vícios se voltassem contra nós, como acreditavam aqueles simplórios e estúpidos estóicos, os quais cresceram fracos e fogem de enguias como se fossem serpentes. Nós, ao invés disso, não apenas não fugimos de enguias, mas com grande deleite as preparamos para
85 comer. E se nos faltasse algum tempero, certamente não faltaria jamais a oportunidade de nos divertirmos zombando da rusticidade e bobeira dos estóicos. (2) Mas, tu dirias: “Eu não estimo muito essas diversões. Eu as considero ninharias infantis e prefiro obter virtude, algo sagrado e eterno, através da qual se consegue beatitude, coisa tão longe de ser encontrada nesta vida de prazeres, que não há nada que esteja mais distante. Decididamente, a vida de prazeres se aproxima mais da vida dos animais brutos”. Para ti, este tipo de conversa seria mais apropriada entre homens fortes e corajosos. Para mim, no entanto, me parece mais como aquelas conversas de doentes, os quais, se escutam o menor sussurro advindo dos que estão ao seu redor, imediatamente começam a gritar: “Vão embora! εantenham silêncio! Parem de ensurdecer nossos ouvidos!”. E se forem cobertos um pouco mais, choram: “Estou queimando! Estou morrendo! Tira isto, depressa! Por que estás parado aíς”. Estas coisas não devem ser atribuídas à fraqueza do corpo humano, mas à sua doença. O mesmo se aplica à comida e à bebida. Se as coisas doces parecem ter um gosto ruim, a culpa é da comida e da bebida, ou do palato?
(3) O que eu quero dizer com isso? Se a natureza nos ofereceu prazeres, ao mesmo
tempo ela nos concedeu e presenteou uma alma favoravelmente disposta a eles. E tu, ainda assim, não és grato a ela por isso? Eu não sei que doença ou insanidade (porque assim ela deve ser chamada) fez com que escolhesses uma vida solitária e triste. E, para completar a ofensa, tu a insultas como se estivesses sob o comando da mais indulgente mãe, sob cuja guarda tu poderias viver muito mais feliz, se tu tivesses um pouco mais de bom senso. (4) Na verdade, com a tua declaração contra a Natureza, tu aterrorizou o gênero humano - como se a própria Natureza tivesse produzido as guerras, os naufrágios, as fomes e outros desastres só para punir os perversos. Grande parte disso advém da culpa do homem. Mas, ó homem ardiloso!, quando foi que tu viste homens honestos serem mais amados pela natureza do que os outros tipos de homens? Pois, se tu permites à natureza punir os desonestos, muito mais atribuis a ela ao conceder-lhe também o poder de honrar aqueles que são honestos. E eu acredito que esta consideração esteja muito longe dos estóicos. Assim como Virgílio diz:
Depois caiu Rifeu, o homem mais justo entre os Troianos e o mais devoto servo da equidade. Os deuses julgam de
86 modo diferente! (...) E quanto a ti, Panto, nem tua profunda
piedade, nem a flecha de Apolo, proteger-te-ão do golpe mortal61.
E, em outra parte:
(...) caíram mortos (...) o velho Galeso, no momento quando se oferecia como medianeiro da paz: ele que era o homem mais justo [dos ausônios]62.
(5) Mencionaste muitos homens cujas virtudes os deixaram miseráveis. Talvez te
escapes que esta também é uma opinião muito comum entre filósofos, não apenas os que professam que Deus não tem nenhuma ocupação e não impõe nada à ninguém, mas também entre os que asseguram que Deus está sempre presente no processo de criação e luta, e não cresce prejudicialmente ou furiosamente contra ninguém. Idêntica a Deus é a natureza; ou quase idêntica, como afirmou Ovídio:
Deus e, melhor, a natureza, dissolveram a disputa (...)63
E para citar algo do teu estóico e valoroso Sêneca, escutemos: “Os deuses imortais não possuem nem o desejo, nem a faculdade, de fazer-nos mal”64. E tu dizes que a Natureza cresce furiosa contra os homens maldosos?! Que crime então fora cometido pelos animais, pelos pássaros e pelos peixes? A condição deles não é melhor do que a nossa, como tu pareces sugerir, mas muito pior. (6) Acredita em mim, a Natureza não só não cresce furiosa, como também não criou o veneno das serpentes, os sucos danosos e os animais ferozes especificamente para fazer-nos mal. Se pensares mais apropriadamente sobre isso, verás que tais coisas foram criadas muito mais para a nossa saúde do que para nosso prejuízo: delas recebemos muito mais vantagens do que desvantagens. O que seria da
61 Virgílio, Eneida, II, 426-430. 62 Virgílio, Eneida, VII, 535. 63 Ovídio, Metamorfoses, I, 21. 64 Sêneca, De Ira, II, 27.
