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Os trabalhadores mais jovens concebem as identidades de gênero em relação à divisão das tarefas domésticas um campo onde homens e mulheres podem atuar, com menor comprometimento do senso de masculinidade. Ambos podem participar das esferas produtivas e reprodutivas do ambiente familiar. Além disso, o casamento, enquanto instituição familiar, apesar de ainda ser encarado como o comportamento “correto e normal”, tem dado espaço aos projetos individuais de cada um, o que tem aberto espaços de discussão e favorecido o estabelecimento de relações mais centradas na possibilidade de desenvolvimento individual de ambos os membros (esposo e esposa), o que se pode traduzir em oportunidades recíprocas.

Ao que parece, a instabilidade no trabalho e a busca por satisfação pessoal tem sido acompanhado por um novo ideário de homem e família, que identifica o homem, não como simples provedor, pelo menos na esfera do ideal, já que a maioria dos trabalhadores deste grupo são solteiros.

Eu não acho que o que faz um homem é sua capacidade de sustentar uma família. Se a vida ta difícil, ela ta difícil pra todo mundo, homens e mulheres. Também acho que se minha esposa [Aloísio é solteiro] conseguisse um trabalho que deixasse ela feliz, só ia me dar mais incentivo pra eu fazer o mesmo (Aloísio, 25 anos, montador).

Além disso, o trabalho feminino tende não mais ser identificado enquanto simples e desqualificado, ou associado a tarefas domésticas. Ao contrário, parece haver um aumento de mulheres em ocupações antes tidas como masculinas, tanto no ambiente de trabalho quanto doméstico.

O discurso de Vera, 27 anos, casada, mecânica, filha de pai vigia noturno e mãe costureira, pode ser um exemplo que nos subsidia fazer a inferência sobre mudanças sensíveis na divisão sexual do trabalho. Vera diz que seu sonho sempre foi mexer com máquinas, “com graxa mesmo”. Com cursos em Técnico em mecânica pelo SENAI, computação e metrologia, Vera entrou na fábrica, ainda como montadora, e só depois de um ano virou mecânica, graças à indicação de um amigo que se tornou chefe do setor de manutenção. Na época da entrevista, Vera trabalhava na manutenção de lâminas, colocação de peças nas máquinas, etc., Isso significava, segundo ela, trabalho bem sujo e pesado. Além disso, afirmou que ainda sofria preconceito, principalmente de mulher, por trabalhar numa função que era desenvolvida sempre por homens.

Sofro muito preconceito, porque mulher não gosta de se sujar, quer ficar sentadinha, limpinha, bonitinha. E o meu é um serviço sujo. Para o homem sempre foi normal, mas as mulheres não acham isso, porque o meu serviço é um serviço pesado. Mas se algumas mulheres tivessem vontade, qualquer uma daria conta de desempenhar (Vera, 27 anos, mecânica).

Em sua casa, disse que as tarefas domésticas são divididas igualmente (o marido de Vera também é metalúrgico e tem 29 anos). Porém, uma característica que chamou atenção, foi o fato de Vera ser a responsável em casa por pequenos consertos na casa, como consertar torneira, subir no telhado para consertar uma eventual telha quebrada, etc. O cuidado com os filhos foi dito ser função compartilhada. Segundo ela, apesar da criança “necessitar mais da mãe”, o marido deve ajudar. Por fim, cabe destacar que o salário de Vera é maior do que o de seu marido.

O comportamento de Vera pode não ser uma exceção. Nilmar, 24 anos, montador, tem um discurso que se parece ao de Vera. Nilmar mora com o pai, uma tia divorciada, e dois primos pequenos. Sua mãe saiu de casa quando ele ainda era adolescente e nunca mais deu notícias. Desde então, Nilmar assumiu as responsabilidades da casa. Há cinco anos, quando sua tia se divorciou, Nilmar passou, também, a ser responsável, tanto economicamente, como pelos cuidados para com os primos. Disse que seu pai não aceita o fato dele realizar tarefas como, trocas de fraldas, passar roupas, ajudar nas tarefas escolares, limpar a casa, fazer comida, e ajudar a sustentar as crianças. Como sua tia trabalha, Nilmar não vê problemas em ajudar no cuidado dos primos.

