A partir da teoria analisada, foi possível elaborar uma estrutura para auxiliar o processo decisório de adoção de uma iniciativa colaborativa na gestão da cadeia de suprimentos, apresentada na Figura 24. Empresas interessadas na adoção de uma das cinco iniciativas discutidas nesta dissertação, ou acadêmicos cujo tema seja foco de pesquisas, podem fazer uso da estrutura proposta. Esta estrutura consolida os elementos de caracterização, benefícios, barreiras e motivadores em uma sequência que, acredita-se, tornará o resultado do processo de escolha mais adequado à necessidade e realidade do interessado.
Na estrutura proposta (Figura 24), ao analisar o ambiente no qual está inserido a cadeia de suprimentos, deve-se verificar mudanças na economia ou acontecimentos no mercado que podem provocar um desequilíbrio na cadeia de suprimentos em que a empresa está inserida, ou seja, motivadores econômicos ou de mercado, que possam estimular a implementação de uma ou mais iniciativas colaborativas como forma de reação a essa perturbação no ambiente. Além disto, analisando internamente a cadeia de suprimentos a qual pertence e a forma como ela está organizada e estruturada, a empresa deve verificar a presença de fatores que podem motivar a adoção de uma iniciativa colaborativa, ou seja, a presença de motivadores organizacionais.
Figura 24 – Estrutura de apoio ao processo decisório de adoção de iniciativas colaborativas
Desta maneira, o aumento da competição, tanto em relação ao mercado interno, quanto em relação à chegada de empresas estrangeiras, caracterizado pela redução do market
share; e a percepção de que a globalização está afetando a configuração da cadeia de
suprimentos, seja pela entrada da mesma em diferentes mercados, ou pela entrada de agentes internacionais, são fatores externos que podem motivar as empresas a se relacionarem em suas cadeias de suprimentos. Além disto, mudanças nas características da demanda, produto ou mercado, tais como redução do ciclo de vida dos produtos, aumento das exigências dos clientes, aumento do número de instalações e políticas governamentais também podem levar as empresas a colaborarem em suas cadeias de suprimentos para manutenção do mercado. Outro fator que pode levar a adoção de iniciativas colaborativas é a percepção da necessidade de acompanhar o mercado em termos de ferramentas e tecnologias para preservação da posição comercial, ou seja, reação ao mercado.
Em relação aos motivadores organizacionais, a percepção de problemas que estejam afetando o desempenho da cadeia de suprimentos, tais como alto tempo de resposta, altos níveis de inventário, estrutura de custos inadequada, processos de negócio desatualizados, dificuldades na previsão de demanda, entre outros, pode motivar as empresas a implementarem uma iniciativa de colaboração para amenizar os efeitos negativos desses problemas. Além disto, o sucesso de experiências colaborativas anteriores, com práticas de gestão já estabelecidas, possibilidade de aproveitamento da infraestrutura de comunicação e a tendência inovadora das empresas, buscando formas para se diferenciarem competitivamente, facilita a introdução de iniciativas de colaboração. A pressão de um parceiro comercial influente também pode levar à adoção de uma iniciativa para estreitar ou manter as relações comerciais.
O reconhecimento, pelas empresas, de que as iniciativas colaborativas podem resultar no aumento das vendas, redução de custos, aumento do lucro, melhoria da competitividade, maior responsividade ao cliente, melhor gestão dos ativos e melhoria do desempenho financeiro (tratadas aqui como benefícios secundários) também pode estimular o início de um relacionamento colaborativo. Percebida a necessidade de iniciar um relacionamento colaborativo na cadeia de suprimentos, o framework de caracterização das iniciativas de colaboração (Figura 7) pode auxiliar no delineamento da melhor iniciativa. Esse
framework apresenta, de maneira consolidada, as características de cinco iniciativas de
colaboração (QR, ECR, CRP, VMI e CPFR), servindo como um guia para conhecer essas iniciativas. Assim, com base nas dimensões propostas no framework, que especificam o conteúdo de cada iniciativa a partir de uma escala de colaboração, é possível identificar o
nível de colaboração condizente com a realidade da empresa e com suas expectativas em relação ao relacionamento colaborativo e escolher a iniciativa mais apropriada, ou seja, aquela que mais se aproxima ao nível de colaboração delineado.