87 medicina se não fossem as ervas, as sementes, os animais e até mesmo as cobras? Eu te diria quantos remédios a partir desses podem ser feitos, se eu não achasse que os livros dos médicos, tanto em grego, quanto em latim, fossem de teu conhecimento. Além disso, nós temos aqui presente entre nós o príncipe dos médicos, diante de quem falar sobre medicina não seria menos descarado do que atuar na presença de Róscio65, ou discutir estratégias militares na presença de Aníbal66. Tu mesmo podes perguntar a ele quantas vantagens a medicina tem encontrado nestas mesmas coisas contra as quais direcionas tuas acusações.
(7) Porém, dizes, às vezes tais coisas são danosas e matam os homens. Vejo que
estás irritado por não ter nascido imortal - como se a Natureza te devesse alguma coisa. E se ela não puder te dar mais nada? Se nem ao menos os pais podem prover de tudo aos seus filhos, por que não a agradecerías pelo que recebeste? Mas, tu dizes: “É meu desejo não sofrer todos os dias estes perigos de armas, mordidas, venenos e contágios!”. Quem alcançou isso é, definitivamente, imortal e idêntico à própria Natureza e a Deus - algo que não devemos pedir, nem deve a Natureza nos ceder. Mas, vamos omitir estas coisas que são absurdas de se dizer e que tu provavelmente não as dirias. Oras, o quê então, tu dirias? Muitas coisas, mas justamente no ponto em que tu nos levaria às lágrimas, quem poderia conter um riso? Pois, como sabemos, tu és tão desgraçadamente temeroso dos ventos, das chuvas e do frio, que frequentemente perde os sentidos ouvires o som de um trovão, como se tivesses ouvido de um matemático ou de um Caldeo67 que tu serias consumido pelo raio, tal qual Tulo Hostílio!68
(8) E agora, escuta-me com atenção, pois eu reunirei inúmeros benefícios para ti: tu
poderias navegar até o Egito, onde o medo nunca poderá torturar-te, onde os ventos são raros, onde não há chuvas nem relâmpagos, e o ar é sempre sereno e suave. Eu creio que tu assim o farias, se aquelas pessoas vivessem de acordo com as teorias de Crisipo69 ao invés
65 Trata-se provavelmente de Quintus Roscius Gallus (126a.c-62a.c), ator romano com quem Cícero tomou lições de gestual e performance na tribuna.
66 Aníbal, general cartaginês, conhecido pelo seu desempenho na Segunda Guerra Púnica contra a República Romana.
67 Caldeo, entre os autores medievais e romanos, se refere em geral a um esperto em matemática ou astrologia, uma vez que estas artes eram muito cultivadas por esses povos da Babilônia.
68 Tulo Hostílio (673ac. - 641ac.), terceiro dos lendários reis de Roma.
69 Crisipo de Solis (280a.c-208a.c), filósofo grego entre os maiores expoentes do estoicismo. Obeve fama de sutil e apurado dialético.
88 das de Aristipo70. Oras, afora as brincadeiras, tu dizes que os trovões foram inventados por causa dos maldosos; e tu, Catone, tremes mais que Catilina quando eles trovejam? Isso não é admitir que eles foram lançados por mero acaso? Como Lucrécio testemunha:
Sempre pronto (...) a lançar relâmpagos, muitas vezes destruir seus próprios templos, a retirar-se para lugares desérticos a fim de exercer sua fúria, a fazer uso diligente de sua arma que, com frequência, conserva os culpados e mata os inocentes?71.
