Todo começo é difícil em qualquer ciência. (KARL MARX)
A epígrafe que alude à dificuldade do começo foi escolhida não só por representar o esforço científico que perpassa o desenvolvimento de toda investigação, mas também por sinalizar um ponto de partida teórico-metodológico (MARX, 1989): a exposição de um objeto de estudo é tarefa desafiadora que busca espelhar o movimento do concreto aprendido na investigação, que, partindo de um começo lógico e necessário, é desdobramento e complicação de antíteses (KOSIK, 2011). Assim, o objetivo deste capítulo é lançar e traçar as bases conceituais da pesquisa realizada, em um processo de exposição que contém o embrião das dimensões essenciais do objeto que serão desdobradas nos próximos capítulos.
O ponto de partida elencado para o percurso da presente discussão teórica é o da formação profissional na área. Assume-se aqui a perspectiva de que um marco importante da problematização dos Fundamentos do Serviço Social tem como contextualização histórica e teórica o amplo processo de debates desencadeado em torno da revisão das diretrizes curriculares para a formação em Serviço Social, desde o currículo de 1982 ao atual projeto de formação profissional de 1996 (ABEPSS, 1996a). Ou seja, o processo coletivo de debate e de definição dos eixos centrais, que necessitam fundamentar a formação profissional, explicita as principais tendências do debate teórico-metodológico sobre a profissão na atualidade10.
Este debate, sem dúvida, tem suas raízes na vertente crítica do processo de renovação do Serviço Social brasileiro (NETTO, 2004), que ao longo dos 1980 e 1990 aprofunda-se, marcando decisivamente a influência da teoria social marxista na profissão, ultrapassando as lacunas da apropriação inicial desta fonte de pensamento11.
Dentre os temas significativos que perpassaram o debate teórico-metodológico12 do
currículo de 1982 – o qual instaura inicialmente o debate da relação história/teoria/método, embora ainda com lacunas significativas no trato desta relação (PASCHOAL, 2010) – situa-se
10 Tal processo expressa-se nas diretrizes da ABEPSS (1996a) e em publicações que explicitam as grandes linhas teóricas do debate que fundamentou esta proposta, em especial ABEPSS (1996b) e Cardoso et al (1997). Em relação ao currículo de 1982, apontam-se os textos de Iamamoto, datados nos anos 1980 e início dos anos 1990 (2011, p.159-207), mas também a sistematização e análise realizada por Paschoal (2010) sobre documentos e pesquisa da ABESS e debates realizados em torno deste currículo, tal como a análise do grupo da PUC/SP à época (YAZBEK, 1984).
11 Para o debate um balanço crítico da apropriação da tradição marxista pelo Serviço Social ver IAMAMOTO (2005, p. 219- 249).
12 Tais temas significativos são pontuados por IAMAMOTO (2011, p. 186): “(...) a existência ou não de uma metodologia própria do Serviço Social; os dilemas do método de conhecimento e do método da ação, sua unidade ou diferencialidade; os parâmetros para a análise de conjunturas e a análise da correlação de forças políticas; a reinterpretação, pela via gramsciana, da dimensão pedagógica da prática profissional, enquanto partícipe da luta pela hegemonia; os embates da relação teoria e prática e a questão da sistematização da prática”.
a primeira premissa na abordagem do objeto da pesquisa. Esta consiste em superar, no debate dos Fundamentos do Serviço Social, a busca de uma teoria específica ou um ramo próprio de saber no quadro das ciências, derivando deste esforço a delimitação de um objeto específico do Serviço Social ou mesmo uma metodologia própria que fundamente o trabalho profissional, tônica esta recorrente na trajetória teórico-metodológica do Serviço Social.
Trata-se de, partindo da dimensão histórica de como o Serviço Social se legitima socialmente, ter clareza de que o mesmo “não se afirma como necessário na sociedade como um ramo de saber, no quadro da divisão de trabalho das ciências”, mas “surge como um tipo de especialização do trabalho na sociedade que carrega em si um suposto de explicação da vida social como base para a ação, para a intervenção no processo social” (IAMAMOTO, 2011, p. 175).
