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É de fato algo amplo tratar do acervo da estatuária missioneira. Mais ainda quando o conjunto de obras contemplado são miniaturas. Imagens historicamente em trânsito. Patrimônio apropriado, manipulado e transformado ao longo de quatro séculos, desde 1609, quando da introdução de miniaturas no espaço platino pelas mãos dos missionários, até a contemporaneidade.

Essas imagens estiveram à margem do controle estético praticado nas oficinas missioneiras e do controle de culto exercido nos espaços reducionais da área jesuítica. Posteriormente, estiveram também à margem da quantificação das estátuas inventariadas por Francisco Bruno de Zavala, em 1768, porquanto não foram contabilizados os ícones de uso pessoal indígena, nem mesmo das capelas domésticas ou espalhadas pelos arredores dos povoados e muito menos nas regiões remotas dos campos.

O inventário de 1768 tratou dos bens missioneiros no evento da expulsão dos inacianos. Dele participaram autoridades civis, militares e eclesiásticas espanholas, representantes guaranis e os padres de cada povo. Na ocasião, foram registradas 1.546 esculturas nos Trinta Povos. 365

Entretanto, esta cifra pode ser questionada quando observada a proporção de imagens registradas em cada redução. Conforme o inventário, o povoado de San Cosme (PRY) teria em seus domínios somente duas imagens, assim como Yapeyú e Apóstoles (ARG); já em Concepción (ARG), não há registro de imagens; enquanto em Santa Rosa (PRY) foram contadas 107 e em Corpus (ARG) 103 peças. Há a hipótese de que, com antecipação a feitura do inventário, os guaranis tenham ocultado muitas esculturas, o que é bastante plausível para justificar esse desequilíbrio.

Nos Sete Povos, foram inventariadas 332 imagens: em São Miguel, 26; São João, 66; Santo Ângelo, 79; São Nicolau, 72; São Luis, 41; São Lourenço, 15; e São or a, 33. Entre e as, vár os “santos pequenos”, espec f cados, gera ente, na categoria “outros ob etos”, nos a tares atera s das gre as e nas sacr st as.

Possivelmente, devido ao volume de imagens existentes nas residências, ou produzidas após a expulsão dos jesuítas, o patrimônio da estatuária parece sempre surpreender as estatísticas, ainda hoje não confiáveis. A insígnia da marginalidade das

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JAVIER BRABO, Francisco. Inventarios de la expulsión de los jesuitas y ocupación de sus temporalidades por decreto de Carlos III. Madrid: 1872, vol. II.

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miniaturas prosseguiu durante as tentativas de numerar os remanescentes móveis das reduções realizadas durante o século XX. Na década de 1940, Wolfgang Hoffmann Harnisch estimou em 300 as imagens, talvez reproduzindo as estimativas de Hemetério Velloso, desconsiderando os oratórios domésticos e coleções particulares.

Durante muito tempo, os catálogos estiveram orientados por uma visão barroca. Identificou-se como remanescente o que havia circulado pela liturgia oficial jesuítica, reconhecida pelo estilo europeu. Só recentemente ocorreu uma mudança metodológica com o reconhecimento da produção escultórica do espaço doméstico e pessoal indígena. No entremeio dos olhares focados no barroco jesuítico-guarani, as miniaturas continuavam seu movimento. Permaneceram com as famílias indígenas, acompanharam seus deslocamentos pelos estados platinos, transpassando fronteiras; foram bens de trocas simbólicas, presentes de agradecimento por alimentação, guarida, auxílios medicinais, entre outros; constituíram éthos identificatório, mantendo a função de culto, concentrando em torno de si indivíduos que rogavam por proteção, fosse em situações de guerra, de povoamento ou deslocamento, enfermidades ou quaisquer dificuldades cotidianas.

Adentrando o Novecentos, parte destes remanescentes converteu-se em coleção particular; outra foi coletada ou doada a museus; outras frações, por vezes reinterpretadas, permaneceram na amálgama do culto familiar dos grupos biológico e culturalmente mestiços, espalhados por todo o sul da América.