Entretanto, talvez este poeta goze de menos estima que ti, pois ele pertence ao nosso grupo. Lucano72, que certamente é um dos teus, nos diz:
Certamente não há nenhum Deus acima de nós. Nós mentimos quando dizemos que Júpiter reina: oportunidades cegas varrem o mundo. Embora ele segure seus raios, ele apenas assistirá do Céu aos massacres da Farsália. Talvez ele golpeie Foloe e fulmine Oeta, os bosques do inocente Ródope e os pinheiros de Mimante. Mas será Cássio quem golpearà esta cabeça73.
(9) Por outro lado, para te explicar que estás completamente no caminho errado,
digo que a Natureza ofereceu inumeráveis bens aos mortais. Cabe a nós sabermos como apreciá-los apropriadamente. Se alguns se preparam para a guerra, tu não abandones a tua tranquilidade74, a não ser que ela não seja mais útil para ti. Se alguns se entregam aos cuidados do mar, tu, na praia, em segurança, rirás das ondas; ou melhor, daqueles que são sacudidos por elas. Se, por dinheiro, muitas pessoas unem o dia à noite, estragando as suas
70 Aristipo de Cirene (435ac. - 356ac.), filósofo grego discípulo de Sócrates e fundador da escola cirenaica. Como Sócrates, Aristipo se interessou quase que exclusivamente pela ética. Segundo o filósofo, a vida ética deveria ser praticada para atingir um fim específico: o gozo de todo prazer imediato.
71 Lucrécio, De rerum natura, II, 1101-1104.
72 Marco Aneu Lucano (39dc.- 65dc.) poeta romano, sobrinho de Sêneca, provavelmente educado filosoficamente na corrente estóica por seu tio.
73 Lucano, Bellum civile (Pharsalia), VII, 445-51.
74 Noção de Epicuro, contrária à pax romana. Ver otium in TLhl: Tac. Ann. 12, 12, 2: “nam militares artes
89 colunas com a fadiga, tu gozarás com prazer sobre o que ganhaste. Há fome ou pestes aqui? Tu mudar-te-ás para outro lugar onde a condição de vida seja mais feliz. Portanto, esta variedade de condições será inclinada ao prazer como acontece na alternância entre os dias e as noites, entre as nuvens limpas e as carregadas, entre o inverno e o verão. Às vezes iremos ansiosamente procurar pela multidão da cidade; outras vezes, a liberdade e a solidão das vilas interioranas; às vezes, nos deleitaremos ao cavalgar; outras, ao caminhar; e ainda, às vezes, a andar de barco e outras de carruagem. Às vezes, abandonaremos um jogo de dados por um jogo de bola, o jogo de bola pelo canto e o canto pela dança. É muito desonroso projetar a tua insensatez na Natureza, o melhor de todos os seres. E, se um dia, sem ter cometido nenhuma falta, encontrares adversidades, deverás suportá-las com ânimo forte e esperança por tempos melhores. E nesse meio tempo, sê cuidadoso para que, enquanto refletes sobre tristes eventos, não te prives dos alegres, porque o poder de obter o que é bom está em nossas mãos.
(10) O que deve ser chamado de bom, entretanto, é assunto de grande controvérsia
entre nós dois. Devemos comparar e avaliar esses dois termos? Pois, se todas as coisas dependem do prazer e em nada da virtude, concluo, então, que nenhuma das tuas duas declarações se sustentam.
Então, Catone respondeu:
- É isso que queres provar, Vegio? Crês que estás falando com licença poética quando dizes coisas que são não só verdadeiras, mas também nem ao menos verossímeis? Uma coisa é falar consigo mesmo, e outra, acredite, falar com um adversário. Mas, eu vejo que tu decidiste falar sobre esse assunto poeticamente; isto é, embelezando uma mentira com algo agradável. Nós iremos alegremente ouvir-te disputar uma causa perdida. E, se assim mesmo tu não falares seriamente, mas com gracejos, como tens feito até agora, tu sozinho descobrirás como satisfazer a este público.
