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RESUMO:

No contexto da Inquisição portuguesa, tendo por base a primeira e última Visitação do Santo Ofício à América, pretende-se ampliar o olhar em torno das práticas mágico-religiosas que circularam nesse espaço, partindo da noção

de connected histories, utilizada por Sanjay Subrahmanyam, a fim de perceber como esse universo simbólico se

atrelou a inúmeros contextos para além da circunscrição ao espaço americano.

Palavras-chave: Tribunal do Santo Ofício; Connected Histories; Práticas mágico-religiosas.

ABSTRACT:

In the context of the Portuguese Inquisition, based on the first and last visitation of the Holy Office to America, we intend to broaden perspectives around the magical-religious practices that circulated in this space, starting from the notion of connected histories used by Sanjay Subrahmanyam, in order to understand how this symbolic universe harnessed to numerous contexts beyond the jurisdiction to American space.

Keywords: Holy Office; Connected Histories; magical-religious practices.

O avanço das iniciativas inseridas no contexto da Contrarreforma em Portugal só é passível de uma análise mais pormenorizada se levadas em consideração, conforme destacou Federico Palomo, as inúmeras nuances presentes nas relações entre poder religioso e Real presentes no contexto lusitano. A dimensão religiosa não deve ser, portanto, negligenciada nos estudos dos pesquisadores na medida em que esteve associada diretamente à própria identidade portuguesa, contribuindo diretamente para o desenvolvimento das políticas da Monarquia frente às instituições civis e também às relacionadas à Igreja Católica60. Sendo assim, é nesse contexto que o autor insere o estabelecimento do Tribunal do Santo Ofício em Portugal, no ano de 1536, como expressão considerável dos interesses monárquicos para com a

59 Esse trabalho pode ser entendido a partir de inúmeros referenciais presentes na minha formação, incluindo

pesquisas realizadas durante a Graduação em História, sob orientação do Prof. Dr. Angelo Adriano Faria de Assis, bem como da Dissertação de Mestrado, “Descendentes de Eva: religiosidade colonial e condição feminina na Primeira Visitação do Santo Ofício à América portuguesa (1591-1595)”, sob orientação da Profa. Dra. Daniela Calainho.

intervenção no âmbito religioso, conferindo a essa instituição uma dupla face voltada à função de tribunal eclesiástico bem como a se tornar uma “instância judicial colocada sob o olhar do monarca português e integrada no sistema polissinodal da administração régia, através do Conselho Geral do Santo Ofício”61.

Já sob o pontificado de Paulo III, o início das atividades do Santo Ofício em Portugal é entendido por José Pedro Paiva e Giuseppe Marcocci como fruto do “coração do Renascimento português”, de um longo desejo lusitano em contar com o aparato inquisitorial62. Assim como sua congênere espanhola, a Inquisição portuguesa ancorou-se na justificativa da presença judaica como forma de se estabelecer bem como de alcançar apoio da sociedade em que estava inserida, já que diversos setores da própria eram simpatizantes da perseguição aos seguidores da lei de Moisés. A partir da década de 1560, a problemática se intensifica, abrindo a possibilidade para o confisco de bens dos cristãos-novos63 – judeus convertidos à força ainda no reinado de D. Manuel – bem como da consolidação da noção de pureza de sangue, em que a distinção social entre cristãos-velhos e cristãos-novos marcaria uma tradição estamental portuguesa que se estenderia além-mar, tendo somente em 1773 sua abolição a partir das políticas do Marquês de Pombal64.

Paralelamente ao corpo jurídico que sustentava essa instituição, em especial, os diversos Regimentos que foram publicados ao longo dos seus três séculos de funcionamento, se desenvolveu toda uma estrutura interessada em ampliar a atuação inquisitorial, tais como a consolidação dos tribunais que se delimitariam em Évora, Lisboa e Coimbra, além do único tribunal inquisitorial além-mar que Portugal possuiu, estabelecido em Goa, na Índia. Desse modo, a partir da segunda metade do século XVI, o Santo Ofício português buscou consolidar uma série de dispositivos direcionados à ampliação da sua presença tanto no espaço luso quanto nos seus domínios ocidentais e orientais, como, por exemplo, o mecanismo das Visitações.