Discuto muito com meu pai sobre isso [o fato de ele realizar tarefas domésticas]. Como minha mãe saiu de casa eu aprendi na marra a fazer as coisas. Não vejo problema nenhum nisso. Se eu tivesse dinheiro, ou outra fonte de renda preferia poder ficar perto das crianças. Gosto deles! Já pensou o que meu pai ia achar se eu parasse de trabalhar e ficasse em casa cuidando da casa e dos meninos? Mas eu não ligaria não! (Nilmar, 24 anos, montador).

Vera e Nilmar realizam tarefas, que do ponto de vista hegemônico, são inversas. Consertos de casa e atividades de manutenção sempre foram vistos como tarefas masculinas. Por outro lado, trocas de fraldas, passar roupa e fazer comida sempre fizeram parte do universo feminino. Ainda que para eles realizar tais tarefas já fizesse parte de suas realidades,

eles ainda se sentem, como disse Nilmar, “fora da ordem”, ou seja, percebem sentimentos de pena ou indignação das pessoas do seu círculo social.

Minha mãe me acha “Maria João” e vive dando indireta que falta homem em casa. Ela acha um absurdo eu ser mecânica, mas o que ela critica mais é o fato de que mesmo após o nascimento do nosso filho eu continue trabalhando, e fazendo coisas em casa que ela acha diz que meu marido que deveria fazer (Vera, 27 anos, mecânica).

Nilmar não sofre preconceito apenas de sua família nuclear, mas também de vizinhos, e colegas do trabalho:

A vizinha me olha estranho e outro dia perguntou porque eu faço coisas que são obrigações da minha tia. No trabalho, não sou de sair muito, por isso sou apelidado de “patroa”. O ex-marido da minha tia acha que vou ser um mau exemplo pros meninos. Diz que eles não vão querer trabalhar, porque vão achar que homem tem que cuidar de casa! E não tem? Agora eu te pergunto: eu tomo conta dos meninos, cuido com carinho e ele nem aparece e vive no bar, e eu que sou mau exemplo? (Nilmar, 24 anos, montador).

Pelo menos no discurso, nossos entrevistados mais jovens parecem estabelecer uma divisão sexual do trabalho mais equânime. Apesar das mudanças nos espaços domésticos, como no caso de Vera e Nilmar parece que a atitude de outros trabalhadores mais jovens, como visto anteriormente, muitas vezes, é uma resposta dos maridos, face às demandas feitas por suas mulheres, para que se envolvam mais ao mundo doméstico e ao cuidado com os filhos.

Em relação às tarefas domésticas, o termo “ajuda” ou “colaboração” outorga um caráter mais recreativo do que identitário aos homens, de maneira que sua masculinidade nunca leva em consideração o cuidado com os filhos, ou com a casa de um modo geral (com

exceção de Nilmar). Segundo Vera para seu filho se tornar um homem “é preciso que ele estude e tenha uma profissão, mas que não se esqueça que sua esposa também poderá querer ter uma profissão”.

O que parece, é que um fator que influencia as transformações na percepção de gênero em relação à divisão sexual do trabalho é um discurso social de igualdade entre homens e mulheres que tem incentivado o questionamento das identidades de gênero, possibilitando concepções diferentes sobre o papel masculino e o feminino em relação ao trabalho. Além disso, a maior presença das mulheres num mercado de trabalho flexível que exige comportamentos mais flexíveis, parece influenciar a percepção dos trabalhadores com efeitos diretos na identidade masculina. Isso porque tem se germinado novas formas de relação familiar que junto aos contatos a novas formas de inserção familiar – laboral (através do discurso midiático, apesar de ainda muito conservador, ou mesmo por contatos diretos), tem se configurado um novo tipo de arranjo perceptivo.

5 CONCLUSÕES

A bibliografia mais recente sobre o mundo do trabalho, em especial a literatura que leva em consideração a indústria metalúrgica tem apontado para profundas transformações produtivas e organizacionais que tem afetado o emprego e a mão-de-obra de forma intensa.

