1 GİRİŞ
1.1. Elektro Lif Çekimi ile Nanoliflerden İplik Üretim Yöntemleri
Vejamos como Nietzsche trata a interpretação mecânica do mundo. Ela pode nos dar algumas pistas que nos ajudem a responder sobre o fundamento da vontade de poder. Diz o filósofo no aforismo 22 de Além do bem e do mal:
“Não se deve coisificar erroneamente ‘causa e efeito’, como fazem os pesquisadores da natureza (e quem, assim como eles, atualmente ‘naturaliza’ no pensar -), conforme a tacanhez mecanicista dominante, que faz espremer e sacudir causa, até que ‘produza efeito’; deve-se utilizar ‘causa’, o ‘efeito’, somente como puros conceitos, isto é, como ficções convencionais para fins
de designação, de entendimento, não de explicação. No ‘em si’ não existem ‘laços causais’, ‘necessidade’, ‘não-liberdade psicológica’, ali não segue ‘o efeito à causa’, não rege nenhuma ‘lei’. Somos nós apenas que criamos as causas, sucessão, a reciprocidade, a relatividade, a coação, o número, a lei, a liberdade, o motivo, a finalidade; e ao introduzir e entre mesclar nas coisas esse mundo de signos, como algo ‘em si’, agimos como sempre fizemos, ou seja, mitologicamente”.
A citação é clara: o que quer que o filósofo, o cientista ou o historiador façam de suas pesquisas e sistemas filosóficos jamais poderá imputar-lhes, através do método de causa e efeito, características essenciais às suas conclusões. E por que motivo? Porque a mecânica reduz o mundo à “superfície” para fazê-lo “compreensível”. A mecânica é propriamente só uma arte de esquematizar, uma dominação da multiplicidade pela expressão (MÜLLER-LAUTER, 1997, p. 108). Seu objetivo não é o entendimento, mas a comunicação, melhor dizendo, designar para melhor comunicar. No universo mecanicista dos pensadores que fortalecem a “causa mecanicista” há muito de preconceito psicológico, há muita subjetividade oculta. Por exemplo: a falsa percepção do “sujeito-unidade-eu” acaba sendo fixada na idéia do átomo, no conceito de coisa, na “subjetividade” do conceito mecanicista do movimento, da atividade (ser-causa e atuar) etc.
Isto vale também para a linguagem. A linguagem como ‘primeira etapa no esforço da ciência’, vale dizer, também não tem o poder de apreender o real das coisas, o “essencial” – o essencial, nesse caso, como algo que não tem correspondência com a realidade. Todavia a linguagem proporcionou aos seres humanos representações do real, que lhes permitiram dar sentido às coisas, tornar-los “senhores das coisas”. Como exposto nesta passagem, em sua Gaia ciência:
“O conhecimento opera como instrumento de poder.(...) A utilidade de sobrevivência, e não qualquer uma necessidade teórica de não ser enganado, é o que existe como motivo por trás do desenvolvimento dos órgãos gnosiológicos... ela se desenvolve de tal maneira que a sua observação basta para nos sustentar. Em outros termos: a medida do querer depende da medida do crescimento da vontade de poder da espécie: uma espécie capta, captura e concebe um tanto de realidade para se tornar soberana dela, para tomá-la a seu serviço” (NIETZSCHE, 2007a, p. 79)15.
15 Ou seja, uma determinada espécie, por não dispor de meios especializados de auto-preservação
como outras espécies, acaba por desenvolver outros instrumentos de sobrevivência. No caso do ser humano: a linguagem e, consequentemente, o conhecimento: “O fato de nossas ações, pensamentos, sentimentos, mesmo movimentos nos chegarem à consciência – ao menos parte deles -, é conseqüência de uma terrível obrigação que por longuíssimo tempo governou o ser humano: ele precisava, sendo animal mais ameaçado, de ajuda, proteção, precisava de seus iguais, tinha de saber exprimir seu apuro e fazer-se compreensível. (...) a consciência não faz parte realmente da existência individual do ser humano, mas antes daquilo que nele é natureza comunitária e gregária” (idem, p. 249). Daí o argumento defendido pelo
Se eliminarmos todos os ingredientes de nossa errônea concepção subjetivista da teoria mecanicista, diz Nietzsche:
“não resta coisa alguma, mas sim quantidades dinâmicas, em uma proporção de tensão em relação a todas as outras quantidades dinâmicas: seu ser [Wesen] consiste em sua proporção a todas as outras quantidades, em seu ‘atuar’ [‘Wirken’] sobre as mesmas” (NIETZSCHE, 2008a, p. 325).
