“Primeiro encontre, depois procure”
COM A EPÍGRAFE ACIMA procuro esboçar o horizonte deste capítulo de análise; ela indica com que espírito vou proceder, digamos assim, à “instância prática” da tese, prefigurando o ambiente metodológico no qual a pesquisa se move. O empreendimento não é ir à procura daquilo que está soterrado sob camadas do indecifrável como meio de encontrar a chave explicativa do que faz
ficção e realidade vetores indistintos no espaço televisivo (advirto: ela já foi encontrada). Tentarei verificar como alguns vestígios, parcialmente capturados por meio da imagem, do som e da fala, nos permitem observar o papel dos discursos televisivos, qual seja, de criadores e mantenedores de laços sociais a partir da mediação pelo olhar, independente dos gêneros nos quais estão abrigados.
O espaço da tela, emoldurado por frames em que brotam os discursos, é o lugar onde tentarei apontar um fluxo narrativo que é, essencialmente, ficcional. Na superfície luminosa, o olhar bate e ricocheteia liberando fagulhas do real que respingam na tela, ofertando-nos parcelas de verdade.
Anunciar antecipadamente que já se encontrou a causa, os motivos que suscitaram a produção desta tese pode soar ridiculamente exagerado, resultar numa inata aporia, numa contradição insolúvel: se já se sabe os motivos pelos quais o problema existe por que, então, levar a cabo a pesquisa? Confiança epistemológica absoluta? Presunção acintosa da pesquisadora? Desconsideração dos passos do fazer científico?
Muito pelo contrário, não almejo criar um abismo de incompreensão; o que quero pôr em relevo é que a hipótese inicialmente delineada na confecção do projeto de pesquisa foi orientada por uma certeza. Dizer certeza não é dizer verdade absoluta, mas um meio dizer sobre ela. Se nos detivermos por alguns
instantes nas discussões sobre epistemologia e ciência, veremos que isso é particularmente significativo. Gostaria de acentuar de forma mais fundamentada essa questão para tentar situar, mais precisamente, o lugar de fala
de onde essa pesquisa emerge.
5.2AS VIAS PROPOSTAS, OS CAMINHOS PERCORRIDOS
Normalmente, o método (caminho para ir em busca de algo) em que se erige um projeto de pesquisa é determinado pela instância epistemológica que molda as premissas do trabalho. Como o trabalho está sediado no campo das ciências da linguagem, quais seriam os caminhos a serem seguidos? Como estabelecer critérios para realizar a pesquisa? Quais as ferramentas que podemos utilizar a serviço da investigação aqui deflagrada?
De Descartes às discussões ditas pós-modernas, tomando como referência a ciência moderna, as tentativas de se descobrir as causas do mundo que temos diante de nós foram abusivamente marcadas por um conjunto de orientações e prescrições, muitas das quais foram transplantadas nos estudos da comunicação, com o fito de conquistar “o lugar ao sol” no mundo científico. A palavra objeto traz em sua raiz etimológica a tarefa de conhecer: as coisas devem ser colocadas (jeto) à nossa frente (ob), o que nos permite vê-las, olhá- las, tratá-las como decifráveis. Mas, não nos iludamos, causamos os efeitos que desejamos. (Quais as causas do discurso televisivo?). Como diria Saussure, “o ponto de vista cria o objeto”. O precedente estabelecido pelo lingüista genebrino conferiu plausibilidade a um antecedente: já somos, per se, orientados por uma crença. Gadamer também partilha do mesmo princípio de Saussure: empenhado em liberar o conhecimento das amarras epistemológicas, o filósofo da hermenêutica diz que compreensão implica sempre uma pré-compreensão que é, por sua vez, pré-figurada pela tradição determinada na qual vive o intérprete – e onde modela os seus juízos prévios.
Entre as críticas frontais à epistemologia moderna é suficiente, para a reflexão sobre novos/outros operadores metodológicos no campo da comunicação, aquela destinada à revisão do empreendimento fundacional, base da ciência moderna cartesiana, segundo a qual “uma disciplina rigorosa precisa verificar as crendenciais de todas as reivindicações de verdade. As descobertas teriam de ser aprovadas no teste”. (TAYLOR, 1995: 14). Segundo Taylor, essas críticas (de reconsiderar todo o esforço iniciado por Descartes) vem assumindo foros de uma nova ortodoxia. Para ele, é necessário saber o que exatamente superar da perspectiva epistemológica clássica. Uma das linhas-mestras que constitui a crítica ao modelo cartesiano assenta-se no tópico da representação.
Como se sabe, a ciência moderna fundamenta-se no princípio segundo o qual o conhecimento deveria ser visto como a representação correta de uma realidade independente, como a descrição interior da realidade exterior. Isso tem uma forte vinculação com a concepção representacional e a nova ciência, de cunho mecanicista. A mecanização do mundo solapou com a concepção tradicional ou aristotélica, que era participacional: “quando chegamos a conhecer algo, a mente (nous) forma unidade com o objeto do pensamento. Isso naturalmente não quer dizer que estes se tornem materialmente a mesma coisa, mas que mente e objeto são enformados pelo meio eidos”. (Id. Ibid.: 15).