Não se tratou de uma atitude inovadora do Santo Ofício quando da nomeação de determinados indivíduos para a função de percorrer as regiões sob sua jurisdição de modo a

61 PALOMO, Federico. A contra-reforma em Portugal. 1540-1700. Lisboa: Livros Horizonte, 2006. p. 27.

62 MARCOCCI, Giuseppe; PAIVA, José Pedro. História da Inquisição portuguesa: 1536-1821. Lisboa: A esfera dos livros,

2013. p. 23

63 MAGALHÃES, Joaquim Romero (Coord.). No alvorecer da modernidade. In: MATTOSO, José. História de

Portugal. 3. v. Lisboa: Editorial Estampa. p. 406-407

64 A respeito dos estatutos de pureza de sangue e a consequente inserção dessa política nos quadros do Santo

Ofício português, ver: RODRIGUES, Aldair Carlos. Limpos de sangue: Familiares do Santo Ofício, Inquisição e

Sociedade em Minas Colonial. São Paulo: Alameda, 2011. Com relação ao contexto voltado para as políticas pombalinas endereçadas à Inquisição portuguesa, ver: MATTOS, Yllan. A Inquisição contestada: críticos e críticas ao

identificar possíveis rastros de desvios heréticos. Em trabalho clássico, José Pedro Paiva já apontara para a importância das Visitas Pastorais na Modernidade como forma de controle social, ancorando-se por vezes à estrutura da Inquisição portuguesa a fim de complementar suas ações bem como da própria instituição. No âmbito inquisitorial, a apropriação desse mecanismo deixa transparecer, segundo o autor, o interesse de reforçar a atuação da Igreja Católica frente às investigações relacionadas aos cristãos-novos acusados de práticas judaizantes bem como dos cristãos-velhos que por vezes eram denunciados às autoridades e que estavam distantes do catolicismo pretendido pelo clero65.

Focando nas Visitações inquisitoriais à América lusitana, promovidas respectivamente entre 1591 a 1595 e de 1763 a 1769, episódios que demarcam as extremidades de uma instituição que ainda se tornava mais complexa para outro contexto de uma instituição que se tornava “domesticada”66, objetivamos adentrar nos mundos da religiosidade, em especial, da interação direta e ilícita para com o sobrenatural emergentes desses episódios. Nosso interesse é apontar para a necessidade cada vez maior de evitar análises a respeito da temática que a circunscreva em limites temporais e espaciais, partindo, assim, das múltiplas escalas e conexões como forma de evitarmos o engessamento das discussões voltadas somente para o recorte espacial em questão; ressalva que também fora apontada por Serge Gruzinski67:

como explicar que as obras castelhanas do inca Garcilaso de la Veja e do romancista Mateo Alemán tenham sido publicadas em Lisboa? Por que o jesuíta navarrês José de Anchieta compunha autos bilíngües, em castelhano e português, para as pequenas cidades da Terra de Santa Cruz? O que faziam em Belém, nos anos 1620, os “sessenta vizinhos espanhóis” dos quais nos fala o cronista Vásquez de Espinosa?68

Avançando na problematização, podemos questionar, também, os motivos de encontrarmos o uso da tesoura acompanhada de um chapim enquanto instrumentais para a concretização de uma prática de adivinhação tanto no processo de Felícia Tourinho – no contexto da Primeira Visitação – como no de Brites Frazão – acusada na Inquisição de Évora – , ambos no século XVI. Laura de Mello e Souza, por exemplo, apontou para os usos da “tesoura e do balaio” – ou chapim, para os casos citados – tanto na Inglaterra elisabetana quanto no

65 PAIVA, José Pedro. Inquisição e visitas pastorais: dois mecanismos complementares de controle social?. Revista

de História das Idéias, Coimbra - Instituto de História e Teoria das Idéias da Faculdade de Letras da Universidade

de Coimbra, v. 11, p. 85-102, 1989. p. 89.

66 MATTOS, Yllan de. A última Inquisição: os meios de ação e funcionamento do Santo Ofício no Grão-Pará

pombalino. 1750-1774. Jundiaí: Paco Editorial, 2012.

67 GRUZINSKI, Serge. A águia e o dragão: ambições europeias e mundialização no século XVI. Trad. de Joana

Angélica D´Avila Melo. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. p. 350.