A primeira iniciativa de sistematizar os remanescentes materiais do acervo missioneiro numa perspectiva totalizante, incluindo imagens de todos os tamanhos e estéticas, fragmentos de estátuas, pinturas, objetos, sinos, colunas etc., foi realizada pelo SPHAN, com apoio da UNESCO, entre os anos de 1989 e 1993 e restringiu-se ao território brasileiro. Parte dos dados computados na pesquisa foram publicados, em 1993, pelas museólogas, Mabel Leal Vieira e Maria Inês Coutinho, integrantes da equipe de investigação.366

Foram registrados 510 objetos de procedência missioneira. Desses, 462 constituem imagens; 48, são peças (sinos, cruzes, tocheiros, fragmentos arquitetônicos, entre outros). Percentualmente, a divisão do acervo deu-se conforme o gráfico:

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COUTINHO, Maria Inês; VIEIRA, Mabel Leal. Inventário da Imaginária Missioneira. Canoas: La Salle, 1993.

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Inventário da imaginária missioneira (1993).

Comparando com as 396 miniaturas e imagens de médio porte registradas pela autora para a presente pesquisa, pode-se observar que coincidem as proporções referentes ao número de representações de anjos e de Jesus Cristo, contemplando as várias passagens de sua hagiografia. Variam pouco, e dentro da proporção, as imagens não identificadas, os santos e as santas. Esta classificação inclui apóstolos, mártires, fundadores e santos de outras ordens religiosas, doutores, bispos e personagens do antigo testamento. Na estatuária miniaturizada, as imagens de invocações marianas são mais numerosas. A diferença é de 15% para 35%.

Imagens femininas: 20,8% Imagens de Maria: 15,7 % Outras santas: 5,1% Imagens masculinas: 46 % Santos: 29, 4 % Cristos: 16,6 % Anjos: 15,4% Não Identificadas: 3,6% Zoomorfas: 1,6% Fragmentos: 12,5% Gráfico 1: Percentagem da estatuária missioniera remanescente no Rio Grande do Sul, catalogada pela equipe do IPHAN. Fonte: COUTINHO, Maria Inês; VIEIRA, Mabel Leal. Inventário da Imaginária Missioneira. Canoas: La Salle, 1993. Não identificadas: 5% Anjos: 12% Imagens masculinas: 54% Santos: 36% Cristos:18% Outras santas: 7% Imagens femininas: 42% Imagens de Maria: 35% Miniaturas missioneiras (2012)

Gráfico 2: Percentagem das miniaturas e imagens médias provenients das Missões, catalogadas por Jacqueline Ahlert.

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Deve-se considerar que a catalogação das miniaturas e imagens com até 50 cm foi realizada no estado do Rio Grande do Sul; nos departamentos da República Oriental do Uruguai, incluindo Montevidéu; na região das antigas reduções, em território argentino e paraguaio e nas capitais: Buenos Aires e Assunção, onde vários museus abrigam remanescentes do patrimônio missioneiro.

Algumas das limitações impostas à pesquisa de 1993 foram recorrentes, sendo que não houve alterações na legislação de proteção do patrimônio cultural que assegurassem o acesso aos bens pelas instituições oficiais e/ou de ensino. Naquela ocasião, Vieira e Coutinho já haviam sinalizado tal incoerência:

Tendo a equipe técnica procurado um conhecido colecionador de peças sacras, residente em Porto Alegre, foi impedida de inventariar 110 peças de sua propriedade – obras missioneiras de significativo valor –, sob a alegação que a contrapartida esperada do Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural/Ministério da Cultura fosse a restauração dessa coleção em sua totalidade. Trata-se de coleção maior que a do próprio Museu das Missões.367

Mesmo que, sob a perspectiva de análise do acervo, considere-se o fato de estar abrangendo apenas um fragmento do conjunto original da estatuária, uma coleção desse porte poderia alterar algumas considerações da pesquisa, no âmbito histórico e da imaginária. Sobretudo, por este não ser um caso isolado. Outros colecionadores, alguns vinculados a órgãos oficiais de salvaguarda da cultura material e, inclusive, docentes, pesquisadores e historiadores, conservam imagens em seus domínios, longe da

367 COUTINHO, Maria Inês; VIEIRA, Mabel Leal. Inventário da imaginária missioneira, op.cit., p. 37.

Museus do Rio Grande do Sul: 32% Acervos particulares do Rio Grande do Sul: 15% Paraguai: 19% Uruguai: 27% Argentina: 7%

Localização do acervo inventariado

Gráfico 3: Percentagem referente a localização da estatuária missioniera catalogada por Jacqueline Ahlert.

