4.1. Elektrik Ark Kayna ğı Parametrelerinin Belirlenmesi …
4.1.7. Elektrot ilerleme açısı
Em Orfeu da Conceição encontramos algumas características do trágico, mas em formato carnavalizado. Este conceito, formulado por Bakhtin, diz respeito às formas do cômico na Idade Média, fundamentais para ler-se a obra de Rabelais. As principais características da carnavalização são a inversão dos papéis, o realismo grotesco, o
34 rebaixamento – responsável pela realimentação da vida – e uma forte ligação com a cultura popular.
Sobre a inversão dos papéis é preciso situar o Orfeu no tempo. Se em pleno século XXI encontra-se muitos índices de racismo, na década de 1950 o preconceito era ainda maior. O povo negro e pobre que vivia nos morros sempre foi alvo de inobservância do poder público. Podemos encontrar uma crítica sobre isto em duas passagens da peça, quando Clio, mãe de Orfeu, encontra-se em prantos pelo enlouquecimento por amor de seu filho:
“UMA SEGUNDA MULHER Alguém devia
Fazer alguma coisa...
UMA TERCEIRA MULHER É, é preciso
Chamar um médico...
UM SEGUNDO HOMEM É? Tem cada uma... Médico, aqui no morro... (...)
O HOMEM
Tá pronto, minha gente!
Trouxe a maca. A ambulância está embaixo Que caras mais folgados... Adivinha O que disse o doutor?... "Vocês são fortes Subam e tragam a mulher que eu espero embaixo E depressa que eu tenho um caso urgente
Me esperando…"” (MORAES, 2013, p. 40 e 44)
A inversão ocorre em um lugar onde o povo é discriminado por sua etnia e posições sociais, ou seja, o morro, espaço que põe Orfeu como seu rei e porta-voz, principalmente no período do carnaval carioca, o tempo da peça em que estas características das inversões bakhtinianas ocorrem com mais propriedade:
ORFEU
Não veio! Aqui quem manda é Orfeu! Mando eu!
A DAMA NEGRA
Hoje alguém me chamou que vai comigo Para o fundo da noite vai comigo
35 Alguém que me chamou.
ORFEU Não chamou!
Este é o meu reino, aqui quem manda é Orfeu Digo que não chamou!
(...) ORFEU Vá embora
Senhora Dama! eu lhe digo: vá embora! No morro manda Orfeu! Orfeu é a vida No morro ninguém morre antes da hora! Agora o morro é vida, o morro é Orfeu É a música de Orfeu! Nada no morro
Existe sem Orfeu e a sua viola! (Ibidem, p. 21 e 22)
Ao mesmo tempo, Orfeu é citado como o mais nobre do morro e inversamente como um malandro, conquistador de várias mulheres que comete seu erro ao se apaixonar definitivamente por uma única mulher, Eurídice. Após uma briga, escarnece Mira de Tal, uma das tantas mulheres do morro com quem se aventurou. De seu primeiro confronto com ela na peça – violento por sinal – nasceu um samba em tom de riso, ironizando a situação que acabara de viver:
Mulher, ai, ai, mulher
Sempre mulher dê no que der Você me abraça, me beija, me xinga Me bota mandinga
Depois faz a briga Só pra ver quebrar! Mulher, seja leal Você bota muita banca
E infelizmente eu não sou jornal. Mulher, martírio meu
O nosso amor Deu no que deu
E sendo assim não insista, desista Vá fazendo a pista
Chore um bocadinho
E se esqueça de mim. (Ibidem, p. 19)
Em vários outros momentos são apontados por Clio características do comportamento de seu filho que, embora possua traços de nobreza garantidos com o
36 ofício de músico, possui também uma inclinação para os domínios do ventre, ou seja, a boemia e sexualidade pronunciadas.
CLIO (...)
Mãe é que vê! e então eu não estou vendo Que descalabro, filho, que desgraça Esse teu casamento a três por dois Tu com essa pinta, tu com essa viola Tu com esse gosto por mulher, meu filho? Ouve o que eu estou dizendo antes que seja Tarde... Não que eu me importe... Mãe é feita Mesmo para servir e pôr no lixo...
Mas toma tento, filho; não provoca A desunião com uma união; você Tem usado de todas as mulheres Eu sei que a culpa disso não é só tua O feitiço entra nelas com tua música Mas de uma coisa eu sei, meu filho: não Provoca o ciúme alheio; atenta, Orfeu Não joga fora o prato em que comeste... Você quer a menina? muito bem! Fica com ela, filho... – mas não casa
Pelo amor de sua mãe. Pra que casar? (ibidem, p. 9)
Concluindo esta primeira visão acerca dos aspectos carnavalizados de Orfeu, observa-se uma ligação direta com a cultura popular, com o samba. Este ritmo teve origem com os negros que saíram da Bahia em direção ao Rio de Janeiro. Chegando ao Rio eram recebidos pelas Tias Baianas em seus terreiros, sendo o samba tocado na rua uma derivação dos ritmos tocados durante os cultos nos chamados Barracões5. É um estilo musical sem um dono, sem um criador nominado, por isso é fruto de uma coletividade. Essas raízes na cultura popular guardam consigo aspectos do que Bakhtin chama de “riso festivo”, o patrimônio de um povo que canta, dança e ri de todo o processo de inversão.
Quase todas as canções compostas para a peça são sambas ou derivações dele, como o samba-canção. Sendo o samba “a tristeza que balança”, ele consegue inclusive rir de sua dor. Muito mais então se pode dizer de motivações alegres. Um exemplo de tristeza cantada com alegria se pode observar na música “Lamento no Morro”,
Não posso esquecer
37 O teu olhar
Longe dos olhos meus... Ai, o meu viver
É te esperar Pra te dizer adeus Mulher amada! Destino meu! É madrugada
Sereno dos meus olhos já correu...
Rir de sua dor, chorar de sua alegria, balançar a tristeza e transformar tudo isso em festa, além de uma característica marcadamente carnavalizada, também está presente nos vários sambas no decorrer de toda a peça.
Como se pode perceber, foram encontrados vários aspectos da carnavalização observando apenas os diálogos, as falas dos personagens. Estas mesmas características serão encontradas em outros momentos, sob formas diferentes de signos, a saber, a música, o gesto, a rubrica, bem como em outros recursos, aportes diferentes, como no caso da adaptação fílmica. Para entender como se manifesta a carnavalização na relação e nas interações entre signos diferentes será aplicada a proposta de análise semiótica de extração russa, a Semiótica da Cultura.
A próxima seção tratará do estudo desta semiótica e de seu principal recurso, a modelização, ferramenta necessária para se realizar a “tradução da tradição”. Em posse desta teoria, serão observados alguns signos da arte do espetáculo em que a carnavalização encontra-se presente em diálogo com o trágico.