Antes de apresentar o Discurso do Sujeito Coletivo dos trabalhadores da UBS, cabe relembrar que essa análise pretende apresentar as falas dos membros da equipe de forma a explicitar sua percepção sobre o trabalho.
É muito bom trabalhar aqui nesse serviço. A UBS é muito organizada, é tudo novinho e a coordenação é ótima, a gente tem tanto prazer de estar aqui, que acaba se ficando até mesmo fora do nosso horário de trabalho. Além disso, gosto do trabalho que realizo e de poder compartilhá-lo com essa equipe. O ambiente aqui é bom.
A equipe é muito boa, tem um bom relacionamento entre si e com a comunidade. As pessoas se respeitam e quando têm algum problema, ele é discutido nas nossas reuniões. Além disso, todos nós respeitamos muito a comunidade, por isso, ela gosta de freqüentar o posto.
O trabalho que se realiza aqui é importante. Temos muito contato com as pessoas da comunidade, o que é bastante prazeroso, pois podemos ver os problemas in loco. Nesse trabalho, o retorno do paciente é imediato.
É legal quando se tem um retorno positivo do paciente, por exemplo, quando falamos da necessidade de fazer o tratamento até o fim e ele não desiste, faz e melhora da doença. Isso faz com a gente sinta que é útil.
Muitas vezes, se acaba banalizando a queixa de uma mãe, mas é importante ouvi-la para entender o que ela está querendo nos dizer. Quando tu senta, bota a mão, toca a pessoa, isso faz toda a diferença. Não dói tocar as pessoas, sujeira não pega. Muitas vezes, o simples fato de tocar o outro, desencadeia nele uma série de sentimentos, que acabam por gerar um mar de lágrimas. Eu beijo e abraço o paciente, isso é tão bom! No outro dia eles vêm ao posto mais bonitos e isso é muito gratificante.
O atendimento ao público é um trabalho muito gratificante, o retorno do paciente é muito legal. É bom poder ajudar as mães quando elas têm dúvidas quanto aos cuidados com seus filhos. Traz muita satisfação nos sentirmos úteis.
Apesar do trabalho aqui ser legal, acabamos não conseguindo realizar muitas das atividades educativas que gostaríamos. Ainda falta organizarmos atividades de grupo. Como somos muito poucos e a demanda é muito grande, ainda não deu tempo. Passamos a maior parte do nosso tempo aqui dentro, atendendo a demanda da doença e não dá para fazermos
trabalho de prevenção e promoção da saúde. Não é que ele não seja realizado. Fazemos prevenção no dia a dia com o paciente, nas consultas individuais. Nesse contato, o paciente pode se expressar mais livremente. O problema é que não conseguimos tempo para trabalhar com eles em grupo nem para fazer visita domiciliar de rotina.
Aqui dentro, a gente passa o tempo todo atendendo, é bom trabalhar individualmente com o paciente. O trabalho em grupo não dá tanta liberdade como no atendimento individual. Aqui o paciente pode falar com mais tranqüilidade sobre os seus problemas e a gente pode atendê-lo melhor. Esse contato com o público é importante, pois podemos procurar buscar as soluções aos problemas da população junto com ela.
Uma coisa que acontece bastante aqui nessa equipe e que é muito legal é trocarmos experiências. Sempre que aparece algum paciente que a gente não sabe muito bem o que é que ele tem, conversamos entre nós, perguntamos para os médicos sobre aquela doença para podermos entender melhor e ajudá-lo. Assim, aprendemos muito com a doença.
Quando eu ingressei no serviço público, tinha a cultura de que o povo era muito relaxado. Eu mudei isso ao longo do tempo. Gosto do contato afetivo, de ver quando o paciente melhora, ouvir o paciente dizer que foi bom estar contigo. É bom conhecer as pessoas, saber com quem se está trabalhando, ajudar a resolver os problemas que estão ao nosso alcance. O convívio com o público nos faz aprender muitas coisas.
