4.1.1 1º colaborador: Carlos
Filho único de Maria da Graça e Francisco Soares, Carlos nasceu em 1984, na cidade de Natal, e viveu durante 12 anos no bairro do Tirol. Os primeiros anos de vida de Carlos estão fortemente ligados à figura de D. Geraldina, uma senhora que assumiu, enquanto viveu, a responsabilidade direta por sua educação leiga e religiosa, como também pelo sustento de toda sua família.
Ao iniciar sua narrativa, Carlos sente-se obrigado, primeiramente, a situar a pessoa de Geraldina na história de vida de seus pais. Ele nos relata que os pais de Geraldina ‘adotaram’ sua mãe, Maria do Carmo, quando ela tinha apenas quatro anos de idade, e, ao longo dos anos, Maria da Graça desempenhou, na casa de Geraldina, a função de secretária do lar. Com o falecimento dos pais de Geraldina, Maria da Graça e Geraldina continuaram vivendo juntas na mesma casa, e assim continuou mesmo depois do casamento de Maria da Graça com Francisco Soares.
Sob a proteção de Geraldina, Maria da Graça e seu esposo seguem com suas vidas e, em 1984, nasce Carlos. É neste momento que Geraldina, que não havia se casado, toma para si a responsabilidade de educar o menino dentro dos costumes da educação cristã. Em suas lembranças, é ela quem o acompanha nas missas dominicais e é dela a referência mais forte em seus primeiros anos no colégio. Segundo Carlos, Geraldina tinha zelo por seus estudos e nunca o deixou estudar numa escola pública, pois ela ‘detestava’ o ensino público. Mas essa realidade durou apenas 12 anos, pois em 1996, Geraldina veio a falecer.
Após seu falecimento, a família de D. Maria da Graça e Sr. Francisco é convidada a sair da casa onde moravam e recebem uma quantia simbólica que permite à família comprar uma casa no município de Parnamirim.
Após estes fatos, a situação econômica da família passou a ser muito diferente. Carlos teve que deixar a escola em que estudava, o Instituto Maria Auxiliadora, passando a estudar em Parnamirim. Apesar de Sr. Francisco trabalhar como auxiliar de pedreiro, ele e D. Maria da Graça tiveram a preocupação de oferecer, dentro de suas condições financeiras, uma educação de qualidade para seu único filho. Assim, Carlos é matriculado numa escola também particular – o Colégio Seta, e, nessa escola, Carlos conclui o ensino médio.
No ano de 2002, Carlos faz vestibular para o curso de Jornalismo, mas não obtêm êxito. Porém, no ano seguinte, é aprovado no curso de Comunicação Social – Radialismo.
Durante toda sua vida, Carlos sente-se envolvido pela atmosfera da religiosidade. Primeiramente, sob a influência de Geraldina, ele é inserido no ambiente de religiosidade promovido pela comunidade católica que frequenta a Igreja de Santa Terezinha. Nela, ele foi batizado, fez sua Primeira Comunhão e, desde muito cedo, fazia as leituras na missa, participando regularmente dos eventos religiosos, sentindo-se como parte daquela comunidade.
Essa participação na vida religiosa se faz presente, também quando da chegada da família de Carlos em Parnamirim. É a partir da inserção na comunidade religiosa que eles buscam a normalidade para as demais atividades sociais, como o sustento familiar e os novos grupos de amigos.
Durante sua adolescência, Carlos recorda que além da leitura da Bíblia, de textos religiosos, do jornal e das leituras escolares, dificilmente tinha acesso a outros tipos de leituras como revistas e livros. De forma que a leitura mais frequente foi a da Bíblia, sempre em companhia de sua mãe. Já Sr. Francisco raramente lia, mas isso não significava que não gostasse de ler. Carlos relembra que, certa vez, Sr. Francisco foi à feira e comprou uma coleção de folhetos de Cordel porque sua leitura o divertia.
Carlos se identifica como fazendo parte de um grupo de pertencimento que reconhece na cultura e na tradição religiosa traços característicos do povo nordestino. Participava dos eventos tradicionais escolares, como as festas juninas e as festas dos padroeiros e, assim, enquanto passava a adolescência, confirmava a cada dia sua identidade religiosa junto a seu(s) grupo(s) de pertencimento.