Nessa direção, é importante adotar uma orientação teórico-metodológica, que não sendo privativa da profissão ou de outra disciplina, “afigura-se como uma matriz de explicação da vida social, dispondo de um acervo heurístico para ler a sociedade e para iluminar a ação nesta sociedade”. (IAMAMOTO, 2011, p. 175).
Nesta trilha fecunda, a análise dos Fundamentos do Serviço Social desdobra-se na problematização dos elementos centrais deste acervo teórico-metodológico, de como ele é construído, analisado e enriquecido pela produção e pela pesquisa da área na conjuntura recente.
Destaca-se a importância das produções da área nos anos 1980 e 1990 para a qualificação deste acervo, produções estas dinamizadas pela expansão e consolidação da pós- graduação, pela inscrição protagônica dos assistentes sociais na conjuntura sociopolítica brasileira, bem como pelo esforço político-organizativo na esfera do exercício e da formação profissional. Este acúmulo teórico-metodológico e político da categoria tem uma importante culminância na revisão curricular da ABEPSS de 199613, redimensionando a formação
graduada para a constituição de um novo perfil profissional atento aos desafios da realidade brasileira.
Tal revisão curricular foi embasada em quatro grandes pressupostos, quais sejam (ABEPSS, 1996a): 1) a particularidade desta profissão situa-se no âmbito das relações sociais de produção e reprodução social, como uma profissão interventiva na esfera da questão social;
13 É fundamental destacar que as referidas diretrizes ao serem homologadas sofreram uma grande descaracterização da sua proposta original, especialmente no que se refere ao perfil do bacharel de Serviço Social, na definição das competências e habilidades e nos tópicos de estudos estabelecidos nos núcleos de fundamentação da formação. Como analisa Iamamoto (2012, p. 43), a supressão de elemento centrais do projeto de formação no texto legal, “significa, na prática, a impossibilidade de se garantir um conteúdo básico comum à formação profissional no país (...), o conteúdo da formação passa a ser submetido à livre iniciativa das unidades de ensino, públicas e privadas, desde que preservados os referidos núcleos”.
2) o fundamento básico da existência da profissão é apreendido na sua relação com a questão social; 3) a apreensão das transformações histórico-estruturais que incidem na reprodução da questão social e nas respostas das classes sociais e do Estado às suas expressões, repercutem em alterações no mercado profissional de trabalho; 4) o processo de trabalho profissional é determinado pelas configurações da questão social e das formas históricas de seu enfrentamento. De tais pressupostos se podem apreender importantes indicativos dos elementos centrais que fundamentam a proposta de formação no Serviço Social, que merecem destaque, embora já amplamente tematizados14.
Em primeiro lugar emerge a centralidade da questão social como elemento que atribui unidade à formação e à estruturação curricular, tendo em vista a mesma fornecer concretude histórica à profissão (CARDOSO et al, 1997). Tal centralidade indica a incorporação, no plano da proposta de formação, das produções que afirmam ser a questão social a base de fundação sócio-histórica da profissão e sua matéria de trabalho (IAMAMOTO; CARVALHO, 2012; IAMAMOTO, 2005). A riqueza desta centralidade na proposta de formação é que ela aglutina elementos analíticos que se desdobram no debate da gênese profissional e da natureza e inscrição particular da profissão na sociabilidade burguesa e na divisão sociotécnica do trabalho (IAMAMOTO; CARVALHO, 2012; NETTO, 2011), bem como fornece as bases para a interpretação crítica do espaço sócio-ocupacional da profissão.
Em segundo lugar emerge a centralidade da categoria trabalho, indissociável da própria base teórica da categoria questão social15. Esta categoria, no plano da formação
profissional, indica “(...) a importância do estatuto do trabalho, fundado em uma visão societária, que atribui prioridade ontológica à produção e reprodução da vida social e às relações sociais historicamente particulares que as sustentam” (CARDOSO et al, 1997, p. 17). Pode-se sinalizar três polos principais através dos quais as mediações com a categoria trabalho se articulam no plano da formação. O primeiro consiste na análise societária, sob o prisma da produção e reprodução da vida social (IAMAMOTO; CARVALHO, 2012; IAMAMOTO, 2008), irradiando a análise para os processos de alienação e de exploração
14 Contudo, é preciso considerar os inúmeros desafios encontrados na implementação deste projeto de formação, inclusive alvo de pesquisa da ABEPSS, cujos resultados podem ser encontrados nas publicações da Revista Temporalis, n. 14, ano 2007.
