A principiologia geral da atividade econômica alcança os fundamentos, os objetivos e os princípios da Ordem Econômica Constitucional.
Expressam os fundamentos constitucionais da Ordem Econômica a valorização do trabalho humano e a liberdade de iniciativa. A valorização do trabalho humano alcança a qualificação profissional que os trabalhadores necessitam, tornando-os aptos para produzir a riqueza nacional. Tal fundamento impõe ao Estado a valorização da mão de obra brasileira, seja educando ou treinando-a. A valorização do trabalho aumenta a produtividade nacional e ao mesmo tempo dinamiza as empresas constituídas no Brasil, diante de uma crescente
dinamizar, na busca de sua realização.” In: GRAU, Eros Roberto. Planejamento Econômico e Regra Jurídica. 8ª ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1978. p. 243.
289 GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). 12ª ed. São
Paulo: Malheiros, 2007. p. 167.
290 A Emenda Constitucional N° 40 de 2003 revogou todos os incisos e parágrafos do art. 192 que delimitava o
sistema financeiro nacional.
291 GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). 12ª ed. São
Paulo: Malheiros, 2007. p. 68.
292 GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). 12ª ed. São
Paulo: Malheiros, 2007. p. 312. Raul Machado Horta explica que uma norma designa um comportamento ou uma ordem, podendo exteriorizar-se em um princípio ou em uma regra jurídica. Assim, os princípios e as regras constitucionais são comandos normativos que determinam comportamentos (finalidades, tarefas ou obrigações). In: HORTA, Raul Machado. Normas centrais da constituição federal. Revista de Informação Legislativa, v. 34, n. 135, jul/set de 1997. p. 175.
competição no quadro internacional de comércio293. Já o fundamento da livre-iniciativa assegura a possibilidade de constituir empreendimento comercial. Tal fundamento já não opera como máxima liberal, caracterizando-se pela adaptação e limitação frente aos demais princípios da Ordem Econômica, que qualificam a nova realidade social da liberdade de iniciativa.
O princípio da livre iniciativa é elencado como fundamento da República e da Ordem Econômica. A livre iniciativa alcança tanto a liberdade de abertura da empresa, quanto a liberdade de condução de empresa constituída. Tais fatores não alcançam a liberdade irrestrita, e sim a liberdade de constituir um empreendimento comercial dentro da lei, ou seja, dentro dos requisitos legais estabelecidos será liberada a abertura de uma empresa. Em decorrência do princípio da legalidade, a livre iniciativa também não é irrestrita na condução comercial, devendo o empreendedor atuar dentro dos preceitos concorrenciais294.
No modelo capitalista nacional, é basilar o princípio da livre iniciativa, que deve ter sua leitura acrescida aos demais princípios e valores republicanos295, sujeitando-se, ainda, às atividades estatais de regulação e fiscalização, efetivando a Ordem Econômica capitalista e neutralizando as distorções naturais do sistema296. Observa-se que tal princípio era originalmente um princípio estritamente liberal, de modo que sua interpretação deve também se moldar aos novos valores e características históricas dos agentes econômicos297.
Por sua vez, a existência digna e a justiça social são apontadas como as finalidades ou objetivos da Ordem Econômica. A dignidade da pessoa humana da pessoa humana está presente tanto como fundamento da República, e também como fim da Ordem Econômica. A existência digna se consolida como concretização das liberdades reais, frente às simplórias liberdades formais298. A justiça social foi elencada como fim da Ordem Econômica e fundamento da República. Justiça social remete à alteração na divisão desequilibrada dos
293 MASSO, Fabiano Dolenc Del. Direito Econômico. Rio de Janeiro: Campus - Elsevier, 2007. p. 44 – 45. 294Aquele que se utiliza de métodos ilegais, fraudando a livre concorrência, atenta contra o mercado livre,
implodindo o sistema, e prejudicando toda a coletividade. In: GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na
Constituição de 1988 (interpretação e crítica). 12ª ed. São Paulo: Malheiros, 2007. p. 203 – 204.
295 A Ordem Econômica constitucional não se restringe ao Título VII da Constituição, alcançando os princípios
fundamentais da República (elencados nos arts. 1º e 3º), e os direitos sociais (elencados nos arts. 8º e 9º). [Também existe a diferença entre a ordem econômica formal da ordem econômica material.] In: GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). 12ª ed. São Paulo: Malheiros, 2007. p. 88 – 89.
296 BARROSO, L. R. . A ordem econômica constitucional e os limites à atuação estatal no controle de
preços. São Paulo: Revista dos Tribunais, v. 795, 2002, p. 55.
297 GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). 12ª ed. São
Paulo: Malheiros, 2007. p. 200.
298 LEOPOLDINO DA FONSECA, João Bosco. Direito Econômico. 5ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 2004. p. 68
– 69 e GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). 12ª ed. São Paulo: Malheiros, 2007. p. 195 – 197.
recursos econômicos nacionais299.
