• Sonuç bulunamadı

[...] O patrão dela [sua mãe], seu Nivaldo, disse “você não está doente! Está tomando esse remédio para o quê?” [...] e a barriga dela crescendo. Acho que ela sabia... E o patrão dizia “Acho que você está grávida!”; e ela dizia “Não é possível! Vinte anos de casada e eu nunca engravidei!” – ela tinha uns trinta e poucos na época. [...] E o patrão disse “Você está grávida sim e pare de beber esse remédio porque você vai matar a criança!”. Aí meu pai arrumou uma droga de uma mulher! E minha mãe disse “Agora eu mato essa pestinha porque por causa dessa cobrinha – ela não sabia se era homem ou mulher, então chamava de cobra – ele está me trocando por outra!”. [...] E tudo era o Nivaldo Silva! Esse homem era demais! Ele disse “Ele está trocando porque ele é safado! Você sabe que o seu marido é um cachorrão! Você vai ter a menina!”. E ele aconselhava, aconselhava, aconselhava; [...]... aí meu pai disse assim “olha, o que foi que essa maldita bebeu!” – porque lá todo mundo xingava – “olha, só o que foi que ela bebeu!”; “Meu Deus, ela vai morrer!” Aí, o homem tinha um jipe, botou ela no jipe e correu! [...] Ela não comia e só tomava remédio para me matar. O médico ficou tiririca com ela! Aí, ela ficou com medo. Veio pra casa, terminou o pré-natal, terminou tudo bonitinho, eu nasci! [...] E tudo isso ela me falou! Eu disse assim “a senhora não gostava de mim né?” E ela disse “Ah, eu queria que você me perdoasse! Você não guarda mágoa de mim, né?”. Eu disse “Não! Pode ficar tranquila que eu não vou ficar com raiva da senhora, nunca! Não tenho mágoa. Eu também te judiei, né? Fiz ficar

com 5 dias de dor, ninguém merece!”. [...] Ela disse que ficou muito amargurada porque meu pai arrumou uma negona, Raimunda, que pariu um filho dele [...] Disse que o dia que eu nasci – ele estava morando na casa dela, com a mãe dela lá – meu pai veio embora, para a casa de mamãe. Aí, quando chegou mamãe disse “eu não quero você aqui!”. E tudo foi esse Nivaldo Soares!... Que disse “Você vai ficar com ele, sim! Ele vai ficar dentro de casa sim porque precisa registrar a menina e precisa dar de comer para sua filha!” O Sr. Nivaldo Soares gostava muito deles! Aí, ele ficou dentro de casa e disse “Eu vou deixar a Raimunda!”, e deixou mesmo!

Gardênia ainda estava sendo gerada e já teve sua identidade pressuposta em função de um primeiro papel, que lhe foi atribuído, de provocadora de traição e do possível abandono de lar por um marido. A primeira personagem a surgir é, então, a “Gardênia – pestinha cobrinha”, sem gênero definido nem humanidade, é bicho, é praga destituída de fala. Mas, já possui um defensor na pessoa de um “patrão-cuidador”, como outros que aparecerão em sua história, e que reconhecem sua humanidade, para além de proteger, aconselhar, incentivar e ensinar, resolvendo situações diversas; sobretudo figuras masculinas, contrapondo-se ao “pai-patrão”, tirânico, agressivo, mas em duas raras vezes, mulheres (“patroas-cuidadoras”). Ela vai indicá-los com a expressão “Tudo foi Fulano (a)!”. O “tudo” refere-se ao esclarecimento das situações, e à sugestão de solução. Informações e a articulação das mesmas.

A presença de um médico-educador em marcos decisivos na vida de Gardênia também é interessante: na sua gestação e nascimento, nas gestações de suas filhas, na gestação de sua neta como será visto à frente; mas, esse estava no Nordeste e, provavelmente, era nordestino. Um nordestino diferente do que a política de identidade de invisibilidade estigmatizou na “severinidade”. Mas, ela diz que se vingou de sua mãe, já que a fez sofrer dores de parto, como veremos a afirmação repetir-se adiante. Curiosamente, observamos também que a mãe de Gardênia ficou 20 anos sem engravidar, segundo ela, o que pode indicar a prática do abortamento ou um controle contraceptivo, ou ambos.

Será visto que até o final da análise da narrativa de Gardênia, ela perdoa a mãe baseada no desenvolvimento da sua conscientização do ser mulher, do apossar-se do feminino, identificando-se com a mesma luta de vida da mãe, de muito trabalho e cansaço, com a marca negativa do masculino nas experiências afetivas, e com a realização da maternidade consoladora e parte dos eventos e situações promotoras de reação e mudança.

Como teimou em nascer

[...] Mas, eu era tão teimosa, que não morri, né? Nasci! [...] Eu sou a mais velha de dez filhos. Agora tem quatro mortos e seis vivos. Lembro que ela disse que eu chorava das 5 da tarde até meia-noite, e ela não conseguia dormir. [...] ela fazia umas redinhas de saco [...] Furava um buraco na parede, ficava um torno qualquer e me balançava. [...] E berço, nunca tive. Nem eu nem meus irmãos. Aí, um dia ela disse que estava com tanta raiva e tão cansada que ela deu um balanço e eu caí por detrás de um baú. Daí, como ela disse que eu me calei, ela disse “Deixa lá essa desgraçada que eu quero dormir” – bem assim que ela falou! - e papai disse “A menina se calou de vez, com o balanço que você deu! Será que não aconteceu alguma coisa, não?”, ela disse “Não aconteceu nada!”. “Então tá bom!”, ele disse, e foram dormir. Quando foi 7 horas da manhã, ela disse que era o horário de eu acordar para mamar, todo dia. E eu não acordei. [...] Daí ela gritou “socorro, Nunum!” – que o nome dele era Manuel Messias, mas o apelido era Nunum – “essa menina não está aqui!”. [...] Depois que ela lembrou “O baú!”. [...] Ela disse que eu estava por detrás, dormindo. [...] Então, eu fiquei até às 2 horas da tarde dormindo. Tudo isso é o que ela me conta. Eu tinha 3 meses de nascida, na época. Quando eu acordei, ela disse que eu estava bem, que eu chorei legal, dei risada com 3 meses, ela disse “Bom, tá tudo certo!”.

A teimosia da “Gardênia – pestinha cobrinha” em nascer e permanecer viva continua e resiste até mesmo a um provável estado breve de coma. Caracterizada como “desgraçada”, Gardênia atribui o ocorrido ao estado de raiva e cansaço da mãe e descreve uma aparente preocupação por parte do pai. Tudo isso foi ouvido por Gardênia de sua própria mãe, um momento de partilha e cumplicidade geracional do feminino; mas, veremos que é uma relação entre mulheres e não mãe e filha. Podemos afirmar que o nascimento de Gardênia mudou algo na mãe, como ficará mais evidente, pois após 20 anos sem ter filhos, tem outros nove depois dela, e o marido não a trocou por outra, como temia na primeira gravidez.

Benzer Belgeler