O estímulo da imigração brasileira atendeu dois fatores principais. O primeiro, por meio de uma iniciativa particular, foi estimulado pelo governo do país, na tentativa de suprir o trabalho agrícola ameaçado pelo declínio da mão-de-obra escrava. Nesse sentido, com o fim da escravidão em 1888, abriu-se um novo período da atividade imigratória no Brasil. O trabalho tornou-se inteiramente livre, possibilitando aos escravos a liberdade, e, da mesma forma, possibilitou o ensejo para a entrada em maior número de estrangeiros.
De tal modo, o Brasil passava por uma grande transição, tanto no aspecto econômico quanto político e cultural. Desenvolviam assim, as correntes imigratórias, não apenas em número, mas também na diversificação, cada vez mais acentuada, das
261 CDOV. BPP. Jornal ORebate, Pelotas, 19 de novembro de 1914. 262 CDOV. BPP. Jornal O Rebate, Pelotas, 06 de outubro de 1916. 263 CDOV. BPP. Jornal O Rebate, Pelotas, 30 de outubro de 1916. 264
CDOV. BPP. Jornal O Rebate, Pelotas, 21 de dezembro de 1916.
265 CDOV. BPP. Jornal O Rebate, Pelotas, 12 de fevereiro de 1917. 266 CDOV. BPP. Jornal O Rebate, Pelotas, 23 de julho de 1918. 267
CDOV. BPP. Jornal O Rebate, Pelotas, 13 de fevereiro de 1917.
etnias ingressadas269. O segundo motivo na afluência da imigração, através da iniciativa governamental, era a formação de colônias imigrantes estabelecidas em pequenas propriedades. Tal prática acrescentava a produção de gêneros agrícolas ao consumo interno, e preenchia os vazios demográficos estratégicos e, consequentemente, no futuro levariam a formação da classe operária brasileira270.
Embora, a entrada imigratória no Brasil tenha sido elevada em relação à substituição da mão de obra escrava. No estado do Rio Grande do Sul, é a imigração nos moldes da colonização que foi preponderante. Na realidade, a grande influência de elementos estrangeiros é sentida de maneira especial no território gaúcho, por meios das etnias, alemã, italiana, portuguesa, espanhola, e muitas outras, que marcaram fortemente seus valores culturais. Características que podem ser observadas desde a alimentação até a habitação, incidindo inclusive a religião. Nesse sentido, a imigração em Pelotas, seguiu esses modelos e o afluxo, principalmente de imigrantes europeus ocorreu a partir do último quartel do século XIX, e foi considerado um dos elementos relevantes para explicar as transformações sobrevindas à cidade271.
Contudo, além das contribuições positivas para a formação das cidades, em algumas ocasiões, a imigração apresentava para as grandes capitais, questões complexas no desenvolvimento da criminalidade272. Nesse sentido, para este trabalho, interessa tão- somente as mudanças na composição das estatísticas oficiais relacionadas ao crime, e de que maneira elas refletiram nas atividades e nos cenários urbanos de Pelotas273. Como a maioria dos registros policiais não mencionava a nacionalidade desses estrangeiros,
269 JÚNIOR, Manuel Diégues. Imigração, urbanização, industrialização. Centro Brasileiro de Pesquisas
Educacionais, Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos, Ministério da Educação e Cultura, 1964, p.26.
270 SINGER, Paul Israel. A formação da classe operária. Editora da UNICAMP, 1986. Em Pelotas, sobre
a formação da classe operária, vide: LONER, 2001.
271
ANJOS, 2000.
272
No Rio de Janeiro, a imigração era basicamente a de origem portuguesa que já estava associada ao cenário social da cidade carioca. Por esse motivo, era difícil associar o aumento da criminalidade com a presença estrangeira e mais, com os oriundos da escravidão e os pobres urbanos. BRETAS, 2011, p.13. No caso de São Paulo, os reflexos da imigração, nas transformações da cidade, foram mais elevados. Nesse sentido, este grupo específico deu nova feição à criminalidade da cidade. Tais indivíduos estrangeiros desenvolveram novas técnicas de delitos até então pouco conhecidos pelos paulistanos, agravando assim mais os outros problemas também existentes. FONSECA, Guido. Crimes, criminosos e a criminalidade em São Paulo, 1870-1950. Editora Resenha Tributária, 1988.
