Entre 2000 e 2010 se tornaram mais frequentes no país políticas públicas voltadas à democratização do acesso ao ensino superior, que incluíram tanto políticas de ação afirmativa – em universidades públicas – quanto a ampliação de políticas de financiamento estudantil para
os jovens com origem social em estratos mais baixos. Até aqui vimos como a desigualdade com base em características de origem opera nas transições de conclusão do ensino médio e
de entrada na universidade “empurrando” desigualmente jovens dos estratos mais baixos para
a participação no mercado de trabalho, conjugada ou não à progressão educacional. Para os jovens dos estratos mais altos a progressão com dedicação exclusiva aos estudos é sempre mais provável, ao passo que, entre os estratos mais baixos, principalmente na transição para a universidade, a participação no mercado de trabalho se efetiva quase que como um condicionante para a progressão educacional. No caminho que conduz à entrada no ensino superior, vimos como as barreiras têm alturas muito diferentes se consideramos a origem social dos jovens, assim como a atratividade diferente do mercado de trabalho, dependendo do estrato de origem, também modela padrões de estratificação educacional na acessibilidade a transições mais avançadas.
Mas é claro, existem jovens de estratos menos privilegiados que conseguem suplantar estas barreiras e atingem o nível superior de ensino, mesmo que suas chances de realizar essa transição fossema priori mais baixas. Nesse contexto, será que existem diferenciais de classe de origem na acessibilidade dos dois segmentos do ensino superior brasileiro (público e privado) que se acumulam aos diferenciais observados de acessibilidade aos níveis educacionais que analisamos? Colocando de outra forma: uma vez que se atinge o ensino superior, o segmento de destino dos jovens de diferentes estratos é o mesmo ou as desigualdades tendem a se acumular também se consideramos o segmento no qual estes jovens conseguem se inserir no ensino superior?Ao levantarmos estas questões procuramos refletir de maneira mais sistemática sobre a relação entre expansão do ensino superior e acessibilidade, e buscamos avançar na avaliação empírica de questões ainda não desenvolvidas nas análises presentes na literatura brasileira sobre o tema, fazendo-o em consonância com as concepções teóricas mais proeminentes na literatura internacional sobre as desigualdades qualitativas de oportunidades educacionais.
O painel 27 apresenta os resultados com a distribuição das chances de pertencimento aos
destinos definidos para T3. Nota-se que as desigualdades são menos pronunciadas entre os
destinos que envolvem a progressão em universidade pública. As chances de entrada na universidade pública sem conjugação com o trabalho são as mais concentradas em patamares
baixos de chances para todos os estratos, e este é também o destino em T3 para o qual as
desigualdades por classes de origem são menos pronunciadas, sem grandes mudanças no perfil das distribuições de chances ao longo do período de análise. Por outro lado, há uma diminuição nas desigualdades de classe de origem associadas à entrada no ensino superior pela via pública conjugada ao trabalho. No início do período, as chances dos jovens com origem em I+II+IVa2+IVc1 eram significativamente menores em comparação aos
Painel 27. Distribuição Empírica Acumulada das Probabilidades de Pertencimento às Categorias de Alocação de Tempo por Classes de Origem – T3 - 2001, 2005 e 2009
Fonte: PNAD, IBGE. 2001, 2005 e 2009. Elaboração do autor.
ES Privado ES Privado + Trabalho ES Público ES Público + Trabalho
2001
2005
outros estratos, e ao longo do tempo, o perfil de distribuição das chances de pertencimento a
este destino em T3 tendeu a aproximar todos os estratos analisados, resultando em curvas de
chances muito próximas em 2009. A adoção crescente de políticas de ação afirmativa em universidades públicas pode ter contribuído para a dinâmica observada de diminuiçao das desigualdades associadas ao setor público, em ponto que discutiremos em maior profundidade no próximo capítulo.
É nas chances de progressão ao ensino superior pelo setor privado que se observam os diferenciais mais pronunciados de progressão entre os destinos possíveis delimitados por classe de origem. A evolução do perfil de distribuição de chances para a progressão com dedicação exclusiva aos estudos no setor privado sugere claras vantagens dos jovens com origem no estrato mais alto, mas vantagensque decrescem ao longo do período analisado,
sugerindo diminuição nas desigualdades de acesso a esta categoria de destino em T3 entre
2001 e 2009. As chances de progressão no ensino superior privado conjugado ao trabalho apresenta dinâmica oposta: neste caso, as chances dos estratos mais altos são menores, sendo significativamente mais comum entre os estratos mais baixos que a categoria de
destino em T3 seja a progressão no segmento privado conjugada ao trabalho.As
desigualdades por classe de origem sobre as chances de progressão no nível superior no setor privado conjugada à participação no mercado de trabalho tenderam a diminuir entre 2001 e 2005 e recrudescem novamente entre 2005 e 2009, com uma elevação das chances entre
todos os estratos de origem de que o destino em T3 seja esta categoria.