A soberania nacional, primeiro princípio da Ordem Econômica, não estabelece o isolamento da economia nacional, assim como não valida uma situação de dependência externa. O princípio alcança o desenvolvimento nacional, integrado à cooperação e integração econômica, num patamar de competição equilibrada. A soberania da economia nacional não se confunde com um nacionalismo protecionista, até por que o Brasil constitucionalmente não é um país voltado para o protecionismo econômico300.
O princípio da soberania nacional também é elencado como um dos fundamentos da República (inciso I, art. 1º), devendo a administração pública no âmbito de suas competências procurar assegurar a autonomia econômica nacional em relação as demais Nações, para tanto deve planejar as atividades econômicas necessárias301.
A propriedade privada é um direito real que o cidadão exerce sobre um bem. Assim, o princípio da propriedade privada é o reconhecimento que a Constituição assegura aos agentes econômicos para adquirir, manter e dispor de propriedades, sendo por isso pressuposto da livre iniciativa302.
Algumas propriedades, especialmente as pequenas, são consideradas propriedades individuais simples. A propriedade enquanto direito individual é protegida pelas constituições capitalistas, assim como já foi protegida pelas constituições socialistas. Esse tipo de propriedade não alcança a valoração de função social. O termo propriedade é amplo, abrangendo outro tipo de propriedade. A propriedade designada na Constituição como detentora de função social, é aquela dos bens de produção. Por outro lado, outras propriedades se enquadram e necessitam ter função social, de acordo com suas características diversas da propriedade individual simples. A propriedade com função social deve ser usufruída em benefício próprio e em benefício da coletividade, nunca em exclusivo benefício próprio, ou seja, de modo limitado303.
299 Soma-se aos demais princípios correlatos – pleno emprego, diminuição das desigualdades, erradicação da
pobreza e miséria, desenvolvimento nacional e a construção de uma sociedade livre, justa e solidária. In: GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). 12ª ed. São Paulo: Malheiros, 2007. p. 223 – 224.
300 GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). 12ª ed. São
Paulo: Malheiros, 2007. p. 225 – 226.
301 SPITZCOVISK, Celso. Princípios do Direito Administrativo Econômico. In: BATISTA DOS SANTOS,
Márcia Walquíria; CARDOZO, José Eduardo Martins; QUEIROZ, João Eduardo Lopes (org.) Curso de Direito
Administrativo Econômico: Vol. I. São Paulo: Malheiros, 2006. p. 76 - 78.
302 MASSO, Fabiano Dolenc Del. Direito Econômico. Rio de Janeiro: Campus - Elsevier, 2007. p. 49.
303 GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). 12ª ed. São
O quarto princípio elencado como fundamental à Ordem Econômica é o da livre concorrência, que é um desdobramento do princípio da livre iniciativa. O ingresso de novos agentes econômicos em determinado mercado é assegurado pela livre iniciativa, enquanto que a permanência da concorrência real é assegurada pela livre concorrência. Já o quinto princípio diz respeito à defesa do consumidor. A defesa do consumidor valida a tese de que o Estado deve intervir na Ordem Econômica para reestabelecer o equilíbrio nas trocas comerciais que envolvam o polo mais frágil da relação – o consumidor304. O consumidor é parte essencial no
desenvolvimento de uma nação, e sem a sua proteção é inviável a comercialização regular e o equilíbrio do mercado.
Ora a restrição ou supressão da concorrência no mercado capitalista afeta diretamente os consumidores, devendo a Administração incentiva e efetuar a livre concorrência de modo simultâneo à defesa dos direitos do consumidor305.
A prevenção e repressão às infrações contra a Ordem Econômica assume a defesa da livre iniciativa, livre concorrência, a defesa do consumidor e da propriedade, dentro dos preceitos constitucionais. Fica evidente que não existem princípios isolados306.
A Ordem Econômica tornou princípio à defesa do meio ambiente307, quando a temática ambiental ganhou força no fim do século XX, tornando sua importância irrenunciável ao direito pátrio. A prática de tal princípio caminha pela consolidação da
304 MASSO, Fabiano Dolenc Del. Direito Econômico. Rio de Janeiro: Campus - Elsevier, 2007. p. 51.
305 A defesa do consumidor ainda aparece na Constituição no inciso XXXII, do art. 5º (o Estado promoverá, na
forma da lei, a defesa do consumidor), no inciso VIII, do art. 24 (Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre responsabilidade por dano ao meio ambiente, ao consumidor, a bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico), no §5, do art. 150 (A lei determinará medidas para que os consumidores sejam esclarecidos acerca dos impostos que incidam sobre mercadorias e serviços), no art. 48 dos ADCT (O Congresso Nacional, dentro de cento e vinte dias da promulgação da Constituição, elaborará código de defesa do consumidor) e no inciso II, do art. 175 (Incumbe ao Poder Público, na forma da lei, diretamente ou sob regime de concessão ou permissão, sempre através de licitação, a prestação de serviços públicos. A lei disporá sobre: os direitos dos usuários).
