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4. FARKLI DİSİPLİNLERDE FRAGMANTAL ZAMAN KURULUMU

4.6. Mimari Projeler

4.7.1. Eiffel Kulesi, Paris (Gustave Eiffel)

Os problemas na família e mudança na vida social são fortemente observados:

Alguns amigos se afastaram, lazer praticamente não existe, conflitos dentro da família. (Engenheiro de voo A, 17/10/2011). Na família – muda muita coisa, você passa de independente para estorvo, de quem dá presente para aquela pessoa que nunca dá nada, de legal para tolerável, de jovial para velha, de convidada para esquecida, daquela que dá para aquela que pode pedir, é muito duro isso! Passei da fase da depressão, mas venho perdendo por causa desta indigna e podre maldade que fizeram conosco! (Comissária I, 25/9/2011).

Nos últimos meses de vida da Varig, me separei, o ex-marido que também foi comissário, entrou em depressão pela situação e então sem trabalho ou chances de procurar emprego, fui obrigada a assumir toda a educação assim como as despesas financeiras do filho e de toda uma casa. (Comissária E, 29/9/2011)

Minha vida social se resume em fotografar e filmar cenas do cotidiano e voltar para casa e trabalhar muito no meu computador fazendo os meus pequenos filmes que coloco no Youtube. (Comissário C, 30/9/2011).

Eu me separei, em virtude de não aguentar tamanha mudança em toda a minha estrutura de vida. Meu filho, na época com 13 anos, estudava em uma escola alemã. Teve que sair desta escola e hoje estuda em um Colégio do Estado. Teve que deixar o inglês, o judô. Do que eu fazia como entretenimento, diversão, quase nada sobrou. Com todas essas mudanças, minha autoestima também se foi. (Comissária C, 3/10/2011).

Vivo só com a aposentadoria, me privo de muitas coisas, mas o que mais me incomoda é não ver mais minha família com a frequência que via. (Comissária A, 29/9/2012).

Saí muito machucado de todo este processo. Minha vida social ficou muito mais restrita, reduzida, até mesmo porque não me sobra tempo para uma vida social. Minhas horas livres e meu pouco tempo de folga são utilizados para descansar. (Comandante G, 27/9/2011)

Hoje vivo longe de dois filhos de um casamento anterior, longe da família e dos amigos em um país de cultura completamente diferente da nossa. Hoje me sinto como um exilado político e profissional. (Comandante A, 17/10/2011).

O trabalho torna-se uma via de mão dupla, quando este pode ser o gerador do prazer e/ou do sofrimento humano, como bem diz Codo (1987):

Se o homem é roubado de seu próprio trabalho, é roubado de si mesmo, perde-se quando deveria se identificar desconhece a si mesmo quando deveria se reconhecer, destrói-se quando deveria estar se construindo. (p. 32).

Esse sofrimento pode ser identificado nos relatos a seguir sobre perdas materiais e financeiras:

Nunca posso ir a um aniversário, a um encontro, tudo custa dinheiro. Essa é a verdade. Adoro cursos, não posso fazer. Não posso comprar livros. Não posso ir ao cinema. Esses dias teve o aniversário de uma amiga que custava ridículos 16,00 reais. Não pude ir. (Comissária I, 25/9/2011).

A minha vida mudou muito. Se não fosse minha mulher que trabalha fazendo bolos, doces, vestidos de noivas, de noite (trabalha muito e tem 63 anos) eu estaria passando por mais dificuldades financeiras. Se não fosse esta grande ajuda da parte dela eu já teria vendido a minha casa aqui em Itaipu para morar em uma casa muito menor ou morar até em um apartamento menor. Não frequento a muitos anos teatros. Cinema de vez em quando. A maioria das vezes, pego filmes em locadoras para assistir no meu computador. Restaurantes somente em datas muito especiais. (Comissário C, 30/09/2011).

Não tenho mais casa, moro em um quarto da casa de meu irmão, não tenho carro, não tenho namorado, não recebo ninguém em casa, pois a casa é dele, não saio. (...) O máximo que vou é ao cinema eventualmente. Nunca mais viajei, não tenho dinheiro para viajar nem no Brasil. Tentei me recolocar no mercado de trabalho, mas aos 50 anos não encontrei emprego então fui trabalhar na organização de casamentos, mas o que eu ganho não é suficiente para pagar minhas contas. Minha irmã e cunhado pagam meu plano de saúde e me dão uma mesada. (Comissária B,17/10/2011).