Painel 28. Efeito Líquido da Classe de Origem por Idade nas Chances de Pertencimento às Categorias de Destino em T3 – 2001, 2005 e 2009
Fonte: PNAD, IBGE. 2001, 2005 e 2009. Elaboração do autor.
No painel 28 apresentamos os resultados para o efeito líquido da classe de origem sobre as
chances de pertencimento às categorias de destino em T3 por idade e os resultados sugerem
que a entrada no ensino superior privado com dedicação exclusiva aos estudos é menos provável quanto mais alta a idade dos jovens, sendo que em todos os anos analisados são observáveis vantagens associadas a origem em I+II+IVa2+IVc1 sobre as chances de
pertencimento a este destino em T3. A progressão no setor privado conjugada ao trabalho tem
dinâmica oposta, sendo que as chances crescem significativamente com o avanço da idade, o que pode estar nos sugerindo um movimento de retorno ao sistema educacional posterior à entrada no mercado de trabalho por uma parcela da população que analisamos. Em nível, as chances de progressão no setor público entre aqueles que entram na universidade são sempre mais baixas. Assim como a progressão no setor privado, as chances diminuem com a idade, no caso da progressão com dedicação exclusiva, e aumentam no caso da progressão conjugada ao trabalho. Interessante notar como os resultados sugerem não haver vantagens claras dos jovens com origens em estratos mais altos nas chances de progressão em categorias que envolvam o ensino superior público, o que parece indicar que as desigualdades crescentes no acesso ao ensino superior se efetivam principalmente nas maiores chances de progressão dos jovens de classes privilegiadas de se dirigirem ao setor privado de ensino superior no país.
Por fim o painel 29 apresenta o efeito líquido da classe de origem sobre as chances de
pertencimento às categorias de destino em T3, por predominância da oferta privada de vagas
de nível superior. A associaçao entre predominância da oferta privada de vagas no ensino
superior e as categorias de destino em T3 se demonstrou mais robusta do que o observado
em T2. Mais uma vez a progressão com dedicação exclusiva aos estudos no setor privado é
claramente mais provável entre os jovens com origem no estrato mais alto, sendo que as
chances são menores quanto menor a predominância privada da oferta – tendência que
perpassa todos os estratos de origem, mas cuja intensidade diminui entre 2005 e 2009. A progressão no setor privado conjugada ao trabalho também está negativamente associada à predominância de oferta privada no ensino superior, sugerindo que quanto maior a paridade entre oferta pública e oferta privada, menores as chances de pertencimento a esta categoria
de destino em T3. Mas diferentemente do que observamos para a dedicação exclusiva aos
estudos, não há vantagens evidentes associadas à origem no estrato mais alto. Ainda que as desigualdades tenham apresentado tendência à diminuição no período, as chances de jovens com origem privilegiada de pertencerem a esta categoria de destino em nenhum momento são maiores, indicando que o estudo em nível superior conjugado ao trabalho é uma realidade mais frequente entre jovens com origem nos demais estratos analisados.
Painel 29. Efeito Líquido da Classe de Origem por níveis de predominância da oferta privada de vagas universitárias nas Chances de Pertencimento às Categorias de Destino em T3– 2001, 2005 e 2009
Fonte: PNAD, IBGE. 2001, 2005 e 2009. Elaboração do autor.
A paridade entre oferta pública e privada tem associação oposta com as categorias de destino que envolvem o setor público de ensino superior. Nas duas categorias que envolvem progressão educacional no setor público, quanto mais próxima a oferta pública da oferta privada maiores as chances de progressão no setor público, conjugada ou não à participação no mercado de trabalho. Os resultados para o pertencimento à trajetórias educacionais de progressão no setor público com dedicação exclusiva aos estudos não apresentam nenhum indício claro de vantagens associadas à origem no estrato mais alto, e sugerem que a paridade entre oferta pública e privada favorece principalmente os jovens universitários com origem nos estratos mais baixos, em especial no ano de 2009. A mesma tendência é observada na progressão no ensino público conjugada ao trabalho, para os quais as chances aumentam quanto mais próxima for a oferta pública da oferta privada, com vantagens mais claramente associadas aos estratos mais baixos.
Tomados em conjunto, os resultados sugerem que as desigualdades por classe de origem no segmento no qual os jovens progridem no ensino superior se evidenciam principalmente em maiores chances de acesso ao ensino superior com dedicação exclusiva aos estudos por jovens com origem nos estratos mais altos. Entre as demais possibilidades de trajetórias, as desigualdades por origem são muito menos pronunciadas e não sugerem vantagens aos jovens de origem privilegiada. A associação entre predominância do tipo de oferta e os
igualdade nos padrões de acesso por classe de origem, por aumentar as chances de pertencimento às categorias que envolvem o ensino superior público, nas quais as desigualdades são claramente menos pronunciadas e, em alguns casos, chegam a favorecer jovens com origem em estratos sociais de nível sócio-econômico mais baixo. A predominância de oferta privada favorece níveis mais altos de desigualdade principalmente por aumentar as chances de dedicação exclusiva aos estudos, categoria de destino na qual as vantagens associadas à origem social privilegiada são mais proeminentes.