3.2. Enerji Analizi
3.3.1. Ekserjiye dayanan temel kavramlar
As dedicatórias, bem como o prólogo ao leitor, são lugares onde o cronista enuncia a si próprio como leitor de sua obra, inventando, a partir de lugares-comuns, a imagem de si mesmo. Os discursos oficiais, que acompanham os autorais, reverberam essa imagem inventada pelo próprio cronista. Como nos lembra Borges, “una de las obras más importantes de un escritor – quizá la más importante de todas – es la imagen que deja de sí mismo a la memoria de los hombres, más allá de las páginas escritas por él”19. É a imagem inventada na parte introdutória, tanto por Solís como pelos primeiros leitores de sua obra, que lhe permite um futuro de glória e fama20 como cronista, e que estas se estendam à conquista que narra, ao herói que a concretiza e à sua nação.21 Decorosamente, a glória e a fama são atribuídas, servil e humildemente, às figuras do rei Carlos II e do Conde de Oropesa, pois Solís, por pudor ‘regrado’, não ousa reivindicá-las em seu nome. Assim, temos a imagem de um homem discreto, que segue o decoro cristão, dedicado às letras, lembrando aqui que a correspondência entre a função social e o exercício da pena é um parâmetro particularmente de prestígio para os escritores dos séculos XVI e XVII.
O título da primeira dedicatória – ‘AL REY NUESTRO SEÑOR’ – repete a forma do frontispício, pois são lugares em que se reafirma, a partir do possessivo ‘NUESTRO’, o pacto de sujeição do autor, do mecenas, do impressor e dos leitores, consequentemente de todas as regiões dominadas pela Coroa espanhola, sob a proteção do mesmo soberano. Ademais, o destaque do gênero da obra no frontispício tem relação intrínseca com a dedicatória, pois um livro de História só pode ser dedicado a um rei, como evidenciam as primeiras linhas da dedicatória a Carlos II.
Llamò la Venerable Antiguedad Libros de Reyes à las Historias; ò porque se componen de sus Acciones, y Sucessos, ò porque su
19 Borges desenvolve esse conceito como base para a afirmação de que, pessoalmente, Wordsworth foi um poeta
superior a Samuel Taylor Coleridge, de quem trata na aula de 16 de novembro de 1966. ARIAS, Martín; HADIS, Martín. Borges Profesor. Curso de literatura inglesa en la Universidad de Buenos Aires. Edición, investigación y notas de Martín Arias y Martín Hadis. Buenos Aires: Emecê Editores, 2001, p. 179.
20 Fama quer dizer eternidade humana, aperfeiçoada natureza, superação da mortalidade, alvo enfim de toda poesia e
pintura perfeitas, ou seja, de toda arte. Apud MUHANA, Adma. “Introdução”. In: Op. cit., p. 46.
21 Esse termo é mencionado, frequentemente, nos discursos da parte introdutória. No prólogo ao leitor, por exemplo,
Solís afirma sobre os historiadores estrangeiros: “no pueden sufrir la Gloria de nuestra Nacion, ni acaban de conocer lo que obran contra si en estas Cabilaciones: pues descubren la flaqueza de su Emulacion, y ordinariamente queda mejor el Imbidiado”. Solís refere-se, obviamente, à nação espanhola; em outros momentos, usará o termo para se reportar ao México. Atualmente, tanto o México como a Espanha, bem como outras regiões da Europa do século XVI e XVII, não são considerados como uma nação, pois tal termo está carregado de implicações teóricas advindas, principalmente, da ideologia do XIX. Dessa forma, esclarecemos que usamos o termo com o mesmo sentido em que é mencionado nos discursos da parte introdutória, ou seja, para se referir a um determinado povo.
principal enseñanza mira derechamente a las Artes de Reynar; pues se colige de la variedad de sus Exemplos, lo que puede rezelar la Prudencia, y lo que debe abrazar la Imitacion. (SOLÍS, 1684, s/pág.)
O conceito de História exposto atesta que uma obra deste gênero só pode ser dedicada à Sua Majestade porque seu principal ensinamento compreende as artes de reinar. A variedade de exemplos que se repete na narração das Histórias permite que o rei eleja as ações dignas de imitação e evite aquelas que podem macular a prudência. A imitação, seja para escrever, seja para reinar, é um exercício obrigatório, cujo fim é alcançar a emulação. Assim, cabe a Solís emular outros cronistas e historiadores como cabe aos capitães superar Cortés, e ao Rei Carlos II emular o Imperador Carlos V.
