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No seu manual de introdução à filosofia, Marilena Chauí procura transmitir o conceito de ideologia:

A ideologia é um conjunto lógico, sistemático e coerente de representações (idéias e valores) e de normas ou regras (de conduta) que indicam e prescrevem aos membros da sociedade o que devem pensar e como devem pensar, o que devem valorizar e como devem valorizar, o que podem sentir e como devem sentir (CHAUÍ, 1995, p. 113).

É interessante cotejarmos esse conceito com o de cultura, conforme visto pelos antropólogos, por exemplo, como de E. B. Tylor:

Cultura ou civilização, em seu sentido etnográfico amplo, é um todo complexo que abrange conhecimento, crença, arte, princípios morais, leis, costumes e quaisquer outras aptidões e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade (TYLOR, 2002, p. 1)

e Kroeber e Parsons:

Achamos conveniente definir o conceito de cultura de forma mais restrita do que a sua tradição antropológica norte-americana tem feito, restringindo sua referência a um conteúdo especificação do patrimônio é portanto um processo relacionado com a eleição de valores.” (VIÑAS, 2003, p. 151).

37 “A idéia de horizonte de expectativas foi elaborada por Karl Mannheim e empregada por Popper e

descreve a capacidade do receptor de uma comunicação para receber certas mensagens: há coisas que o receptor espera e coisas que não espera (e coisas que sequer poderia chegar a compreender)”.(VIÑAS, 2003, p. 155).

38 “Definitivamente um objeto pode cumprir diversas funções para diversas pessoas e as funções simbólica e

historiográfica são algumas delas. Estas funções são determinadas pelo sujeito, mas os sujeitos não são o sujeito. A subjetividade que se fala aqui é definitivamente intersubjetividade: os valores são fruto de um acordo tácito entre-sujeitos para quem cada objeto significa algo .” (VIÑAS, 2003, p. 154).

como fatores na formação do comportamento humano e dos produtos desse comportamento. Por outro lado sugerimos que o termo sociedade – ou, de forma mais geral, sistema social – seja usado para designar o sistema relativo específico de interação entre indivíduos e coletividades (KROEBER, A. L.; PARSONS, Talcott. The Concept of Culture and of Social System. American Sociological Review. V. 23, p. 583, 1958 conf. KUPER, 2002).

Como podemos notar os conceitos de cultura e ideologia são convergentes e às vezes, até mesmo indiferenciados ou com diferenças bastante sutis, estas últimas ocorrendo com mais força em função do recorte do extrato social, se sobre as comunidades ou se sobre a sociedade como um todo. Tal convergência parece apontar que a ideologia é força atuante na cultura e nos seus padrões, sendo impossível falar de uma sem considerar a outra. Portanto, é impossível, a nosso ver, pensar em preservação de patrimônio coletivo sem considerar a influência ideológica na escolha dos bens a serem preservados ou quanto ao ideário da preservação. Da mesma forma, como vimos anteriormente, os pensadores da historiografia contemporânea também são unânimes em mostrar como o relato histórico se faz sob a influência dos valores dominantes e até mesmo sob a égide do poder daquele momento.

Tais antecedentes talvez expliquem porque a preservação do patrimônio coletivo, desde que surgiu como atividade deliberada esteve associada ao exercício do poder ou, em menor escala, à sua contraparte, a resistência.

Se o poder nas civilizações antigas se associava ao poderio militar que subjugava, esmagava e substituía culturas (ou se alimentava das culturas dos vencidos como fizeram os romanos com relação aos gregos), o mundo moderno viu surgir o poderio econômico baseado na separação de classes sociais39.

A esta altura do desenvolvimento de nosso trabalho, vale a pena exemplificar essas questões através da prática preservacionista no Brasil, onde elas surgem com muita evidência. Assim, para investigar a idéia de preservação do patrimônio coletivo no país,

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Sob um aspecto, o grupo dominante simplesmente impõe suas próprias características e ideais como normas definidoras e taxa qualquer um que seja diferente como fora do padrão. Sob outro aspecto, essas minorias constituem grupos autenticamente diferentes do ponto de vista de seus próprios membros. Eles são o que são porque cada grupo tem sua própria cultura. O grupo dominante os oprime negando igualdade – ou equivalência – aos valores e símbolos de suas culturas. Ele se recusa a reconhecer suas diferenças, ou as desvalorizam (KUPER, 2002, p. 296).

inicialmente, três recortes devem ser feitos. O primeiro deles é que vivemos em uma sociedade capitalista, com valores ligados a uma ideologia do capital e que isto influencia sobremaneira a forma com que nossa sociedade lida com a preservação de seu patrimônio. Mesmo os órgãos governamentais que são responsáveis pelo nosso patrimônio histórico e artístico trabalham, no seu cotidiano, com as pressões do poder econômico e com as limitações de recursos. Um segundo recorte diz respeito à formação da nação brasileira e da sua herança colonial, extremamente desigual e sujeita a uma liderança das elites que, em grande parte de sua história, exerceu o poder de forma quase absoluta e paternalista. O terceiro recorte, que nos situa no tempo atual, aponta para um momento político onde se travam as batalhas para uma maior inclusão social e melhor distribuição de renda, lutas estas que começam a alterar o quadro e os valores ligados à idéia de preservação do patrimônio coletivo no Brasil.