- (11) Escuta-me - disse Vegio. E eu peço para que me escutes com prazer,
exatamente como tu disseste. Porque, se tu realmente assim o fizeres, eu não parecerei a ti um poeta e o meu discurso não parecerá uma piada ou um jogo. Porém, algo eu declaro e exijo antes de qualquer outra coisa: que não sejamos indulgentes como aqueles odiosos e teimosos estóicos, visto que eles acreditavam ser um crime divergir de uma opinião que eles sustentavam. Eles nunca se rendiam. Eles prefeririam ser massacrados numa disputa,
90 do que se tornarem prisioneiros, como os animais mais selvagens - os tigres, por exemplo, que quase nunca podem ser pegos com vida. Da minha parte, entretanto, se alguém produz algo melhor do que eu falei, eu não irei confrontá-lo, mas, ao contrário, eu lhe serei grato. O método forense e oratório certamente não tem como objetivo que os advogados tentem superar uns aos outros ao discutirem as suas causas, e sim que pela discussão a verdade ou a justiça emerja. Se eu ver alguém negando este fato manifesto, eu negarei a ele o nome de orador. (12) Ninguém, não importa o quão eloqüente ele seja, é um orador se não for também bom. Nada poderia ser mais prejudicial do que um homem que seja, ao mesmo tempo, letrado e maldoso. Eu teria julgado perfeitamente inútil dizer tudo isso a ti, Catone, se eu pensasse que tu fosses simplesmente um orador, o qual é um homem que tem o dever de não jurar lealdade à lei de nenhuma escola ou credo. No entanto, agora, que eu vejo que és tão amigável à doutrina dos estóicos, eu temo que tu possas resistir à verdade com mais veemência. Este medo, entretanto, é aliviado pela consideração de que prometeste aceitar a opinião de outrem se este produzir uma melhor que a tua. Peço que permaneças consistente nisso. O assunto da nossa discussão em si te adverte para que assim procedas, porque, se podemos confiar nas tuas palavras, desejas ser refutado para que a tua dor e desconforto possam ser diminuídos. Eu não irei apenas aliviar o teu desconforto, mas eu os eliminarei e te transformarei de um Demea em um Mitio. Mas, qual é a vantagem de obter a permissão de Catone para falar se eu não consigo o mesmo do resto de vós? Catone é do partido adversário, mas sois vós os juízes; a menos que algum dentre vós prefira entrar na discussão como um falante.
- (13) Pelo contrário - disse Giovanni Marchi. O que agrada a Catone agrada também a todos nós. Com prazer nós te escutamos e em silêncio te escutaremos, Vegio. Por favor, não nos prive agora do prazer que tu deste a nós desde quando começaste a falar. Continua sem pausas, se desejares, e nenhum de nós te interromperá enquanto tu falares. Eu me regozijo de que a boa fortuna tenha me permitido estar presente nesta discussão.
- XIV. (1) Falas bem, Giovanni Marchi – disse Vegio. Mas, deixe-me voltar ao assunto. Catone, tu dizes que é a honestidade o que deve ser alcançado. Eu digo que é o prazer. Dois princípios que são evidentemente opostos por definição e que não revelam nenhuma conexão entre suas esferas, como Lucano diz:
91 Tão longe quanto as estrelas estão da terra e o fogo da
água, dista o princípio da utilidade daquele da retidão75.
O útil coincide com o prazeroso, ao passo que a retidão coincide com o honesto. Embora alguns diferenciem o útil do prazeroso, esta sua ignorância é demasiadamente clara para precisar ser refutada. Com efeito, o que seria chamado de útil se não fosse honesto ou prazeroso? Nada que não toque nossos sentidos pode ser útil. O que podemos tocar ou sentir é agradável ou não agradável. Fizeram melhor aqueles que dividiram o bem entre o reto e prazeroso, o qual engloba a utilidade. (2) Portanto, devemos afirmar que ou este, ou aquele, são um bem, mas não ambos juntos. De fato, não pode ocorrer que causas contrárias produzam um único fim e efeito; como, por exemplo, a saúde e a doença, a umidade e a seca, o leve e o pesado, o claro e o escuro, a paz e a guerra. Nós evitaremos esse dilema apenas se admitirmos que as virtudes não sejam entendidas como parte daquilo que é honesto, mas como aquilo que contribui para a conquista do prazer. Esta era a noção de Epicuro e eu a aprovo.