No final do terceiro parágrafo da dedicatória, Solís repete o lugar da prática da imitação como exercício maior da prudência, ressaltando a recomendação de que Carlos II deve seguir “las huellas de sus gloriosos Progenitores”:
[...] Y no faltan motivos que inducen à la imitacion para mayor exercicio de la Prudencia: pues hallarà V. Magestad en la Historia de Nueva España un campo muy dilatado, en que seguir las huellas de
sus gloriosos Progenitores, que miraron siempre la conservacion de
aquellos Indios, y la conversion de aquella Gentilidad, como la principal riqueza, que se pudo esperar de las Indias. (SOLÍS, 1684, s/pág.)
A prudência, que deve ser a busca primordial da realeza e dos homens de corte, principalmente aqueles que são investidos de cargos públicos, é a virtude da inteligência mediante a qual se pode deliberar adequadamente sobre os bens e os males. Por ser uma virtude, “é necessariamente bela, e sendo boa, é digna de louvor” (ARISTÓTELES, 2005, 1366b, p. 125).Portanto, para que o reinado de Carlos II seja digno de elogio e louvor deve imitar o passado de glórias de seus progenitores, mais especificamente o de Carlos V, cujo reinado está repleto de atos memoráveis, como a conquista do México. Aristóteles afirma que os atos memoráveis serão mais belos quanto mais durável for a memória deles; assim, Solís almeja tanto a beleza como a durabilidade da memória ao publicar sua Historia.
Nas últimas linhas do fragmento, o elogio aos ‘gloriosos progenitores’ é justificado em razão do empreendimento de tão árduas conquistas com o fim de, unicamente, conservar os índios e convertê-los à santa fé católica. Assim, a conversão foi a maior, quiçá a única divulgada, riqueza das Índias. Esse juízo mostra que a
Historia está enredada por um olhar providencialista, aliás como todo o processo de conquista do Novo Mundo desde a notícia da chegada de Colombo. Para os séculos XVI e XVII, a História é observada desde o esquema bíblico da instituição eclesiástica, pois a verdade não se comprova, apenas se repete. A Espanha assume o plano bíblico de salvação – que prevê a vinda do anticristo22 e exige dos cristãos a evangelização de todo o orbe – para justificar as batalhas e as guerras empreendidas no Novo Mundo.23 Por assumir esse papel, os castelhanos creem, e divulgam, que foram escolhidos por Deus para a tarefa e por isso contam com Seu auxílio. Solís afirma, no final do segundo parágrafo, que a empresa da conquista das Índias ainda admira ao mundo, sendo tão aplaudida que “se atreve oy à no desmerecer la Real Proteccion de V. Magestad; como no desmereciò entonces los favores del Cielo, que alguna vez dispensò, en su defensa, los Fueros del Poder ordinario; mitigando, al parecer, lo impossible con lo milagoso”. Desse modo, o leitor é instruído sobre o lugar de onde se narra a conquista do México, um lugar que é compartilhado por ele, que sabe que não há nada a ser desvendado e nenhuma verdade a ser comprovada, pois os fatos são exaustivamente conhecidos, inclusive aqueles que repetem a narrativa bíblica, cuja função é amplificar a interferência divina nas batalhas empreendidas na Nova Espanha. Portanto, o que diferencia a Historia de Solís das anteriores é o estilo, ou seja, a elocução empenhada, e não o assunto nem o modo providencialista como narra as ações heroicas de Cortés. Por fim, em sua narração, o natural e o sobrenatural, o impossível e o milagroso convivem sem estranheza, como acontece em tantas outras obras que tratam das conquistas do Novo Mundo.24
22 A referência ao anticristo pode ser lida na primeira e na segunda epístola do apóstolo São João no Novo
Testamento. Há muitas versões e traduções da Bíblia cristã, uma das que usamos para a tese é a antiga versão de Casiodoro de Reina (1569), revisada por Cipriano de Valera (1602). Essa edição foi revisada em 1960 e impressa na Coréia pelas Sociedades Bíblicas Unidas em 2006. Para referência ao antigo testamento, também foi consultada a The Septuagint with Apocrypha: English. Sir Lancelot C.L. Breton. Origionally published by Samuel Bagster & Sons, Ltd., London, 1851. O arquivo em PDF está disponível em http://ecmarsh.com desde 2010.