Porém, foi por intermédio de uma atividade escolar que Carlos acordou para uma nova consciência, que envolvia não apenas os sentimentos de pertencimento, mas de algo que
ia além: o sentimento de orgulho de ter nascido em um estado cuja história é rica em testemunhos de fé.
Como não podia deixar de ser, a atividade que despertou em Carlos tal sentimento fazia referência à história dos Mártires de Uruaçu e Cunhaú. Travar conhecimento com a história do próprio estado e reconhecer a importância dos acontecimentos passados, que ajudaram na constituição da identidade cultural e religiosa de um povo, provocaram em Carlos um sentimento prazeroso, a alegria da descoberta, que, por sua vez, desencadeou, entre outras motivações, aquela necessária à busca de mais informações sobre a colonização e sobre o surgimento das cidades potiguares.
Para Carlos, tomar conhecimento do passado histórico do RN lhe permitia compreender muito do presente, como se houvesse uma necessidade de situar-se ontologicamente no contexto histórico e cultural do estado do qual faz parte.
Muito consciente da exigência e urgência, para consigo mesmo, em apropriar-se de uma intelectualidade e de experiências próprias daqueles que têm condições de experienciar eventos artísticos e culturais, Carlos se sente agradecido pela oportunidade de conhecer o Teatro Alberto Maranhão, no qual esteve em dois eventos: para assistir a uma rara apresentação de um Núncio32
apostólico, e, pela primeira vez, a um concerto de piano. Essas experiências, segundo ele próprio, “distantes de sua realidade”, foram proporcionadas após sua entrada no Seminário. Isso não significa que tudo lhe era estranho. Ambas as realidades andavam em paralelo e, naquele momento, a condição de seminarista promoveu, entre elas, uma intersecção. Todo esse contato com o novo despertou em Carlos um sentimento de crescimento que ele compreende como uma oportunidade que não pode ser desprezada.
Em relação a sua opção vocacional, ele a considera como sendo uma consequência das escolhas ao longo de sua vida, mas, nem por isso, simples de fazer. Carlos evidencia a importância da necessidade de compreender todas as implicações que a escolha pela vida sacerdotal representa para si mesmo, consciente de que abraçar a vida religiosa significaria abrir mão de um projeto de vida já iniciado e conforme suas aptidões vocacionais, para abraçar um outro que tem na ação voltada para o bem espiritual do outro sua maior vocação.
Sua principal preocupação, nesse momento de chegada ao Seminário, é com sua formação intelectual. Nesse estágio, as ações dos seminaristas são voltadas para três atividades fundamentais: a oração, o estudo e o trabalho. Mas é no estudo que Carlos percebe a chance de se tornar alguém melhor, mais capaz e, dessa forma, adquirir a competência necessária para auxiliar outras pessoas.
Carlos prossegue com seu propósito de consagrar-se à Igreja Católica, e, em 2011, cursou o 2º ano de Filosofia no Seminário Maior de São Pedro.
4.1.2 2º colaborador: Flávio
Natural da cidade de Ceará Mirim, Flávio, filho único de D. Maria da Glória e Sr. Josivaldo, nasceu em 1989. Durante seus primeiros 15 anos, ele e sua família moraram na comunidade canavieira de Ilha Bela.
Quanto à escolaridade, D. Maria da Glória cursou o 2º grau completo. Já seu Josivaldo cursou apenas até a 2ª série do primeiro grau e trabalha na Indústria canavieira de Ilha Bela. Apesar da pouca escolaridade de seu pai, Flávio recorda da capacidade de S. Josivaldo para resolver cálculos matemáticos quando o ajudava nas atividades escolares. Quanto à prática da leitura, contudo, o filho não a identificou como uma competência habitual do pai. Sua mãe, ao contrário, lia com frequência revistas de fofoca sobre as novelas e os atores, restringindo suas outras ocupações às atividades do lar.
