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Imagem 04 – Manguezal do Cumbe

Foto: Ana Claúdia Teixeira (2007).

“Cumbe pedaço da história Que a natureza criou Trago junto da memória O que o tempo me ensinou”.

Trecho da letra do Hino do Cumbe (Paulo Sérgio da Silva).

Os caminhos que escolhi percorrer, os lugares e espaços de minha atuação, enquanto sujeito social, e as pessoas com quem caminhei lado a lado, assim como de toda uma trajetória de luta e militância nas questões socioambientais pela defesa dos povos do mangue, mar e costeiros do Ceará, me deram elementos importantes para definir meu projeto de pesquisa para a realização deste estudo de mestrado. Durante essa caminhada, estive em lugares, espaços, territórios e, convivi com pessoas e grupos, que contribuíram muito para minha formação política, enquanto sujeito social capaz de mudar realidades e transformar vidas.

Desde criança, fui criado num território que “aparentava” ser livre, mas com várias cercas. No entanto, tínhamos a sensação de liberdade e de possibilidades de ultrapassar e romper essas cercas, por conta das diferentes atividades que eram realizadas nos espaços públicos de uso coletivo, sem as ameaças de hoje. Porém, com a chegada dos

projetos de desenvolvimento econômico6, o espaço social passa a ser privatizado, dando lugar a atividades econômicas incompatíveis com as realizadas pelos comunitários. Desta forma entendo que o espaço social, segundo discute Costa (2010) representa a relação que o ser humano tem com os elementos da natureza terra, manguezais, carnaubais, apicum o rio, as dunas, o mar, as lagoas e as gamboas, além do território tradicional responsável pela garantia e reprodução da vida social, cultural, saber e modo de fazer, práticas essenciais para o bem-viver.

Para além do que está sendo discutido, o espaço social para as comunidades tradicionais, os povos étnicos é o lugar onde acontecem as práticas culturais e ao mesmo tempo, o lugar de recriá-las no cotidiano. Isso só é possível com a garantia do território livre de ameaças e dos elementos que o compõem: humano, vegetal, animal, mineral e encantado.7

A condição natureza aponta para a existência das espontaneidades, dos instintos, das pulsões, do desejo e das percepções múltiplas e constatações às normas. São as alteridades em relação aos quadros de referências sociais, ou seja, as singularidades existenciais dos sujeitos sociais. A condição comunidade apresenta-se na dialética entre sociedade (normas, padrões, quadros de referência) e natureza (espontaneidades, prazeres e diferentes e autenticas percepções de si), produzindo comunidades territorializadas do “favor” e “contra” a sociedade, ou seja, dos sujeitos agindo para si e para seus companheiros. A cultura aqui se desenvolve pelo caráter orgânico estabelecido pelo questionamento dos sujeitos sociais em relação aos seus desejos, determinações e compartilhamento de seus dramas. (COSTA, 2010, p. 112). Podemos assim afirmar, que o espaço social do Cumbe, representado pelos lugares de memórias, lazer e de trabalho são espaços públicos coletivos comunitários, importantes para a manutenção e realização de suas práticas tradicionais a exemplo da mariscagem, a cata de caranguejos e o comer no mato.8 Assim as relações com a natureza e suas práticas sociais e culturais interagem numa perfeita harmonia, não havendo de ambas as partes o sentimento de dono, proprietário daquele ou daquela área.

Tomando como referência as práticas realizadas pelos pescadores/as do mangue do Cumbe, a noção de território e natureza ganha à dimensão cultural e identitária de pertencimento. Não de propriedade privada que impede as pessoas de sonhar, andar livremente, sem as ameaças capitalistas que nos são postas de cima para baixo. Interferindo

6 Projetos de desenvolvimento econômico – políticas econômicas adotadas pelo Estado brasileiro que vêm

invadindo os territórios tradicionais e causando diversos conflitos socioambientais.