Trabalho em uma firma de exames de saúde, meu padrão financeiro é o mínimo possível; CPF negativado, em virtude da falta de pagamento pela Varig e pelo não recebimento da rescisão. Ainda choro muito, pois trabalhar na Varig era prazeroso, e fizemos o possível para chamar atenção para nossa situação. Não possuo mais carro, tenho dificuldades financeiras reais. (Comissária C, 3/10/2011).

Acho que todos sofremos com o final de nossos empregos, como era da Apvar tive que ajudar muitas pessoas destruídas psicologicamente e financeiramente pelo encerramento repentino

da Varig, apesar de toda a luta que tivemos sabíamos que só estávamos protelando sua falência, tive dois empregos depois do final da empresa que me deixaram fisicamente debilitada, já que fui trabalhar só pelo financeiro, como sou solteira hoje decidi que prefiro “contar tostões”, mas estar com saúde. (Comissária A, 29/9/2012).

Não sou infeliz, mas tenho grande mágoa de não poder continuar a minha vida como deveria, sem tantos cortes e tanta miséria. (Comissária F, 26/9/2011).

Apesar de todos os problemas hoje vivenciados, enfatizam o prazer que era voar; trabalhar na Varig:

Era o que eu queria, meu sonho profissional. Quando tinha cerca de 7 anos vi um anúncio na tevê, da Vasp, com a comissária de voo Marcelina. Ali eu vi que era o que eu queria. (Comissária C, 3/10/2011).

Tenho aviação nas veias. Amo aviação e sempre amarei. A Varig foi meu primeiro emprego. Comecei a voar aos dezoito anos, já falava Inglês, pois sabia o que queria desde criança. Voei por 21 anos. (...) Como funcionária, eu amava a minha profissão e vesti a camisa da empresa até o seu fim. Tinha uma grande motivação de viver pelo mundo, conhecendo lugares e principalmente pessoas. Eu optei pela profissão e não tive filhos para me dedicar 100% ao meu trabalho. (Comissária D,17/10/2011).

Meu pai foi funcionário da Varig por 40 anos então “me criei” lá dentro! Assim, acabei tomando gosto pela vida da aviação e me formei pra isso. (Comissária H, 18/11/2011).

A Varig funcionava como uma família. Os funcionários tinham muitas compensações pelo trabalho realizado. O ambiente era de respeito e tenho certeza NUNCA existirá outro igual no Brasil. Não com os atuais figurantes. (Piloto chefe A, 28/9/2011).

Sempre fui apaixonada por aviões e aeroporto, desde menina. Liguei um ano inteirinho para o RH da Varig, até ficar sabendo que havia vagas disponíveis para trabalhar no aeroporto que seria inaugurado em Guarulhos (...). Era completamente realizada. (Agente de atendimento A, 30/9/2011).

Realizei-me como Comissário de Bordo porque a função me fazia ter contato com outras pessoas, servir as mesmas (servir e não ter postura serviçal ) com prazer, requinte. (Comissário C, 30/9/2011). Dediquei minha vida profissional à Varig e todos os dias acordava feliz por poder ir trabalhar. Depois de 10 dias de férias já estava “louco” para voltar ao trabalho. Era onde estavam meus amigos e minha vida. (Diretor A, 28/9/2011).

Muitos foram obrigados a deixar o Brasil, para sobreviver e sustentar suas famílias, pois não mais encontraram espaço no mercado de aviação civil brasileira, apesar do conhecimento e experiência que possuíam e possuem. Como consequência, vivem longe de seu país de origem, dos amigos e familiares.

Quebrei financeiramente, perdi meu fundo de pensão, vivo fora do Brasil e nunca mais voltarei. (Comandante B, 17/10/2011).

Saí do Brasil em 2006 na pior, falido. Não pretendo voltar a trabalhar no Brasil nunca mais. Voei quatro anos na China e hoje estou em Dubai. Lugares seguros e prósperos em que vivemos muito mais confortavelmente e prosperamos a cada dia. A consequência maior foi o afastamento dos familiares – pais, avós, etc. e amigos. (Comandante H, 30/9/2011).

