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M. subskapularis

7. EKLER

De acordo com os depoimentos da mãe de AE1 e da própria PAE, três recursos didáticos, que não foram presenciados por nós durante a pesquisa empírica, se destacaram na prática da educadora com o ensino de PL2: o dicionário bilíngue espanhol-Português/Português-espanhol, o caderno de caligrafia e o livro didático Língua Portuguesa da coleção Vivência e Construção - 1ª série do Ensino Fundamental40

(MIRANDA, 2005).

39 Através de nossas entrevistas e dos registros em diário de campo.

40 Lembrando que, segundo a nova legislação do Ensino Fundamental, a 1ª série corresponde ao 2º ano.

Na entrevista com PAE, o dicionário bilíngue espanhol-Português/Português- espanhol foi citado como recurso didático por mais de uma ocasião, inicialmente como uma necessidade percebida pelo pai da criança AE1 e, depois, pelo reconhecimento da educadora quanto à pertinência do material no trabalho pedagógico com o aluno argentino.

Entrevista com a professora PAE, dia 28/11/2007:

(33) PAE: [...] eu combinei com o pai dele + né? E também o pai dele + acho que já havia pensado nisso + que se eles tivessem um dicionário::: porque geralmente o turista quando chega compra. (34) P: Sei.

(35) PAE: Eles têm sempre um dicionário. [...] É::: que ele trouxesse um dicionário + não é? Porque assim + é parecido + mas claro + tem UM MUNDO de diferenças.

(36) P: Com certeza.

(165) PAE: [...] muitas vezes a gente recorria ao dicionário. (166) P: Ahã.

(167) PAE: E aí e -“essa palavra?” ((o AE1 perguntava para ela)).

A professora acrescenta que muito embora a Língua Portuguesa e a Língua Espanhola possuam aproximações (palavras com as mesmas grafias), pertencem a realidades sócio-culturais bem distintas. Portanto, é um tipo de material que possibilita ao aprendiz estabelecer uma conexão entre as duas culturas, considerando também as singularidades de ambas.

O dicionário bilíngue de qualidade oferece aos falantes de outros idiomas, informações adequadas para a compreensão dos significados das palavras desconhecidas, bem como aponta caminhos sobre o seu uso no cotidiano (contextualização das terminologias na língua-alvo).

Concordamos com Bevilacqua (2006) que a aquisição do léxico/vocabulário da LN é de fundamental importância para o entendimento e expressão das crianças estrangeiras que se encontram em processo de aprendizagem do PL2. E sendo o dicionário a principal fonte lexical de um idioma, defendemos a sua utilização, especialmente, nos primeiros contatos do aluno imigrante com a nova escola.

É, portanto, nos dicionários que se encontram representados os léxicos das diversas línguas e, em consequência, suas culturas, suas indiossincracias, suas formas de ver o mundo (BEVILACQUA, 2006, p. 108).

O professor de PL2 deve possibilitar ainda a colaboração da criança imigrante na organização desse fazer educativo, preocupando-se em utilizar materiais que estreitem a sua relação com o objeto de conhecimento: a língua portuguesa. Nessa direção, o dicionário é capaz de considerar os fatores de congruências entre as duas culturas, seguindo uma perspectiva intercultural.

Já no depoimento da mãe de AE1, foi elencado como efetivo contribuinte para a aprendizagem do Português pelos alunos imigrantes o caderno de caligrafia. Assim, a entrevistada relatou:

Entrevista com a MAE1, dia 30/11/2007:

(105) P [...] E de que forma você considera que a escola + ela ajudou AE1 na prática + no cotidiano + para que ele avançasse, né? Na aquisição e aprendizagem do Português?

(106) MAE1: Aqui tem un sistema + que es de caligrafia. Que na Argentina no tem.

(107) P: Sim.

(108) MAE1: Mas eso fue + una de las cosas MEJORES para que ellos comienzen con la letra. Porque ele tenía mucho problema de motricidad com + para escribir + no? Para redondear.

Diferentemente do que foi atribuído pela MAE1, não consideramos que os exercícios caligráficos por si só sejam capazes de mediatizar o ensino da Língua Portuguesa, seja ela materna ou estrangeira; pois entendemos que, mesmo utilizando fragmentos de textos reais e significativos para o aluno (como versos de uma poesia ou de uma música) a caligrafia continua atrelada à abordagem tradicional fundamentada na cópia, no automatismo ortográfico e na repetição que não favorece o pensamento crítico e reflexivo do educando.

Destacamos que essa não é uma atividade de Língua Portuguesa, uma vez que o seu objetivo consiste em que a criança escreva da forma mais legível, rápida e correta possível. A preocupação está na forma do que se escreve e não no significado desse registro.