Apesar de seus pais se considerarem católicos, eles não cultivavam o hábito de frequentar a missa. Por esse motivo, é relevante o fato de Flávio começar a participar de eventos religiosos sem a participação, nem o incentivo de seus pais. Ele recorda que, aos 8 anos, procurou a Igreja e se juntou ao grupo de senhoras que, durante o mês de maio, se reuniam todas as noites para rezar o Terço.
Segundo seu relato, a partir de então, tem início sua “paixão” pela Igreja. Comparando essa iniciativa própria a uma semente que brota e dá frutos, Flávio se envolve cada vez mais e passa a fazer parte das atividades promovidas pela Paróquia.
Apesar da pouca idade, seus pais não se posicionavam nem contra nem a favor à sua participação nesses eventos. Flávio conclui que não houve incentivos da parte dos pais. Para ele, o que apenas parecia haver era um misto de admiração e surpresa pela sua iniciativa.
Acreditando fortemente que a mão divina o estava guiando, Flávio sentia-se como alguém que deveria influenciar os outros ao seu redor, principalmente os de sua família.
À medida que crescia, Flávio desenvolve conceitos sobre conduta religiosa leiga, baseados em sua convivência com pessoas da igreja. Esses conceitos versam a respeito de como deve proceder socialmente um sujeito católico e cristão, pois, segundo ele, há muitos católicos e poucos cristãos. Em sua narrativa, Flávio se esforça em evidenciar o quanto se considera vocacionado. Para ele, foi justamente na ocasião da cerimônia da Crisma que sentiu seu espírito renovar-se, e, a partir daquele momento, era uma nova pessoa.
Sentindo-se ‘realmente’ tocado pelo Espírito de Deus, passa a considerar-se em missão, de forma que, dando testemunho de sua fé, ele estaria ajudando a ‘edificar o Reino de Deus’. A partir de então, acreditando-se na posse do carisma, dedica-se, por três anos, aos encontros vocacionais promovidos pelo Seminário São Pedro e, ao final do terceiro ano, toma a decisão de entrar no Seminário.
Voltando um pouco no tempo e acompanhando seu percurso escolar, vemos que Flávio concluiu seus estudos primários na Escola Municipal Dr. João Lúcio, em Ilha Bela. Em seguida, passa a estudar na cidade de Ceará Mirim, na Escola Estadual Interventor Ubaldo Bezerra de Melo, onde concluiu o 1º e 2º graus.
Do período escolar, algumas atividades são rememoradas como geradoras do prazer da descoberta. Dentre elas, encontram-se as atividades que abordavam o resgate histórico do Estado do RN e, principalmente, o da cidade de Ceará Mirim. Relembra, com prazer, sua participação nos eventos culturais que exigiam dos alunos criatividade. Porém, sentia-se entediado nas aulas de ciências e aproveitava para dormir. Quando não dormia, aproveitava para ler a bíblia em miniatura, ofertada pelas testemunhas de Jeová.
Participar do teatro escolar, aprender a gostar de música, das danças populares como a quadrilha Junina e o Congo, despertam em Flávio a mesma paixão que ele sente pela religião. Paixão esta que denomina ‘minha essência’.
Para ele, essas experiências funcionam como algo que vem completar ‘sua essência’, sempre como respostas, nunca como uma fuga. Traz, como exemplo de conduta, a coragem que os cantores católicos têm de assumir, ao se exporem ao público, a alegria de serem verdadeiros e dizerem o que sentem. Tudo isso encoraja Flávio, apesar de sentir medo de que as pessoas percebam que o religioso também é humano e, consequentemente, comete erros. Apesar de tudo, para Flávio, o silêncio não é o caminho. Ele deseja poder expressar seus
sentimentos por Deus com alegria para que todos vejam que ele não tem medo de ‘gritar’ o que sente.
Além das questões religiosas, seu universo escolar seguia um ritmo comum a qualquer criança. Descoberto o prazer pelo estudo de História, passa a adotá-lo como sua preferida. O fascínio pela Civilização Egípcia serve de motivação para sua escolha na hora do vestibular. Em 2007, apesar de ter ganhado uma bolsa parcial para cursar História na UnP, pelo Pró-UNE, findou desistindo por não ter condições de pagar as mensalidades.
