A justiça restaurativa rege-se por vários princípios, que são determinantes para construção de uprocesso condizente com as propostas restaurativas. Porém, inexiste consenso na doutrina, que aponta diversos princípios diferentes, mas que não são divergentes entre si (GUTIERREZ, 2012, p. 79). Para Francisco Amado Ferreira (2006, p. 29), a justiça restaurativa orienta-se pelos princípios do voluntarismo, da consensualidade, da complementariedade, da confidencialidade, da celeridade, da economia de custos, da mediação e da disciplina.
O voluntarismo diz respeito à vontade livre, esclarecida e atual das partes em participar de um processo restaurativo, devendo serem informadas sobre seus direitos, sobre o procedimento ao qual irão se submeter e, por fim, sobre as consequências deste. O caráter voluntário da justiça restaurativa é benéfico para o ofensor, pois faz com que ele internalize melhor as consequências de seus atos, tornando-o apto a assumir as responsabilidades pelo delito, além de evitar que este se repita. A voluntariedade na justiça restaurativa é primordial, pois do contrário,
ao tornarmos o processo restaurativo obrigatório, poderemos estar a convertê-lo num acto inútil e traduzível num puro desperdício de tempo e de recursos ou, então, a aumentarmos o risco de as partes celebrarem o acordo 'a qualquer preço' ou mesmo a serem manipuladas e, concomitantemente, incrementarmos a sua sensação de insatisfação e uma maior tendência para o incumprimento dos acordos homologados. Por outro lado, se quisermos proteger verdadeiramente a vítima do contato directo – que ela não deseje – com o autor (vitimização secundária) ou das represálias do mesmo ou de outras pessoas (vitimização terciária), deveremos dar-lhe a possibilidade de escolher entre enfrentar o agressor ou resguardar-se por detrás da figura jurídica do assistente (que lhe faculta o sistema judicial português) ou de outros expedientes legais de protecção (FERREIRA, 2006, p. 31-32).
Dessa forma, o voluntarismo é importante para que os processos restaurativos alcancem os resultados almejados.
sucedido, as partes chegarão a um acordo que seja benéfico para ambos, diferentemente da justiça tradicional, em que o desfecho é contencioso, sendo estabelecido um ganhador e um perdedor. De certa forma, o acordo celebrado não deixa de ser um negócio jurídico, já que as partes estão obrigadas a cumpri-lo. Segundo Daniel Dana (2001, p. 77-79 apud FERREIRA, 2006, p. 34-35), o acordo deve ser:
a) equilibrado, o que significa atribuir benefícios proporcionais para ambas as partes; b) pormenorizado, o que significa definir claramente os pormenores de quem haverá de fazer o quê, quando, durante quanto tempo, em que condições e com que garantias; c) reduzido a escrito e assinado pelas partes e pelo mediador. Ainda que não absolutamente imprescindíveis, tais elementos podem revelar-se úteis em termos de certeza, garantia jurídica e de segurança interpretativa;
d) renunciante de recurso a outros meios – adversativos ou não –, desde que se prefigurem direitos disponíveis e o acordo firmado entre as partes se mostre pontualmente cumprido
Tais requisitos tornam o acordo exequível, dando a vítima mais segurança jurídica no caso de um descumprimento. Assim, ao propor um diálogo entre as partes, este só produz resultados efetivos se houver um mínimo consenso entre estas, sendo o princípio da consensualidade importante na efetivação da justiça restaurativa.
A confidencialidade corresponde ao sigilo de todos os fatos revelados durante a processo restaurativo, inclusive as sugestões e propostas apresentadas pelo mediador ou pelas partes. Caso o procedimento se mostre infrutífero ou o acordo seja descumprido, o caso voltará a justiça comum e nesta não poderão ser usados os elementos colhidos naquela. A oralidade é uma característica essencial nos procedimentos restaurativos pois favorece a manifestação das partes, não devendo suas declarações serem reduzidas a termo, apenas o acordo final é que terá a forma escrita, como dito anteriormente (FERREIRA, 2006, p. 37).
O princípio da complementariedade diz respeito ao posicionamento da justiça restaurativa como um complemento ao sistema penal tradicional. Ela geralmente é adequada ao processo penal comum, inserindo-se em determinados momentos, trazendo consigo meios menos herméticos de tratar o caso em questão, podendo ser oferecida a suspensão do processo caso a mediação seja bem-sucedida e o acordo seja cumprido. Ferreira (2006, p. 39), defende a aplicação da justiça restaurativa na fase de execução, como forma de redução da pena, por exemplo:
[...] em vez de uma pena efectiva de vinte e cinco anos de prisão, o arguido pode receber uma de quinze, desde que se haja retratado perante as vítimas, se tenha esforçado por as reparar ou se haja predisposto a prestar trabalho voluntário em favor da comunidade, daquelas ou das respectivas famílias, na prisão ou, quando possível, fora da mesma.
Já Sica (2007, p. 30), reconhece esse momento de aplicação, mas discorda da sua utilização, visto que acarreta a sobreposição dos dois sistemas, o punitivo e o restaurativo. No item 3.3 trataremos melhor sobre o assunto.
Portanto, como a substituição do paradigma retributivo pelo restaurativo ainda é utópica, a justiça restaurativa utiliza-se da complementariedade para se inserir no sistema penal tradicional, na tentativa de torná-lo menos hermético e mais humanizado.
O princípio da celeridade advém da forma simples e informal com que os procedimentos são conduzidos na justiça restaurativa, que oferecem uma resposta mais célere e eficaz ao conflito do que a justiça oficial. Contudo, não quer dizer que a justiça restaurativa não possua mecanismos padronizados, ela apenas adota ritos estritamente necessários para a resolução do caso (FERREIRA, 2006, p. 40).
A economia de custos é um princípio que decorre da própria celeridade, visto que com menos ritos o processo torna-se menos custoso financeiramente. Esses recursos antes destinados a crimes menos graves, podem ser realocados, utilizando-os em crimes mais graves e assim reduzir os custos materiais do Estado (FERREIRA, 2006, p. 41).
O princípio da mediação diz respeito aos processos restaurativos que se utilizam de meios negociais para resolver o caso. Geralmente, as partes ficam frente a frente para discutir a respeito do crime, sob a supervisão de um terceiro intermediário. Outras práticas restaurativas são variações da mediação, diferenciando-se especialmente pelo número de participantes, que podem envolver os familiares das partes ou membros da comunidade (FERREIRA, 2006, p. 41).
Por fim, o princípio da disciplina corresponde a obediência aos termos acordados pelas partes ao final do processo restaurativo. Esta é importante para trazer credibilidade social ao método. Além disso, o mediador deve se valer da disciplina para conduzir o processo de forma ordeira e coerente (FERREIRA, 2006, p. 42)
Apesar de existirem divergências doutrinárias, os princípios colocados pelo autor mostram-se coerentes e caracterizam de maneira eficaz os preceitos da justiça restaurativa.