Nessa última fotografia, organizamos um detalhamento das mudanças implementadas por Vergniaud Wanderley no chamado Largo da Matriz. No lado esquerdo da imagem, foi realizado o alinhamento das casas recuadas com o prédio do Grupo Escolar Solon de Lucena, visto no fim da linha que traçamos. As casas que indicavam o ponto limite da Rua Floriano Peixoto, que se encontram destacadas na fotografia, foram demolidas para ampliação da rua. Por fim, observamos no último circulo a Igreja do Rosário, onde se localizava o Largo do Rosário, local que também foi derrubado para o melhoramento urbano idealizado pelo então governo municipal.
De acordo com Cavalcanti (2000), essas mudanças na arquitetura da cidade de Campina Grande vieram acompanhadas por um processo violento, arbitrário e ditatorial em nome do moderno. A intenção era adequar a cidade aos padrões estéticos típicos de grandes centros como já eram São Paulo, Rio de Janeiro e outros e minimizar a convivência de conjuntos arquitetônicos opostos.
Tratando dessa ação de Vergniaud em Campina Grande, Cabral filho (2007) vai mais além, destacando que o prefeito, na verdade, procurou copiar o modelo de matriz europeia de urbanização para remodelar e realizar as mudanças na cidade, levando a frente um planejamento técnico.
Diante desse desenho de Campina Grande se modernizando, principalmente no âmbito arquitetônico, entretanto, eram silenciadas outras imagens da cidade entre os anos aqui discutidos, como enfaticamente ressalta o fragmento a seguir:
[...] silêncios eram produzidos para outras possibilidades de expressão ou de desenho da cidade e da vida urbana. Interessava a estas vozes, que buscavam se fazer hegemônicas, a existência de um sem número de sujeitos calados, obedientes, produtivos no seu alheamento, na sua colocação à margem dos eventos realmente eficientes. A estratégia maior era fazer com que este desejo de identificação com a modernidade passasse por ser o desejo de toda a cidade, como se fosse possível canalizar numa única conformação da paisagem a energia dos desejos. (AGRA DO Ó, 2006, p.19)
Em conformidade com Cabral Filho (2007), essas imagens silenciadas eram problemas de saneamento básico, principalmente abastecimento de água, de oferta de melhoramentos nas áreas de saúde e educação, mediante respectivamente aumento no atendimento aos serviços de saúde e ampliação de escolas públicas, com necessidade de diminuição das taxas de analfabetismo na cidade.
Nos anos de 1950,
Campina Grande ainda se vangloriava da riqueza adquirida nos prósperos anos da produção de algodão. Seus intelectuais e jornalistas escreviam sobre ela com um ufanismo só visto nas grandes cidades e metrópoles. As comparações com São Paulo, Chicago, e mesmo Nova Iorque, eram uma constante. Também não era para menos. O município de Campina Grande, de acordo com o censo de 1950 era considerado o 13º do Brasil, em um total de 1.890 municípios. (SOUZA, 2003, p.02)
Nessa década, o desenvolvimento econômico não era somente suficiente para referendar o velho desenho de cidade moderna e progressista, principalmente porque “a luz de Campina quase se apaga [...], pois experienciou crises econômicas e comerciais” no final dos anos de 1950 (CAVALCANTI, 2000, p.75). Assim sendo, outros elementos deveriam se juntar para refigurar a imagem de Campina Grande como civilizada. Nesse sentido, grandes investimentos foram feitos no âmbito cultural e educacional, quais sejam: criação da Escola Politécnica (1952); da Escola Técnica de Comércio de Campina Grande; Fundação para o Desenvolvimento da Ciência e da Técnica (1952); do Colégio Estadual de Campina Grande (1953); da Faculdade de Ciências Econômicas; da Faculdade Católica de Filosofia de Campina Grande; da Faculdade de Serviço Social de Campina Grande, também mantida por religiosos.
Indicando essa representação de Campina Grande recebendo investimento no âmbito intelectual no período em foco, um fragmento do jornal Gazeta da Borborema, de circulação local, assim confirma essa imagem na matéria intitulada Indústria de Germes.
Acusava-se Campina de ser uma cidade de características essencialmente comercial e industrial, sua vida intelectual era tida como inexistente dada a inércia dos homens de letras.
Entretanto, de alguns anos tem-se visto uma verdadeira arrancada intelectual que deixa boquiabertos os que não acreditavam no seu progresso nessa atividade. (Jornal GAZETA DA BORBOREMA, 1957, p. 01)
Mesmo não apresentando elementos que viessem a especificar que arrancada intelectual tenha sido essa, ou melhores detalhamentos dessa largada, a matéria do jornal expõe um provável investimento, ou até mesmo um simples destaque para essa área que até o início dos anos de 1940 não tinha espaço nos relatos ou textos
jornalísticos como campo de progresso na cidade.