Já no Seminário Menor, em 2008, Flávio dedica-se, como os demais, ao propedêutico e suas práticas de leitura agora são direcionadas aos interesses de uma formação direcionada para o sacerdócio. Suas leituras ganham novos tons e ele procura aproveitar o conhecimento específico que cada uma lhe oferece, como um novo vocabulário, os costumes de uma época e o contato com outras línguas, como o latim, o francês e o italiano.
Dono de um discurso muito crítico em relação à sua posição, Flávio deseja poder atender às expectativas de seu público, pois segundo ele, já passou o tempo em que as pessoas iam para a Igreja para ouvir o padre falar. Hoje, ao contrário, elas vão, cruzam os braços e esperam o melhor do sacerdote, e o sacerdote tem de estar preparado para responder aos questionamentos dos paroquianos.
Toda a narrativa de Flávio é ancorada em passagens bíblicas. Como que necessitando provar seu domínio sobre os assuntos religiosos, traz para cada afirmativa sobre sua conduta atual, um exemplo de trechos da vida dos Santos, ou do Novo Testamento.
Quanto a sua vocação, Flávio considera que esse chamado à vida religiosa ocorreu no momento da cerimônia da Crisma. A partir de então, relembrando toda sua vida, juntando os fragmentos, pensou em Jesus lhe dizendo: ‘olha, você foi chamado para ser padre’.
Reafirmando sua vocação para dar seu testemunho, Flávio enxerga, nos problemas da Igreja, uma chance de poder dizer o que está certo e o que está errado nas condutas dos padres em relação aos fiéis e aos seus compromissos. Acredita que Deus tem um plano para ele e sua missão é atuar junto ao povo, orientando sobre os mais diversos assuntos, desde o religioso ao político.
Acredita na ação transformadora que a leitura proporciona ao ser humano e tem nele próprio um bom exemplo. Narra que após a leitura de “A história de uma Alma”, relato autobiográfico de Terezinha do Menino Jesus, sente-se ainda mais motivado a seguir o ideal de vida religiosa, de dedicação ao próximo, mas evidencia que o prazer com a leitura, assim
como sua ‘aprendizagem’, ocorreu porque o texto era bem escrito, como se a autora lhe falasse.
Além das atividades escolares e das leituras sobre a vida dos santos, Flávio resume suas práticas de leitura a aquelas inseridas nas atividades junto à Paróquia de Ceará Mirim, dentre as quais se encontram o estudo sobre o Missal Romano33
, a escolha e organização dos cânticos da missa, de modo que estes devam estar relacionados com o tema do Evangelho do dia.
4.1.3 3º colaborador: Gentil
Natural da cidade de Pedro Avelino, Gentil nasceu em 1983, filho de dona Rose Nascimento e de Sr. Paulo José. Ele, professor de matemática de 5ª. a 8ª. série, e ela, professora de 1ª. a 4ª. série. Gentil relembra de seus primeiros anos de vida como ‘algo normal’ a qualquer criança. Mas, aos 9 anos de idade, com o falecimento repentino de Sr. Paulo, Gentil vê sua rotina passar por grandes transformações.
Dona Rose, devido à precariedade financeira em que se encontrava, decide enviar suas duas filhas para serem criadas pelas avós. Posteriormente, essas duas filhas de D. Rose continuaram seus estudos em Natal. As atividades de D. Rose, como professora, exigiam que passasse o dia inteiro fora, de forma que cabia a Gentil a responsabilidade de cuidar da casa e de seu irmão, de apenas cinco anos. Excetuando os finais de semana, o único momento do dia em que Gentil e seu irmão viam sua mãe era pela manhã, antes dela sair para trabalhar, pois à noite, quando retornava, eles já estavam dormindo.
Perturbado pela rotina de novas responsabilidades, como também pelas consequências emocionais causadas com a morte de seu pai, Gentil começa a perceber que seu rendimento escolar cai consideravelmente. Essa situação só piora com a passar dos anos, pois, aos 13 anos, ele passa a trabalhar no comércio local para poder ajudar a sua mãe com as despesas da casa.
Durante todos esses anos, Gentil relata que nunca se sentiu atraído pelos assuntos religiosos, chegando mesmo a brigar caso alguém pedisse que fosse assistir a uma missa.