No Brasil, o processo de reestruturação produtiva começa a se manifestar a partir da crise do modelo de desenvolvimento econômico nos anos 70, e atinge de maneira considerável a indústria metalúrgica a partir de então. Todavia, é nos anos 90, que ela ganha amplitude, com inovações técnicas e organizacionais num caráter mais sistêmico, de forma a implicar em profundas transformações no perfil da mão-de-obra, como por exemplo, o aumento do número de mulheres trabalhando nas empresas metalúrgicas e, mais ainda, em funções antes tidas como predominantemente masculinas.

Há que se ressaltar, entretanto, que a literatura sobre o trabalho, pelo menos a exposta nesta tese, tem tratado o tema das relações de gênero de forma homogênea, onde há a predominância do discurso de precarização do trabalho da mulher, com enfoque na presença de guetos ocupacionais que poderiam explicar o desfavorecimento da mão-de-obra feminina (HIRATA, 2002; ABRAMO, 1998; CONSONI, 1998; POSTHUMA, 1998; LAVINAS, 1997), em detrimento de estudos que levem em consideração as dimensões simbólicas do trabalho como um todo, especialmente, sobre a percepção a respeito do trabalho do homem, a partir de uma perspectiva identitária.

Nestes termos, observamos que se tem dado preferência aos estudos quantitativos ou mesmo estudos qualitativos, mas que sempre levam em consideração o trabalho específico da mulher. Contudo, algumas questões estão começando a aparecer no debate, como por exemplo, a construção das identidades (principalmente do homem) no ambiente de trabalho.

Além disso, apesar de alguns dados tenderem a divergir em relação às novas oportunidades trazidas pelo fenômeno de reestruturação produtiva em relação ao emprego feminino e masculino (quem tem perdido mais com isso?), o que nos gera a dúvida de que tem sofrido mais com essas mudanças, novas abordagens, que levem em consideração, como propõem Araújo et al (2004), a especificidade de setores e grupos e os aspectos simbólicos a eles relacionados têm surgido no debate e nos estimulado a diversificar nossa análise.

Abordamos nesta tese, também, as principais transformações na atribuição do trabalho nos espaços domésticos devido à inserção da mulher no mercado de trabalho. Vimos que ainda há a persistência de desigualdades na distribuição de atribuições das tarefas, ainda que seja possível observar algumas mudanças mais recentes. A observação de que tem havido alterações na estrutura da divisão sexual do trabalho, nos obrigou a tratar das esferas da construção das identidades masculinas atreladas, especialmente, no âmbito do trabalho.

Observamos que o conceito de identidades (escolhido em detrimento do conceito de papéis, por demonstrar o caráter mutável daquela) tem sido entendido na sociologia enquanto construções sociais e históricas que podem variar com o tempo e a sociedade em que o indivíduo se insere. Essa abordagem permite entender a identidade masculina como algo dinâmico, que tem sofrido alterações (o que se vive é um período de mudança e transição para novas formas de masculinidade, ou seja, novas relações ainda não inteiramente configuradas), pois falar em crise denotaria corroborar com um discurso preconceituoso e conservador que colocaria a masculinidade num altar, que teria que ser alcançado por todos os indivíduos. No entanto o que vimos foi justamente o caráter volátil da masculinidade.

Pudemos chamar a atenção para o fato de que as masculinidades são construídas historicamente e sido socialmente entendidas de diferentes formas, o que torna necessário a análise contextual de grupos específicos para que não incorramos no equivoco de tratar a

identidade masculina como única e incontestável. Dessa forma, cabe ressaltar que o significado atribuído a um dado evento varia enormemente de um indivíduo para outro, de maneira que o mesmo contexto pode produzir histórias diferentes, “ligando biografias através de especificidades contingentes” (BRAH, 2006, p. 362).

Assim, a categoria ‘classe trabalhadora’ (com a qual trabalhamos) não se destaca, simplesmente por designação a determinadas situações socioeconômicas e políticas, mas também por determinados sistemas de significação e representação, entendidas enquanto “trajetórias históricas e contemporâneas das circunstâncias materiais e práticas culturais que produzem as condições para a construção das identidades de grupo” (BRAH, 2006, p. 363).

