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A implementação do projeto “Ensinar e Aprender: construindo uma proposta” está ligada ao Programa de Adequação Idade-Série (PAI – S), do governo federal, que no Estado de São Paulo ficou bastante conhecido como “Projeto Classes de Aceleração”, e se insere no contexto das discussões educacionais da década de 1990, sobretudo, ao que se refere ao fracasso escolar, denunciado, em particular, pelos altos índices de reprovação e de evasão.

É importante ressaltar que a sua nomenclatura, bem como a sua própria caracterização geral, pode trazer algumas confusões, pois as classes de aceleração, também previstas pela LDB/1996, por meio do artigo 24, foram implantadas na rede paulista tanto no ensino fundamental de 1ª a 4ª quanto no de 5ª a 8ª série, com nomes diferentes. No ciclo I, essas classes de aceleração de aprendizagem foram desenvolvidas por intermédio do projeto “Reorganização da Trajetória Escolar no Ensino Fundamental (ciclo I)”, desenvolvido pela SEE/SP pela primeira vez em 1996, e no ciclo II, através do projeto “Ensinar e Aprender: corrigindo o fluxo do ciclo II”, implementado pela primeira vez na rede paulista de ensino, em 2000, por meio do projeto “Ensinar e Aprender: construindo uma proposta”, aqui em estudo. Embora esse Projeto tenha sido desenvolvido na rede estadual paulista de ensino pela primeira vez nesse ano, ele já havia sido implantado em 1997 e 1998 no Estado do Paraná.

Segundo Neubauer (2000), os resultados “altamente positivos” produzidos pela sua proposta “teórica e metodológica” levou a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo a fazer uma parceria com aquele Estado, pois tendo sido este “pioneiro”93 na implantação dessas classes em 1996, os dois estados, em 1998, fizeram a troca do material que subsidiou a proposta teórica e metodológica de cada um desses projetos.94

93 Esse pioneirismo e os resultados altamente positivos do desenvolvimento desse Projeto na SEE/SP, segundo Neubauer (2000), levaram-no, em dezembro de 1997, a conquistar o prêmio Unicef Criança e Paz – Betinho, dado a instituições e projetos que se colocam em defesa da criança. Segundo Neubauer (2000), a defesa da criança seria, verdadeiramente, a prioridade de então governador Mário Covas que estaria colocando em prática várias ações para criar condições favoráveis para que os alunos não acumulassem defasagem de aprendizagem e recuperassem o que havia perdido.

94Apesar de Rose Neubauer (2000) afirmar que seriam feitas as adequações necessárias para a sua implementação na rede paulista, estas ficaram a cargo dos próprios professores participantes do Projeto. Mesmo que pudesse ser facilmente trabalhado por outros estados, o material de apoio destinado ao Ensinar e Aprender apresenta algumas especificidades próprias do estado paranaense. A esse respeito, a então coordenadora da CENP Vera Lúcia Wey, no texto “Caro Professor”, inserido nas primeiras páginas do material destinado aos

Nos dois estados o material didático produzido no contexto de implementação do “Projeto Classes de Aceleração” foi elaborado pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (CENPEC),95 apresentando uma proposta de renovação pedagógica para todos os componentes curriculares, cujo eixo articulador das disciplinas foi o ensino da leitura e da escrita. À luz de novas concepções educacionais de ensino, de aprendizagem e de avaliação, esse Projeto propõe uma mudança de foco do trabalho escolar, segundo o qual deveria passar a estar centrado no fazer pedagógico, no desenvolvimento de habilidades e competências no aluno, em oposição ao sistema escolar que privilegia a memorização fragmentada, descontextualizada e sem significado.

O Projeto parte do princípio de que a valorização da auto-estima é ponto chave para a capacidade de aprender e que um aluno motivado aprende com muito mais facilidade. O papel do professor é o de estimulador, o que só pode ser possível por meio da adoção de novos métodos de ensino.

Essa proposta está em sintonia com o ideário da “Escola de Cara Nova”, defendida pelo governo paulista a partir da década de 1990, uma escola na qual todos têm a oportunidade de aprender de forma igualitária e com qualidade de ensino. Esse modelo de escola foi almejado, sobretudo, para dar uma resposta à sociedade em geral, que não cansava de apontar o fracasso escolar, evidenciado, pelos altos índices de evasão e de repetência, que não eram um problema a ser enfrentado apenas pelo Estado de São Paulo. No Brasil desse período, segundo dados do MEC, o aluno estaria levando, em média, de 11 a 12 anos para concluir o ensino fundamental. Por essa razão, mais de 63% dos estudantes brasileiros matriculados nesse nível de ensino estaria fora da faixa etária prevista para a série.

No Estado de São Paulo, segundo Rose Neubauer, Secretária da Educação na época de implantação das classes de aceleração de aprendizagem nesse Estado,96 em 1995, 1 milhão e 500 mil crianças, o equivalente a 25% dos alunos da rede pública estadual, apresentavam

docentes, afirma que mesmo que este tivesse sido reproduzido na íntegra, poderiam ser feitas as adequações consideradas pertinentes, adequando-o à realidade do Estado de São Paulo e à de suas escolas.

95 O Cenpec - Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária – criado em 1987, é uma das primeiras organizações criadas pela sociedade civil com o objetivo de contribuir para o “desenvolvimento humano e comunitário sustentável por meio da concepção e implementação de metodologias e programas no âmbito das políticas públicas de educação, cultura e assistência social”. Essas informações estão disponíveis no endereço eletrônico: <http://www.cenpec.org.br/modules/mastop_publish/index.php?tac=5>. Acesso em: 19 mar. 2010.