273 Destaca-se que, na documentação estudada sobre Pelotas, não foi encontrado nenhum tipo de
informação acerca da expulsão de estrangeiros da cidade e, consequentemente, do território nacional. A lei aprovada e regulamentada no ano de 1907 na Primeira República tinha o objetivo de reprimir e excluir determinadas figuras estrangeiras, principalmente os indesejáveis. A lei foi alterada em 1913, repensada em 1917 e utilizada em diferentes ocasiões pelos governantes brasileiros. Para mais, vide: MENEZES, Lená Medeiros de. Os Indesejáveis: desclassificados da modernidade – protesto, crime e expulsão na Capital Federal (1890-1930). Rio de Janeiro: Editora da UERJ, 1996; BONFA, Rogerio Luis Giampietro. Com lei ou sem lei: as expulsões de estrangeiros e o conflito entre o Executivo e o Judiciário na Primeira República. Dissertação de Mestrado. Campinas: UNICAMP/IFCH, 2008.
apenas a contraposição entre nacionais e estrangeiros, optou-se pela utilização dessas categorias agrupadas.
Ao contrário do se observa no Rio de Janeiro e São Paulo, a cidade pelotense, possui uma grande quantidade de brasileiros presos, em comparação aos estrangeiros. Em Pelotas, o número de prisões entre nacionais era de 29.941 indivíduos, e representavam a grande parte das prisões, 89%. Os estrangeiros constituíam o numero de 3.871 pessoas, uma pequena parte das prisões, somente, 11%.
Gráfico 11 – Percentual de prisões entre brasileiros e estrangeiros, 1903-1928.
Fonte: Documentos Públicos Municipais de Pelotas. Relatórios apresentados ao Conselho Municipal pelo intendente José Barboza Gonçalves, 1902-1904. Relatórios apresentados ao Conselho Municipal pelo intendente Cypriano Corrêa Barcellos, 1904-1908. Relatórios apresentados ao Conselho Municipal pelo intendente José Barboza Gonçalves, 1908-1912. Relatórios apresentados ao Conselho Municipal pelo intendente Cypriano Corrêa Barcellos, 1912 - 1920. Relatórios apresentados ao Conselho Municipal pelo intendente Dr. Pedro Luiz Osório, 1921 - 1924. Relatórios apresentados ao Conselho Municipal pelo Augusto Simões Lopes, 1924-1928.
Em Pelotas, conforme o recenseamento de 1911, os residentes estrangeiros constituíam 7.802 indivíduos. Dessa forma, no quadro geral de nacionalidades, os portugueses eram os primeiros com 1.964 habitantes, os segundos eram os italianos com 1.182 residentes, em segundo os orientais com 1.348 moradores, em terceiro os alemães 790, em seguida os espanhóis com 523, os franceses com 394, orientais, os poloneses 99, e as outras diversas nacionalidades representava, 564.
As informações sobre a origem dos criminosos não são completas. No entanto, mesmo escassas, elas permitem observar as principais nacionalidades.
Gráfico 12 – Prisões segundo as principais nacionalidades, 1915-1927.
Fonte: Documentos Públicos Municipais de Pelotas. Relatórios apresentados ao Conselho Municipal pelo intendente Cypriano Corrêa Barcellos, 1912 - 1920. Relatórios apresentados ao Conselho Municipal pelo intendente Dr. Pedro Luiz Osório, 1921 - 1924. Relatórios apresentados ao Conselho Municipal pelo Augusto Simões Lopes, 1924-1928.
* Entre as prisões de outras nacionalidades, encontram-se: 2 dinamarqueses em 1915; 1 belga, 1 suíço, 1 húngaro, 6 russos, 5 sírios, 2 austríacos, 5 holandeses em 1918; 3 turcos em1919; e 1 chileno em 1921.
A maior parte das detenções era de brasileiros 81% e de respectivamente, orientais 7%, seguidos de portugueses 6%, espanhóis 3% e também de italianos 2% e alemães 1%, conforme se observa no gráfico 12.
0 100 200 300 400 500 600 700 800 1915 1916 1917 1918 1919 1920 1921 1922 1923 1924 1925 1926 1927 Brasileiros Alemães Italianos Franceses Portugueses Orientais Espanhóis Ingleses Outros
Gráfico 13 – Percentual das prisões entre as principais nacionalidades, 1915-1927.
Fonte: Documentos Públicos Municipais de Pelotas. Relatórios apresentados ao Conselho Municipal pelo intendente Cypriano Corrêa Barcellos, 1912 - 1920. Relatórios apresentados ao Conselho Municipal pelo intendente Dr. Pedro Luiz Osório, 1921 - 1924. Relatórios apresentados ao Conselho Municipal pelo Augusto Simões Lopes, 1924-1928.
Da mesma forma que as prisões eram reduzidas em relação ao contingente estrangeiro. As notícias na imprensa eram mais escassas ainda. Foram poucos crimes encontrados nas páginas do periódico O Rebate, que descrevem a nacionalidade estrangeira274. Portanto, entende-se que em Pelotas o criminoso do período, conforme as estatísticas locais, era principalmente brasileiro.