Uma das questões destacadas reside no fato de enfatizar as transformações ocorridas a partir da organização das feiras que se referem ao nível das singularidades e da coletividade. De que forma essas transformações se dão nas condições dadas por esse movimento congrega a organização, bem como as relações que ocorrem em seu percurso, inclusive os desdobramentos inerentes a esse processo. Na fala de um dos camponeses aparecem dimensões significativas para nossas argumentações, entre as quais destacamos: a repercussão do seu trabalho no coletivo, no poder proporcionar o viver bem para si e o estímulo para o outro; os laços de amizade; as informações e o conhecimento importantes
para o desenvolvimento do sujeito; além do reconhecimento do papel da mulher na participação das feiras como fator de contribuição com a família e do desenvolvimento de sua própria autonomia.
É bom vender essas coisas porque a gente vive bem e estimula o outro a viver bem. É uma organização que trabalha em prol de todos. Esse laço de amizade, as informações, o conhecimento. Fiquei mais conhecido, mais comunicativo, mais acreditado. As mulheres tiveram mais participação na organização, trazendo seus produtos e contribuem com a família. As mulheres se desenvolveram e como agricultoras tomaram autonomia.43
Reconhecemos o desenvolvimento da sociedade repercutindo diretamente no desenvolvimento do sujeito, que embora considerando as contradições e os processos de alienação anteriormente mencionados, há uma relação entre sujeito e sociedade.
Não há desenvolvimento social que não implique, de algum modo, também no desenvolvimento dos indivíduos e vice-versa. Este último é uma necessidade e uma possibilidade postas pela reprodução social. Por isso a reprodução da sociedade e a do indivíduo são dois pólos do mesmo processo, isto é, são momentos distintos, porém sempre articulados. (LESSA; TONET, 2008, p.77)
Porém, em si o desenvolvimento da sociedade não implica autonomia e emancipação do sujeito. Essas dimensões humanas serão atingidas à medida que o sujeito conquista a possibilidade de participar e usufruir, entre outras questões, das decisões e de poder desfrutar dos resultados do seu trabalho.
O enfoque das feiras agroecológicas enquanto forma de insubordinação camponesa sustenta-se na realidade concreta de negação que os camponeses paraibanos, aqui considerados, puderam empreender diante da situação que atravessavam no seu passado. A relação tecida com os clientes, cuja importância atribuída pelos camponeses já observamos claramente, é um momento fundamental desse processo. Constitui-se o ponto em que os produtos – enquanto objetivação do trabalho familiar – são comercializados e a renda da terra, antes subordinada pelo capital comercial/industrial, passa a ser apropriada pelos produtores. A desvinculação aos atravessadores e a consolidação de uma produção assentada na agroecologia, possibilitaram, além de uma melhoria na renda, o empreendimento de uma série de transformações nas relações sociais estabelecidas pelos camponeses, entre si (por meio de sua
organização, e com a sociedade como um todo. (SANTOS, 2010, p.194- 195)
Os participantes das feiras em estudo reconhecem a transformação de suas vidas a partir da constituição das feiras, tendo em vista que trabalham e comercializam diretamente seus produtos. Esse fato se deu com a eliminação do atravessador, porque ainda não reconheciam outras possibilidades mais favoráveis para os camponeses.
A organização e manutenção das feiras de base agroecológica é um desafio permanente dos camponeses que diante de uma imensidão de dificuldades buscam superações. Estas são facilitadas pelas lutas anteriores, como as dificuldades de comercialização, a luta pela terra, no caso dos assentados. As vivências anteriores foram essenciais para o enfrentamento das situações atuais, porém, as feiras demandam outros desafios que exigem demandam outras habilidades, seja de organização, de planejamento, frequência, de cuidado, assiduidade, de compromisso, diversidade de produtos, tendo como base a agroecologia.