23 De acordo com Alfonso Mendiola (2003, p. 391-392), no esquema medieval de correspondências e semelhanças
entre a simbólica Jerusalém terrena e a Jerusalém celestial, o desenvolvimento figurativo desta última “impulsó la comunicación profética, cuya preocupación principal consistía en anunciar la llegada del anticristo y la implantación terrenal del milenio de los justos, profetizado en Apocalipsis XX. La interpretación ortodoxa de este pasaje, hecha por San Agustín, declaraba que el reino de los justos había empezado ya, con el surgimiento de la Iglesia; sin embargo, la creencia en el advenimiento del anticristo, su derrota y la fundación del reino terrenal de los justos, ha sido una de las constantes del cristianismo. [...] el Juicio Final no podía llegar si a todos los signos anteriores no se les unía la liberación de Jerusalén, si no ¿contra quién lucharía el anticristo? La venida del anticristo exigía la previa cristianización de todo el orbe.” Mendiola adverte que os conquistadores que chegam ao Novo Mundo carregam consigo esse simbolismo e tratam de observar os mesmos signos no novo ‘império gentil’ com o qual se deparam. Desse modo, os relatos da conquista do México devem revelar para a mentalidade cristã europeia a presença desses signos nas novas terras.
24 A presença e interferência da providência também é mencionada na dedicatória de Francisco Foppens ao Duque
de las Dos Bavieras, quando são rememoradas as inúmeras batalhas lideradas pelo Duque: “Y si la desgracia permitiò que en la Batalla de Hochstett se interrumpiesse el curso de tantas, y tan señaladas Victorias, como hasta este dia mereciò la intrepidez de V. A. E. todos saven que no intervinò en esta ocurrencia la mas leve falta
No final do primeiro parágrafo, Solís afirma que a ‘noble ossadia’ de oferecer as obras aos ‘Grandes Reyes’ deve ser considerada como menos culpável, além de mais generosa, com os historiadores do que com os escritores, porque os primeiros ensinam aos maiores ouvintes, ou seja, aos reis:
[...] De cuyo principio nace, que la noble ossadia de los Escritores, que dedican sus Obras à los Grandes Reyes, sea menos culpable, o mas generosa en los Historiadores, que sin disputar su estimacion à las demàs Facultades, tienen por suyo el Magisterio de los Mayores Oyentes. (SOLÍS, 1684, s/pág.)
Com essa afirmação, Solís garante a utilidade de sua Historia, pois sua função de cronista está laureada pelo ‘Magisterio de los Mayores’, ou seja, dos príncipes e reis. Se é útil é porque ensina e deleita; ensinar e deleitar são fórmulas usadas pelos escritores para aprovarem suas obras, pois é a utilidade que garante a aprovação. Desse modo, a ‘ousadia’ – ou ‘atrevimento’25 – de Solís deve ser perdoada porque é nobre, como é sua função e também a figura a quem ele dedica sua obra. No início do segundo parágrafo, Solís repete fórmulas de humildade e de sujeição ao rei para buscar sua benevolência e proteção; assim, afirma: “Estas congruencias, Señor, me han sido necessarias, para vencer el miedo reverente, con que pongo à los Reales pies de V.Magestad esta primera conquista de la Nueva España, que andava obscurecida, ò maltratada en diferentes Autores [...]”. Para dedicar sua obra ao rei, o cronista teve de vencer o medo respeitoso, e decoroso, que deve demonstrar, como se a obra não estivesse à altura de Vossa Majestade. Esse medo se desdobra ao longo da dedicatória em outras fórmulas de humilhação, que estão em consonância com os lugares de elogio à Vossa Alteza, pois quanto mais elogia o rei, mais se humilha o cronista.