Como já o observaram diversos autores, a história da preservação no Brasil esteve ligada a uma idéia de projeto de nação e construção de uma identidade nacional, especialmente sob a ditadura Vargas (MILET, 1988) ou na especulação sobre a identidade cultural dos brasileiros comandada pela idéia de antropofagia cultural dos modernistas de 192240. Por outro lado, o poder econômico também deu as direções quanto ao quê preservar, destruindo aquilo que lhe convinha (caso das transformações urbanas do centro do Rio de Janeiro, por exemplo) e deixando sobreviver aqueles bens que, ou não lhe impunham restrições, ou que poderiam, mais modernamente, serem assimilados como mercadoria (por exemplo, com a espetacularização de cenários históricos à custa da população residente, para incentivar fluxos turísticos)41. De qualquer modo, pelo exposto, a idéia de preservação no Brasil sempre esteve ligada aos grupos dominantes, sejam eles as elites de poder, as intelectuais ou as econômicas. Com este berço, não poderia, portanto, ser outra a nossa concepção de cultura senão aquela que privilegia a idéia de cultura como

40 Como nos mostra CARDOSO, 2004, “preservar pressupõe um projeto de presente”, tendo dois grandes

eixos marcado este projeto brasileiro: a Arquitetura mineira como representante do verdadeiro sentido de nacionalidade da cultura brasileira (porque ela era fruto das bandeiras paulistas e correspondia à idéia dos intelectuais - também paulistas - de antropofagia cultural) e a tradição x modernidade na base da constituição do patrimônio nacional (a estrutura autônoma de madeira de nosso casario corresponderia à plante livre de Le Corbusier, portanto legitimando a Arquitetura modernista e criando paralelos entre esta e nosso passado).

41 Sobre essa diferença, nos esclarece LE GOFF: “Pesquisa, salvamento, exaltação da memória coletiva não

mais nos acontecimentos, mas ao longo do tempo, busca dessa memória menos nos textos que nas palavras, nas imagens, nos gestos, nos ritos e nas festas: é uma conversão do olhar histórico. Conversão partilhada pelo grande público, obcecado pelo medo de uma perda de memória, de uma amnésia coletiva, que se exprime desajeitadamente na moda retrô, explode sem vergonha pelos mercadores da memória desde que a memória se tornou um dos objetos da sociedade de consumo que se vendem bem”. (LE GOFF, 1994, p. 472).

civilização. Sob essa égide, os bens protegidos passam a ser aqueles que se distinguem

pela sua excepcionalidade e excelência, sejam eles bens isolados ou as cidades de apogeu de riqueza ligadas ao projeto de nação, como as cidades históricas ligadas ao ouro.

O cenário brasileiro contemporâneo vem apresentando uma forte crítica a essas idéias consolidadas de preservação no país. Embora essas críticas ainda não tenham se transformado em políticas públicas concretas, aqui e ali já se ensaiam ações nesse sentido como o avanço dos estudos de nosso patrimônio imaterial (especialmente quando ligado a sustentabilidade dos grupos que o guardam e produzem: os terreiros de candomblé, o queijo artesanal, por exemplo) e políticas de municipalização de patrimônio cultural sustentada pela formação de grupos e conselhos locais (como em Minas Gerais). Toda essa luta, no entanto, faz parte de uma luta maior da sociedade brasileira para garantir maior justiça social e inclusão no desenvolvimento do país. Descobre-se, hoje, que a cultura pode ser importante arma nessa luta.

Nesse sentido fazer teatro, música, poesia ou qualquer outra modalidade de arte é construir, com cacos e fragmentos, um espelho onde transparece, com suas roupagens identificadoras particulares e concretas, o que é mais abstrato e geral num grupo humano, ou seja, a sua organização, que é a condição e modo de sua participação na produção da sociedade. Esse é, a meu ver, o sentido mais profundo da cultura, “popular” ou outra (ARANTES, 1985, p. 78).

Assim é que o patrimônio coletivo deve exercer a ampliação de seu conceito a qual nos referimos anteriormente. Deve ser mais abrangente, abrigando diferentes manifestações históricas e grupos sociais, garantir a presença de bens exemplares ao lado dos excepcionais, privilegiar não apenas o bem isolado, mas também o contexto e as formas de sua sobrevivência. Deve se inserir no esforço de desenvolvimento econômico e social da nação, ser legitimado pela sociedade, democraticamente fruído e se inserir no cotidiano das populações, evitando-se sua museificação, encastelada em baús da memória42.

Benzer Belgeler