Não existem outras forças atuando que não sejam quantidades determinadas de poder. Ou seja, o que é digno de se conhecer está muito além da mera construção de causa e efeito. O que nos importa esclarecer é que Nietzsche não considera manifestamente a explicação mecanicista do mundo um “texto”, ou seja, uma explicação convincente da realidade em si, um estado em si da natureza, ela é apenas interpretação. Ora, mas se a teoria mecanicista da natureza não passa de interpretação, que dizer da teoria da vontade de poder? Não seria ela também uma interpretação? Se admitirmos tudo que foi dito até o momento nos é forçoso concluir que a teoria da vontade de poder é também interpretação. Quem concede tal proeminência ao interpretar nos convida a analisar o próprio ato interpretativo. A pergunta passa agora a não ser mais sobre o conteúdo mesmo das teorias acima expostas, mas sobre o próprio interpretar. O que é interpretar em Nietzsche? Com efeito, vamos admitir a tese de Jaspers citada por Müller-Lauter segundo a qual, para Nietzsche,
“a teoria de todo ser-do-mundo como mero ser-ex-posto, do saber do mundo como uma respectiva ex-posição, teoria que teria sido obtida a partir de uma transformação da filosofia crítica de Kant. O movimento infinito do ex-por parece chegar a uma espécie de completude na auto-apreensão desse ex-por: na ex-posição das ex-posições. A ex-posição de Nietzsche, que sabe que todo saber é ex-posição, recolheria esse saber em sua própria ex-posição por intermédio do pensamento de que a própria vontade de poder seria o impulso onipresente e atuante , infinitamente diverso, do expor. A ex-posição de Nietzsche é, de fato, uma ex-posição do ex-por e, por isso, distinta, para ele, de todas as ex-posições anteriores, ingênuas em comparação com ela, que não tinham autoconsciência do seu ex-por” (JASPERS apud MÜLLER- LAUTER, 1997, p. 123).
filósofo de que os processos do conhecimento também são processos orgânicos, dispostos no corpo e hierarquicamente. Já havíamos comentado brevemente a respeito disso anteriormente, mas importa dizer aqui que não se trata da elaboração de uma espécie de “naturalismo à Darwin”. Nietzsche não tinha a menor pré-disposição em concordar com as teorias de Darwin que, para o filósofo, estavam totalmente fora dos padrões de aceitabilidade de sua linha de pensamento. Na realidade o naturalista inglês cometia um erro crasso: segundo Nietzsche, o de que “o ser humano como espécie não constitui nenhum progresso em relação a qualquer outro animal” (idem, p. 39,), mas ao contrário os “tipos inferiores” é que encerravam uma “imortalidade aparente”. Ou seja, crer no naturalismo de Darwin é apenas uma “ilusão ótico-moral”, como determinou o filósofo alemão.
A citação acima parece confundir mais do que explicar, dado o uso excessivo de neologismos, mas o entendimento não fica totalmente comprometido. Reparem o uso da palavra ingênuas no contexto descrito por Jaspers, ele nos será útil. Vamos tentar antes entender a citação. Para Nietzsche todo saber é “ex-por”, isso parece claro. E isto vale – o “ex-por” – tanto para a teoria da vontade de poder como para as demais. Mas Nietzsche não queria igualar sua teoria às demais, sua pretensão era superá-las. Qual a diferença, então? Jarspers já o disse: a ex-posição de Nietzsche sabe que todo saber é ex-posição e, portanto, é uma “ex-posição” da “ex-posição” distinta das demais.
