Perguntei às participantes se consideram que são reconhecidas pela sua prestação de cuidados. A maioria respondeu positivamente, não obstante verifica-se que as cuidadoras têm algumas dúvidas sobre este reconhecimento, como indiciam as respostas: «Eu acho que sim mas ninguém nos diz nada, mas acho estão contentes» (Florbela, ent.5), «Há vezes que não (…) Pelos idosos, porque há idosos que nunca chega, depois temos certas famílias que não são compreensivas, e mesmo depois em termos da casa, acho que… não sei, só quem mesmo está a cuidar dos velhinhos é que percebe» (Marina, ent.17). As ajudantes reconhecem o valor da sua atividade profissional, mas por vezes sentem que as famílias dos residentes e mesmo os maiores responsáveis do Lar não lhe atribuem o valor merecido.
Seguidamente, apresentou-se às entrevistadas uma questão ligeiramente diferente: acha que as ajudantes de lar são reconhecidas profissionalmente? Obteve-se apenas uma resposta positiva. A grande maioria das cuidadoras considera que a sua atividade profissional não é reconhecida socialmente, por vezes nem mesmo pelos familiares dos residentes, como pronuncia a ajudante Eva: «Há muitas vezes que não. Não sei explicar, mas há muita gente que não sabe reconhecer, ou porque não sabem o trabalho que a gente tem aqui dentro, não dão o devido valor, porque não estão com os pais. Só quem trata deles e tem um idoso em casa é que poderá dar o valor a nós porque tratam deles. Quem não trata idosos, não faz uma pequena ideia o que é tratar
de um idoso (…) A gente não sabe como é que é lidar com uma pessoa idosa. É difícil, é
muito complicado» (Eva, ent.8). Efetivamente, um idoso é levado para o Lar precisamente porque requer cuidados que a respetiva família não pode ou prefere não realizar, pelo que são as ajudantes quem ficam responsáveis por um ato tão profundo como o de cuidar.
Neste sentido, não é correto olhar a ajudante como a empregada doméstica do idoso, mas sim como uma cuidadora de todos os momentos. É necessário perspetivá-la como uma profissional de saúde.
As palavras da auxiliar Marina mostra como a prestação de cuidados aos idosos pelas ajudantes não lhes é outorgada: «Por vezes acabamos por não ser reconhecidas, porque quanto mais fazemos mais querem que nós façamos (…) Acabamos por não ser muito reconhecidas. Porque quem acaba por dar a cara é que recebe na maior parte os
outras que não» (Marina, ent.17). Reflitamos: quem «dá a cara» nos lares? Serão os técnicos, enfermeiros, encarregada geral e membros da direção… Estes recebem os louvores, são associados ao ato nobre que representa cuidar os mais debilitados. Contudo, há uns seres que efetivam na invisibilidade todos os cuidados, acompanhando- os todos os dias no lar e nas idas ao hospital.
Atente-se na expressão «E nós estamos aqui fechadas», que indicia as obrigações da auxiliar e a sua liberdade restrita, advinda da impossibilidade de participar em decisões. Por outro lado, na afirmação «quanto mais fazemos mais querem que nós façamos», apreendi um sentimento de exploração.
Outras respostas revelam-no igualmente, oiçamos a ajudante Justina: «Acho que
não (…) Porque a gente quanto mais faz, mais querem que façamos. Sabe o que quer
dizer isso? Nunca está bem, se formos a ver. Eles querem sempre mais. É isso, queria a
resposta? (…) Às vezes gostávamos mais de ser reconhecidas pelo nosso trabalho.
Porque o nosso trabalho não é bem visto. Só quem o faz (Justina, ent.3). Esta ajudante, que possui uma longa experiência profissional, tem coragem de dizer o interdito, talvez porque se abeira da reforma. Denuncia a sobrecarga física e emocional, a exploração que também a auxiliar Marina apontou, a falta de reconhecimento profissional. O seu «trabalho não é bem visto», para usar as palavras da ajudante.
É importante salientar que a forma como a profissão é concebida gera essa situação. O que está em causa é a própria conceção que os lares construíram para esta atividade: uma empregada de limpeza que deve auxiliar os idosos nas suas necessidades. Efetivamente, a palavra «limpar» é muitíssimo associada às ajudantes. Mas também é unânime a crítica social que lhes é feita por não usarem da necessária humanidade com os idosos. É exigido demais às ajudantes e é isso que se desvela nas respostas transcritas.
