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Medina (1978) e Hohenberg (1962) apresentam, ao contrário do que é proposto nos manuais de redação, essa tipologia de lide, que são, respectivamente, o lead-literary ou o lead episódico, cuja função é atrair o leitor por meio de pequenas histórias contadas lenta e linearmente pelo jornalista.

Como sabemos, a literatura diferencia-se de um texto informativo pelo fato de o primeiro fazer parte do âmbito da ficção e o segundo do da realidade. O lide

literário é assim nomeado justamente por misturar real e ficcional, ou seja, embora

aborde um assunto ocorrido verdadeiramente em nossa sociedade, a forma de apresentar o fato assume certos contornos ficcionais. Sato (2002: 31-2) parece ir mais além do que considerar simplesmente certos lides ficcionais e afirma:

Apesar da vocação para o “real”, o relato jornalístico sempre tem contornos ficcionais: ao causar a impressão de que o acontecimento está se desenvolvendo no momento da leitura, valoriza-se o instante em que se vive, criando a aparência do acontecer em curso, isto é, uma ficção.

Mesmo que tal impressão seja criada em muitas notícias jornalísticas, como veremos mais adiante em outros tipos de lides, neste caso, o jornalista situa o fato ocorrido em um momento anterior ao narrado, anterior à relação dialógica interacional existente entre locutor e interlocutor. Ele constrói uma seqüência narrativa sustentada em uma intriga.

Bronckart (2003: 219-20), fundamentado em Labov e Waletzky, afirma que para haver uma seqüência narrativa, além de a história seguir uma linha de sucessividade, ela deve estar sustentada por um processo de intriga. Esse processo consiste em organizar acontecimentos de modo que a história obedeça a um protótipo padrão de cinco fases principais e de uma seqüência sucessiva obrigatória:

a fase de situação inicial, em que a cena apresentada pode ser considerada equilibrada e tranqüila;

uma tensão é criada;

a fase das ações, que contém os acontecimentos desencadeados por essa ação perturbadora;

a fase da resolução, em que novos acontecimentos reduzem a tensão criada pela fase anterior;

a fase da situação final, na qual um novo estado de equilíbrio é instaurado pela resolução da ação.

O lide a seguir, produzido pelo Jornal da Tarde, apresenta tal seqüência exposta por Bronckart (op. cit):

Eram 9h40 de ontem quando um homem magro, com 1,65 metro de altura e cerca de 35 anos entrou no depósito da loja de roupas Tubo D’Água, localizada na Rua Juruá, no Pari, centro de São Paulo. Aos gritos, disse que era um assalto. Exigiu a pasta preta do dono da loja e mandou a secretária Carla Patrícia Muñoz Lopez, de 23 anos, ir para os fundos do depósito.

Em seguida, Carla ouviu um estampido. Uma bala atingiu a cabeça do comerciante Cláudio Hanna Hiar, de 40 anos, que morreu na hora. Ele era irmão do deputado estadual Alberto Hiar (PSDB), conhecido como Turco Loco.

Sem levar a pasta, o criminoso fugiu. Na saída, encontrou o motorista de Hiar, Benedito de Lima, de 48 anos, que estava voltando de uma banca para onde havia ido comprar um jornal para o patrão. “Entra e fica na moral”, disse o assassino, que saiu logo em seguida. A polícia ainda não tem pistas do motivo do crime. (Irmão do deputado Turco Loco é executado. JT2: Polícia. 26 abr. 2003. p. A6)

A estratégia interacional criada neste lide pelo jornalista é a de subverter o princípio da relevância, ou seja, ele não inicia seu texto tratando do fato em si, que foi a morte do irmão do deputado Turco Loco, como anuncia o título da notícia. O jornalista opta por criar um lide que aumente de forma crescente a expectativa de seu leitor, que crie uma certa curiosidade em saber exatamente como se deram os fatos e, desta forma, prenda o seu leitor-modelo por mais de um parágrafo.