68 GRUZINSKI, Serge. Os mundos misturados da Monarquia Católica e outras connected histories. Topoi, Rio de

contexto da Visitação inquisitorial ao Grão-Pará69. Ampliando a problemática, o que explica a existência de cartas de tocar70 utilizadas por Maria Gonçalves durante o período em que morara em Salvador e também nos relatos trazidos por Daniela Calainho com relação ao natural da Costa da Mina, Joseph Francisco Pereira, preso pela Inquisição de Lisboa no ano de 1730?71 A alternativa pensada por Serge Gruzinski a fim de ultrapassar as questões aqui postas partiu, por consequência, da proposta em se pensar a Monarquia católica como ferramenta privilegiada de análise capaz de dar conta das problemáticas levantadas na medida em que:

aproxima ou conecta várias formas de governo, de exploração e de organização social; confronta, de maneira às vezes bastante brutal, tradições religiosas totalmente distintas. Foi, ainda, o teatro de interações planetárias entre o cristianismo, o Islão e o que os ibéricos chamavam de idolatrias, uma categoria que abarca arbitrariamente os cultos americanos, os cultos africanos, ou ainda as grandes religiões da Ásia72.

Sanjay Subrahmanyam, por sua vez, delimitou a noção de connected histories73, interessado em repensar as fronteiras entre local e regional, partindo do pressuposto de que boa parte das interações não somente econômicas, mas políticas e também culturais, que a Época Moderna vivenciou se constituíram, principalmente, pela multiplicidade de escalas e a correspondência entre contextos e temporalidades distintos. A diluição de fronteiras, as inúmeras conexões estabelecidas entre a diversidade de personagens, histórias, trajetórias, podem, enfim, se concretizar na medida em que a própria circulação de crenças e práticas relacionadas ao universo mágico-religioso nos possibilita integrar o presente trabalho nos pressupostos aqui

levantados pelo autor. No caso específico de suas análises, é nítida a preocupação, antes mesmo de cunhar a noção de connected histories, em desconstruir uma visão eurocêntrica relacionada ao

mundo Asiático, buscando reafirmar que a própria expansão portuguesa teve de lidar com problemáticas e situações pertencentes a esse espaço, distanciando, assim, de uma visão estática com relação ao Oriente. Vide o exemplo do contexto de chegada do Cristianismo em

69 MELLO E SOUZA, Laura de. Inferno Atlântico: demonologia e colonização: séculos XVI-XVIII. São Paulo:

Companhia das Letras, 1993. p. 92.

70 Circunscritas dentro da sacralidade conferida a algumas palavras, principalmente as de cunho religioso, as

“cartas de tocar” produziam efeitos com base no contato, no qual, segundo Francisco Bethencourt “conheciam uma certa especialização de objetivos [...], e da boa escolha do momento de utilização podia depender o sucesso do caso [...]”. Cf: BETHENCOURT, Francisco. O imaginário da magia: feiticeiras, adivinhos e curandeiros em

Portugal no século XVI. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. p. 92.

71 CALAINHO, Daniela. Metrópole das mandingas: religiosidade negra e Inquisição portuguesa no Antigo Regime. Rio

de Janeiro: Garamond, 2008. p. 176.

72 GRUZINSKI, Serge. Os mundos misturados da Monarquia Católica e outras connected histories. Topoi, Rio de

Janeiro, pp. 175-195, mar. 2001. p. 179-180.

73 SUBRAHMANYAM, Sanjay. Connected Histories: Notes towards a Reconfiguration of Early Modern Eurasia.

Modern Asian Studies, Vol. 31, no. 3, Special Issue: The Eurasian Context of the Early Modern History of Mainland South East

terras indianas, consolidando uma verdadeira competição com religiões que ali circulavam, sejam as milenares ou mesmo as mais recentes, levando o autor a ressaltar esse aspecto como importante questão a ser pensada no que tange às ações dos portugueses para além de uma simples imposição cultural74.

Propor uma perspectiva conectada é, enfim, mudar a forma como se deve observar a Época Moderna a partir de questões que sustentem a ampliação desse olhar. No âmbito deste trabalho, a forma como pretendemos desenvolver uma perspectiva para além de fronteiras temporais e espaciais se relaciona diretamente à própria trajetória que a figura do Diabo bem como as práticas mágico-religiosas assumiram não somente entre a cultura letrada, mas,

principalmente, entre a população comum. Retomando o foco inicial de nossa proposta, as Visitações, objetivamos analisar como esse personagem circulou entre essas distintas sociedades, tempos, adquirindo persistências, novos contornos ou até mesmo ausências entre as práticas mágico-religiosas relatadas no contexto de presença inquisitorial. Interessa-nos,

portanto, nas muitas histórias emergentes de um universo multifacetado em que crenças e práticas se construíram e circularam tendo em vista a América portuguesa enquanto ponto de partida. No mais, é também essencial demarcar alguns apontamentos teóricos relacionados ao manuseio que será feito com relação aos relatos que aqui serão mencionados.