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possibilidade de tornarem-se fonte de investigações, base para produção de conhecimento. Nas suas possessões, as esculturas figuram estéreis, dentro de armários de vidro, a sete chaves, descontextualizadas do conjunto de bens histórico-culturais da humanidade.

Na aproximação dos inventários, separados por mais de dois séculos, conjectura- se que, junto a representações de cunho indígena, as imagens pertencentes à igreja e à área jesuítica, possivelmente de feitio requintado e europeizado e de grande valor mercadológico, compõem os referidos acervos. Essa constatação baseia-se nos registros de 1768, que numera um amplo leque iconográfico não localizado nos montantes pesquisados em 1993 e, tão pouco, atualmente. Figuravam na relação imagens de São João Nepomuceno, Cristo ressusc tado, escu turas “ éd as da V rge Do orosa”, crucifixos de marfim e outros de prata, estátuas do Menino Jesus com batina, Santo Ambrósio, Santo Agostinho, São Zacarias, Santa Isabel, São Sebastião, São Francisco de Régis, São Juliano, os três mártires do Japão, entre outras.368

Assim, é plausível que a fração de miniaturas remanentes tenha pertencido às famílias indígenas, pois, via de regra, não possuem os douramentos, técnicas elaboradas de policromia e acabamento, nem mesmo foram esculpidas para serem vestidas, como algumas das supracitas. Expressam, como já foi referido, a autonomia estética e religiosa dos missioneiros. A cuidadosa e significativa seleção de invocações para a devoção e culto.

Inseridos no fragmento daquelas que foram milhares de estatuetas, determinados santos possuem uma única representação, como: Santiago, Santo Augusto, Santo Estevão, São Boaventura, São Martin de Tours, São Baltasar, São Paulo. Outras imagens apresentam-se em limites geográficos definidos, como Santa Gertrudes, cujos exemplares existentes estão no Uruguai, aos quais não se teve acesso direto; Santa Liberata, adotada pelos santeiros paraguaios e extremamente rara fora deste âmbito.

São Miguel, Nossa Senhora (sobretudo a Imaculada Conceição), Jesus Menino, Cristo crucificado, Santo Antônio, São José, São Pedro e São Roque são as representações mais frequentes e encontradas em todas as áreas percorridas. As duas primeiras possuíam congregações especiais em todos os pueblos; como as demais, foram eleitas por seus valores simbólicos e de uso, ligadas ao cultivo/fertilidade e à cura.

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NASCIMENTO, Anna Olívia do; OLIVEIRA, Maria Ivone de Avila. (Orgs). Bens e riquezas das Missões. Porto Alegre: Martins Livreiro, 2008.

165 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 2 2 2 2 2 3 3 3 3 3 3 4 4 5 5 5 5 6 6 6 6 8 9 10 10 11 11 12 13 16 16 28 35 53 74 Divina Trindade Nossa Sra. De Candelária Santiago Santo Estanislau Santo Estevão São Baltasar São Boaventura São Cristovão São Lourenço São Paulo Arcanjos Nossa Sra. de Carmen Nossa Sra. de Loreto São Francisco de Assis São Francisco de Borja Nossa Sra. com o Menino Nossa Sra. da Piedade Santa Rita Santa Teresa São Francisco Xavier São Nicolau Santa Bárbara Santo Isidro Nossa Sra. Das Dores Santa Luzia Santas não-identificadas São João Cristo Ressuscitado Santa Ana Nossa Senhora Espírito Santo (pomba) Nossa Sra. da Assunção Santo Inácio de Loyola Imagens de presépio São Roque Nossa Sra. da Rosário São Pedro Jesus Menino São José Arcanjo Miguel Santos não identificados Anjos Santo Antônio Cristo Crucificado Nossa Sra. da Conceição

Quantificação iconográfica- 396 imagens

Gráfico 4: Quantificação das miniaturas e imagens médias missionieras catalogadas por Jacqueline Ahlert.