96 Rose Neubauer foi Secretária da Educação do Estado de São Paulo de 1995 a abril, de 2002. Rose Neubauer é professora-doutora formada pela PUC de São Paulo, professora da Faculdade de Educação da USP, e trabalhou como pesquisadora da Fundação Carlos Chagas e foi Secretária da Educação do Estado de São Paulo durante sete anos e três meses, um recorde na educação paulista. Essas informações foram extraídas do endereço eletrônico: < http://www.educacao.sp.gov.br/noticias/2002_04_05.asp>. Acesso em: 17 mar. De 2010.

defasagem de idade em relação à série em que deveriam estar matriculados. Para a então Secretária, a multirrepetência reforçava a incapacidade das crianças por não conseguirem aprender e progredir nos moldes como a escola ensinava. Esse problema, em sua perspectiva, estaria muito mais no sistema educacional de ensino do que nas próprias crianças, já que, de forma velada, o sistema as excluía de maneira desumana e irracional, constituindo um quadro lamentável de altos índices de repetência e evasão.

Ainda de acordo com as reflexões de Neubauer (2000), no início dos anos 90, aproximadamente 30% dos alunos que cursavam da 1ª à 4ª série do Ensino Fundamental estavam defasados em dois ou mais anos, situação que causava muitos problemas: os alunos multirrepetentes eram obrigados a frequentar classes de crianças mais novas, nas quais, muitas vezes, eram tratados por colegas e professores como incompetentes, sem contar que deveriam retomar indiscriminadamente todos os conteúdos da série a ser refeita, sem que fossem respeitados os avanços já obtidos e sempre sujeitos à mesma metodologia de ensino. Para Neubauer (2000), se essa metodologia já havia se mostrado inadequada, com a sua reutilização, certamente levaria os alunos a ser reprovados novamente.

A rede paulista, buscando enfrentar o problema da multirrepetência com base em ações concretas, iniciou, em 1995, a implementação de uma série de medidas visando à melhoria da qualidade de ensino, conforme já mencionado no capítulo anterior,97 em especial a diminuição dos altos índices de reprovação e de abandono registrados na época. Essas medidas levaram a SEE/SP a incorporar, em sua proposta didático-pedagógica, algumas linhas temáticas bastante debatidas nesse momento, em especial as que se referiam aos apontamentos acerca da necessidade de a escola rever sua função social. O caminho escolhido por essa SEE para dar uma resposta satisfatória às constantes cobranças da sociedade em geral em função do tão discutido fracasso escolar foi colocar em prática uma proposta também inscrita na LDB de 1996 – Lei 9.394 – quando trata da possibilidade de acelerar os estudos para alunos com atraso escolar, foi a implantação das classes de aceleração de aprendizagem, com vistas à regularização do fluxo escolar no Estado. A implantação dessas classes, entretanto, exigiu mudanças não apenas pedagógicas, mas administrativas também.

Além da implantação dessas classes, vale lembrar que, em 1997, o governo paulista também implantou o regime de Progressão Continuada, visando à redução dos altos índices de reprovação e evasão no Estado. Tanto as classes de aceleração de aprendizagem quanto o

regime de progressão continuada estão sustentados por novas concepções educacionais de ensino, aprendizagem, avaliação, bem como do próprio currículo.

De acordo com a discussão da então coordenadora da CENP - Vera Lúcia Wey (2002), no artigo “Progressão continuada da aprendizagem: o que falta dizer sobre sua implantação”, foi a partir das capacitações voltadas para o Projeto das Classes de Aceleração que novas concepções passaram a ser objeto de estudo, reflexão e proposta de atividades para subsidiar mudanças na prática docente em sala de aula, em todo o Estado. Esses fundamentos, de modo geral, estavam em sintonia com os fundamentos teóricos do novo modelo de escola pretendido pelo Estado - a Escola de Cara Nova – que objetivou o desenvolvimento de múltiplas ações, de ordem administrativa e pedagógica, visando à melhoria da qualidade de ensino e à garantia da aprendizagem bem sucedida dos alunos de habilidades e conceitos básicos para a vida em sociedade.

Assim, é nesse contexto que o projeto “Ensinar e Aprender: construindo uma proposta” foi implementado pela primeira vez no Estado de São Paulo no ano de 2000, no ensino fundamental, de 5ª a 8ª série, inserido na esfera do “Projeto Classes de Aceleração”, ligado ao “Programa de Adequação Idade-Série”, do governo federal, disseminando novas concepções teóricas, sobretudo através do seu material de apoio didático, composto de quatro volumes, denominado Ensinar e Aprender. De modo geral, sua implantação se apresenta como forma de pagamento da dívida social acumulada durante décadas, pela rede paulista de ensino, com relação aos alunos multirrepetentes.

Além disso, segundo Wey (2002), o Projeto tentou dar uma resposta concreta às pesquisas realizadas nas diferentes áreas das ciências humanas, as quais chamavam a atenção para a necessidade de repensar o processo de aprendizagem e de avaliação do sistema escolar, diante da nova conjuntura social do Brasil após o fim do regime militar, em especial aos estudos oriundos da Psicologia Educacional, da Sociologia da Educação, da Didática e Teoria do Currículo, Avaliação Educacional, bem como aos resultados de avaliações educacionais externas, como o SARESP e SAEB.

Benzer Belgeler