Oiçamos a partilha da ajudante Sofia: «Lá fora não… São só umas empregadas
que… estão ali para tratar deles e algumas nem sequer querem saber deles. Às vezes as pessoas dizem isso (…) “Estão só ali para tratar deles”, até dizem que a gente não faz nada…. Não é bom (…) Pois. “Estão ali só para…” Eu acho que as pessoas lá fora pensam isso mas sei que não é isso (…) É a tal história, que ainda antes de ontem falei
com uma velhota aí à noite, que a velhota diz que dantes davam aqui o chá da meia- noite. O chá da meia-noite é chá que diz que davam para as pessoas morrerem mais
depressa (…) É uma expressão já muito antiga. E era o que se ouvia lá fora. Que as
(…) Porque a gente matava as pessoas» (Sofia, ent.10). Notei desapontamento, tristeza
e mágoa durante esta resposta. Denuncia a pouca importância atribuída pela sociedade e toda uma falta de reconhecimento possível por esta profissão.
É inegável que as ajudantes e auxiliares praticam uma dedicação diária à atividade que desenvolvem, inclusivamente quando lhes é solicitado que aceitem mudanças de horário, devido a faltas de colegas ou inesperadas ocorrências no Lar. A ajudante Célia alude a essa realidade: «E pronto, a gente entramos para aqui mas nunca sabemos saímos às 4, se não saímos, temos de estar sempre disponíveis, se algum vai
para o hospital. Se nos mandam… à hora que vimos, à hora que entramos… Estamos
de folga mas também não sabemos… podem precisar de nós aqui, telefonar-nos e chamar-nos, e a gente vimos…» (Célia, ent.9).
Algumas ajudantes chegam a entrar até meia hora mais cedo ao serviço, para poder realizar os banhos até à hora do pequeno-almoço dos residentes, contudo, não lhes é consentido deixar o trabalho antes da hora estabelecida. A ajudante Elisabete considera que não é reconhecida profissionalmente por situações como essa: «Acho que
não. Podia ser um bocadinho melhor (…) Nem sequer… eu já não digo em dinheiro, mas assim, de vez em quando uma palavrinha amiga, da parte da direção, um
obrigado, porque nós fazemos aqui… é assim, eu tenho esta devoção pelo idoso, mas eu faço aqui coisas… não estou à espera que me agradeçam, mas podiam dizer assim, “olha lá, ela fez isto, se não fosse ela, isto assim, se não fosse ela o outro” porque é assim eu tenho aqui… Porque a gente às vezes é assim, nós temos os nossos horários, a cumprir, não é, e eu não cumpro os horários (…) Eu não estou à espera que me
agradeçam, eu faço porque quero, ninguém me obriga (…) Ou assim: olha, no fim de
dois ou três dias dizerem assim, “olha, vais para casa mais cedo, ou assim, porque fizeste aquele tempo assim assim”, Está bem que ninguém me obriga, eu sei que é
verdade, mas eu é que sei (Elisabete, ent.1).
Saliente-se que as ajudantes trabalham todos os dias da semana, de dia e de noite, mas o seu salário ronda os 500,00, o que significa que é uma das profissões menos reconhecidas monetariamente em Portugal. Algumas ajudantes referem-no: «A nível monetário, é assim, acho que para o serviço que nós fazemos, estamos mal pagas» (Elisabete, ent.1), «Não é bem pago. Acho que devia ser mais bem pago. É um trabalho,
digamos, difícil, exige muito esforço, carregar com eles, não é, e não é só… É o esforço e a mente» (Julieta, ent.11). É evidente que esta falta de recompensa é fonte de insatisfação para as profissionais e não favorece a qualidade dos cuidados que prestam.
São-lhes feitas exigências que não são acompanhadas de benefícios, o que gera desmotivação e pode acarretar repercussões no trato com os idosos.
Refira-se ainda que a imagem social da profissão ajudante de lar foi motivo de reflexão, sobretudo nas colaboradoras pertencentes à geração mais nova. Oiçamos algumas palavras: «Para certas pessoas lá fora é um desprezo trabalhar com velhinhos
porque… Eles sujam-se, eles vomitam-se e há pessoas que não são capazes disso (…)
Eu estou a dizer, eu sempre disse que velhinhos era a minha última… hipótese, no
entanto estou cá» (Marina, ent.17), «É mal-encarada. Às vezes perguntam-me, «onde é
que trabalhas», eu digo, “num lar”, “é pá, então é todos os dias cocó, xixi, vomitados, mortos”… Fazem daqui um sítio horrível. Não os vêm como, não sei… como pessoas que falam, que… Só veem a parte má, é o xixi, é o cocó, é o “depois tens de lá
mexer…” Não tem explicação possível» (Olga, ent.18). As entrevistadas mostram que têm consciência de que a sua atividade profissional é desprestigiada e menosprezada. De modo inverso, o exercício profissional fá-las descobrir muito sentido nos atos de cuidar que protagonizam. Assim, há um desajuste entre a imagem social e a realidade experienciada no dia-a-dia.