Os novos desafios requerem um movimento de mudanças nas atividades práticas, além das dimensões abstratas do pensamento, da fala, da comunicação, dos afetos. Visto que outras relações vão se configurando num encontro que não ocorria, do camponês agroecológico com o consumidor do seu produto, numa relação direta, com exigências postas, críticas, demandas, afetos e compromissos. Esse encontro estabelece um compartilhar de aprendizagens mútuas. Emancipação política dos cidadãos que assegura os direitos fundamentais para exercer sua cidadania, com direitos e deveres assegurados perante a sociedade vigente. Para Marx (2006, p.29), “emancipação política em si não é emancipação humana”.
A questão que se coloca diante dos desafios apresentados é se é possível a emancipação humana na sociedade capitalista contemporânea. O que indagamos já nos desafia, porém ,a questão nesse momento para os propósitos atuais é que a emancipação não está dada, visto que é uma conquista a ser exercida pelos humanos durante sua existência para que possamos aperfeiçoar jeitos de lidar com a organização da vida para construção de uma sociedade libertária dos humanos.
A emancipação humana se evidencia na elevação do humano como fazedor de sua história, de poder escolher e viver em liberdade. Entretanto, esse caminho apresenta sérias limitações numa sociedade de classes, na quais predominam relações desiguais e injustiças
sociais evidentes. Para Paulo Neto, Lessa, Tonet, Mészáros e para o próprio Marx não existe possibilidade de emancipação humana dentro da sociedade capitalista. A sociedade que pode possibilitar a emancipação seria a sociedade comunista. O trabalho nessa perspectiva passa a ter significado de realização de algo importante no sentido de produzir algo que tem um reconhecimento social, com indícios de emancipação.
Trabalhamos com a prevenção e esse produto que acreditamos que será a esperança dos nossos filhos, do nosso futuro, no caso esse produto orgânico, trabalhar sobre isso para o futuro da nação. A gente vivia uma agricultura tradicional e para a gente mudar esse sistema é uma nova aprendizagem, seja assistindo reportagens e vendo o desenvolvimento desse produto e pensando no futuro da nação foi o que fez com que a gente mudasse para essa agricultura orgânica, acreditando que no futuro alguém vai agradecer aqueles que iniciaram porque eles vão está colhendo o fruto que é a saúde do homem.44
Os indícios de emancipação são demonstrados na consciência de que o trabalho realizado oferece um reconhecimento de si mesmo como realizador de um bem maior que terá repercussões e reconhecimento no futuro. Outra questão observada nessa fala se refere à importância da aprendizagem para que ocorresse a mudança na forma de trabalho. Outro aspecto é o desdobramento social que um trabalho dentro de uma perspectiva de uma agricultura orgânica ou agroecológica pode favorecer para questão da saúde dos humanos. Esse aspecto vai além porque os benefícios vão além do homem e da mulher, mas envolve todo o ambiente.
O que é primordial na história da emancipação humana para o propósito atual é compreendê-la enquanto dispositivo de constituição de uma subjetividade humana reconhecidamente criadora de possibilidades de vida para além dos condicionantes que estabelecem a história social e individual como unicamente determinada na exterioridade do sujeito, seja pelos que deslocam o sentido da existência humana para as dimensões religiosas ou para aqueles que se edificam o capitalismo como única possibilidade de organização da sociedade, sem alternativa para transformações libertárias dos humanos. Esses antagonismos que distanciam a responsabilidade pela condução da vida, seja para uma entidade, o Estado, ou o mercado, favorecem a reprodução de subjetividades que ajudam a condução das relações de poder estabelecidas pela sociedade atual.
A construção de outro pensamento ou ideias requer vivência, conhecimento e especialmente o reconhecimento de existem outras alternativas em construção e em criação. Que essa não é a única possibilidade, mas as alternativas como essas precisam de visibilidade para que possam se constituir enquanto possibilidades concretas.
Na perspectiva teórica de Vygotsky teorizada por Clot (2006), a zona de desenvolvimento proximal, contempla não apenas uma visão engessada da obra de Vygotsky, em que se limita apenas aquilo que foi prescrito, mas amplia para o espaço de criação, não apenas do previsto, mas no sentido de possibilidades que o sujeito venha a desenvolver. No sentido de que o observado no comportamento do sujeito é uma ínfima parte daquilo que pode vir a ser realizado.