A preocupação estética e motora da proposta utilizada por PAE, no qual determinados movimentos tornam-se obrigatórios e as letras padronizadas, desrespeita a individualidade e identidade do educando. Desse modo, não acreditamos que um método que trabalha apenas a coordenação motora, a questão da legibilidade e organização espacial no papel provoquem a reflexão da criança estrangeira frente a sua produção escrita. Por isso, consideramos equivocada tanto

a escolha da professora, quanto a valorização da mãe de AE1 acerca desse material.

Quando questionamos à educadora PAE a respeito do livro didático selecionado para o ensino da Língua Portuguesa com as crianças do 2º ano (inclusive as crianças argentinas), ela falou imediatamente sobre o livro didático Língua Portuguesa, da coleção Vivência e Construção (MIRANDA, 2005).

Figura 28 – Livro didático trabalhado por PAE Fonte: Cibele Lucena (jun/2009)

De acordo com Almeida Filho (2002), um livro apropriado para o ensino de uma língua segunda em uma abordagem comunicativa deve: possuir textos que possibilitem a discussão a respeito de questões da cultura brasileira, privilegiar a competência comunicativa ao invés da gramática, contemplar atividades interativas ao invés de preparatórias (que promovam a interação professor-aluno, aluno-aluno e aluno-texto), estimular a formulação de respostas mais elaboradas, a criticidade, originalidade e criatividade.

Fazendo um apanhado superficial da obra, já que nossa intenção de pesquisa não é realizar a análise de conteúdo dos manuais de Língua Portuguesa, observamos primeiramente que o livro é de PLM, ou seja, foi pensado e preparado para crianças de raízes lusófonas.

Entretanto, verificamos que as autoras da obra elegeram como temáticas centrais, assuntos que também podem despertar o interesse das crianças estrangeiras: a comunicação (desenhos, números e palavras), a convivência entre

as pessoas (nomes, amigos, abraço/carinho, medo, sorriso, saúde, brincadeiras e histórias infantis) e o meio ambiente (planeta bicho, árvores e aves) - três aspectos fortemente presentes na realidade da escola de Pipa e relevantes para as crianças de qualquer nacionalidade.

Outra característica positiva do material se refere à exploração dos temas a partir dos conhecimentos prévios dos alunos e a sistematização dos saberes construídos ao final de cada capítulo estudado (seção inicial: Pensando sobre o texto e quadro final: O que aprendemos).

Mesmo sem considerar as singularidades do aluno estrangeiro, os conteúdos previstos pela proposta da escola em relação à expressão escrita, à leitura e aos aspectos gramaticais são trabalhados no manual mediante uma diversidade de materiais reais, tais como: histórias literárias, quadrinhos, cartazes, propagandas, poemas, cartuns, reportagens, imagens artísticas, dentre outros.

As tendências contemporâneas no ensino, segundo Almeida Filho, levam à utilização de materiais realistas sobre os quais podemos exercitar o pensamento crítico; fazem ênfase no uso fluente e na habilidade de se comunicar com propriedade cultural e não apenas com precisão das formas gramaticais; permitem ao aluno trabalhar com esforço na consecução de tarefas coletivas ou individuais; incentivam para que a sala de aula seja um cenário com um ambiente que possa contribuir para o uso real de linguagem com fins perceptíveis realistas e específicos em boa medida (ALVAREZ, 2002, p. 163).

Também como aspecto metodológico pertinente, as autoras sugerem que, de início, o professor faça as leituras em voz alta para a turma e conforme os alunos forem se apropriando do código escrito, deve deixá-los ler por si próprios (a mediação é progressiva).

A educadora PAE disse que não trabalhou o livro na ordem cronológica, e sim conforme as necessidades apresentadas pelo grupo. Salientamos que essa atitude demonstra lucidez do sujeito acerca da flexibilidade de um recurso didático; o que possibilita ao professor desconsiderar assuntos que porventura não possuam significado para aquele grupo de crianças em especial.

Por conseguinte, acreditamos que o docente de PL2 pode utilizar materiais autênticos e acessíveis, como os citados há pouco, sem ter que se preocupar em eleger antecipadamente um livro didático “x”, por vezes desvinculado da vida das

crianças. Ou, mesmo que o professor venha a eleger durante o ano letivo determinado livro didático, deverá também buscar outros recursos que tenham significado com as situações que vão surgindo no dia-a-dia com as crianças. A não ser que ele tenha convicção de que esse material pode incentivar o aluno imigrante a pensar e interagir na língua-alvo, abrindo espaços para que ele aprenda e sistematize elementos comunicativos essenciais do novo idioma.

6.1.3 Como as crianças estrangeiras foram avaliadas pela professora?

Benzer Belgeler