de ordem geral, determinaram-lhe ou facilitaram-lhe a ma nifestação aqui. Foram, nntre outros, ou os principais; a Guerra do Paraguai, acordando o snntimnnto nacional, meio adormecido desde o fim das agitações revolucioná rias conseqüentes à Independência, e das nossas lutas no Prata; a questão do nlnmnnto servil , comovnndo toda a na ção, e lhe despnrtando os brios contra a aviltantn institui ção consuetudinária; a impropriamente chamada qunstão religiosa, resultante do conflito entre as pretnnsõns dn auto
nomia do catolicismo oficial n as exigências do tradicio
nal regaIismo do Estado, a qual alvoroçou o espírito li beral contra as veleidades do ultramontanismo e abriu a discussão da crnnça avoenga, provocando emancipações dn consciências n abaIos da fé costumeira; e, finalmnnte, a gunrra franco-alemã com as suas conseqüências, desper tando a nossa atenção para uma outra civilização e cultura que a francesa, estimulando novas curiosidades intelectuais. Certos efnitos innspnrados da Guerra do Paraguai, COmo o surdo conflito que, apenas acabada, surgiu entre a tropa demasiado presumida do snu papnl e importância n os pro fundos instintos civilistas da Monarquia, não foram sem efeito neste momnnto da mentalidade nacional. Também
a Revolução Espanhola dn
1868
n conseqüente advnntoda República nm Espanha, a queda do Segundo Império napolnônico e imediata Proclamação da Rnpública em Fran
ça, em
1870,
fiznram rnssurgir aqui com maior vigor doqun nunca a idéia rnpublicana, que desdn justamente este
ano de
70
se consubstanciara num partido com órgão naimprensa da capital do Império. Esta propaganda republica na tevn um pronunciado caráter intelnctual e interessou grandemente os intnlnctuais, pode dizer-sn qun toda a sua partn moça, ao menos. Outro caráter da agitação republica na foi o snu livre-pensamento, sn não o seu anticatoli cismo, por oposição à Monarquia, oficialmente católica."
(Veríssimo,
1969,
pp.28-9).
O pensamento modnrno tnvn como um de snus principais arautos no Brasil Tobias Barrnto, que, de Pernambuco, divulga va idéias e idnais. Em diversos pontos do país, jovens intnlnc
tuais sofriam "a influência dos livros franceses de Littré, ee
Quinet, de Taine ou de Renan, influnnciados pelo pensamento alnmão n também pnlo inglês" . Entre eles podem ser mnnciona-
DESDE QUANDO SOMOS UMA NAÇÃO' �I
dos Capistrano de Abreu e Araripe Júnior, originürios de um gru
po literário do Ceará "Iedor de Spencer, BuckiL', Taine e Com
te" (Veríssimo,
1969,
pp.232-3).
O pensamento ' dos autores que produziram seus trabalhos
entre
1870
e1914
foi dominado pelo sentiuo de atualização,de modernização. Roque Spencer Maciel de Barros usa o termo " ilustração" para caracterizar estes homens que queriam ilumi nar o país através da ciência e da cultura. Segundo eles, os problemas nacionais, provocados pela ignorância, só poderiam ser sanados por uma reação "científica" . Esta geração ilustra da "guardou a crença absoluta no poder das idéias, a confian ça total na ciência e a certeza de que a educação intelectual é o único caminho legítimo para melhorar os homens" (Barros,
1959,
pp.22-3).
Seu projeto era colocar o país ao "nível do século " , superar seu "atraso cultural" e acelerar sua marcha evolutiva a fim de que o Brasil pudesse alcançar a parcela mais avançada da humanidade. Outro traço que caracterizava essa geração era um "esforço de universalização" , em oposição à busca de singularidade, marca do romantismo.O movimento romântico buscava a nossa peculiaridade: com um agudo senso do real, num momento em que, mal saídos da independência, buscávamos nossa afirmação como povo, o romantismo, de acordo com os esquemas de pensamento do tempo, insistia no típico e no insólito ( . . . ). Outra é a perspectiva da geração seguinte: ela já não quer pôr em relevo o específico nacional, mas íntegrar nos na civilização ocidental; compreender nossas diferenças em relação com os países mais adiantados do Ocidente não como urna 'diferença de natureza' mas como uma dife rença de fase histórica, apreendida segundo o modelo de
uma filosofia progressista da história (Barros,
1967,
p.14).
A elite intelectual aceitou aquelas idéias que permitiam pensar a integração do Brasil na cultura ocidental. O positi vismo, o darwinismo, o spencerismo e o materialismo preenche ram o mesmo papel; essas correntes veicularam uma filosofia da história que possibilitava esta integração ao moderno, ao científico, ou ao Estado positivo.
Roque Spencer Maciel de Barros trabalha em seu magnífi
co texto
(1959)
com três tipos de mentalidades, característicos82 LÚCIA LlPPI OLIVEIRA
servadora, a liberal e a cientificista. Convém destacar aqui a importante distinção que o autor faz entre a mentalidade libe rai e a cientificista. Para ele, o novo ideal, presente na visão cientificista, consiste tanto no conhecimento da natureza huma na em seus condicionamentos biológicos, sociais e psíquicos, quanto na descoberta das leis do desenvolvimento do homem, e na derívação da conduta a partir destas leis. Os liberais acei tam a ciência, mas consideram-na incapaz de criar valores, os quais estão inscritos na essência do homem. Para os liberais, "o ponto de encontro é a esfera ético-jurídica, laicizada, e os modelos de pensamento são ainda Rousseau, Kant e seus epí
gonos, os criadores de um direito natural ou racional moder
no" (Barros,
1959,
p.33).
Enquanto na Europa o liberalismo estava às voltas com a questão da incorporação das massas à vida política, enfrentan do as propostas socialistas, no Brasil a vertente liberal da ilustra ção lutava por eliminar ou remodelar o Estado existente. Aqui
impunham-se tarefas como a solução do problema das relações
entre o individuo e o Estado, a efetivação dos mais elementa res e básicos "direitos naturais", a abolição da escravatura, a concessão da liberdade de culto e a livre manifestação do pensa mento.
O liberalismo brasileiro do final do século XIX enfrenta va uma luta semelhante à vivida pelo liberalismo europeu no século XVIII. Sem conteúdo era jurídico-político, e era em no me do direito natural que condenava a escravatura e a ordem im perial.
Os liberais ilustrados se dividiam em monarquistas constitu cionais e republicanos. Esta distinção, porém, fazia-se em rela ção aos meios, mas não em relação aos fins políticos. Ambos defendiam a descentralização do governo, o funcionamento de um sistema representativo e a reforma eleitoral. Os liberais re publicanos, entretanto, rejeitavam a monarquia constitucional, devido à impossibilidade de se conciliar a monarquia hereditá ria (o poder pela graça de Deus) com a soberania nacional (o poder pela vontade livre e soberana de todos os cidadãos) (Bar
ros,
1959).
Os cientificistas acreditavam que os fenõmenos humanos e físicos eram englobados por uma única natureza. Este mo nismo, príncípio de unidade do mundo, pertencia aos pressupos tos da Ilustração. Na filosofia científica do século XVIII, ape sar de suas diferenciações, era a razão que regulava a experiên-
DESDE QUANDO SOMOS UMA NAÇÃO? 83