No último parágrafo, Solís afirma que escreveu sua obra apenas para cumprir com sua função de cronista e não para alcançar a glória e a fama, afinal tal busca seria incompatível com a vida eterna que se espera de um cristão. Assim, reafirma sua posição subalterna e servil:
que quiso hazer alarde se su inconstancia, y lisonjear à tanto Enemigos, como la Embidia (mas poderosa que la propia conbeniencia de conserbar, y defender sus intereses la Libertad) coligò contra V. A. E.” SOLÍS. Don Antonio de. Op. cit., 1704, s/pág. Grifos nossos.
25 Palavras como ousadia e atrevimento são consideradas como fórmulas retóricas da captatio benevolentiae. Com
Pero no es mi animo, que V. Magestad se digne de conceder el oydo à las advertencias de una lección, que avrà perdido parte de su grandeza en la negligencia de mi Pluma: solo aspiro à que V. Magestad me permita su Nombre, para ilustrar la frente de mi Libro; y no sin algun Titulo, que dà bastante razon à mi disculpa; pues se deve à V. Magestad quanto escriven sus Chronistas; y yo pago, con este corto
caudal de mis estudios, la deuda de mi Profession. Deuda, en cuyo
reconocimiento desea manifestarse mi humildad; y puede mal encubrirse mi ambicion, pues busco, para su desempeño, la gloria de
tan alto Patrocinio, y hallo en la sombra de V. Magestad todo el esplendor que falta en mis Escritos. (SOLÍS, 1684, s/pág.)
A ras del suelo, como se diz em espanhol, assim se posiciona Solís ao final da dedicatória ao imitar e repetir fórmulas da tópica de humildade que evidenciam sua dependência e sujeição ao rei, sedimentando a imagem que inventa de um cronista decorosamente servil. A glória, que não pode reivindicar em seu nome, é transferida para a figura do rei, logo, sua humildade está em consonância oposta ao encômio das obras e circunstâncias, logo, da nobreza e educação, de Vossa Majestade. Na última oração – “y hallo en la sombra de V. Magestad todo el esplendor que falta en mis Escritos” –, uma engenhosa aliança entre duas palavras, e ideias, opostas ressalta que a grandiosidade do rei está presente até mesmo em sua sombra, a qual irradia o esplendor que falta aos escritos do cronista. ‘Sombra’, aqui, abarca os sentidos de proteção, asilo, favor e defesa. Em extensão, a proteção esplendorosa que pede na dedicatória é também para sua Historia, que poderá ser defendida, assim como o cronista, dos leitores injustos e pedantes, além dos falsos discretos, pela sombra do rei.
Em consonância com o encômio e o louvor que empenha à figura de Hernán Cortés e aos gloriosos progenitores de Carlos II, Solís aplica o vitupério aos astecas:
[...] una Monarquia de Príncipes Barbaros, que se dilatò sin otro derecho que el de la Guerra; y se perdiò à fuerza de Tiranias: cuya
desolacion, mirada como castigo de atrocidades, inclina la voluntad
à las virtudes contrarias; pues habla tambien con los Reyes Justos la ruyna de los Tiranos. (SOLÍS, 1684, s/pág.)
A tirania do império asteca provoca a desolação, que é vista como castigo em razão das atrocidades cometidas durante o tempo em que dominaram a Nova Espanha. Vemos que
o olhar de censura também é providencialista, pois afirma que as ações contrárias à virtude sofrerão com os castigos, obviamente, divinos.
Na dedicatória ao rei, são evidentes os preceitos que regem a Historia de Solís, que, em razão do gênero, aproximam-se do epidítico, ou demonstrativo: o elogio, que abrange o louvor e o encômio, e o vitupério, que abarca a censura. O objetivo de quem elogia ou vitupera é discorrer sobre a virtude e o vício, o belo e o vergonhoso. Segundo Aristóteles (2005, 1366b, p. 125):
“[...] o belo é o que, sendo preferível por si mesmo, é digno de louvor; ou o que, sendo bom, é agradável porque é bom. E se isto é belo, então a virtude é necessariamente bela; pois sendo boa, é digna de louvor. A virtude é, como parece, o poder de produzir e conservar os bens, a faculdade de prestar muitos e relevantes serviços de toda sorte e em todos os casos”.