Cada ex-posição significa uma interpretação da vontade de poder, o que se segue é que as vontades de poder interpretam. Estas “ex-posições” não se dão somente no saber, no juízo, na percepção, elas se aplicam em todo acontecimento. Para termos uma noção mais exata do que Nietzsche quis dizer com as “vontades de poder interpretam” vejamos como isso se dá, segundo o próprio Nietzsche, dentro do mundo anorgânico.
“A vontade de poder interpreta: na formação de um órgão trata-se de uma interpretação; ele delimita, define graus, diferenças de poder. Meras diferenças de poder ainda não poderiam sentir a si mesmas como tais: há de existir um algo que quer crescer, que interpreta cada outro algo que quer crescer a partir de seu valor. Nisso não são iguais – Na verdade, interpretação é um meio próprio de assenhorear-se de algo” (NIETZSCHE, 2008a, p. 328).
Não podemos deduzir que as vontades de poder são sujeitos cujo interpretar seja delas predicável; somos tentados gramaticalmente a isso, mas não se trata disso. Todo interpretar é um processo no sentido de vir-a-ser e não no sentido de permanência. Vontades de poder não são entes metafísicos, elas existem e só existem na medida em que se expandem, ou seja, quando se fazem perceber como vontades de poder, quando acontecem como vontades de poder. O Interpretar não possui existência concreta, o interpretar é apenas o processo por que cada vontade de poder se contrapõe a outras vontades de poder. Ora, se não existe permanência, mas só vir-a-ser, só processo e, portanto, só interpretar nas vontades de poder, Nietzsche é forçado a recusar fatos, numa clara contraposição ao positivismo, e a só aceitar interpretações. O mundo encerrará em si uma quantidade infinita de interpretações.
Este perspectivismo refletirá também na própria filosofia nietzschiana, pois ela mesma não poderá dispor de nenhum critério de legitimação. Se a explicação mecanicista do mundo não passa de mero interpretar e se todas as demais explicações também o são, a exposição de um universo governado por uma soma de forças também será. Com efeito, tamanho relativismo engoliria a própria proposta filosófica do autor.
Em face disso, como Nietzsche pode pretender que sua explicação de mundo seja superior as demais? O critério adotado por Nietzsche é o de intensificação de poder. Como assim? Se uma explicação serve a intensificação de poder ela se torna mais verdadeira do que aquelas que conservam a vida16 e tornam-na mais suportável ou lhe justifique a fraqueza, enfim, que conduzem à vida ao fenecimento e à doença. Müller- Lauter sabiamente escreve a esse respeito:
“o único critério para a verdade de uma exposição da efetividade consiste se e em que medida ela está em condições de se impor contra outras ex- posições. Cada ex-posição tem tanto direito quanto poder. A compreensão da perspectividade de todas as interpretações, a que conduz a ‘doutrina da vontade de poder’ de Nietzsche, pode, por isso, propiciar aos que são fortes em poder a ‘boa consciência’ para a incondicional imposição de seus ‘ideais’. Ora, outros ‘ideais’ de outras vontades de poder, pertencentes a outras perspectivas, se contrapõem ao querer deles. Não lhes são prescritos valores que os vinculem. Pois uma tal vinculação pressuporia, decerto, uma autoridade fixadora, transcendente ou imanente ao mundo. No entanto, só a vontade de poder subjugadora tem, a cada vez, autoridade” (MÜLLER- LAUTER, 1997, p. 131).
Em que o critério da vontade de poder como autoridade expositiva do mundo nos ajuda neste momento? Tomando como critério o diagnóstico da “morte de Deus” o balanço feito até agora sobre a teoria da vontade de poder como ex-posição da exposição revela o quão profundamente eclipsados estamos – e quando eu uso o pronome “nós” aqui, refiro-me ao Ocidente moderno e seus valores culturais em geral – sob a sombra rediviva de “Deus” nas modernas teorias ocidentais a despeito de sua já anunciada despedida moral. Sobre este último ponto, a saber, a despedida moral de Deus, será tratada no próximo tópico.