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2. Daqui por diante, nas citações, tanto o jornal O Estado de S.Paulo quanto Jornal da Tarde serão abreviados, utilizando suas iniciais OESP e JT, respectivamente.

Para que isso ocorra, ele primeiramente apresenta a situação inicial, que trata da entrada de um homem magro em um depósito de uma loja de roupas: “Eram 9h40 de ontem quando um homem magro, com 1,65 metro de altura e cerca de 35 anos entrou no depósito da loja de roupas Tubo D’Água, localizada na Rua Juruá, no Pari, centro de São Paulo”.

Essa situação inicial desencadeada uma complicação, que surge no momento do anúncio do assalto: “Aos gritos, disse que era um assalto”.

Em seguida, surge a fase das ações: “Exigiu a pasta preta do dono da loja e mandou a secretária Carla Patrícia Muñoz Lopez, de 23 anos, ir para os fundos do depósito./ Em seguida, Carla ouviu um estampido. Uma bala atingiu a cabeça do comerciante Cláudio Hanna Hiar, de 40 anos, que morreu na hora. Ele era irmão do deputado estadual Alberto Hiar (PSDB), conhecido como Turco Loco./ Sem levar a pasta, o criminoso fugiu. Na saída, encontrou o motorista de Hiar, Benedito de Lima, de 48 anos, que estava voltando de uma banca para onde havia ido comprar um jornal para o patrão. ‘Entra e fica na moral’, disse o assassino,”.

O momento de saída do assassino do depósito corresponde à fase da

resolução: “que saiu logo em seguida”.

E a última fase, a da situação final, trata da falta de pistas da polícia: “A polícia ainda não tem pistas do motivo do crime”.

Esse jornalista se coloca como um narrador de terceira pessoa onipresente que pôde acompanhar todos os fatos. Ele aponta a brutalidade, a irritação do bandido e a intensifica ao destacar que “aos gritos” ele anunciou o assalto, e ao selecionar os verbos exigir e mandar. Desta forma, o jornalista instaura uma certa tensão em seu leitor-modelo, que certamente desejará saber como essa história de assalto se desenrolou e o que aconteceu com o bandido.

E qual é a relação existente entre esse lide e a imaginação? O jornalista, no caso do lide ficcional, constrói uma narrativa cronológica, lentamente vai apresentando os fatos e permitindo que seu leitor-modelo formule a imagem desta cena em sua mente. Desta forma, ele passa a se preocupar primordialmente com a maneira de contá-lo e não com o fato em si, despertando, assim, em um leitor que conheça a organização tradicional da notícia jornalística, o estranhamento, a curiosidade e a vontade de continuar a leitura para saber de que forma essa história acabará:

O princípio básico da precedência do mais importante pode ser subvertido, em certo tipo de notícia, pela intenção de construir uma narrativa de intensidade crescente, à semelhança de um conto, geralmente muito breve, de três a cinco linhas. [...] Pode- se assegurar que esse tipo de formulação, fundada na estrutura do enunciado, escapa ao conceito básico de notícia, na medida em que não é o fato em si que importa, mas a maneira de contá-lo, geralmente sobre uma circunstância secundária, tal qual a sugestão embutida no nome da personagem. (Lage, 2003: 5)

O jornalista mostra-se preocupado não com o fato em si, mas sim com a transmissão de uma imagem que envolva seu leitor à notícia e desperte-lhe um maior interesse por ela. Por esse motivo, a relação dialógica interacional, no dizer de Mikhail Bakhtin, que se estabelece entre jornalista e leitor é justamente a de procurar uma relação mais próxima e íntima entre eles, uma vez que o primeiro não está simplesmente noticiando um fato, mas sim contando uma história para o seu leitor, para seu interlocutor, procurando, desta forma, fazer com que esse leitor imagine a cena e sinta a angústia por que Hiar e sua secretária passaram.

