5 Elektronik Tasarım, Algoritma ve Yazılım Tasarımı
5.1 Elektronik Tasarım Süreci
Em setembro de 1941, nos arredores de Kiev, na ravina conhecida como Babi Yar os judeus foram convocados para comparecer munidos de documentos e roupas, era a véspera do Yom Kipur, aqueles que não obedecessem ao chamado seriam fuzilados. Os nazistas tinham tomado a cidade de Kiev, na Ucrânia, e a população judia residente em Kiev imaginava que aquele chamado os levariam a embarcar em trens para um futuro incerto. O Einsatzgruppen, agrupamento móvel de intervenção, integrante da SS (Schutz Stafel) agrupava os milhares de judeus reunidos pela convocação à ravina de Babi Yar em grupos de dez, em meio à multidão. Os judeus de Kiev só descobriam que não embarcariam em trens quando ouviam o grupo à sua frente sumir ao som de rajadas de metralhadoras. Nos dias 29 e 30 de setembro de 1941, estima-se que 33.ιι1 pessoas foram executadas em Babi Yar. Eram homens, mulheres e crianças, todos civis. Nos meses que se seguiram outros judeus e não judeus russos foram também executados, em grupos de dez, com um tiro na nuca tendo diante de si uma grande vala aberta, ao todo, estima-se, seriam 100 mil executados. Aquele método de execução se revelou penoso, Himmler, o chefe da SS, percebeu o efeito deletério daquele método sobre os carrascos. Os executores com o passar do tempo foram se entregando ao vício do álcool, depressão e suicídio. Após a experiência de assassinatos nos arredores de Kiev, os nazistas alemães resolveram inovar em sua metodologia de execução, usariam caminhões com câmara de gás, os mesmos usados para executar doentes mentais na Alemanha. Mais uma vez essa metodologia seria aperfeiçoada, a Alemanha nazista, inspirada nos campos de concentração da Guerra do Boêres da África do Sul, inventaria os campos de extermínio, máquinas de assassinar em larga escala, sem os efeitos psicológicos colaterais negativos sobre sua tropa de elite, especializada em matar (ARENDT, 19κ9).
O totalitarismo tem no campo de extermínio seu laboratório, onde a crença que “tudo é possível” é testada. No modelo político do Estado Total a crença de que “tudo é possível” é levada a termo, o campo de extermínio surge como o espaço modelar onde essa crença é testada, onde métodos e técnicas são implementados (ARENDT, 19κ9). Em uma sociedade onde “tudo é possível”, não há espaço para a liberdade de escolha ou a liberdade de oposição. O totalitarismo para levar às últimas consequências sua crença de que “tudo é possível”, necessariamente tem que
destruir os direitos subjetivos que fundamentam a liberdade de escolha e oposição. O Estado só se faz total e implementa sua crença que “tudo é possível” com a destruição dos direitos subjetivos e o sepultamento da individualidade expressa em uma personalidade jurídica. Daí o campo de extermínio se manifestar através da prisão arbitrária, como forma de negar a liberdade de escolhaν e através da tortura, como forma de negativa da liberdade de oposição. O paradigma do campo de extermínio implementa a crença totalitária de que “tudo é possível” e para tal nega os direitos do homem através da negativa de sua humanidade (AGAMBEN, 2002). O paradigma do campo de extermínio é a técnica política de despersonificação do homem, de negativa de sua personalidade e individualidade. Massificado, o homem despido de sua dignidade já não mais oferece perigo para a ideologia totalitária, podendo ser descartado como forma de pôr em funcionamento um modelo político que se alimenta da ideologia totalitária, onde tudo é possível, onde o homem massificado é reduzido às suas funções meramente biológicas. Como o cão de Pavlov, o homem massificado é reduzido ao ato reflexo fisiológico, sua dignidade, agora não mais reconhecida, não será obstáculo à política positivista do totalitarismo. A experiência política do totalitarismo é uma decorrência da sociedade de massas, sociedade que produziu um excedente humano ocioso, um paradigma político nascido das limitações do Estado nacional que não conseguiu abrigar apátridas, refugiados e os excedentes não assimilados por sociedades superpovoadas (LAFER, 19κκ). A sociedade de massas desumanizou o homem, negou-lhe seus direitos subjetivos como forma de lhe retirar o único anteparo protetor antes de descartá-lo. O campo de extermínio é esse modelo extremo onde o Estado Total concretizou sua funcionalidade mórbida de descartar as massas humanas como forma de conferir organicidade a uma sociedade demente, a sociedade de massas.
