O zooplâncton é composto de consumidores primários (herbívoros) e predadores de diferentes níveis tróficos que variam desde 0,004 cm a 2,5 cm ou até mais e que vivem flutuando na água, possuindo movimentos próprios, porém, com capacidades natatórias limitadas, sendo incapazes de vencer contra correntes (MATSUMURA-TUNDISI & TUNDISI, 2005). A comunidade zooplanctônica de água doce é constituída por três grupos principais de animais: os rotíferos, microcrustáceos (copépodos, cladóceros e ostrácodos), vermes (nematódeos) e diversas larvas, como as de insetos (SIPAÚBA-TAVARES, 1994).
Estes organismos estão na base da cadeia alimentar dos ecossistemas aquáticos, sendo o elo entre os produtores (fitoplâncton) e os consumidores maiores da cadeia alimentar e, devido a seu elevado metabolismo, são capazes de influenciar processos ecológicos fundamentais, como ciclagem de nutrientes e magnitude da produção biológica (ESTEVES, 1998). A comunidade zooplanctônica possui grande sensibilidade ambiental e seus indivíduos respondem a diversos tipos de impactos, tanto pela alteração quantitativa de suas populações quanto na composição e diversidade da comunidade (COELHO-BOTELHO, 2004).
De acordo com Rocha et al. (1995), os rotíferos dominam o zooplâncton da maioria dos lagos, tanques, reservatórios e rios do Brasil em densidade e número de espécies. Isto se deve provavelmente ao fato destes organismos consumirem uma variedade de espécies fitoplanctônicas, detritos e bactérias, com dietas variando entre espécies distintas ou uma única espécie (STARKWEATHER, 1980).
Os cladóceros são utilizados como alimento principalmente por larvas de peixes, com destaque para as espécies pertencentes ao gênero Moina e Daphnia, devido ao seu alto valor nutricional (SIPAÚBA-TAVARES & ROCHA, 2001). São muito importantes na transferência de energia através da cadeia alimentar de ambientes lênticos, já que atingem a maturidade em pouco tempo e por possuírem boa reprodução. A retirada desses filtradores pode interferir de forma negativa na qualidade da água (BERNARDI et al., 1987).
Os copépodos são extremamente numerosos no plâncton dos ambientes aquáticos, ocupam posição intermediária na rede alimentar entre o fitoplâncton e detritos de um lado e os consumidores de grande porte do outro. O conhecimento sobre a dinâmica dos microcrustáceos
contribui para o melhor entendimento da comunidade zooplanctônica como um todo e do funcionamento do ecossistema aquático.
O zooplâncton distribui-se de forma não homogênea em seu habitat e exibe padrões diferentes de segregação espacial, os quais, às vezes, podem sofrer alterações no decorrer de algumas horas (PINTO-COELHO, 2003) A comunidade zooplanctônica possui movimentos de migração vertical tanto em ambientes marinhos como de água doce, e dependem de vários fatores tais como local, estação, idade e sexo dos organismos (COSTA, 1998).
A análise da diversidade de espécies do zooplâncton refere-se ao estudo das relações quantitativas entre riqueza e abundância de táxons dentro da comunidade. Existem espécies que predominam na região litorânea (próximo à margem) e vivem na maioria das vezes associadas à vegetação (macrófitas) enquanto outras habitam preferencialmente a região limnética (pelágica) onde geralmente ocorre uma menor riqueza de espécies. Muitas espécies também são utilizadas como indicadoras do grau de trofia do ambiente.
O estudo do zooplâncton possui um papel importante no biomonitoramento dos ecossistemas aquáticos, pois as espécies desta comunidade apresentam grande sensibilidade ao ambiente e respondem a diversos tipos de impactos tanto pela alteração na quantidade de organismos como na composição e diversidade da comunidade (COELHO-BOTELHO, 2004). Esses organismos também constituem a unidade básica de produção dos ecossistemas aquáticos.
O zooplâncton desempenha um papel fundamental na rede trófica, transferindo a energia produzida pelos produtores até os níveis tróficos superiores, como por exemplo consumidores secundários ou terciários representados pelos peixes. Um dos fatores preponderantes na criação de peixes comerciais e muitas vezes responsável pelas flutuações observadas nas suas populações é a disponibilidade de alimento vivo de tamanho adequado, e em densidades suficientes, durante a alimentação dos alevinos (ROCHE & ROCHA, 2005). Então torna-se cada vez mais importante conhecer não só a ecologia das espécies zooplanctônicas, como estimar sua produtividade, para se avaliar o papel desta comunidade no funcionamento dos ambientes aquáticos.