É, portanto, nesse contexto da cidade que o Gigantão da Prata é edificado e inaugurado. No que tange a sua localização no âmbito de Campina Grande, o prédio é erguido no bairro denominado Prata (Imagem 1), localizada na zona oeste de Campina Grande-PB e cuja criação foi na década de 1950 quando a cidade passou pelo processo de expansão do seu espaço urbano.
Imagem 1 - Mapa dos Bairros de Campina Grande
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem:Bairros_de _Campina_Grande.svg
É possível observar que o bairro da Prata fica situado muito próximo ao centro da cidade, o que proporcionou considerável desenvolvimento ao mesmo. Segundo Cabral Filho (2007, p. 309-310), o bairro da Prata surgiu com promessas de prosperidade, já sendo vislumbrado como localização nobre, uma vez que foi “espaço onde começaram a fixar residência os abastados locais e também abrigo de importantes instituições: além da Igreja do Rosário; [...]; o Cinema Avenida (1945); e a Casa de Saúde e Maternidade Dr. Francisco Brasileiro (1946)”. Nesse bairro, portanto, faltava apenas uma instituição educacional de grande porte, o que foi concretizado em 1953,
com a segunda instituição de ensino secundário público da Paraíba, que ocupou um vasto espaço nesse bairro, cuja discussão enfatizaremos no item seguinte.
Na década de 1960, a cidade de Campina Grande passou a ter um vasto investimento no âmbito do ensino superior, com a criação da Universidade Regional do Nordeste (FURNE). Consideramos que este investimento foi impulsionado pela demanda da juventude campinense que concluía os estudos de nível secundário, principalmente a partir do Gigantão da Prata, colégio que atendia cerca de dois mil estudantes no seu momento inicial de regular funcionamento. Reforça também este investimento no ensino superior durante esta década as reivindicações apresentadas durante o I Congresso dos Professores Secundários, abordado anteriormente.
4.2 - Uma leitura referente à arquitetura e ao espaço escolar do Colégio Estadual de Campina Grande
Considerando a estrutura física de um lugar como espaço que educa e civiliza, perguntemos: qual valor simbólico apresenta um prédio escolar? Um espaço físico de um colégio pode influenciar no processo educacional dos atores envolvidos nesse processo? Que sentido apresenta a edificação do Gigantão da Prata nos anos estudados?
Essas perguntas nos levam à seguinte discussão. Primeiramente, pensar a edificação de um prédio escolar, sua arquitetura, como uma forma de comunicação simbólica (BOURDIEU, 2010). Por exemplo, em uma localidade é muito fácil identificar um estabelecimento escolar pela sua forma arquitetônica, mesmo em diferentes épocas quando surgem prédios próprios para esse fim. Isso significa que “a função codificou a forma, gerando signos arquitetônicos” para esse tipo de edificação (SALES, 2000, p.44).
Corroborando essa compreensão, Correia (2005), tratando do Colégio Estadual do Paraná do ano de 1943 ao ano 1953, afirma que a arquitetura escolar tem sido entendida como símbolo de diferentes épocas e reveladora de programas de um período político, como foram os principais edifícios escolares no início da República em diferentes estados brasileiros, monumentais e imponentes enaltecendo o novo regime político. Ademais, a arquitetura dos prédios escolares se tornou parte integrante do novo ordenamento urbano desse período. Esses prédios “planejados para que se destacassem em meio aos demais prédios, provocando a admiração daqueles que os observassem” (REIS, 2006, p.77) instituíram uma nova cultura escolar, a da monumentalidade dos
prédios escolares, com uma estruturação específica do espaço, adaptado às funções peculiares do ensino.
Para Sales (2000, p.45), além de disseminar as ideias anteriormente apresentadas a arquitetura de alguns prédios escolares buscava “transmitir esmero, higiene e moralidade”, no sentido de despertar o desejo da população para fazer parte desses estabelecimentos, ou, principalmente estabelecer-lhes um valor.
Bencostta (2005), por sua vez, ao tratar da arquitetura escolar propõe uma discussão dessa arquitetura como meio para se pensar as práticas escolarizadas, mediante a estruturação do espaço escolar.
Na história da arquitetura escolar brasileira, até os anos de 1950, para se edificar importantes prédios escolares em centros urbanos, comumente se elaborava o projeto previamente, por um lado, para desenvolver um planejamento financeiro e, por outro lado, para atender minimamente aos preceitos norteadores de edificações da época. No caso do Gigantão da Prata, isso não foi diferente. Ao implantar um colégio de grande dimensão em uma cidade de ares modernos, como era Campina Grande, o governo lançou mão dessa iniciativa, estreando o projeto arquitetônico no ano de 1948, tendo como autoria o arquiteto Hugo de Azevedo Marques, sendo a construção de responsabilidade da firma “Figueira & Juca”, que tinha sede na capital pernambucana, Recife. Desde essa ação se pode estabelecer o valor simbólico que obteve essa edificação. Vejamos a imagem em panorama do projeto externo da edificação escolar, apresentada no jornal A União, em 1948.