Obviamente, o vício é o contrário da virtude e o vergonhoso do belo. Aquele que lê a dedicatória ao rei, depara-se com as regras do lugar de onde Solís lê a conquista do México, pois sua Historia segue os preceitos do epidítico para elogiar o caráter e as ações do conquistador Hernán Cortés e dos soldados espanhóis, e vituperar o império asteca e seus aliados. É útil recordar que os preceitos empregados por Solís seguem a retórica cristã, portanto, acredita-se que a arte e o engenho do cronista são alimentados pelo sopro divino. Assim, Deus, o soberano Criador, “sembró al mismo tiempo en nuestros ánimos las semillas de las ciencias y virtudes, para que cultivándolas despues nosotros, las perficionasemos, parte con el socorro divino, parte ayudados de nuestra industria y trabajo” (GRANADA, 1793, p. I).Dessa forma, o plano divino interfere não apenas nas ações de conquistas do Novo Mundo mas também na escrita do cronista.
A dedicatória ao Conde de Oropesa é mais breve se comparada à do rei. Nela, Solís concentra-se, fundamentalmente, na tópica da humildade, enfatizando sua atitude servil perante a Casa de Oropesa. Há a repetição constante de fórmulas retóricas que evidenciam essa atitude de dependência, no entanto, vemos que ela não se restringe apenas ao aspecto financeiro mas também ao intelectual:
Ni V. Exc. deve negar la benignidad de sus oìdos à un Criado
antiguo de su Casa; ni yo, que reconozco à esta dicha el Caracter de
mi primeira estimacion, puedo colocar mejor la humildad de mi
Este Libro, que mereciò tal vez algunos reparos de V. Exc.
quedando con la vanidad de que se aprobava lo que no se corregia: Ita enim magis credam catera tibi placere, si quædam
displicuisse cognouero.26 Este Libro, pues, tan favorecido entonces, necessita oy de V. Exc. para llegar, con algun decoro, à los Reales pies de su Magestad, enmendada tambien à la sombra de V. Exc. la
corta suposicion de su Dueño. (SOLÍS, 1684, s/pág.)
Solís afirma ser um criado antigo da Casa de Oropesa porque, apesar de dedicar a obra a Dom Manuel Joaquín Álvarez de Toledo y Portugal27 – VIII Conde de Oropesa –, serviu durante muitos anos a Dom Duarte Fernández Álvarez de Toledo y Portugal, tendo sido, inclusive, seu secretário. Dom Duarte – VII Conde de Oropesa – era pai de Dom Manuel, a quem a obra é dedicada. Em El discreto, no tópico “De la cultura y aliño”, Gracián (1969, p. 116) elogia Dom Duarte afirmando que “todo copian del culto, bizarro, galante, cortesano, lúcido, práctico, erudito, y sobre todo discreto, el excelentísimo señor don Duarte Fernández Alvarez de Toledo”. Solís enaltece os reparos que o conde realizou em seu livro, pois trata suas intervenções como ‘merecimento’; ademais, afirma que seria vaidade, obviamente indecorosa, desejar que o livro fosse aprovado sem as correções discretas do Conde Dom Manuel. A vaidade, por ser um vício, deve ser evitada, pois fere o decoro do discreto28 e também do cristão. Essa reverência de Solís é ornada com uma sentença em latim de Plínio, o Jovem, do Panegírico de Trajano, que amplifica a honra de ter sua Historia corrigida pelo Conde. Assim, Solís afirma acreditar que o restante da obra lhe agradou, pois sabe que algumas partes lhe desagradaram. A leitura do fragmento evidencia que a dívida de Solís com a Casa de Oropesa não é apenas financeira, mas também intelectual, pois se sua obra brilha é em razão de ser sustentada pela ‘mão’ do conde em, pelo menos, dois sentidos: o financiamento e a correção. A figura do Conde de Oropesa une a função de mecenas
26 Plínio, o Jovem, Livro 3, Epístola 13. Tradução de Ita enim magis credam cetera tibi placere, si quædam
displicuisse cognovero: “Acreditarei ainda mais que o resto [do discurso] te agradou, se souber que algumas partes te desagradaram”. Todas as sentenças em latim da parte introdutória tiveram a indicação exata de autor e obra e a tradução realizada pelo professor e latinista Dr. João Angelo Oliva Neto, do Departamento de Letras Clássicas da Universidade de São Paulo.
27 O nome do conde não aparece na dedicatória, sabemos que se trata de Dom Manuel Joaquín Álvarez de Toledo y