33 O Missal Romano é o livro usado na Missa de Rito Romano para as leituras próprias do celebrante (um clérigo). Ele contém vários tipos de orações eucarísticas.
Mas, eis que certo dia, movido por um momento de curiosidade, ao passar diante da igreja, observa o padre celebrando a missa e se sente ‘tocado’. No dia seguinte, para espanto de todos, comunica a sua mãe que irá assistir a missa.
Durante todo o ano de 1997, participa da preparação para a Crisma e, segundo seu relato, é envolvido pelo clima de religiosidade e se sente ‘chamado’ para seguir a vocação sacerdotal. Após inteirar o padre, responsável pela Paróquia, de seus sentimentos, Gentil é enviado ao Seminário, em Natal, para participar dos encontros vocacionais. Após participar de dois encontros, foi aconselhado a esperar um pouco mais antes de tomar qualquer decisão.
Gentil, então com 16 anos, retorna a Pedro Avelino e se vê novamente dividido entre a necessidade de trabalhar, para poder ajudar em casa, de estudar e de realizar trabalhos voluntários na Pastoral da Igreja. Percebendo que não havia como abraçar as três atividades, já que o trabalho, apesar de lhe esgotar as forças, dava a ele condições de ajudar sua mãe, decide por abandonar os estudos e os trabalhos pastorais, continuando apenas com o trabalho remunerado.
Apesar da casa de sua mãe estar sempre repleta de livros, os estudos sempre foram relegados a um segundo plano. Gentil admite que durante todos esses anos, não tinha práticas de leitura nem de escrita. Considera seu aprendizado na adolescência muito deficiente e atribui a essa deficiência o fato de não conseguir acompanhar o ritmo dos estudos no Seminário.
Ao completar 19 anos, Gentil decide sair de Pedro Avelino para tentar a sorte em Natal. Trabalhando como vendedor ambulante na praia e entregador de mercadorias de um pequeno comércio, consegue comprar uma casa na Redinha Nova. Com sua vida um pouco melhor estruturada, Gentil conclui seus estudos fundamentais, fazendo o Supletivo.
Devido ao ritmo de trabalho constante a que foi submetido e as escolhas que teve de fazer na vida, Gentil vê a si mesmo como alguém que teve sua infância roubada e, no lugar dela, lhe foi dado um conjunto de responsabilidades que, se por um lado o prepararam para enfrentar a dureza da vida, por outro, lhe negaram o direito ao saber legitimado pela sociedade.
No entanto, sua curiosidade natural pelas coisas o conduz a procurar conhecer a história de sua região: o Pico do Cabugi, Angicos, Lages e Pedro Avelino. Em sua narrativa,
Gentil nos revela que, chegando a essas cidades, procurava contato com as pessoas mais idosas e com elas procurava conhecer a origem do nome do lugar e sua história.
Desde sua chegada à Natal, Gentil havia direcionado sua vida para construir uma estabilidade que lhe proporcionasse um pouco de segurança e conforto. Tinha casa, três empregos e uma companheira, em suas próprias palavras: “tudo direitinho”. Já não mais lembrava que um dia havia se sentido vocacionado para se consagrar ao sacerdócio.
Mas, certa noite ao retornar para casa, num percurso solitário, Gentil, aos vinte e dois anos, sente sua mente invadida pelas lembranças do tempo em que se sentiu vocacionado, percebe então que falta algo em sua vida e decide que deve voltar a refletir sobre esse sentimento que ele nomeia de ‘o chamado’.
Enfrentando seus conflitos internos, resolve, nos dois anos seguintes, retomar os encontros vocacionais e, após ser aprovado, reúne forças e deixa tudo o que conquistou: a casa, o emprego e sua companheira, para iniciar sua nova jornada.
Convicto de que fez a escolha certa, Gentil inicia sua nova rotina composta de orações, obrigações e estudos. É consciente de que sua defasagem nos estudos é muito grande e, por isso mesmo, sente-se motivado a estudar, mesmo que seja de madrugada. Quando precisa de ajuda, procura compartilhar com outros seminaristas suas dúvidas em