Nos estudos sobre tradução inevitavelmente iremos nos deparar com alguns debates que giram em torno da problemática da tradução “palavra por palavra” e “sentido por sentido”, que parece ter se originado desde os romanos e que perdura até nossos dias, seja qual for o nome que essas oposições assumam: tradução literal vs tradução livre, tradução fiel vs tradução criativa ou, como sugere Rodrigues (2000, p. 15), “equivalência formal em oposição à “equivalência dinâmica”, numa clara alusão aos estudos de Eugene Nida (1964).
Na Antiguidade Clássica, Cícero e São Jerônimo (340-420), este último patrono da tradução e responsável pela Vulgata, tradução da Bíblia para o latim, já discutiam sobre o modo de traduzir. Jerônimo destacou-se ao apresentar suas ideias sobre a experiência de traduzir nos prefácios de suas traduções, sendo ele o primeiro a fazer distinção entre tradução sacra, ou literal, e tradução profana, ou livre. Nesta última, ele confessava fazer interferências no texto fonte, em nome da preservação do sentido. Na verdade, o que Jerônimo fez foi adotar as idéias de Cícero sobre a preservação do sentido na tradução, conforme vemos no fragmento abaixo, quando Cícero comenta sua própria tradução de Demóstenes, segundo atesta Friedrich (1992, p. 12):
Eu traduzo idéias, suas formas, ou como poderíamos dizer, seus formatos; entretanto, traduzo-as para uma língua que esteja em consonância com nossas convenções de uso (verbis ad nostram consuctudiem aptis). Por isso, não preciso fazer uma tradução palavra por palavra, mas antes, uma tradução que reflita as características estilísticas gerais (genus) e o sentido (vis) das palavras estrangeiras. [De optimo genere oratorum]
Na verdade, já naquela época, os tradutores perceberam que eles não deveriam violar o latim, língua de chegada; se fosse o caso, que se violasse o grego. E passaram a se apropriar do texto grego sem se preocupar com o estilo ou com quaisquer idiossincrasias linguísticas do texto ‘original’. Na verdade, traduzir significava moldar o texto estrangeiro às estruturas linguísticas de sua própria cultura (FRIEDRICH, 1992, p. 12). Fica, então, evidente, a partir de tais comentários,
que o latim ditava as regras, confirmando sua hegemonia linguística naquele momento.
Em todo caso, esta inclinação de privilegiar o sentido perdurou por toda Idade Média, adentrando o Renascimento. Note-se que, à época, os comentários dos tradutores sobre sua experiência de traduzir diziam respeito à mesma problemática: produzir um texto que soasse natural, fluente, e que o público pudesse alcançar a mensagem do texto traduzido como se fosse o próprio texto fonte. Não havia ‘pudores’ ou mesmo pruridos sobre a interferência do tradutor no texto fonte. Obviamente que tais conclusões resultam de estudos bem posteriores sobre o ato de traduzir, que se debruçaram sobre as práticas do passado.
Durante o Renascimento, perdurou uma predominância pela tradução do sentido. Uma figura representativa da época, Juan Luis Vives (1492-1540), em seu texto Versões ou Traduções, traduzido por Mauri Furlan, declarava que “versão é a passagem das palavras de uma língua a outra com seu sentido preservado” (CF. FURLAN, 2006, p. 119). Para Vives, a compreensão do sentido comandava a tradução, fosse esta literal ou livre. Contemporâneo de Vives, outra ilustre figura que reescreveu a História a partir de sua tradução da Bíblia para o alemão foi Martinho Lutero, principal agente da Reforma Protestante. Lutero dizia que tradução era “adaptação do que foi dito numa língua estrangeira à sua própria língua”, conforme nos informa o Professor Mauri Furlan, em palestra proferida durante minicurso ministrado em 2008 para os pós-graduandos do PPGL/UFPB. Tal declaração deve ter causado grande ebulição na Igreja Católica Romana à época, pois esta contestava versões anteriores da Bíblia, desafiando, inclusive, a versão oficial de Jerônimo.
