• Sonuç bulunamadı

É de interesse e foco científico a compreensão de como se dá a participação e atuação desses diferentes agentes culturais e como estes interagem e atuam nas práticas das bandas cabaçais do Cariri cearense. Além de que, é interessante perceber de que forma a presença e participação desse conjunto de agentes influenciam nos processos de ressignificação das práticas das bandas.

Na primeira viagem de campo re-estabeleci contato com os interlocutores, tanto das duas bandas cabaçais escolhidas, como com integrantes das Secults das duas cidades, das unidades do SESC e do BNB. Já na segunda viagem de campo, pude ter um contato mais apurado e conversas roteirizadas em temas pertinentes ao objeto de estudo.

A inserção em campo se mostrou promissora, pois todos os interlocutores se mostraram disponíveis para o diálogo, além de demonstrarem interesse na produção dessa

pesquisa – um dos interlocutores já pediu de antemão o retorno deste trabalho, e eu

prontamente me comprometi a fazê-lo. O contato com os agentes rendeu conversas produtivas, tanto sobre a dinâmica da realidade que engloba as bandas cabaçais e suas ações, como sobre de que forma vem se desenvolvendo a atuação desses agentes. A primeira inserção ao campo foi norteada por um roteiro temático bem amplo, o mesmo foi aplicado e melhorado para o segundo momento em campo. As conversas não foram gravadas, nem na primeira viagem de campo, nem no segundo momento a pedido dos interlocutores, mas produzi diário de campo de todos os dias em que estive em pesquisa, o que já proporcionou certo material relativo ao período de trabalho de campo. De maneira geral, todos os contatos com os interlocutores se mostraram disponíveis para as conversas e demonstraram interesse em ter conhecimento do material que resultaria aquelas “entrevistas” / conversas.

É pertinente dizer que a forma como os agentes desenvolvem suas ações é delineado por todo um contexto sócio-político inerente aos próprios agentes. O modo como as Secretarias de Cultura atuam é distinta do modo como o SESC e o BNB atuam. No entanto, ambos os agentes estão carregados de interesses explícitos ou não, e criam processos de lutas simbólicas entre si e uns com os outros, a fim de determinar e legitimar o que é considerado

cultura popular ou não, tanto para eles mesmos – agentes – como para as bandas cabaçais e

De acordo com as entrevistas e por intermédio da pesquisa anterior (SILVA, 2008) foi possível ver que cada agente atua de acordo com sua perspectiva e busca tornar “autêntica” uma série de padrões, além de conceber “modelos pré-estabelecidos” para os

grupos artísticos, construindo-os e definindo-os como “representantes da cultura popular”.

As bandas cabaçais têm uma concepção do que seja cultura popular, bem como o

SESC, o CCBNB e as Secults. Cada sujeito do circuito cultural, e, por conseguinte desta pesquisa, concebe um “modelo” e por intermédio destes vou entender como a prática desse folguedo se constrói atualmente. No entanto, ao se construir uma definição do que é aceito como “grupo de cultura popular”, privilegiando uma parcela, acaba-se por excluir todos os outros grupos artísticos que não se encaixam na definição estabelecida, bem como os outros possíveis significados que o conceito de culturas populares possa assumir. Esquece-se, porém, que a mera inserção de outras pessoas à prática das bandas cabaçais, como a substituição dos membros que vem a falecer por novas pessoas, já produz outra dinâmica à prática da banda cabaçal. Essas novas pessoas têm outra visão de mundo, arraigada na época em que nascerem deste modo, produzem novas relações, que por sua vez, acarretam em novas ressignificações para a prática cultural da banda cabaçal.

Os novos comportamentos mediados pelas novas relações que essas novas pessoas estabelecem, produzem outras formas de construir a prática cultural. Elas acrescentam elementos à prática cultural, o que a renova. Isso não significa dizer que esses novos indivíduos não constituam um sentimento de pertencimento e de identificação com a prática cultural. Essas novas relações podem ser visualizadas por várias situações que presenciei em campo. Um integrante de banda cabaçal, certa vez, ia adentrar ao palco com um telefone celular no bolso e foi criticado por um agente (no caso, a pessoa que o contratou). O tocador da banda não via problemas em manter-se com o celular, mesmo que fosse realizar uma apresentação. Para o mesmo, o objeto em questão faz parte do seu cotidiano e consequentemente, poderia continuar em seu bolso, fazendo, assim, parte de sua vestimenta e da manifestação. Enquanto isso, para o agente seria um absurdo e até um desrespeito para com a prática da banda cabaçal realizar a apresentação com um objeto que, provavelmente, poderia interromper e descaracterizar a manifestação da prática da banda cabaçal.

A segunda viagem de campo mostrou um intricado modo de desenvolver relações entre os agentes da pesquisa, já anunciado em outros contatos realizados. Dentre idas e vindas, as entrevistas foram entendidas como discussões pertinentes sempre sobre o que se

entende pelo conceito “cultura popular”, sobre como a prática cultural da banda cabaçal se desenvolve atualmente e como são mantidas e estabelecidas as relações entre essas bandas e essas instituições. As entrevistas com os interlocutores do CCBNB, SESC e Secult podem ser bem visualizadas na escrita do diário de campo. Tanto que me farei uso do mesmo como recurso metodológico válido. Segue o material citado, desenvolvido com um olhar etnográfico, já que o mesmo seria dificilmente aceito como trabalho dito nos moldes delimitados da etnografia da disciplina antropológica, tendo em vista que o mesmo não pode ser desenvolvido com uma duração pertinente a etnografia clássica.

CAPÍTULO 2

DESENHOS DE UMA TRAJETÓRIA ENTRE A ARTE E O MERCADO: PROCESSOS DE MERCANTILIZAÇÃO DAS PRÁTICAS CULTURAIS

POPULARES

Benzer Belgeler