Graças a Deus ainda tenho saúde para trabalhar. Fui obrigado a deixar o país e me sujeitar a um contrato de trabalho, o qual me proporciona aproximadamente três meses de convívio com minha esposa e filhos por ano. Com o fim da empresa, minha promoção para comandante foi abortada. As empresas no Brasil não me aceitaram devido a idade. Fiquei sem emprego e sem perspectiva de sustento através da aviação. Acabei aceitando sair do país para que pudesse dar uma vida digna e estudo aos meus filhos e esposa. (Comandante I, 27/9/2011).

Por conta da minha participação ativa contra as falcatruas que estavam sendo perpetradas contra a Varig, meu nome consta de uma lista negra mantida pelas empresas aéreas brasileiras, o que me impede de trabalhar no meu próprio país. Assim, hoje me encontro morando e trabalhando no exterior, tentando refazer meus planos de aposentadoria. (Comandante A, 17/10/2011). Exilado. Longe da família, pessoas queridas, perseguido político. (Comandante K, 28/9/2011).

Na Figura 19 são retratadas as empresas e os países onde hoje estão alguns ex-funcionários da Varig.

Figura 19 - Empresas e países onde estão hoje muitos pilotos da Varig Fonte: Site da Apvar

1. Inglaterra – Ryanair; 2. Alemanha – Ryanair; 3. Portugal – Ryanair, Euroathantic

Airways e Portugália; 4. Itália – Ryanair; 5. Turquia – Turkish Airlines; 6. Tunísia – Karthago Airlines; 7. Bahrain – Gulf Air; 8. U.A.E – Emirates Airline, Fly Dubai e Etihad Airways; 9. Qatar – Qatar Airlines; 10. Índia – Jet Airways, Kingfisher Airlines e Air India;

11. China – Hong Kong Express, Hong Kong Airlines, Air Macau, Shenzhen Airlines, Jade

Cargo International, Hainan Airlines e Shanghai Airlines.; 12. Coreia – Korean Air e Asiana Airlines; 13. Japão – JAL Express e Skynet Asia Airlines; 14. Taiwan – EVA Air;

15. Cingapura – Singapore Airlines; 16. Nigéria – Arik Air; 17. Angola – TAAG; 18. Brasil

– Azul Linhas Aéreas, Gol Transportes Aéreos, Webjet Linhas Aéreas, BRA Transportes Aéreos, Flex-Nordeste Linhas Aéreas, NHT Linhas Aéreas, OceanAir e Varig Logística. 61

Como se percebe nos relatos anteriores, as perdas foram imensas, em todos os sentidos da vida, e o descaso para com os direitos do trabalhador são traduzidas por esses desabafos.

Tinha uma vida de aposentado tranquila porque meu salário do Aerus (antes da liquidação dos planos I e II da Varig no Fundo de Pensão) era muito bom. Ganhava, em março de 2006, bruto, R$ 3.475,00 - um mês antes da Intervenção do Aerus - 12 de abril de 2006 (sem contar a aposentadoria do INSS) e hoje ganho somente R$ 592,55 de benefícios do Aerus. Paguei durante 17 anos para ter uma aposentadoria digna e hoje tenho, assim como todos temos, uma aposentadoria indigna. E o pior disto tudo é ver os colegas demitidos sem o seu Aerus. Eles ficaram a ver navios. (Comissário C, 30/9/2011).

Sinto-me uma palhaça, enganada e roubada, fui enganada, acreditei que a empresa cumpriria o que estava determinando na convenção e que nos pagariam,roubaram meus depósitos de 21 anos no Aerus, meus salários, FGTS, etc. (Comissária B, 17/10/2011).

Estou aposentada, sem grana dependente de família para “sobreviver”. Sofrendo muito... Fui ignorada e desrespeitada como trabalhadora e, sobretudo como ser humano. (Supervisora e Instrutora Continental e Intercontinental A, 30/9/2011).

Paguei 21 anos de Aerus e não recebi nada porque não sou aposentado! A secretaria de aposentadoria complementar deveria me pagar ou o Aerus, para que eu pudesse me aposentar. (Comandante C, 29/9/2011).

Graças a Deus, continuo trabalhando, atualmente, na ANAC como Gerente (em cargo comissionado), mas não com tanto entusiasmo como tinha antes, e recebendo, como aposentadoria do Aerus, menos de 30% do que deveria receber. (Diretor A, 28/9/2011). Contribui todo tempo para o Aerus, minha matrícula é de três dígitos, isto é, entrei no primeiro ano. Essa era minha poupança! E eu, ainda sou do plano I - o mais prejudicado! Olha, sou feliz porque sou osso duro. Faço limonada do limão e ponho açúcar. Mas, não posso parar para pensar no Aerus/Varig, caso venha a enfartar terei que ir para hospital público. Ou ir para sete palmos como mais de 500 foram! Escolhi “viver”! (Comissária I, 25/9/2011).