Os conceitos de feitiçaria e práticas mágico-religiosas foram escolhas conscientes por nos

permitirem visualizar e lidar com dois movimentos, aproximação e distanciamento, referentes à suposta manipulação dos indivíduos em relação ao sobrenatural e o interesse do Santo Ofício em mapear essas interações ilícitas, incluindo aí processos inquisitoriais.

A constatação – já atualmente óbvia, segundo Carlo Ginzburg75 – de que a “bruxaria europeia”, aliás, os testemunhos referentes a esse fenômeno se construíram a partir de inúmeros referenciais, nem sempre homogêneos, vindos de estratos “eruditos” e “populares” também é por nós levada em consideração na medida em que adotar deliberadamente a noção de feitiçaria

– sem problematizar a mesma enquanto conceito e fenômeno –, seria simplesmente reproduzir o próprio discurso normativo da Época em que nos situamos. Destarte, historicizar o próprio conceito em questão é condição importante para nos situarmos em um debate que se faz tão complexo quanto amplo entre os pesquisadores.

Na esteira de uma possível problematização da História e, claro, dos acontecimentos, Julio Caro Baroja publicou em 1961 a primeira de várias edições de Las brujas y su mundo. A

74 SUBRAHMANYAM, Sanjay. O Império Asiático português. 1500-1700. Uma história política e económica. Difel:

Lisboa, 1993. p. 41.

discussão central se pautou, por sua vez, não nos que se acreditavam como “bruxos” e “bruxas”, pelo contrário, o autor buscou o caminho inverso ao se focar também no entendimento de que o fenômeno de “caça às bruxas” – bem como as crenças que circularam no período – esteve inserido na construção da própria sociedade de então, dos próprios indivíduos que acreditavam nos malefícios. Residiu nessa mudança de olhar a ressalva apontada pelo autor com relação à necessidade do pesquisador em se atentar para a heterogeneidade dos laços culturais que sustentaram as crenças nesse fenômeno: “mas a prova que a bruxaria ultrapassa em si a todas as explicações que foram dadas é que cada uma delas parece encerrar uma parcela de verdade, constituindo a dificuldade ao reunir esses elementos para fazer um todo”76.

Seu olhar criterioso para com a temática resultou, assim, nas definições de “bruxaria”, “magia” e “feitiçaria”, embora tenha frisado que qualquer conceituação carrega consigo limitações decorrentes da própria documentação e das crenças que são difusas. Quanto ao conceito de “bruxaria”, encarou-o como sinônimo da “magia negra”, ou seja, de rituais especificamente maléficos de caráter coletivo, no qual os indivíduos acreditavam na sua eficácia bem como reconheciam no praticante a fonte do rito. A figura do Diabo emerge como fator decisivo para tal delimitação, bem como para sua própria definição de “bruxaria” que, além de malefício, era provocada pelo pacto demoníaco77. De outro lado estaria a noção de “magia branca”, em que rituais de interação com o sobrenatural também ocorriam sem, contudo, o caráter maléfico característico da “bruxaria”. Delimitou, também, a noção de “feitiçaria”, supondo práticas individuais78.

Ora citando “bruxaria” ou mesmo a “feitiçaria diabólica”, a preocupação de Carlo Ginzburg em Il Benandanti esteve menos absorvida com a definição precisa de tais conceitos do

que em perceber os diversos níveis de interação entre cultos agrários e o discurso “diabólico” pretendido pelas autoridades. Segundo Henrique Espada Lima, essa interação presente no objetivo de Ginzburg traz consigo o processo de construção da “hegemonia” – destacando a influência de Gramsci nesse entendimento –, de relações entre “cultura erudita” e “cultura popular” pautadas na ideia de oposição e luta79.

