questões de gênero, étnicas, ecológicas encontraram espaço como temas de demanda. A AIDS, ao mesmo tempo que encabeçou o tema da defesa da dignidade, serviu como mecanismo para o debate de diferentes demandas da saúde181.
Os movimentos sociais166 fundamentaram-se em questões de identidade coletiva. Embora tratando de questões políticas, não se caracterizavam como organizações políticas, inclusive, mantinham distância da máquina estatal com ações de oposição ao regime, consideradas como “subversivas”.
Os Movimentos Sociais nascem com grande apoio dos centros de formação de lideranças populares e institutos, na maioria das vezes sob “o guarda-chuva da igreja católica e algumas igrejas de denominação protestante há mais tempo sedimentadas na sociedade latino-americana” conforme afirmam STEIL e CARVALHO 180 (2001)(p.3). Os movimentos tinham grande apoio de intelectuais simpatizantes numa adesão voluntária de grande comprometimento, uma vez que o risco era real e presente.
Embora sendo esses movimentos dirigidos e formados a partir de voluntários, o termo “voluntário” não é utilizado por autores como STEIL e CARVALHO180 (2001), havendo uma preferência pela terminologia “militantes”. O termo “voluntários” é relacionado a uma terceira geração, já
ligado às ONGs, caracterizando um perfil de voluntário dissociado da história política desses primeiros ativistas.
O período de ditadura é, por outro lado, marcado por ações de baixo custo por parte do poder militar, visando ao alcance das massas, como, por exemplo, a educação de crianças realizada por “voluntários da comunidade” no Mobral. Conforme aponta ARCE177 (2008), tratava-se de um “paliativo ideológico eficaz” voltado aos “mais carentes” (p.397).
Essa associação do termo “voluntário” a intervenções politiqueiras construiu na história uma referência de mobilização de voluntariado como ferramenta do poder, amadorístico e oportunista, associando um sentido negativo à própria expressão da espontaneidade do voluntariado.
5.9 AS ORGANIZAÇÕES NÃO GOVERNAMENTAIS –
REPRESENTAÇÃO E SOLIDARIEDADE
As décadas de 1960 e 1970 são historicamente conhecidas pelos processos que resultaram em gradual abertura política no período de ditadura. Esses processos favoreceram a maior participação popular, revitalizando iniciativas individuais e de grupos guardadas ao longo da história, que eclodiram numa luta pela democracia, dando também destaque à luta por direitos humanos e aos direitos sociais de forma geral21,55,182.
A diversidade dos grupos, a capacidade de articulação e, em especial, a capacidade de organizar-se em torno do interesse maior da democracia, acima das particularidades dos distintos grupos, foram os
elementos que se fundiram e lograram o êxito do fim da ditadura militar. A mobilização logrou mais que a abertura, pois também ampliou a brecha criada dentro do processo político para deixar passar um cortejo de diferentes demandas.
Diferentes iniciativas se estruturam em sua maioria dentro de uma agenda de urgências e sob uma nomenclatura própria, como Organizações Não Governamentais – ONGs, havendo, no período, um verdadeiro boom de organizações voluntárias sob a égide não apenas da compaixão ou da caridade, mas da cidadania e da solidariedade19,55,59,183.
STEIL e CARVALHO180 (2001) falam de três gerações de ONGs que surgem em todo o mundo a partir da década de 1940. Na primeira geração, essas organizações eram designadas “entidades privadas sem fins lucrativos”55,180 e estavam associadas ao Projeto da ONU para o desenvolvimento, principalmente, de países pobres. Elas se pautavam pelos ideais filantrópicos de combate à pobreza e construção da paz e pelas relações políticas de cooperação que se dirigiam para o desenvolvimento local e para a maior participação de atores locais.
A segunda geração, segundo STEIL e CARVALHO180 (2001), ganha impulso na década de 1970 dentro das políticas europeias de Sustentabilidade Ambiental, quando foram criados e acionados fundos provenientes de governos e também de igrejas cristãs movidas por valores como caridade, missão, solidariedade, mas, como os autores mencionam, também movidos por uma ideia “terceiro mundista” de democratização dos
países pobres, a descolonização de países africanos e asiáticos e redemocratização dos países do Sul.
Uma terceira geração de ONGs se forma na década de 1990 e início de 2000 associada ao conceito de Terceiro Setor. A abertura política e a viabilização de recursos por meio das parcerias entre as agências internacionais e organismos governamentais e, por fim, as negociações sendo feitas diretamente com as ONGs, deu um novo lugar à relação público-privada, em que as mais variadas organizações da sociedade civil passaram a compor um setor voluntário específico denominado Terceiro Setor18,21,37,55,184.
Embora as ações de voluntariado já fossem amplamente desenvolvidas, como mostra a história, a conclamação ao voluntariado acontece nesse período, sendo o ano de 2001 denominado o ano do voluntariado com destaque para a participação do Brasil.
É um voluntariado que não está preso a referências político- partidárias, a ideários religiosos ou a heranças organizacionais. Está relacionado, por um lado, aos processos de globalização e ao financiamento econômico de organismos multilaterais e, por outro, à fluidez promovida pela aproximação social das redes, além de certa descrença nos modelos tradicionais de política, apontando o voluntariado como uma maneira mais independente de adesão.
Num cenário de reconfiguração de papeis e de grande competitividade por reconhecimento e recursos, as ONGs precisaram associar à sua capacidade de representatividade de uma causa também a competência organizacional para gerir recursos31,40,185-188.
A “linguagem de projetos” adaptou-se à história da causa organizacional para formar um marketing social e atrair apoiadores, tanto parceiros como voluntários, não mais baseado na figura de uma liderança carismática, mas focado na própria organização, que se torna ela própria uma marca na representação de uma causa31.