Após a escolha da iniciativa de colaboração mais adequada é necessário analisar a presença de barreiras que podem dificultar a implementação da iniciativa ou a realização dos benefícios esperados. A análise das barreiras presentes pode evidenciar a necessidade de mudanças culturais na empresa, mudanças no comportamento das pessoas ou mesmo a necessidade de investimentos para progressão do relacionamento. A cultura organizacional não compatível entre as empresas e a falta de orientação para relacionamentos; a falta de suporte da alta gerência para implementação da iniciativa de colaboração; o estabelecimento de objetivos e metas divergentes entre os membros da cadeia de suprimentos, com falta de foco e metas de serviço ao cliente; a falta de planejamento conjunto; a solução de problemas e tomada de decisão de forma individual; a falta de capacidade de divisão dos riscos e recompensas resultantes no relacionamento colaborativo; a falta de coordenação interfuncional, tanto internamente, quanto externamente; processos e sistemas organizacionais inflexíveis e dificuldades na integração dos processos-chave; falta de formalização de processos e documentos; estabelecimento de medidas de desempenho inconsistentes ou inadequadas; e falta de treinamento dos recursos humanos para as novas mentalidades e habilidades são barreiras culturais que podem impedir o sucesso do relacionamento colaborativo.
Entre as barreiras comportamentais estão a resistência à mudança, a falta de confiança, falta de comprometimento, incapacidade ou falta de vontade de compartilhar informação e problemas no fluxo de informação e comunicação. Essas barreiras envolvem aspectos subjetivos dos recursos humanos da empresa e podem ser minimizados com treinamentos e exposição dos possíveis benefícios da adoção das iniciativas, além disto, conforme os benefícios são atingidos, o relacionamento é fortalecido e essas barreiras são minimizadas. A existência das barreiras físicas, relacionadas a investimentos insuficientes em tecnologia, altos custos de implementação e falta de tempo e recursos humanos capacitados também devem ser superados para que a iniciativa de colaboração traga benefícios à cadeia de suprimentos.
Com a iniciativa implantada, é importante analisar o desempenho da iniciativa, verificando se os benefícios primários estão sendo alcançados. Os benefícios primários estão relacionados com a melhoria dos processos da cadeia de suprimentos e a melhoria do relacionamento colaborativo. Entre eles estão, a melhor gestão de estoques e melhoria do
processo de reabastecimento; maior previsibilidade da demanda; redução do tempo de ciclo; melhoria do ciclo produtivo; melhoria do sortimento de produtos; melhoria das atividades promocionais; maior eficiência no lançamento de produtos; melhor planejamento; melhoria na gestão da cadeia de suprimentos. É interessante observar que os benefícios mais importantes das iniciativas de colaboração estudadas são a melhor gestão de estoques e a melhoria do processo de reabastecimento, além da melhor previsibilidade da demanda, dada pelo aumento da visibilidade da demanda proporcionada pelo compartilhamento de informações entre os membros da cadeia de suprimentos. Assim, essas iniciativas conseguem sincronizar melhor a demanda real do mercado com a oferta.
Atingindo os benefícios primários, os benefícios secundários começam a aparecer. A redução de custos, proporcionada principalmente pela melhor gestão de estoques e melhoria do processo de reabastecimento; o aumento das vendas, com o aumento da lucratividade; o melhor nível de serviço ao cliente; a melhoria da competitividade; a maior responsividade ao cliente; a melhor gestão dos ativos e a melhoria do desempenho financeiro são os benefícios secundários potenciais das iniciativas de colaboração. Caso os benefícios esperados estejam aquém do estipulado, pode-se analisar se existem barreiras que estão limitando o potencial da iniciativa.
Com a evolução do relacionamento, pode-se perceber a necessidade de uma iniciativa mais completa, aumentando o nível colaborativo entre os agentes. Neste caso, o
framework permite delinear o atual relacionamento com os parceiros na cadeia de
suprimentos, verificando o nível de colaboração existente entre eles. Com isso, é possível delinear um estado futuro esperado com o desenvolvimento da relação. Assim, a nova configuração para a iniciativa desejada é prospectada e o ciclo recomeça com a análise das barreiras que podem limitar a adoção da nova iniciativa.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este capítulo finaliza esta dissertação apresentando, além das conclusões da mesma, as limitações da pesquisa e as recomendações para pesquisas futuras. Inicialmente, são discutidos os resultados em termos de responder a questão de pesquisa e atender aos objetivos desse trabalho. Posteriormente, as limitações desta pesquisa são expostas, juntamente com as possibilidades para estudos futuros que abordem o tema.