3.4. Emperyalist Yarışmacı Algoritma
3.4.3. Emperyalist Yarışmacı Algoritma Adımları
A pergunta de partida que orientou essa investigação foi: Como se constitui a identidade de pessoas em situação de rua de Fortaleza a partir da realidade de pobreza? Respondo esse questionamento afirmando que a constituição identitária das pessoas em situação de rua é desenvolvida a partir da realidade a que estão imersas. Ou seja, a identidade metamorfose dos atores sociais envolvidos na pesquisa pode ser abordada como enfraquecida em suas potencialidades, permeadas por práticas de opressão e reprodução do status quo. No entanto, essas identidades podem ser percebidas também como assumindo estratégias de resistência frente a esses mecanismo opressores presentes na realidade social e na suas próprias constituições identitárias. Assim, a criatividade, o afeto, a formação de vínculos e a luta reivindicatória podem ser abordados como essas vias de enfrentamento.
Em relação ao objetivo específico de analisar os processos de construção da identidade das pessoas em situação de rua, verifico que há fatores sociais e pessoais permeando as possibilidade de constituição identitária. No entanto, é evidenciado a significativa força dos mecanismo sociais de opressão e de enfraquecimento das potencialidades dos atores sociais em virtude de sua imersão em condições de pobreza e de situação de rua. Para o objetivo específico de descrever a realidade de pobreza vivida pelas pessoas em situação de rua, a partir do processo de investigação dos atores sociais em situação de rua, a pobreza pode ser compreendida como entranhada por tendências ideológicas de depreciação e de marginalização das pessoas pobres a partir do estigma da pobreza e por aspectos financeiros concretos e estruturais. A pobreza reflete igualmente o estado de privação das liberdades do indivíduo pobre, portando uma marca que representa a identidade social de pobre, alicerçando formas de reconhecimento perverso, de discriminação e de agressão.
Em relação ao objetivo específico de relacionar a realidade de pobreza e suas repercussões na identidade das pessoas em situação de rua, a pobreza, então, é abordada como sendo um estigma, que deprecia, que torna inferior, que incapacita o indivíduo pobre. Assim, essa identidade social de pobre é estruturada a partir da reprodução de papéis sociais de conformado, de crente em Deus como responsável por tudo, de mártir, de vagabundo,de causador de mazelas sociais, de sujo, de doente e de culpado pela sua situação de pobreza. Foi observado que esses papéis foram criados historicamente com o objetivo de manter a ordem
social, a partir da tendência de anulação de capacidades das pessoas inseridas em condições de pobreza.
No entanto, parece que essa identidade social de pobre é negada pela maioria das pessoas pobres da pesquisa. É interessante analisar a dificuldade dos atores envolvidos perceberem-se como pobres. Eles renegam a todo custo essa condição, notando-se como portadores de uma riqueza espiritual e afirmando de forma subliminar que são pobres materialmente. A riqueza espiritual funciona como uma compensação da pobreza material. Provalvemente, isso acontece por uma compreensão advinda da Idade Média de que a riqueza material é depreciativa enquanto a pobreza era valorizada como dádiva divina, fazendo, assim, uma apologia à vivência de pobreza a partir da reprodução do papel social de martír
para ser digno do “Reino dos Céus”.
Esse papel social de mártir também constitui o fatalismo junto com os papéis sociais de conformado e de crente em Deus como responsável por tudo. Identifico a síndrome fatalista como significativamente presente na vida dos atores sociais da pesquisa. Esses papéis sociais têm lugares centrais, estruturando-se como os meios para sobrevivência a essa realidade opressora e fornecendo a esperança necessária de um futuro melhor para esses indivíduos pobres por meio da crença na responsabilidade divina e da compreensão da realidade como sendo aceita por ser imutável.
Para o objetivo geral de analisar a identidade de pessoas em situação de rua de Fortaleza a partir da realidade de pobreza, percebo que a rua como morada é uma situação complexa na qual incidem fatores diversos. Então, ela foi analisada a partir do cenário de pobreza e de falta de oportunidades de trabalho; de uso de substâncias psicoativas; de discriminação; de violência e de insegurança; de adoecimento e de vulnerabilidade física e psicológica; e de liberdade, independência, afeto e criatividade. Apesar dessa perspectiva multifatorial de compreensão da situação de rua, esses cenários constituem o panorama de compreensão da pobreza na perspectiva multidimensional da abordagem das capacidades, gerando diversos papéis sociais, personagens e formas de reconhecimento dos atores da pesquisa.
No entanto, apesar de examinar a situação de rua como relacionada à pobreza, as pessoas em situação de rua são duplamente reconhecidas de forma perversa e específica, pois são abordadas a partir do reconhecimento dos papéis sociais de pobre, como também em papéis sociais de drogado, de sujo, de violento, de criminoso e de vagabundo em uma perspectiva de reconhecimento mais agressiva e opressora relacionados a identidade social estigmatizada de morador de rua. Considero que há uma divisão de formasde reconhecimento
dessas pessoas em situação de rua em duas identidades sociais: de pobre e de morador de rua. Os atores da pesquisa são geralmente reconhecidos na identidade de morador de rua, anulando sua identidade de pobre, sendo algumas vezes encarados pelos profissionais da Assistência Social como indivíduos não situados em condições de pobreza, porque os percebem, na maioria das vezes, como ladrões, drogados, criminosos e violentos. Os papéis sociais vinculados à identidade social de pobre, então, são ofuscados pelos papéis sociais relacionados à identidade social de morador de rua no sentido depreciativo.