Até então, percebemos que as reflexões em torno da tradução versavam sobre o modo de traduzir, ficando bastante evidente os melindres que envolviam e envolvem tal atividade. Palavra por palavra ou sentido por sentido? Segundo Rodrigues (2000, p.15) “certos autores chegam a afirmar que a oposição é o problema central da reflexão sobre tradução, como Ronald A. Knox (1949, apud George Steiner, 1975, Peter Newmark (1988) e John Milton (1993)”.
De qualquer forma, lembremos que tradução, naquele período da História, dizia respeito a textos de caráter religioso, em sua maioria, portanto, de acesso a um
público específico, principalmente porque os textos eram “ouvidos” por muitos e lidos por poucos, já que grande parte da população não sabia ler nem escrever. E pode- se dizer que, de certa forma, esse instrumento era uma via usada pela Igreja Romana para consolidar ainda mais o poder que detinha no ocidente.
Ainda no século XVI, descobrimos que nem sempre existiu a sacralização da língua materna. Não havia o desconforto e a cobrança do trocadilho italiano
traduttore traditore; e mesmo pairando sobre as sombras das noções de fidelidade e
de traição, uma obra era lida em diversas variantes linguísticas sem que o público letrado da época questionasse sua originalidade e esse mesmo público se alegrava por ter acesso à obra estrangeira, conforme atesta Antoine Berman (2002). Porém, certos pressupostos ideológicos provavelmente estabeleceram amarras, que levaram o povo a sacralizar sua língua materna, e de onde, portanto, parece ter se originado o adágio italiano citado acima, constituindo a fonte ou o eco de muitos “problemas” e desconfianças que assolam todo ato tradutório (BERMAN, 2002, p.16).
Na verdade, a partir do momento em que o público letrado se deixa contaminar pela pretensão de que sua língua materna é “superior”, este passa a assumir uma postura etnocêntrica, uma necessidade auto-centrada de negar aquilo que difere, de se desejar a pureza da língua, indicando uma resistência ao outro, ao que é diferente de si próprio. Iniciou-se, assim, o que se pode chamar de “estatuto reprimido da tradução”, conforme atesta (BERMAN, 2002, 16) e com isso uma serie de preconceitos contra a atividade tradutória vieram à tona. Brota daí uma descrença no agente da tradução e, consequentemente, no resultado final de seu trabalho. Desta forma, tradutor passa a ser sinônimo de traidor, por mais que este busque a almejada “fidelidade” em seu ofício.
Em seu texto “On the art of translation”, Hugo Friedrich (1992, p. 11) assinala que “de maneira um tanto perturbadora, as traduções literárias continuam a ser ameaçadas pelos limites existentes entre as línguas”.18 Tais limites constituem barreiras que são colocadas por instâncias como o fantasma da intraduzibilidade do
18 In a rather disturbing way, literary translations continue to be threatened by the boundaries that exist between languages. (tradução nossa no corpo do texto).
texto fonte decorrente da primazia de uma língua sobre a outra, o que impõe ao tradutor amarras que o mantém prisioneiro e o deixam condicionado à fidelidade ao texto “original”.
Entretanto, a noção de “fidelidade” pode ser questionada. Em primeiro lugar, o que vem a ser fidelidade? A que ou quem o tradutor deve ser “fiel”? Ao texto fonte? Ao texto alvo? Ao público receptor? Ao autor do texto fonte? Aos seus princípios? Sua ética de traduzir? Afinal, a noção de fidelidade traz consigo uma conotação negativa apenas? Será que exatamente esta busca de fidelidade na tradução não deixa vir à tona certas particularidades do texto fonte que seriam ocultadas caso não houvesse essa preocupação? São perguntas deste porte que têm perseguido estudiosos da tradução e promovido sérios debates ao longo dos anos.
Parece-nos que a noção de fidelidade19 está atrelada à subjetividade daquele(a) que desempenhará o oficio de traduzir um texto de uma língua de partida para uma língua de chegada, ou, de acordo com algumas vertentes, de uma cultura primeira para uma cultura segunda. Isto acrescido do projeto de tradução a ser desenvolvido. Um texto pode ser traduzido de várias maneiras, dependendo do escopo (propósito da tradução) (VERMEER, 2001) que deseja alcançar e do público a que será destinado, considerando, ademais, seu contexto histórico, geográfico, social, político e, sobretudo, cultural.