15Tal base teórica fica evidente em um dos principais e amplamente difundido conceito da área de Serviço Social: “A questão social diz respeito ao conjunto das expressões de desigualdades engendradas na sociedade capitalista madura, impensáveis sem a intermediação do Estado. Tem sua gênese no caráter coletivo da produção, contraposto à apropriação privada da própria atividade humana – o trabalho – das condições necessárias à sua realização, assim como de seus frutos. (...) expressa, portanto, disparidades econômicas, políticas e culturais das classes sociais, mediatizadas por relações de gênero, características ético-raciais e formações regionais, colocando em causa as relações entre amplos segmentos da sociedade civil e o poder estatal” (IAMAMOTO, 2001, p. 17).
humana, para as lutas entre as classes sociais fundamentais presentes na sociedade, que inclusive permitem compreender as tramas das relações de poder do Estado.
O segundo polo de mediações ocorre na apreensão do ser social, no qual esta categoria assume sentido ontológico (MARX, 1989; LUKÁCS, 2009), se expressando na própria fundamentação da ética profissional, ou seja, a dimensão valorativa como inerente ao trabalho, a liberdade como núcleo da práxis (BARROCO, 2006; IAMAMOTO, 2008). O terceiro polo é constitutivo da própria análise da profissão, através da apreensão do estatuto assalariado do trabalho profissional, superando a perspectiva da prática profissional pela análise da inserção deste trabalho de qualidade particular em processos de trabalho histórica e socialmente determinados, no contexto da divisão social e técnica do trabalho. (IAMAMOTO; CARVALHO, 2012; IAMAMOTO, 2005, 2008).
Além da centralidade da questão social e do trabalho, emerge, em terceiro lugar, a abordagem histórico-crítica marxista como outro elemento central nos pressupostos orientadores da formação profissional. Trata-se, portanto, da história em processo, história dos homens, do modo como se produz socialmente a vida, campo de determinações, mas, também, de tendências engendradas pelo devir histórico das lutas entre as classes sociais (MARX; ENGELS, 1998a; FERNANDES, 2012). É esta fecunda abordagem de história que se encontra conjugada no enfoque crítico-analítico e que busca as conexões e interações do Serviço Social tomado como totalidade –, o que abarca sua gênese e desenvolvimento, suas agências de formação, suas práticas, seus sujeitos, seus sistemas de saber, seus valores – bem como o quadro sócio-histórico e cultural em que se insere a profissão (ESCORSIM NETTO, 2011, p. 19).
Em quarto lugar emerge o método e a teoria marxiana como matriz explicativa que sustenta as principais formulações teóricas contemporâneas do Serviço Social. Contudo, método e teoria marxiana apreendidos em uma relação unitária e dialética, como pressuposto da profundidade do potencial analítico da teoria social marxiana, que articula a dimensão filosófica, a dimensão material ou concreta, e a dimensão política (PAULA, 1992). Assim, o método em sua tradição filosófica, dialética e materialista – pressupondo o primado ontológico das relações sociais na constituição da consciência humana e a apreensão do real em suas múltiplas determinações – é indissociável das principais teorias marxianas na abordagem da natureza da sociedade capitalista: a teoria do valor-trabalho, a teoria da alienação e a teoria da revolução, que se encontram no conjunto da sua obra.
Diante das considerações até aqui tecidas, destaca-se que a análise dos pressupostos da revisão curricular evidencia a centralidade das categorias questão social e trabalho, irradiadas da apropriação do método e das teorias marxianas, conjugadas na interpretação histórico-crítica do Serviço social na realidade brasileira, como os principais fundamentos da formação profissional.
A partir desta leitura, são tais fundamentos que possuem centralidade nos núcleos de fundamentação que orientam a estruturação curricular, quais sejam: “1- Núcleo de fundamentos teórico-metodológicos da vida social; 2- Núcleo de fundamentos da particularidade da formação sócio-histórica da sociedade brasileira; 3- Núcleo de fundamentos do trabalho profissional. (ABEPSS, 1996a, p. 8).” Estes três núcleos, nas diretrizes em tela, são mutuamente articulados, fornecendo em sua totalidade os eixos estruturantes da formação profissional.
