• Sonuç bulunamadı

Respeitando o sigilo das identidades, nomeamos as professoras de forma fictícia, a fim de assegurar o seu anonimato, e apresentamos alguns aspectos referentes à formação e experiência profissional coletados em entrevista. Para tanto, utilizamos as entrevistas semiestruturadas (anexo 02), que de acordo com Laville e Dione (1999, p.188) decorrem de uma série de perguntas abertas realizadas verbalmente pelo pesquisador, com uma determinada ordem prevista, podendo ser acrescidas de outras perguntas a fim de se obter maior esclarecimento.

As entrevistas semiestruturadas (ESE) nos possibilitaram a ampliação da compreensão sobre aspectos de familiaridade, afeições, dificuldades e mesmo rejeições das professoras em relação à matemática. Ao relatar suas experiências as professoras apresentaram seus conhecimentos, interpretações e sentidos acerca da matemática. No processo também houve indícios de ressignificações a partir de novas experiências. Nesse sentido, Lima e Castro destacam que

Ao falarem de suas vidas, contarem suas histórias, relatarem experiências de trabalho, em tempo/espaço de formação, os professores buscam suas reminiscências e lembranças e, nelas, as interpretações, os sentidos atribuídos, os conhecimentos gerados. (LIMA; CASTRO, 2014, p. 89)

A seguir descreveremos brevemente os relatos das oito professoras que acompanhamos de forma mais sistemática durante a pesquisa, que por meio da entrevista ou ainda em diferentes momentos do processo didático revelaram suas lembranças, intimidades ou distanciamentos acerca da matemática. As apresentações a seguir foram obtidas durante as entrevistas semiestruturadas – ESE.

A Professora Ana estava com 48 anos de idade na época do curso. Formou-se em pedagogia no ano de 1991 e atuou nos anos iniciais do ensino fundamental, mas sua atuação mais extensa foi na educação infantil, sendo os dois últimos anos na Unidade Escolar em que ocorreu o experimento didático. Relatou que nunca teve dificuldade em trabalhar matemática com seus alunos, tanto na educação infantil quanto no ensino fundamental, e ao contrário de grande parte dos professores gosta desta área de conhecimento, embora recorde-se de momentos de ansiedade enquanto aluna, quando era chamada para resolver exercícios na lousa nas aulas de matemática. Trabalhava com a turma de estágio II no momento da pesquisa.

A professora Bia (40 anos) apresentou uma trajetória recente na área de educação, atuando como professora há apenas três anos. Trabalhava com a turma de estágio I no momento da pesquisa. Participou ativamente das discussões acerca do processo de ensino da matemática e manteve contato constante com a professora formadora em momentos fora do curso, por email e conversas individuais. Bia participava de diversos cursos relacionados à infância, a gênero e sexualidade infantil, e relatou não ter dificuldade em trabalhar matemática com as crianças, área do conhecimento que costumava explorar por meio de brincadeiras.

A professora Carol (46 anos) terminou o magistério em 1988, mas ficou quinze anos sem atuar profissionalmente na área. Iniciou sua carreira no magistério na educação infantil municipal no ano de 2004, ingressando no curso de pedagogia em 2005. Trabalhava com a turma de maternal no momento da pesquisa e relatou não ter dificuldade em trabalhar a matemática com as crianças.

A Professora Cintia (34 anos) expôs ter bastante dificuldade nas aulas de matemática enquanto aluna, tanto no ensino fundamental quanto no magistério, o que perdurou até a universidade, concluída em 2013. Trabalhava com a turma de maternal no momento da

pesquisa e relatou ter aversão à matemática, principalmente por ser a área de conhecimento com a qual teve maior dificuldade no curso de pedagogia.

A professora Camila (41 anos) iniciou sua carreira profissional em área contábil e posteriormente se graduou em Pedagogia no ano de 1996, no entanto, só iniciou sua carreira na área de educação em 2004. Interessou-se pelo curso de extensão universitária por entender que a educação infantil é a modalidade de ensino que deve propiciar a máxima diversidade de conhecimentos nas diferentes áreas. Trabalhava com a turma de maternal no momento da pesquisa.

A professora Dani (37 anos), graduada em pedagogia no ano de 2003, trabalhou com turmas do ensino fundamental I em colégio particular, onde teve contato com material apostilado e a respectiva formação técnica para realização do trabalho com os alunos, o que propiciou um aprofundamento derivado da necessidade de dominar os conteúdos para ensinar; pontuou que uma das cobranças da escola era a apresentação da quantidade de tarefas realizadas pelos alunos, como por exemplo, um determinado número de páginas do caderno com grafia da sequência numérica, atividade com que não concordava, mas precisava realizar. Relatou que anteriormente trabalhava com as crianças da creche conceitos como em cima, embaixo, dentro, fora e cores em folhas com desenhos reproduzidos, mas não havia explorado o sistema de numeração. Possui como memória relevante enquanto aluna a memorização da tabuada e o medo da chamada oral para resultado de multiplicação. Relatou que a universidade a ajudou bastante a preparar-se como professora. Trabalhava com a turma de berçário II no momento da pesquisa.

A professora Dirce (36 anos) é graduada em Letras com pós-graduação em Psicopedagogia e Formada em Pedagogia no ano de 2012. Relatou ter muita dificuldade na matemática como aluna, e nos últimos anos ter se sentido mais segura em atuar como professora de matemática na educação infantil. Relata que a universidade não contribuiu significativamente para sua prática na área da matemática, e entende que há a necessidade de se trabalhar com as crianças tarefas mais concretas e ligadas ao cotidiano. Trabalhava com a turma de berçário II no momento da pesquisa.

A professora Duda (37 anos) estudou no ensino médio regular, momento em que apresentava dificuldade em língua portuguesa, particularmente em situações de escrita, e facilidade em matemática, inclusive prestando auxílio a alguns colegas na resolução de exercícios, demonstrando afinidade e gosto pela matemática. Atuou em outras áreas profissionais e graduou-se em Pedagogia no ano de 2007, sendo que sua opção de carreira se constituiu pela afinidade com crianças e pela possibilidade de conciliar a vida profissional

com a educação dos filhos. Ressaltou que embora estivesse trabalhando na escola há pouco tempo encontrou na parceria com as professoras de turma e demais integrantes da escola uma oportunidade de aprendizagem e atuação, principalmente com a matemática. Trabalhava com a turma de berçário II no momento da pesquisa.

As entrevistas possibilitaram, além da explicitação da formação e experiência profissional, o resgate das memórias das professoras, tanto enquanto alunas quanto como professoras, particularmente as memórias relativas ao processo de ensino e aprendizagem da matemática. Esse resgate de memórias

[...] possibilita o recolhimento dos elementos de um passado que encerra continuidades e rupturas, escolhas e seleções; trata-se de maneiras de representar, num continuum, com os olhos do presente, as múltiplas possibilidades da experiência, procedendo à visualização de um túnel do tempo com entrada e saída definidas, com base no questionamento de como cada um se tornou o que é hoje, com singularidades e limites. (GOMES, 2013, p. 153).

Nessa perspectiva, não apenas os momentos de entrevista, mas principalmente os encontros didáticos propiciaram um resgate de memórias acerca dos conhecimentos matemáticos, estabelecendo-se como momentos propícios para a reflexão das ações docentes acerca do processo de ensino da matemática.

Benzer Belgeler