Concebemos a emancipação não como um estado de elevação humana alcançado, mas como um devir, como a criação de possibilidades humanas de exercer a autonomia, a liberdade de poder escolher melhores formas de viver. Do sujeito se reconhecer nesse mundo como um alguém que produz a sua própria história.
As alternativas em construção mesmo que em estado embrionário e com todas as dificuldades que lhe são peculiares se apresentam como horizontes a serem vislumbrados por aqueles que desejam construir caminhos em que as relações de trabalho sejam mais humanizadores, eliminando as subalternidades desenvolvidas nas situações de exploração do trabalho tão presentes na sociedade. Que se reconheça o papel transformador do trabalho humano enquanto produtor não apenas de objetos no seu sentido objetivo, mas capaz também de produzir subjetivações enriquecedoras, prazerosas, que elevem a satisfação em poder contribuir não só materialmente para sociedade, mas que possa deixar uma contribuição para humanidade, seja durante a existência nesse mundo ou para a posteridade.
O homem, ao produzir os meios para a satisfação de suas necessidades básicas de existência, ao produzir uma realidade humanizada pela sua atividade, humaniza a si próprio, na medida em que a transformação objetiva requer dele uma transformação subjetiva. Cria, portanto, uma realidade humanizada tanto objetiva quanto subjetivamente. Ao se apropriar da natureza, transformando-a para satisfazer suas necessidades, objetiva-se nessa transformação. (DUARTE, 1993, p.31)
Reconhecer-se nesse nível de contribuição humana além das necessidades imediatistas se configura como uma qualidade humana reconhecidamente emancipatória.
Por descolar apenas das necessidades imediatas e buscar a satisfação naquilo que edificará as singularidades e trará edificação coletiva.
Esse é o desafio: considerar as necessidades que satisfazem as singularidades do sujeito, bem como as questões que são bens coletivos, necessários a todos. Esse desafio se apresenta como algo em conflito no sentido do individualismo, da propriedade privada, da desigualdade, dos privilégios, dos desperdícios, dos exageros, das injustiças, da exclusão, da miséria. Questões estas que precisavam ser superadas numa sociedade emancipada, mas que se apresentam como desafios a serem enfrentados na sociedade atual.
Para os pensadores marxianos a sociedade capitalista não possibilita a existência efetiva da emancipação humana que ocorrerá diante da eliminação do capital e de todas as suas categorias de sustentação. É imprescindível a eliminação radical da sociedade capitalista, visto que esta produz desumanidades, desigualdades, miséria, impossibilita a efetiva liberdade dos humanos. Apresentando como alternativa viável o processo de produção associado.
Esta forma de trabalho é a única que pode impedir a apropriação privada das forças sociais e, com isso, eliminar o capital, as classes sociais, a divisão social do trabalho, o mercado e todas as objetivações democrático-cidadãs. Por isso mesmo, também é a única que pode permitir a construção de uma autêntica comunidade humana, ou seja, de uma comunidade onde todos os indivíduos possam ter acesso amplo a todas as objetivações – materiais e espirituais – que constituem o patrimônio da humanidade; onde poderão desenvolver amplamente as suas potencialidades; onde se encontrarão em situação de solidariedade efetiva uns com os outros e não de oposição e concorrência. (TONET, 2005, p.3)
A produção seria em grupos, o que necessitaria a produção para atender a toda a sociedade, o que foi resultado do processo de evolução tecnológica da sociedade capitalista. Há um reconhecimento de que a sociedade atual dispõe de condições objetivas e recursos necessários para atender as necessidades humanas como nenhuma outra esteve na história anterior da humanidade.
Outra discussão é a redução da jornada de trabalho para que seja disponibilizado tempo para atividades humanas livres e criativas. Disponibilidade para a criação artística, pintura, música, teatro, dança, esportes, lazer e todas as possibilidades de emancipação das possibilidades humanas de se elevar em sua humanidade.