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Percentagem iconográfica

A tentativa de quantificar a estatuária de origem missioneira não se confronta somente com impedimentos de acesso às peças por parte de alguns proprietários, mas com a falta de dados históricos relacionados à imagem; no nível de deterioração que, por vezes, encontram-se; nas intervenções que retiraram atributos, sobrepuseram a coloração original com sucessivas camadas de repinturas; e, nalguns casos, com a construção de uma memória vinculada à origem missional da imagem, mesmo que incoerente com a composição estética da escultura. O exemplo mais notório é o da Virgen de los Treinta y Tres, padroeira do Uruguai.

Divina Trindade 0% Nossa Sra. de Candelária Santiago Santo Estanislau Santo Estevão São Baltasar São Boaventura São Cristovão São Lourenço São Paulo Arcanjos 1%

Nossa Sra. de Carme

Nossa Sra. de Loreto 1% São Francisco de Assis 1% São Francisco de Borja 1%

Nossa Sra. com o Menino 1% Nossa Sra. da Piedade 1% Santa Rita 1% Santa Teresa 1%

São Francisco Xavier 1% São Nicolau 1% Santa Bárbara 1% Santo Isidro 1%

Nossa Sra. das Dores 1% Santa Luzia 1% Santas não identificadas 1% São João 1% Cristo ressuscitado 2% Santa Ana 2% Nossa Senhora 2% Espírito Santo 2% Nossa Sra. da Assunção 2% Santo Inácio de Loyola 2% Imagens de presépio 3% São Roque 3%

Nossa Sra. da Rosário 3% São Pedro 3% Jesus Menino 3% São José 3% Arcanjo Miguel 4% Santos não identificados 4% Anjos 7% Santo Antônio 9% Cristo crucificado 13% Nossa Sra. da Conceição 18%

Gráfico 5: Percentagem relativa a iconografia das miniaturas e imagens médias missionieras catalogadas por Jacqueline Ahlert.

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A tradição oral assevera a procedência da santa, conforme as notas explicativas que estão juntas ao altar em que está exposta:

A imagem da pura e limpa Concepção de Maria, chamada Virgen de los Treinta e Tres, é uma talha de cedro americano, do século XVIII, talhada por guaranis das Missões Orientais, venerada no Santuário-Catedral de Florida (Uruguai). Em 1779, a pequena imagem recebeu de Antonio Dias, índio de Santo Domingo de Soriano, sua capela no Pintado. Em 1809, os moradores se transladaram com sua patrona para San Fernando de la Florida. A cruzada libertadora dos Trinta e Três Orientais, em 1825, teve seu centro cívico em Florida.

Ainda que ousada, a proposição encontra apoio na apreciação de outros pesquisadores uruguaios.369 As feições – olhos de vidro, nariz aquilino, queixo sobressalente, bochechas rosadas –, os panejamentos e o arranjo dos anjos na base da imagem, são tipicamente barroco-europeus, sem comparativos no restante do acervo (fig. 47). Entre as possibilidades explicativas, conjectura-se a troca da imagem indígena, em algum momento anterior à sua consagração como padroeira, por uma melhor acabada, canonicamente bela.

Pode-se compará-la com a imagem – cuja tradição também ratifica a procedência missioneira, datada do início do século XIX –, da Imaculada exposta na igreja matriz Nossa Senhora da Conceição Aparecida de Alegrete (fig. 48). Vejam-se as diferenças nas pregas da vestimenta nos braços das imagens, na inclinação da cabeça, na amplidão e movimentação do manto e, por fim, na expressão do semblante.

A pertinência da origem da patrona uruguaia encontraria coerência se considerada a possibilidade da escultura ter vindo da Europa

369 Não citados, porque não solicitou-se autorização para expor seus nomes.

Fig. 47: Virgen de los Treinta y Tres, 30 cm x 16 cm (aprox.)