76 BAROJA, Julio Caro. As bruxas e seu mundo. Tradução de Joaquim Silva Pereira. Lisboa: Editora Vega, 1978. p. 39. 77 BAROJA, Julio Caro. As bruxas e seu mundo. Tradução de Joaquim Silva Pereira. Lisboa: Editora Vega, 1978. p. 108-

109.

78 BAROJA, Julio Caro. As bruxas e seu mundo. Tradução de Joaquim Silva Pereira. Lisboa: Editora Vega, 1978. p. 108-

109.

79 LIMA, Henrique Espada. A micro-história italiana: escalas, indícios e singularidades. Rio de Janeiro: Civilização

Brasileira, 2006. p. 305. Cf. GINZBURG, Carlo. Os andarilhos do bem: feitiçaria e cultos agrários nos séculos XVI e

Com a publicação de Storia notturna, em 1989, veríamos o amadurecimento de seus estudos

sobre a “feitiçaria” a partir do uso da “circularidade cultural” e da “formação cultural de compromisso” como posicionamentos teóricos – e, por que não, metodológicos – capazes de dar conta, a seu ver, das inúmeras possibilidades de interação entre “eruditos” e “populares” no campo da religiosidade80. Traçando um importante histórico de discussões envolvendo as mais diversas autoridades eclesiásticas e civis, o autor não perde de vista a ideia de “conspiração” como importante elemento presente nas sociedades modernas; há uma imagem obsessiva identificada por ele a respeito da construção de um verdadeiro “complô” social que vai se ampliando progressivamente até o surgimento de um produto final: o temor sem limites contra a “feitiçaria”. A imagem do “sabá” constituiria, portanto, o resultado de uma “formação cultural de compromisso” que se cristalizaria a partir do século XV como forma de hostilidade a grupos inseridos nas margens da sociedade81.

Atitude irracional, no sentido de subverter a “influência dominante da razão sobre o comportamento”82, o fenômeno da “bruxaria” foi também encarado por Stuart Clark a partir do processo de delimitação dos códigos ritualísticos em torno do “sabá”. Um processo voltado essencialmente para a inversão de rituais vivenciados pelo próprio clero e pela assimilação de crenças e práticas que não pertenciam ao universo do catolicismo, mas que foram ressignificadas: seja pelo esforço erudito em ajustar o que lhes era heterodoxo à existência de práticas diabólicas ou mesmo pela própria população pouco preocupada em seguir à risca a religião católica.

Quanto às práticas de inversão, presentes nas representações do “sabá”, a noção de “contrariedade”, definida pelo autor, é, a seu ver, essencial de modo a integrar tais atitudes em um panorama mais amplo de uma sociedade europeia em que o próprio comportamento festivo era pautado em costumes e rituais invertidos83. O desregramento presente nessas cerimônias seria resultado, portanto, de uma “cultura moderna primitiva”, em que a inversão era recorrente, principalmente nos festivais e sátiras políticas, tornando-se práticas que, embora revelassem um conteúdo diversificado, apresentavam o mesmo modelo cultural vigente no período e compartilhado pelas mais diversas camadas sociais; o que não significa que o pesquisador tenha

80 GINZBURG, Carlo. História Noturna: decifrando o Sabá. Tradução de Nilsom Moulin Louzada. São Paulo:

Companhia das Letras, 2012. p. 22.

81 GINZBURG, Carlo. História Noturna: decifrando o Sabá. Tradução de Nilsom Moulin Louzada. São Paulo:

Companhia das Letras, 2012. p. 43; 90-91.

82 CLARK, Stuart. Pensando com Demônios: a ideia de bruxaria no princípio da Europa Moderna. Tradução de

Celso Mauro Paciornik. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006. p. 37.

83 CLARK, Stuart. Pensando com Demônios: a ideia de bruxaria no princípio da Europa Moderna. Tradução de

que negligenciar todo um sistema de representações que conferia um forte teor de realidade a essa noção. Trata-se de um sistema construído e reconstruído com o passar dos séculos, tendo na relação entre “eruditos” e “populares” a chave para analisarmos os elementos que constituíram esse fenômeno.

Com relação ao mundo português, os trabalhos clássicos de Francisco Bethencourt e José Pedro Paiva também são referenciais em nossas análises, sejam pelos pressupostos teóricos apontados pelos autores ou mesmo pela possibilidade de permitir que nosso horizonte de

Benzer Belgeler