Bronckart (2003: 234) também trata da relação dialógica interacional existente em uma seqüência narrativa ao afirmar que

o estatuto dialógico da seqüência narrativa é, contudo, evidente (...) seja ternária, quinária ou ainda mais complexa, essa seqüência caracteriza-se sempre pela intriga dos acontecimentos e/ou das ações evocadas. Ela dispõe esses acontecimentos e/ou ações, de modo a criar uma tensão, para depois resolvê-la, contribuindo o suspense assim estabelecido para a manutenção da atenção do destinatário.

O clima de angústia, de criação de suspense, de tensão faz-se presente em outro lide ficcional:

Eram 10h30 de ontem. O encarregado administrativo da Embaixada do Brasil, Awni al-Dayri, avaliava os prejuízos dos dois saques de que a casa foi alvo nos últimos seis dias. De repente, ouviu gritos do lado de fora. Seis saqueadores que estavam roubando materiais de construção da Mesquita Rahman, uma enorme obra inacabada deixada pelo governo de Saddam Hussein, perceberam que a embaixada estava aberta e se aproximaram para assaltá-la.

Al-Dayri sacou a pistola automática e começou a dar tiros para o alto, assim como dois de seus guardas particulares, armados de fuzis Kalashnikov. Rapazes que moram no bairro e cuidam da segurança também se aproximaram, e os seis se afastaram, a pé. “Como vamos continuar vivendo assim?”, pergunta Al-Dayri, exausto. É a segunda vez, em cinco dias, que ele expulsa saqueadores a tiros da embaixada brasileira, uma das únicas que ainda não foram esvaziadas pelos ladrões. (L.S. Saqueadores

tentam de novo roubar a embaixada. OESP: Internacional.

16 abr. 2003. p. A20)

Assim como no lide ficcional anterior, a narração começa pelo horário em que ocorreram os fatos, a cena vai sendo lentamente construída pelo jornalista, que espera que seu leitor a imagine e desta forma sinta-se envolvido pelo fato e preso à narrativa, e as cinco fases principais do processo de intriga também aparecem, acrescidas, entretanto, da de avaliação.

Bronckart (2003: 221) esclarece que, além das cinco principais fases da seqüência narrativa, outras duas podem ser acrescentadas: a fase de avaliação e a de moral. Na primeira, o que ocorre é o acréscimo de um comentário relacionado ao desenrolar da história e, na segunda, “se explicita a significação global atribuída a história”.

No lide de O Estado de S.Paulo, a fase da situação inicial ocorre no momento em que Awni al-Dayri avalia “os prejuízos dos dois saques de que a casa [a embaixada do Brasil] foi alvo nos últimos seis dias”. A da complicação instaura-se quando al-Dayri ouve gritos do lado de fora da embaixada. O uso do

termo de repente, assim como no lide anterior, serve como elemento intensificador da expectativa, pois parece chamar a atenção do leitor para uma nova situação.

A fase seguinte, ou seja, a da ação inicia-se no momento em que o encarregado administrativo saca sua pistola automática e começa a dar tiros para o alto e a da resolução ocorre com o afastamento dos seis saqueadores. A fase da

situação final vem acrescida de uma avaliação, que aborda o número de vezes em

que tentaram saquear a embaixada.

Como postula Araújo (2002: 95), a notícia sendo transformada em uma narrativa que gradativamente forneça as informações ao seu leitor e que seja rica em detalhes, serve como um aperitivo a esse leitor que, por sua vez, sente-se seduzido pelo enredo:

Sinto hoje, ao acompanhar a produção e a rotina jornalística, a falta de algo que é muito caro à literatura. É também nesta figura literária, vou chamar assim, onde justamente identifico o grande elo que une estas duas áreas, o jornalismo e a literatura: a narração. [...] Quando falo em narração, trato daquele conjunto de informações e detalhes que, em geral, costumam estar ao redor da notícia e que serve como aperitivo – nem por isso dispensável – ao leitor antes de introduzi-lo ao que interessa e, observação fundamental, que não tem nada a ver com o famoso e execrável

nariz de cera.