Acervo: Catedral de Florida/URY.

Fig.48: Imagem de Nossa Senhora da Conceição, 30 cm x 12 cm (aprox.). Acervo: Igreja Nossa Senhora da Conceição Aparecida de Alegrete. Alegrete/RS.

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junto com algum padre. Há exemplares desse tipo, cujos olhos são igualmente de vidro e as feições similares às da Imaculada, expostos no Museu Municipal Aparício da Silva Rillo de São Borja.

De modo geral, são quatro as situações tipológicas em que as imagens podem estar inseridas:

 Imagens de procedência missioneira hipotética, cuja estética confirma o pertencimento ao acervo.

 Imagens sem informações de procedência, cuja estética evidencia a origem missioneira.

 Imagens expostas em museus e asseguradamente missioneiras.

 Imagens de atribuição missioneira, cuja estética contradiz a afirmativa. Em todas as conjunturas, são ponderados fatores técnicos, estilísticos, iconográficos e históricos associados às imagens.

Na análise técnica, verificou-se o tipo de madeira das esculturas, majoritariamente do tipo avermelhado, talhadas em cedro num único bloco, admitindo algumas madeiras mais claras, como a araucária; a superfície lisa, sem marcas das goivas; a policromia sobre uma camada de preparo à base de gesso, seguindo-se as tintas de carnação e vestimenta.370

Estilisticamente, são típicas das miniaturas missioneiras a peanha de base arredondada, as linhas rígidas simulando o movimento dos panejamentos, a ausência de expressividades passionais e gestos amplos, os cabelos ritmicamente delineados. Por vezes, destacam-se aspectos do biótipo indígena (cabeça arredondada, nariz ligeiramente mais largo, olhos pequenos, pescoço curto, boca volumosa, cabelos escuros e lisos). Repetem-se, também, os elementos da flora local. Sobretudo, são característicos o frontalismo, a rigidez, a geometrização das vestes e da composição.

Outro elemento considerado para identificação das peças refere-se à iconografia. O panteão de santidades representadas em miniaturas foi relativamente restrito. Entretanto, primeiramente, avaliaram-se as seleções realizadas pelos padres, abrindo a esfera de possibilidades iconográficas.

Nesse tipo de análise, impuseram-se as deteriorações causadas pelo uso, pelas condições em que as esculturas estiveram guardadas, sujeitas a intempéries e à ação de

370

Nas miniaturas missioneiras não há indícios da utilização do chamado bolo armênico, usado a partir do século XVIII em Minas Gerais, Pernambuco e Bahia, como base de preparação para o douramento.

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insetos xilófagos, e pelas restaurações indevidas. Muitas imagens sofreram repinturas ao gosto dos proprietários, com tintas à base de óleo, causando danos irreversíveis na policromia original.

A perda de atributos e a transformação na indumentária originalmente representada dificultaram sobremaneira a identificação de alguns santos. Haja vista a significativa porcentagem de imagens não identificadas na quantificação geral do acervo. Em alguns casos foi possível recorrer à postural corporal. Várias estatuetas de Santo Antônio foram validadas pela disposição das pernas, em movimento ou marcha que caracterizava seu trabalho missionário; a gestualidade foi igualmente importante para identificar os ícones de São Roque (parte superior da perna, direita ou esquerda, à mostra) e Nossa Senhora da Conceição (mãos postas em gesto de oração).

Afora as apreciações de forma e conteúdo, foram ponderadas as histórias que acompanham as imagens; as circunstâncias em que foram coletadas e destinadas aos museus; a localização e origem anterior à doação para estes órgãos públicos. Quando pertencentes a colecionadores, o local onde foram compradas e as narrativas que as seguem.

Somados, todos estes elementos corroboram no cruzamento dos dados e no mapeamento das movimentações, apropriações e ressignificações a que foram submetidos os remanescentes da estatuária missioneira. Propiciando, desse modo, o estudo da historicidade dos seus sentidos vinculada a uma estética altamente original, representando a primeira manifestação de arte popular religiosa da América meridional.

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Benzer Belgeler