306 GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). 12ª ed. São
Paulo: Malheiros, 2007. p. 211 – 212.
307 A defesa do meio ambiente aparece na Constituição no art. 225 (Todos têm direito ao meio ambiente
ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações, com incumbências ao poder público), no inciso LXXIII, do art. 5 º (qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ambiental), incisos VI e VII, do art. 23 (É competência comum dos entes proteger o meio ambiente e combater a poluição em qualquer de suas formas; e preservar as florestas, a fauna e a flora), incisos VI e VIII, do art. 24(Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre: florestas, caça, pesca, fauna, conservação da natureza, defesa do solo e dos recursos naturais, proteção do meio ambiente e controle da poluição; e responsabilidade por dano ao meio ambiente), inciso III, do art. 129 (São funções institucionais do Ministério Público: Promover o inquérito civil e a ação civil pública, para a proteção do meio ambiente), §3 º do art. 174 (O Estado favorecerá a organização da atividade garimpeira em cooperativas, levando em conta a proteção do meio ambiente e a promoção econômico- social dos garimpeiros), inciso VIII, do art. 200 (Ao sistema único de saúde compete, além de outras atribuições, colaborar na proteção do meio ambiente, nele compreendido o do trabalho), e inciso V, do art. 216 (Constituem patrimônio cultural brasileiro os conjuntos urbanos e sítios ecológicos).
economia nacional, na medida em que a sustentabilidade dos recursos naturais nacionais é essencial para o ambiente econômico. É pleonasmo falar em desenvolvimento sustentável, só é considerado desenvolvimento aquele que respeita o meio ambiente, não existe desenvolvimento insustentável.
O princípio do meio ambiente revela o equilíbrio da Ordem Econômica capitalista, validando a forma sustentável do capitalismo nacional308. Mesmo na hipótese de imensa abundância de recursos naturais, o princípio da defesa do meio ambiente valida apenas as boas práticas de manejo ambiental. A eficiente utilização dos recursos naturais alcança os variados biomas brasileiros, dos mais robustos aos mais debilitados.
Por sua vez, a redução das desigualdades regionais e sociais estimula a redistribuição da renda nacional. Erradicar a pobreza e a marginalização, assim como reduzir as desigualdades sociais e regionais, são preceitos e fundamentos da República, para assegurar a todos a existência digna como fim da Ordem Econômica. A constatação de que existe pobreza, marginalidade social, forte desigualdades entre classes e entre regiões no Brasil, condiciona os governos a atuarem na elaboração de políticas públicas que alterem essas realidades309.
O princípio da busca do pleno emprego é decorrente do preceito da expansão das oportunidades de empregos produzidos (introduzido pelo inciso VI, do art. 160, da EC n.1/69). Une-se aos princípios da valorização do trabalho humano, e com o direito social ao trabalho, no quadro laboral instituído na Constituição310.
Se altas taxas de desemprego configuram uma situação de extrema preocupação, fomentando a desigualdade e da injustiça social, o princípio programático da busca do pleno emprego guia o Estado no objetivo de evitar tais situações311.
O princípio do tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte alcança as pequenas empresas de capital nacional ou estrangeira, constituídas no Brasil312. O tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte sugere o fortalecimento dos princípios da livre iniciativa e da livre concorrência. A Ordem Econômica Constitucional optou pela necessidade de múltiplos agentes econômicos, condenando as formas de concentração de mercado. Alia-se
308 MASSO, Fabiano Dolenc Del. Direito Econômico. Rio de Janeiro: Campus - Elsevier, 2007. p. 53.
309 GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). 12ª ed. São
Paulo: Malheiros, 2007. p. 219.
310 É inconstitucional qualquer política ou plano público que conduza a uma redução das ofertas de emprego. In:
GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). 12ª ed. São Paulo: Malheiros, 2007. p. 252 – 253.
311 MASSO, Fabiano Dolenc Del. Direito Econômico. Rio de Janeiro: Campus - Elsevier, 2007. p. 54 – 55. 312 GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). 12ª ed. São
ainda à livre iniciativa quando possibilita o ingresso de novos agentes no mercado.
Luís Roberto Barroso divide os princípios da Ordem Econômica em dois grupos: princípios de funcionamento e princípios fins. De fácil compreensão, os princípios de funcionamento são as regras básicas da ordem: soberania nacional, propriedade privada, função social da propriedade, livre concorrência, defesa do consumidor e defesa do meio ambiente. Enquanto os princípios fins são as metas finais da ordem: redução das desigualdades regionais e sociais, busca do pleno emprego e tratamento favorecido para as empresas brasileiras de capital nacional de pequeno porte313.
O papel do Estado na Ordem Econômica para Luís Roberto Barroso é a preservação e promoção dos princípios de funcionamento e implementação dos programas para a realização dos princípios-fins314.