O leitor, como também no lide anterior, não aparece explicitamente invocado no texto. Ele é, conforme postula Maingueneau (1996), um leitor

instituído, mas é claro que ele se faz presente, uma vez que, como já pontuamos,

todas as pessoas que escrevem, escrevem para alguém, para um leitor idealizado, um leitor-modelo. E para que essa interação, esse envolvimento ocorra, faz-se necessário haver um leitor que compreenda, que interprete, que imagine a cena narrada.

O trabalho com a imaginação, que se constitui por meio da reconstrução de uma realidade que mistura elementos ficcionais, como a exaustão de Awni e como sua pergunta “como vamos continuar vivendo assim?”, que parece desejar apontar

o grau de desespero, medo e cansaço em que sua personagem protagonista se encontra, serve como elemento que desperta a atenção, o interesse do leitor pelo fato noticiado e cria uma certa proximidade, uma intimidade, uma cumplicidade entre os interlocutores.

Aliás, vale ressaltar que, para Maingueneau (2001), o uso do discurso direto pode representar ou uma exata reprodução das palavras do locutor, ou simplesmente relatar algo que pode não ter sido dito exatamente dessa forma. Ele destaca, ainda, que sendo verdadeiras ou falsas tais palavras, elas têm a função de criar um efeito de autenticidade:

Mesmo quando o DD relata falas consideradas como realmente proferidas, trata-se apenas de uma encenação visando criar um efeito de autenticidade: eis as palavras exatas que foram ditas, parece dizer o enunciador. O DD caracteriza-se com efeito pelo fato de supostamente indicar as próprias palavras do enunciador citado: diz-se que ele faz menção de tais palavras. (op. cit.: 141)

Em um outro lide ficcional, o jornalista, diferentemente dos anteriores, institui um leitor-modelo, dirige-se diretamente a ele, ou seja, instaura o leitor

apostrofado de Maingueneau (1996) e desenvolve sua história narrando uma

situação “ocorrida” com seu próprio leitor:

O despertador toca e o canto digital de um galo anuncia que é hora de você acordar. Em seguida, Silvio Santos – ele mesmo – informa com a mesma voz que começa um programa do SBT: “Bom dia, são sete horas.” Sonolento, você ignora a saudação e volta a dormir. Quinze minutos depois, com medo de estar atrasado, pega o relógio que está no criado mudo e aperta um botão para ver as horas. Outra vez, Silvio avisa no mesmo tom: “Bom dia, são sete horas e 15 minutos.” E você levanta sem dizer nada. (BARION, Rafael. Silvio Santos vem aí. No relógio de

pulso. JT: Cidade. 27 abr. 2003. p. A18)

O jornalista também se coloca neste caso como um narrador onisciente, pois ele sabe exatamente como sua personagem, no caso o próprio leitor, sente-se, ou seja, “sonolento” e “com medo de estar atrasado”.

Entretanto, o processo de intriga deste lide apresenta apenas três fases, possibilidade esta apresentada por Bronckart (2003: 222) ao afirmar que “as

seqüências narrativas efetivas podem, entretanto, comportar apenas um número limitado de fases (situação inicial + complicação + resolução)”.

A fase da situação inicial no lide de Barion ocorre no momento em que o despertador toca; a da complicação, tem início quando o próprio Sílvio Santos informa o horário; e a da resolução, é instaurada no momento em que o leitor se levanta da cama.

Ao contrário dos lides anteriores, que misturam elementos ficcionais a uma situação real, especificamente neste lide, o jornalista, ao noticiar o lançamento de um relógio do Silvio Santos, trabalha exclusivamente com elementos ficcionais, ou seja, com uma narrativa de suposição.

Neste terceiro caso de lide ficcional, o jornalista também deseja construir a imagem de uma determinada situação na mente de seu leitor, porém não com o intuito de fazê-lo sentir, como nos casos anteriores, em que o suspense criava uma expectativa, um medo do que estava por vir. Barion com sua notícia pretende criar uma situação inusitada com seu próprio leitor e, desta forma, construir um envolvimento com seu enunciatário muito mais próximo do que foi conseguido até então nos outros lides.

Benzer Belgeler