Descartes considera que a ciência ou o conhecimento verdadeiro não consiste apenas numa congruência entre idéias da mente e realidade exterior. Se o objeto de minhas especulações vier a coincidir com eventos reais do mundo, isso não me dá conhecimento dele. A congruência deve advir de um método confiável, gerando uma confiança bem fundada. A ciência requer certeza, e esta só se pode basear na clareza inegável a que Descartes deu o nome de évidence. A confiança que se encontra na base de toda essa operação é a de que a certeza é algo que podemos gerar por nós mesmos, ao ordenar nossos pensamentos de maneira correta. Essa confiança é de certo modo independente do resulto positivo do argumento cartesiano em favor da existência de um Deus veraz, o
fiador de nossa ciência. O próprio fato da clareza ser reflexiva tende a aprimorar nossa posição epistêmica, desde que se entenda o conhecimento em termos representacionais. (cf. TAYLOR, op. cit.: 17).
Richard Rorty é crítico acerbo da linhagem representacional. No seu clássico livro A filosofia e o espelho da natureza, ele argúi que as discussões sobre a mente, o conhecimento e a filosofia têm sido dominadas, desde o século XVII, pela idéia da representação. A mente é usualmente comparada a um espelho que reflete a realidade; o conhecimento precisa lidar com esse reflexo. Opondo a filosofia “edificante” de Dewey, Wittgenstein e Heidegger à filosofia “sistemática” de Locke, Descartes, Kant, Russell e Husserl, o autor defende o abandono da procura de correspondências entre o pensamento (ou linguagem) e o mundo, bem como da idéia de uma filosofia centrada na teoria da representação.
Tais críticas e relativizações nos liberam de uma ortodoxia metodológica, que vê no ideal de representação, em estreita aliança com o empirismo, uma via privilegiada para se alcançar o domínio da verdade, salvar as pesquisas do mar revolto da incerteza (a comunicação é considerada uma ciência[sic] empírica), libertá-las da “rígida dependência empírica aos fatos” (SODRÉ, op. cit.: 239), nos dar a prova cabal para a comprovação de nossas hipóteses. O que tais anotações têm a ver com esta tese?
A digressão torna-se necessária porque uma das conseqüências dessas exposições respinga no modus operandi do trabalho, visto que não será subserviente da empiria, ainda que dela se sirva: as análises não cumprirão, rigorosamente, as etapas previstas para a pesquisa empírica, em que os dados de amostragem, habitualmente vastos em termos numéricos, são dissecados exaustivamente à luz de critérios pré-determinados estabelecidos pelas regras de cientificidade. Explico-me: para as intenções da tese, não importa o levantamento exaustivo de programas (já que os discursos se repetem), mas assinalar as causas que provocam as narrativas televisivas diárias: “é pelas
conseqüências do dito que se julga o dizer. Mas o que se faz do dito resta aberto”. (LACAN, 1985: 26).
Além das observações dos teóricos acima referidos, as contraposições advindas de vários flancos nos encorajaram na procura de outros modos e possibilidades de atuar metodologicamente no campo da comunicação. Ao puxarmos referências no terreno da pesquisa científica, somos amparados por um exército combativo. Entre elas, destaco as observações argutas de Karl Popper. Em Lógica da pesquisa científica (1972), Popper arrola algumas questões, de acordo com ele, problemas cruciais para a pesquisa científica:
Um cientista, seja teórico ou experimental, formula enunciados ou sistemas de enunciados e verifica-os um a um No campo das ciências empíricas, para particularizar, ele formula hipóteses ou sistemas de teorias, e submete-os a teste, confrontando-os com a experiência, através de recursos de observação e experimentação. (1972: 27).
Para o filósofo da ciência aí reside, nas etapas de teste e experiência, um desafio espinhoso a ser superado pelos pesquisadores, pois as ditas ciências empíricas caracterizam-se pelo fato de “empregarem os métodos indutivos (uma inferência, caso ela conduza de enunciados singulares, também denominados enunciados particulares), tais como descrições dos resultados de observações ou experimentos, para enunciados universais, tais como hipóteses ou teorias”. (Id. Ibid.: 73).
O autor contesta, com veemência, o fato de haver justificativa no inferir enunciados universais de enunciados singulares, independentemente de quão numerosos sejam estes; com efeito, qualquer conclusão colhida desse modo sempre pode revelar-se falsa independentemente de quantos casos de cisnes brancos possamos observar, isso não justifica a conclusão de que todos os cisnes são brancos. Ele questiona ainda o fato de a validade ou a verdade de enunciados universais serem pautadas na experiência:
Muitas pessoas acreditam, com efeito, que a verdade desses enunciados universais é conhecida através da experiência; contudo está claro que a descrição de uma experiência – de uma observação ou do resultado de um experimento – só pode ser um enunciado singular e não um enunciado universal.
Para Popper, o mais sério problema que o método indutivo acarreta concerne à falta de demarcação: “minha resposta a tal objeção é a de que a razão principal de eu rejeitar a lógica indutiva consiste, precisamente, em ela não proporcionar conveniente sinal diferençador do caráter empírico, não- metafísico, de um sistema teorético; em outras palavras, consiste em ela não proporcionar adequado critério de demarcação”. (Id. Ibid.: 35).