Identifico que o reconhecimento perverso impetrado às pessoas em situação de rua é alicerce para as práticas de discriminação e de violência voltadas para esses indíviduos. É demonstrado que essas formas de reconhecimento podem ocorrer, porque as pessoas em situação de rua realmente fazem uso abusivo de substâncias psicoativas; assaltam e agridem, como também, porque o capitalismo taxa a identidade como dada, como permanente e estática de uma forma opressora. No entanto, construo a crítica para o status permanente desse reconhecimento, pois a identidade é constituída pela constante re-posição dos personagens a partir do desempenho de atividades. Dessa maneira, a identidade está em movimento, sendo essas práticas de uso de drogas, de assaltos e de agressões momentos da identidade. As pessoas em situação de rua não podem ser reconhecidas somente a partir dessas personagens fetichizadas. Obviamente, tem que arcar com as consequências de suas ações, mas também devem ser reconhecidos como portadores de pontecialidades e de possibilidades de construções inovadoras de suas identidades.
Dessa maneira, a situação de rua foi analisada a partir da identidade social de pobre, como também a partir de papéis sociais vinculados aos cenários voltados para a situação de rua. Assim, foi feita uma equação com os cenários, papéis sociais, personagens e formas de reconhecimento, evidenciando que esses elementos estão imbricados no processo de constituição identitária. Também é importante evidenciar que a situação de rua não está somente relacionada aos cenários de opressão, pois ela é significada pelos atores sociais como um espaço de afeto, de criatividade, de liberdade e de independência. Então, ela se constitui como um lugar de potencialidades e de fortalecimento de vínculos, sendo atrativa para pessoas que, mesmo possuindo um domicílio, vivem em um terreno árido de esperença e repleto de opressão.
Observo, então, que a escolha da estrutura teórica metodológica foi válida, porque a identidade das pessoas em situação de rua funcionou como prisma de análise da pobreza a partir da utilização das técnicas de entrevista narrativa, de observação e de diário de campo referenciadas pela tendência qualitativa em pesquisa. Nesse processo, os atores sociais foram
posicionados como produtores de conhecimento a partir do compromisso ético político do pesquisador.
Assim, no campo das facilidades encontradas na realização da pesquisa, analiso que minha postura receptiva, dialógica e aberta foram importantes para aproximar-me e para vincular-me com os atores sociais participantes da pesquisa. Obviamente, a disponibilidade e a receptividades desses indivíduos, como da maioria dos profissionais dos equipamentos sociais investigados, foi imprescíndivel para o desenvolvimento desse projeto. Outra facilidade foi a utilização do software de análise de dados qualitativos Atlas.ti para o fornecimento de agilidade na análise e na sistematização dos sentidos produzidos na pesquisa. Em relação às dificuldades, percebo que foram poucos os momentos de uma maior inserção na realidade de situação de rua. Observo que a indisponibilidade da equipe do Serviço Especializado de Abordagem de Rua para acolher-me em suas atividades de inserção pode ser abordado como um fator que tornou distante essa maior aproximação com a situação de rua, restringindo minha atuação aos espaços do CREAS-POP e do Abrigo Provisório. Entendo, igualmente, que poderia ter tido uma inserção mais significativa se tivesse sentido menos medo de estar de modo mais livre em contato com a realidade de rua, sem a intermediação de algum equipamento social.
Depois da realização dessa pesquisa, percebo que conviver com essas pessoas em situação de rua foi um aprendizado sobre formas resistências contra uma estrutura opressora. Apesar da discriminação, da violência, da pobreza e das adversidades de viver nos espaços públicos, essas pessoas ensinaram-me que há lugar para a beleza, para a alegria e para o afeto. Construí relações de companheirismo com esses atores. Essa proximidade com essas pessoas e com essa realidade cruel de pobreza e de situação de rua fomentou a maximização da minha indignação frente as adversidades causadas por outros seres humanos e por uma estrutura societária opressora. Essa pesquisa também trouxe novos esclarecimentos acerca do meu futuro acadêmico e profissional. Almejo posicionar-se de forma cada vez mais significativa no campo da Psicologia Social e Comunitária, buscando a partir da minha futura prática docente a construção de novas formas de vida mais libertadoras.
Em relação a futuras pesquisas provavelmente realizadas no Doutorado em Psicologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) – que iniciará em 2012.1, almejo construir maiores esclarecimentos acerca do estigma da pobreza como uma prática de estigmatização reverberando no surgimento de sentimentos de vergonha e de humilhação e anulando a capacidade de enfrentamento dos indivíduos estigmatizados.
Assim, por fim, concebo que para o fomento da tranformação e do fortalecimento das pessoas em situação de rua, é necessário a indignação com essa realidade de opressão, afetar- se com essa crua condição de vida. É necessário entender de forma crítica essa realidade social, compreendendo e problematizando a estrutura vigente por meio da criação de vínculos com as pessoas em situação de rua, da valorização desses indivíduos e do desenvolvimento de forma cooperativa de perspectivas concretas de transformação dessa realidade, tendo a amorosidade, o diálogo, a criticidade e a vivência como amálgama desse processo de libertação.
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