Se a teoria da eficiência segundo Pareto não se presta a uma análise coerente do caso, porque pressupõe ganhos sem perda (o que não se verifica na vida real), então uma teoria que pudesse responder melhor aos anseios da comunidade científica certamente seria aquela que previsse a possibilidade de ganhos e perdas considerados sob uma perspectiva dinâmica.
Uma teoria que admite essa possibilidade é a proposta por Nicholas Kaldor e John Richard Hicks (teoria da eficiência dinâmica). Segundo essa teoria, uma transação (negociação) seria eficiente se os ganhadores pudessem, hipoteticamente, ressarcir os perdedores e, ainda assim, melhorar a sua posição inicial. A eficiência, na teoria de Kaldor-Hicks, cinge-se à maximização da riqueza total (social), devendo-se, portanto, considerar as perdas totais e os benefícios totais envolvidos, e não apenas a posição das partes diretamente envolvidas. Quando os benefícios totais superam as perdas totais, a nova distribuição de recursos escassos entre seus usos concorrentes será a mais eficiente, devendo ser implementada
mesmo a despeito da perda sofrida por alguém (terceiros ou os próprios participantes da transação).
Ao analisar a teoria da eficiência dinâmica, Posner70 afirma que o que importa não é a inexistência de prejuízos (eles podem existir e, em geral, sempre existirão). O que importa de fato é maximização da riqueza total, de sorte que os ganhadores possam, ainda que hipoteticamente, compensar os perdedores. Se os ganhadores não puderem compensar os perdedores e melhorar a sua própria posição inicial, a decisão foi ineficiente, diminuindo da riqueza total (social).
O teorema de Kaldor-Hicks foi sintetizado nas palavras de Stephen, que afirma que, na eficiência dinâmica, a proposta para uma mudança na economia deve ser levada a termo, se aqueles que tiveram sua situação melhorada por essa mudança puderem compensar os que tiveram sua situação piorada por essa mudança, para que estes fiquem tão bem como antes da mudança (em seu próprio julgamento), e os primeiros fiquem em melhor situação (em seu próprio julgamento).71
É de se observar com cuidado que a expressão ―melhoria potencial‖ possui um significado muito específico no teorema de Kaldor-Hicks, deixando claro que o ressarcimento direto dos ganhadores aos perdedores não deve ocorrer. A
maximização da riqueza coletiva significa o aumento do valor agregado72 dos
recursos escassos, e não a sua distribuição entre os membros da comunidade nem tampouco o aumento da utilidade de tais recursos, porque, se houvesse o direito ao correlato ressarcimento dos perdedores pelos ganhadores, satisfeito estaria o critério do superior de Pareto. Haveria, pois, ganho sem perda efetiva. Essa é a conclusão a
70 Exemplificando a teoria de Kaldor-
Hicks, Posner propõe o seguinte exemplo: ―No conceito menos austero [rígido] da eficiência que se usa neste livro – chamado de conceito de Kaldor-Hicks ou de maximização da riqueza –, se A valoriza o adorno de madeira em $50, e B, em $120, com um preço de venda de 100 (de fato, com qualquer preço entre $50 e $120), a transação geraria um benefício total de $70 – com um preço de $100, por exemplo, A se considera $50 melhor, enquanto que B se considera $20 melhor -, haveria uma transação eficiente, sempre que o dano causado (se há algum) a terceiros (menos os benefícios que lhes são conferidos) não exceda de $70. A transação só seria superior, no sentido de Pareto, se A e B compensassem efetivamente os terceiros pelos danos que lhes causaram. O conceito de Kaldor-Hicks também recebe o nome de potencial de Pareto: os ganhadores poderiam compensar os perdedores, ainda que não o façam efetivamente.‖ (Tradução livre).
71 STEPHEN, Frank H. Teoria Econômica do Direito. São Paulo: Makron Books, 1993, p. 55.
72 O valor agregado deve ser considerado como a soma do ganho dos consumidores e dos
que chega Stephen, ao analisar o teorema de Kaldor-Hicks, quando assim se manifesta:
Entretanto, o critério não exige que tal ―compensação‖ seja paga realmente: é uma compensação hipotética. Se tal compensação fosse paga de fato, ninguém pioraria de situação, mas alguns melhorariam de situação. Assim, a mudança satisfaria o critério de Pareto: daí o termo melhoria potencial de Pareto.73
Uma abordagem do tipo da proposta por Kaldor-Hicks possui maior vantagem para a explicação científica dos fenômenos econômicos do que o limitado conceito de eficiência de Pareto, que é de difícil verificação empírica. Por isso, partindo-se do pressuposto de que não é possível ganho sem perda, o teorema da eficiência, segundo Kaldor-Hicks, é o mais apropriado para uma abordagem dos fenômenos de mercado e, por consequência, para o regramento jurídico da concorrência.
Explicando a preferência pelo critério de Kaldor-Hicks no que se refere à regulação das políticas econômicas, Kip Viscusi afirma que um parâmetro alternativo, geralmente aceito na microeconomia aplicada, é o princípio da
compensação, cuja ideia básica é a de que, se os ―ganhadores‖ de alguma
mudança política puderem, em princípio, compensar os ―perdedores‖, de modo que
todo mundo fique em uma melhor condição relativamente à situação inicialmente dada, então esta será uma mudança desejável economicamente. Note-se que a compensação atual [real] dos perdedores não é requerida. Se fosse requerida, é claro, isso satisfaria o critério de Pareto.74
Como se percebe, a eficiência em Kaldor-Hicks significa melhoria do ótimo de
Pareto.75 Significa, assim, que é possível melhorar mesmo quando a nova
distribuição de recursos implicar perdas, desde que tais perdas possam ser hipotética ou potencialmente ressarcidas pelos agentes econômicos que tiveram a sua situação melhorada. Nesse ponto, é possível identificar um plus econômico com a nova distribuição de recursos, capaz de melhor satisfazer, potencialmente, as necessidades humanas.
73 STEPHEN, Frank H. Teoria Econômica do Direito. São Paulo: Makron Books, 1993, p. 55.
74 VISCUSI, W. Kip; VERNON, John M; HARRINGTON JR, Joseph E. Economics of regulation and
antitrust. Cambridge: The MIT Press, 2000. p. 76.
O incremento da riqueza total (agregada) nas transações ou distribuições de recursos é que apontaria, teoricamente, para o que Posner chama de maximização da riqueza social. O aumento do valor total (e tenha-se aqui em mente o conceito de valor em Posner, que significa o quanto se pagaria por um bem –
willingness to pay) dos recursos em dada sociedade é que gera a maximização de
sua riqueza.