Destaca-se que o primeiro núcleo de fundamentação (ABEPSS, 1996a) objetiva a compreensão do ser social enquanto totalidade histórica, tendo o trabalho como o eixo central do processo de reprodução da vida social, analisando os componentes fundamentais da vida social que serão particularizados nos demais núcleos. Assim, o conhecimento do ser social implica o tratamento das diferentes filosofias e teorias, superando a crítica ou a negação ideológica a priori pelo necessário conhecimento dos fundamentos das mesmas.
Já o segundo núcleo (ABEPSS, 1996a) desenvolve o conhecimento da sociedade brasileira, da sua particularidade histórica nacional, apreendendo os movimentos que consolidam determinados padrões de desenvolvimento capitalista no Brasil e seus impactos socioeconômicos e políticos no campo das desigualdades sociais. Este núcleo implica, portanto, a análise conjuntural da sociedade brasileira e dos processos sociais geradores das múltiplas manifestações da questão social.
No que se refere ao terceiro núcleo, dois eixos são nele centrais (ABEPSS,1996a): a abordagem da prática como processo de trabalho, destacando os elementos que compõem este processo, a partir da acepção marxiana; e o relevo para a dimensão investigativa associada a uma leitura totalizante da realidade, demarcando a dimensão teórico-metodológica necessária ao trabalho profissional, enriquecida pelos demais conhecimentos aportados pelos outros núcleos de fundamentação da formação.
Esta dimensão teórico-metodológica, por sua vez, se entrelaça com a análise da trajetória socio-histórica profissional, deixando clara a importância da articulação entre história/teoria/método na estruturação do referido núcleo de formação, para a própria
compreensão das particularidades profissionais. Esta perspectiva pode ser visualizada quando as Diretrizes afirmam que:
Compreender as particularidades do Serviço Social como especialização do trabalho coletivo requer a apreensão do conjunto de características que demarcam a institucionalização e desenvolvimento da profissão. Isto é, tanto as determinações sócio-históricas de sua inserção na sociedade brasileira que perfilam o fazer profissional, quanto a herança cultural que vem respaldando as explicações efetivadas pelo Serviço Social sobre as relações sociais, sobre suas práticas, suas sistematizações e seus saberes. (ABEPSS, 1996a, p. 13).
Assim, a recuperação do próprio processo de produção do conhecimento do Serviço Social, na sua trajetória histórica no solo da realidade brasileira, é central aos Fundamentos do Serviço Social. É tal produção que evidencia como esta profissão interpreta as relações sociais em que se inscreve, bem como explica e dá sentido ao seu trabalho, logo, precisa ser apreendida de forma historicamente contextualizada.
Além disso, chama a atenção o campo da cultura, que, em uma acepção ampla, indaga sobre a esfera dos valores e ideologias em disputa na sociedade. Portanto, um campo que atravessa a leitura profissional sobre a realidade, em especial no que tange à moralidade hegemônica engendrada pela sociabilidade burguesa, no trato das expressões da questão social (BARROCO, 2006), se expressando em processos de culpabilização e discriminação dos sujeitos, que desconsideram as condições objetivas de vida e de produção de desigualdades, explicando-se estes processos a partir do plano moral, psicológico e comportamental.
Outra perspectiva presente nas Diretrizes consiste na definição de matérias básicas para o currículo, as quais visam materializar as grandes abordagens previstas pelos referidos núcleos de fundamentação. É no contexto das matérias básicas que emerge expressamente a concepção de Fundamentos Históricos e Teórico-metodológicos do Serviço Social, definidos como:
Análise da trajetória teórico-prática do Serviço Social no contexto da história da realidade social e as influências das matrizes do pensamento social. O trabalho profissional no processo de produção e reprodução social em relação às refrações das questões sociais nos diferentes contextos históricos. (ABEPSS, 1996a, p. 17).