1.4 Biomassa
A biomassa reflete a quantidade de matéria orgânica nos organismos por unidade de área ou volume e também fornece uma medida integradora para a análise da estrutura do ecossistema, independente da composição taxonômica (BONECKER et al., 2007). Segundo Pinto-Coelho (2003), a biomassa zooplanctônica é de fundamental importância para o conhecimento ecológico da participação de cada grupo na comunidade e para o estudo da estrutura trófica do ecossistema.
Alguns autores investigaram a biomassa do zooplâncton em reservatórios brasileiros (ESTEVES & SENDACZ, 1988; MATSUMURA-TUNDISI et al., 1989; SANTOS- WISNIEWSKI, 1998; MELÃO & ROCHA, 2000; SENDACZ et al., 2006; SANTOS- WISNIEWSKI & ROCHA, 2007;). Os estudos realizados nestes ambientes têm apontado um predomínio numérico de organismos de pequena massa, como os rotíferos, e uma maior contribuição para a biomassa dos organismos maiores, como cladóceros e copépodos. Além disso, o aumento da biomassa zooplacntônica tem sido frequentemente associado ao aumento do nível de trofia dos ambientes aquáticos (ROBARTS et al., 1992; MELÃO, 1997; RIETZLER et al., 2004; BONECKER et al., 2006).
Apesar de a biomassa zooplanctônica ser considerada uma estimativa mais precisa e mais realista do que a da densidade numérica, quando são realizados estudos comparativos entre diferentes ambientes esta não reflete necessariamente a taxa de produção de novo material ou a taxa pela qual a energia está sendo processada (MATSUMURA-TUNDISI et al., 1989). Desta forma, a produção gerada pela biomassa presente num dado ambiente é uma medida mais realista da contribuição de cada um dos componentes para a retenção de energia e matéria dentro da comunidade (MELÃO, 1999).
1.5 Produção
A produção secundária pode ser entendida como uma etapa final ou síntese de todos os processos envolvidos no consumo, transformação e utilização da matéria orgânica pelos consumidores e é quantificada como o incremento em biomassa por unidade de tempo
(SANTOS-WISNIEWSKI, 1998; PANARELLI, 2004).
A produção secundária é considerada a base para o entendimento da organização das comunidades naturais em termos de matéria e energia, sendo o processo mantenedor da abundância e estrutura da comunidade (MELÃO, 1999). Adicionalmente a produção secundária é também considerada um canal para o fluxo de massa e energia através dos níveis tróficos e o mecanismo por meio do qual as populações garantem sua existência e permanência (SANTOS- WISNIEWSKI, 1998).
A produção secundária pode ser abordada a partir de dois enfoques principais: a fisiológica e a da dinâmica populacional. A primeira é baseada em experimentos de laboratório que estudam os processos metabólicos; a segunda utiliza taxas de reprodução e mortalidade e a estrutura das populações em termos de idade e tamanho (ROCHA & MELÃO, 2001).
Lindeman (1942) realizou o primeiro trabalho que serviu de base para estudos de produção secundária, estabelecendo a importância das informações sobre os processos dissipativos de excreção e respiração. Ele concluiu que as vias de herbivoria e predação são mais importantes que a de detritos na rede trófica dos ecossistemas aquáticos.
As características populacionais, incluindo biomassa, idade, longevidade, número de gerações produzidas e tamanho do corpo das espécies individuais, entre outros fatores, afetam a produtividade secundária nos ambientes aquáticos (SORANNO et al., 1993; RIETZLER et al., 2004). Diversos fatores ambientais influenciam a produtividade secundária dos organismos planctônicos: o regime climático, as variáveis hidrobiológicas de cada sistema aquático, além das interações biológicas como predação e competição (MAIA-BARBOSA, 2000).
Os trabalhos sobre o conhecimento da dinâmica de população e das características do ciclo de vida das espécies são fundamentais no processo de produção secundária da comunidade zooplanctônica.