Fazer bem o nosso trabalho é uma coisa gratificante. Gosto de atender todo mundo. Algumas pessoas atendem bem o rico e mal o pobre. Não acho isso certo. Eu tento fazer o melhor de prevenção, pois é para isso que o posto serve. Raramente falto ao trabalho, pois sei que a equipe precisa de mim.
Em relação às dificuldades deste trabalho, existem alguns problemas de relacionamento com pessoas da comunidade. Elas estão acostumadas a reclamar de tudo. Vão direto na Secretária da Saúde para fazer queixas do pessoal aqui do Posto. Muitas vezes, fazem alguma denúncia anônima ou solicitação de visita domiciliar. Quando vamos verificar o que está acontecendo, sequer o endereço existe. Também temos algumas divergências internas na equipe, mas isso sempre se consegue resolver com conversas e discussões em grupo. A nossa coordenadora ajuda muito nisso. Quando ela vê que as coisas não estão boas, chama a equipe para discutir sobre o que está acontecendo. Isso ajuda bastante nas relações do grupo.
Muitas pessoas ainda não têm clareza de como o trabalho deve funcionar, falta um pouco de organização dos processos de trabalho. Alguns médicos ainda têm resistência em trabalhar na comunidade, em realizar visita domiciliar.
Faltam medicamentos e consultas especializadas. Isso é um problema, pois muitas vezes, quando conseguimos agendar uma consulta e ligamos para a família para avisar, a pessoa já morreu. É muito constrangedor. A gente acaba se sentindo impotente, pois aqui se faz tudo o que é necessário para intervir na doença, no entanto, se a pessoa precisa de atendimento especializado, ela pode morrer esperando o dia da consulta. É tudo muito demorado.
Outro problema que enfrentamos no dia a dia do trabalho é a falta de indicadores em saúde, que nos permitam planejarmos as nossas ações com base na realidade da população. As gerências não trabalham com epidemiologia e ela é um instrumento gerencial importante. Assim, ainda trabalhamos com o modelo hospitalocêntrico assistencialista, centrado no médico e no remédio.
Nossa meta deve ser trabalhar em defesa da vida. Neste sentido, quando realizamos o Projeto Acolhimento, devemos ter clareza que não basta só atendermos as pessoas que procuram o posto. Acolher é buscar quem não vem. Essas são as pessoas que mais precisam de nós. Acolher é saber quem não veio e porquê não veio.
As condições de trabalho ainda são muito precárias. Apesar de estarmos num lugar novo e relativamente bem equipado, falta material educativo, que nos possibilite trabalhar determinados conteúdos com a população.
Uma outra questão bastante difícil de se lidar aqui dentro, é com a falta de condições econômicas da população. As pessoas não têm dinheiro para comprar medicação e muitas vezes o remédio de que necessitam não tem aqui no posto. Aí não adianta nós fazermos o possível, realizarmos a consulta de qualidade, se a pessoa vai sair com uma receita na mão e não tem dinheiro para comprar o remédio. É como se ela não tivesse sido atendida.
O que me faz sofrer é ter de dizer não, esse remédio não tem. É uma frustração não ter uma resposta. Não depende de ti [...] o serviço de saúde é muito complicado, falta muito remédio, exames, especialistas, material. A gente gostaria de poder dar um jeitinho para que as coisas acontecessem melhor.
Muitas vezes, a gente ensina as pessoas a simularem sofrimento na emergência de algum hospital para que ela consiga um atendimento com resolutividade. Não se consegue atender a todos os doentes que procuram atendimento aqui, então só encaminhando para a emergência e rezando para que ela consiga ser atendida.
Muitos de nós gostaríamos de ficar trabalhando aqui no posto o dia todo, mas o salário é muito baixo e não possibilita que isso aconteça. Especialmente os médicos acabam tendo que trabalhar em outros lugares para completar a sua renda. Isso é muito ruim. Esse ainda é um trabalho muito pouco valorizado.