Já versão das diretrizes sistematizada pela comissão de especialistas da área para envio ao Ministério da Educação, estabelece como conteúdo desta matéria:
O processo de profissionalização do Serviço Social nas sociedades nacionais enquanto especialização do trabalho. As fontes teóricas que fundamentam historicamente o Serviço Social e análise de sua incorporação nos modos de pensar e atuar da profissão em suas expressões particulares na Europa, na América do Norte e na América Latina, prioritariamente, no Brasil. O debate contemporâneo do Serviço Social (MEC, 1999, p. 6)
Estas concepções reforçam elementos já destacados do conjunto das Diretrizes, em especial a perspectiva de que a compreensão do Serviço Social adquire inteligibilidade no quadro das determinações socio-históricas que o engendram, em especial face à questão social. Denota-se, ainda, uma imprecisão conceitual na concepção de fundamentos em tela – questões sociais – a qual já vem sendo alvo de críticas por produções que debatem os Fundamentos na formação profissional, tais como as de Simionatto (2004) e Cardoso (2007).
Após o debate dos fundamentos da formação profissional, elencam-se, do conjunto das produções de Yazbek (2009, 2009a, 2009b) e Iamamoto (2005, 2008, 2011) – especialmente importantes para a formulação teórico-metodológica do objeto deste estudo – conceituações que sintetizam importantes abordagens sobre os Fundamentos do Serviço Social.
Neste horizonte, ressalta Yazbek que “a profissão e o conhecimento que a ilumina, se explicam no movimento histórico da sociedade”, sendo este um pressuposto para a “análise dos principais fundamentos que configuram o processo através do qual a profissão busca explicar e intervir sobre a realidade, definindo sua direção social” (2009a, p. 144 – grifos nossos).
Compreende-se, do conceito em tela, que os Fundamentos do Serviço Social consistem na forma particular na qual a profissão constitui uma matriz explicativa da realidade e da profissão, gestada no movimento histórico da sociedade. Assim, tal matriz possui uma dimensão teórico-metodológica – porque fornece as bases explicativas da compreensão da realidade, da profissão, dos processos societários – e uma dimensão ético- política, condensada na direção social da profissão, nos valores e compromissos que orientam a intervenção na realidade. Nesta linha, compreende-se que tal matriz explicativa – constituída pelas dimensões teórico-metodológica e ético-política – fundamenta e materializa- se na dimensão técnico-operativa da profissão. Na sequência, a autora assinala que:
(...) essa análise das principais tendências históricas e teórico-metodológicas da profissão, sobretudo nas três últimas décadas, não é tarefa fácil ou simples, pois exige o conhecimento do processo histórico de constituição das principais matrizes de conhecimento do social, do complexo movimento histórico da sociedade capitalista brasileira e do processo pelo qual o Serviço Social incorpora e elabora
análises sobre a realidade em que se insere e explica sua própria intervenção
A compreensão dos Fundamentos do Serviço Social requer uma análise que privilegie a totalidade, que entrelaça-se, por sua vez, no plano da lógica dialética, com a categoria mediação. Entende-se que o caráter histórico e “particular” desta matriz explicativa a conforma como um “campo de mediações” (LUKÀCS, 1968, p. 113) construído pela profissão, engendrado na interseção entre as matrizes do pensamento social e a realidade sócio-histórica em que se inscreve como uma especialização do trabalho.
Tal abordagem pressupõe considerar a dialética entre universalidade-particularidade- singularidade nos Fundamentos do Serviço Social, na qual as mediações constituem “(...) condutos de “passagens” e “conversões” entre as várias instâncias da totalidade. Por isso, a categoria de mediação é estruturante da particularidade. (...) É um espaço onde a legalidade universal se singulariza e a imediaticidade do singular se universaliza”. (PONTES, 2002, p. 86).
Portanto, destaca-se a relevância da categoria de mediação para o debate dos Fundamentos profissionais, pois é esta que possibilita articular a compreensão mais ampla da inserção da profissão na totalidade social, ao mesmo tempo captando e iluminando a leitura da singularidade das situações que esta profissão se defronta na divisão sociotécnica do trabalho. Além disso, são as mediações que possibilitam articular, extrair e elaborar, do campo mais amplo das matrizes do pensamento social, a construção de formulações teórico-metodológicas voltadas para a compreensão da profissão e da realidade, que subsidiarão os processos