Sofro com a atual situação do Aerus, na falência total. Mudou tudo para pior. O dinheiro não dá para mais nada. (Comandante E, 7/10/2011).

Como a maioria dos ex-colaboradores, estou numa situação delicada. Nossa aposentadoria complementar, o Aerus, que serviria para complementar nosso salário do INSS para que continuássemos a receber o que recebíamos na ativa, sofreu intervenção do Governo. É que, apesar da obrigação da Fiscalização do Governo, o Aerus, a Varig e o Governo acordaram em deixar de receber a parcela mensal que deveria ser feita pela Varig. Com isto a reserva do Aerus foi sendo corroída até acender o sinal vermelho. O Governo lavou as mãos e até hoje se exime de qualquer responsabilidade, ainda que fosse o Fiscal das transações. Assim, apesar ter pagado pontualmente a integralidade das minhas contribuições ao Aerus, deixamos de receber nossos pagamentos. Limitações de toda a sorte. A receita caiu mais de 80%. (Chefe do Centro de Multimídia do Treinamento de Operações de Voo A, 26/9/2011).

A revolta com as perdas, envolta em um sentimento de raiva e mágoa, é grande, assim como o abalo físico e o emocional.

Fui roubada, surrupiada nos meus direitos trabalhistas e previdenciários. (Comissária E, 29/9/2011).

Sinto-me roubado, paguei quase 20 anos para ter uma velhice tranquila, estou recebendo 10% do que deveria com perspectiva de acabar e o governo, o grande culpado fica empurrando a solução com a barriga. (Engenheiro de voo A, 17/10/2011).

Hoje, estou doente, meu corpo e alma morreram juntos com a Varig, aquela Varig. Hoje, aviação perdeu o glamour... Nunca mais haverá uma Varig neste País, com os profissionais, se me permite a modéstia, se empenhando em dar um atendimento de excelência. (...) Quando ficamos meses trabalhando sem receber salários, estávamos dando a nossa vida pela empresa, como um soldado pelo seu País. (...) Estou de licença de INSS me tratando de uma depressão gravíssima entre outros problemas análogos... Hoje me sinto Infeliz e vazia... Incapaz, frustrada, perdedora... (Comissária D, 17/10/2011).

Um governo que autorizou a recuperação judicial e permitiu que ficássemos sem receber salários dos meses trabalhados até os dias de hoje, sem falar nos mínimos direitos trabalhistas só pode ser classificado como Bárbaro, Medieval, inescrupuloso e assassino, por conta de colegas que morreram de infarto ou até mesmo por não terem mais condições de comprarem medicamentos. (...) É simplesmente impossível descrever em uma frase o nível de humilhação, ultraje, desrespeito e dano causado a minha pessoa e a de minha família. (Piloto A, 28/9/2011).

Perdi uma parte de minha autoestima, me tornei uma pessoa mais reclusa e conformada em "não poder mais", "não ter mais”, "sonhar menos. (Controlador de Tráfego Aéreo A, 3/10/2011).

Assassinato de milhares de famílias que ficaram sem ter o que colocar na mesa, sem poder mais pagar colégio e cuidados com a saúde. Sem falar na impossibilidade de encontrar outro emprego. Ficamos absolutamente na miséria. (...) Em suma, perdi amigos, casa, família, junto com a possibilidade de ter uma vida mais tranquila. monetariamente. (Comissária F, 26/9/2011).

Nunca mais me encontrei em nada, fiquei meio sem rumo (...). A Varig não tinha salários estratosféricos, mas não posso me queixar do que recebia porque tinha alguns adicionais por conta do tempo de casa que faziam a diferença, além do plano de saúde que era metade do que pago hoje, e era para mim e meu marido. (...) ainda choro toda vez que vejo algo da Varig. Não consegui cortar o “cordão umbilical”. É como se fosse um casamento que acabou de repente e ficou algo pendente, algo por ser resolvido. (Agente de Atendimento A, 30/9/2011).

Pergunta-se até quando vidas continuarão sendo ceifadas (hoje, registra-se um total de 640 óbitos) e famílias continuarão desamparadas.

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia... A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar- se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se costuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

(Marina Colasanti)