A análise qualitativa dos trabalhadores metalúrgicos da cidade de São Carlos, em que pese suas trajetórias familiares e mais especialmente suas trajetórias laborais, nos permitiu fazer certas inferências acerca das inter-relações existentes entre o contexto organizacional do mercado de trabalho e a forma como os trabalhadores organizam sua vida privada, mais especialmente, a divisão sexual do trabalho, principalmente doméstico, e a percepção em relação às mudanças na identidade de gênero, principalmente a identidade masculina.

Foi possível observar, que há um recorte geracional claro, que delimita a posição dos trabalhadores em relação à divisão do trabalho e sua expectativa em relação à sua identidade de gênero. Notamos que os trabalhadores mais velhos (com mais de 40 anos de idade), inseridos no mercado de trabalho formal já há algum tempo (os entrevistados tinham, em média, dez anos de trabalho na mesma empresa) e envolvidos de maneira mais intensa, numa conjuntura taylorista/fordista de maior acesso ao mercado de trabalho, ainda vêem no mercado de trabalho, estável e com carteira assinada, a via de ingresso privilegiada na estruturação laboral/familiar e na construção e valorização da identidade masculina. Nestes

termos, a divisão sexual do trabalho é clara: homem–trabalhador versus mulher-dona-de-casa e a masculinidade se alicerça de maneira intensa no papel de provedor do marido.

Entre os trabalhadores na faixa dos 30 aos 39 anos de idade verificou-se a presença de um discurso de igualdade entre homens e mulheres, um pouco maior do que entre os trabalhadores mais velhos. Foi possível encontrar casos em que a mulher é aceita no trabalho em determinadas circunstâncias, especialmente quando em conjunturas de crises econômicas, ou arrocho no salário do marido. Neste caso, foi possível identificar em algumas das entrevistas o incentivo à controvérsia sobre os papéis de gênero tradicionais, além do reconhecimento do valor do trabalho da mulher em alguns casos, talvez por uma atitude um pouco mais crítica e reflexiva frente à realidade social, que têm favorecido certas objeções aos diferentes sistemas de desigualdade e de relações de gênero (Godoy, 2001). Há que se ressaltar dessa forma que, devido às principais transformações no mundo do trabalho, como por exemplo, a inserção laboral feminina como um todo, junto à crise do modelo

taylorista/fordista pode ter havido o favorecimento do contado dos trabalhadores com

experiências de vida variadas que confrontam os sujeitos a diferentes estilos de ser. Entretanto, apesar do discurso híbrido que orientou a fala de nossos entrevistados nessa categoria, a masculinidade parece ainda pautar-se de maneira extremamente forte em relação ao trabalho público e produtivo do homem, denotando poucas rupturas com o modelo dos homens e mulheres mais velhos.

Finalmente, encontramos jovens trabalhadores que se inserem de maneira mais ampla numa lógica de transformações do mundo do trabalho, sobretudo os processos de flexibilização, subcontratação, terceirização e trabalho instável. Parece que essa expansão de novas formas de trabalho tem gerado uma maior mobilidade laboral com crescente instabilidade nas formas de trabalho e emprego onde os trabalhadores já não se encaixam num

modelo único de trabalho como projeto de vida. Nesse contexto, observamos o discurso de novas relações laborais, fixadas de formas distintas, o que talvez esteja levando a uma individualização das relações de trabalho, onde o próprio trabalhador acaba tendo o sentimento de responsabilidade por sua própria empregabilidade. Junto a isso, a idéia de que um novo modelo familiar é possível.

Ao que parece, esse contexto tem influenciado algumas transformações na percepção de gênero em relação à divisão sexual do trabalho e um discurso social de igualdade entre homens e mulheres que tem incentivado o questionamento da construção da masculinidade relacionada ao homem provedor. Além disso, a maior presença das mulheres num mercado de trabalho que se mostra flexível e que exige comportamentos mais flexíveis, parece influenciar a percepção dos trabalhadores com efeitos diretos na identidade masculina. Isso porque tem se germinado novas formas de relação familiar que junto aos contatos à novas formas de inserção familiar–laboral tem-se configurado um novo tipo de arranjo perceptivo onde a masculinidade também se caracteriza por valores relacionadas à adaptação a um ambiente que se apresenta agressivo sem, contudo, abandonar, quase que para todos, a esfera de trabalho enquanto fator preponderante na construção da identidade masculina.

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Benzer Belgeler