É nesse contexto que Auschwitz surge como o paradigma político do totalitarismo. As formas de governo são poucas, já conhecidas e classificadas pelos gregos antigos há um bom tempo, desde Aristótelesν mas no sec. XX, com a sociedade de massas, uma nova forma de governo emerge e se inscreve no acervo da experiência política ocidental. O Estado total é o fruto da última fronteira rompida pela biopolítica moderna, sua lógica após essa ruptura será a lógica do terror. O regime totalitário decorre, assim, da ruptura do último anteparo que frenava o desenvolvimento da biopolítica moderna. Se a biopolítica moderna se caracterizou pela inversão hierárquica entre vita contemplativa e vita activa, com a hegemonia da últimaν e pela era da economia política com a separação entre o político e o éticoν esse fluxo da biopolítica moderna que valoriza a vida, por conferir primazia ao trabalho como a relação entre o metabolismo corporal e a natureza, tinha na distância entre a lei e a justiça sua última fronteira que obstaculizava seu fluxo natural. Com essa ruptura final, entre o jurídico e o ético, progredirá finalmente ao Estado total. Essa distância entre o direito e a moral, entre a lei e o justo, mas que formavam até então uma unidade, era o espaço
derradeiro onde, ainda, residia o abrigo que conferia proteção e legitimidade à liberdade de escolha e de resistência política (ARENDT, 19κ9). Era nessa distância entre o legal e o legítimo e no seu contínuo conflito e embate que residiam os direitos subjetivos. Com o positivismo jurídico esse último anteparo se rompeu, o legal tornado autônomo em relação ao legítimo passou a ter na natureza biológica (nazismo) ou na lei dialética da história (bolchevismo) sua única fonte de legitimação. O positivismo jurídico ao tornar o direito autônomo e independente da moral, tornou-o também um sistema neutro de valores, abrindo espaço para o desenraizamento do último reduto do humanismo.
Sem anteparos que respaldassem a liberdade da vontade individual e a capacidade de resistência política, a biopolítica moderna rompeu o último dique em seu processo de afirmação histórica. A biopolítica positivista totalitária, seja nazista ou bolchevista, não negou o Estado de direito, sua característica fundamental é que se tratava exatamente de Estados fundamentalmente legais. Sua peculiaridade é que a legalidade totalitária, sem o anteparo da separação e da dúvida entre o legal e o legítimo, passou a ter no natural e no histórico os elementos que ocuparam esse espaço que antes era preenchido pela dúvida e a controvérsia moral (ARENDT, 19κ9). O positivismo totalitário ao reduzir o direito ao legal, teve na neutralidade axiológica da lei o caminho por onde se espraiou a força motriz da natureza através da genética racista do nazismo, onde apenas a raça pura se afirmaria historicamente. Ou nas leis da história materialista dialética como a afirmação da única classe social apta ao protagonismo históricoμ o proletariado. O positivismo totalitário conferiu um fluxo total à ideia originária da biopolítica moderna que tornou o biológico e o vital o centro de toda a codificação política da sociedade. A biopolítica moderna inaugurada pelo realismo político maquiaveliano se completou através do positivismo jurídico. O desenraizamento do político e do direito do terreno do ético abriram, com isso, espaço para um regime político exclusivamente e totalitariamente vitalista, onde a seleção natural darwiniana ou a dialética histórica marxista passaram a ser as leis biopolíticas de sociedades massificadas, onde o indivíduo e a individualidade se dissolveram, já não mais havendo espaço para a subjetividade, nem para os direitos do homem. O homem massificado, reduzido às suas funções fisiológicas e imerso em um mundo ideológico e fictício, passou a ser objeto de um movimento biopolítico, agora caracterizado pelo descarte das massas humanas excedentes. A lógica de uma biopolítica de homens indivisos, sem subjetividade e massificados passou a ser a lógica do terror, pois só o terror confere irmandade e compacta a coletividade de homens que perderam os vínculos históricos que os unia.
Desindividualizados, massificados e solitários, os homens sob o totalitsrismo passaram a ter no terror, na arbitrariedade das prisões, na tortura e no assassinato em larga escala a lógica de uma
biopolítica que não mais conhecia limites morais, pois o terreno ético da moralidade havia sido desgarrado, desenraizado de seu solo ético e axiológico. O mundo ocidental produziu uma biopolítica total, de base positivista, que passou a ter no terrorismo a sua única lógica de concretização desse fluxo biopolítico que a era moderna desde o sec. XVI vinha tracejando. O terrorismo se afigura, assim, como a lógica da biopolítica positivista totalitária, pois implementa a crença de que “tudo é possível”, onde o vital, seja genético ou histórico, é o único fluxo consistente e coerente. O homem massificado e despojado de subjetividade só intervém como objeto de um movimento onde já não é mais o protagonista. Sua participação reside apenas como matéria descartável, onde a seleção biológica ou histórica, regida pela lógica tétrica do terror, recairá sobre apátridas, refugiados, judeus e qualquer grupo que aleatoriamente ponha em funcionamento esse fluxo biopolítico onde a única coerência residirá em uma lógica do terror que confere compactação a uma massa indivisa de homens9.
Foi essa sociedade de massas produzida pelo sec. XX que transbordou os limites dos Estados territoriais modernos organizados em moldes liberais de cidadania estatal. A falência do sistema pluripartidário, os custos sociais dos direitos subjetivos organizados no modelo de cidadania que esbarrava nos limites da territorialidade estatal foi o que permitiu a emergência dessa nova forma de governo que, ao romper o último dique de contenção e capilaridade do solo ético, abriu espaço para a lógica do terror, para o paradigma político do campo de extermínio onde a crença do “tudo é possível” pôde se concretizar historicamente através de Auschwitz, revelando os limites e fraqueza de um conceito de cidadania que se amolda nas estreitas fronteiras do Estado-nacional.