7 Encantados – Entidades cultuadas pelos povos tradicionais e étnicos.

8 Comer no mato, prática realizada pelos pescadores/as do mangue do Cumbe que consiste numa grande festa

nas nossas capacidades de decidir sobre nossas próprias vidas e sobre o nosso território tradicional. Território tradicional aqui entendido como o lugar e/ou espaço onde tudo acontece e se recria para continuidade da vida comunitária ou individual: a pesca, a caça, a agricultura, o lazer, a reprodução das tradições e costumes, o trabalho, os meios de vida, as celebrações e rituais, os saberes e modos de fazer, os usos e significados que cada um dá aos bens naturais e ao ambiente natural humanizado.

É nessa relação direta com as dunas móveis e fixas, carnaubais, manguezais, rio, gamboas, mar, lagoas e levadas, que me coloco como parte desse território, dessa natureza humana e ambiental, pela proximidade e convívio permanente. Isto já me era potencializado quando eu estudava e trabalhava, já com sete anos de idade, com meus pais no curral de pesca, na agricultura de subsistência, na olaria de fazer telhas e tijolos, em casa ajudando minha mãe nas tarefas domésticas, como de carregar água para beber e demais utilidades como para as plantas e animais. Assim como, lavar as vasilhas, varrer a casa, cuidar dos irmãos e irmãs menores, buscar lenha para cozinhar, fazer algumas etapas do labirinto9, acompanhar minha mãe e ajudar na lavagem de roupa nas lagoas interdunares.10

Portanto, a comunidade do Cumbe se apresenta de forma característica por uma população formada em sua maioria por pescadores e pescadoras do mangue, agricultores e agricultoras, artesãos e artesãs. É na sua relação com seu território e práticas culturais que a comunidade se diferencia dos demais grupos que vivem na zona costeira. Desta forma, para esses sujeitos a compreensão de cultura, valores e visões de mundo ganham outro sentido e significado, ela se dá no seu dia-a-dia, nas diferentes formas e relações com o meio natural e físico, onde a continuação e reprodução destas práticas culturais dependem do equilíbrio entre ser humano e natureza, se expressando através de diferentes saberes, que podem ser percebidos através dos gestos, construção das moradias, embarcações, apetrechos de pesca, festas e costumes (DIEGUES, 2004).

Essa interação e relação com os elementos da natureza, com o território tradicional, a criação e os ensinamentos recebidos dos meus pais, me impulsionaram a participar das lutas socioambientais na comunidade e zona costeira do Ceará, influenciando significativamente na minha trajetória, dando-me aporte cultural, social e ambiental para definir meu campo de investigação.

9Labirinto – Renda/bordado em tecido realizado pelas mulheres do Cumbe e do litoral cearense. Minha mãe

é grande artesã nesta arte de tecer as linhas.

Outra coisa que merece ser destacada foi meu envolvimento com as atividades comunitárias, entre elas participar da igreja católica, fazer as celebrações da palavra aos domingos, preparar para primeira eucaristia, organizar batizados, fazer as novenas do mês de maio, festejos do Padroeiro Nosso Senhor do Bonfim, realizar a festa das mães, quadrilha junina, dentre outras coisas. Este envolvimento me colocou em constante dialogo com a comunidade, dando destaque para as pescadoras do mangue, participantes desta dissertação, e os pescadores do mangue que através da Associação dos Pescadores/as do mangue do Cumbe, vem se organizando para lutar pela defesa dos seus direitos, áreas de trabalho, lazer e pesca, bem como do território coletivo. Em especial aos pescadores Ronaldo Gonzaga, Edvan Florêncio, Carlos Gonzaga, Antônio de Bisalão, Josemar Silva, Wilton Costa, Neuzimar Rodrigues, Raimundo Florêncio, Aluísio Silva, dentre outros, onde compomos o grupo de resistência do Cumbe, que luta contra as violações de direitos cometidos pelos projetos econômicos que invadem e degradam o território tradicional.

Caminhar junto deles em diversas atividades me proporcionou diferentes aprendizagens, coisas que nenhuma escola formal possibilita para entender e abordar as questões e situações que serão trabalhadas neste texto, no entanto, minha trajetória educacional contribue para reforçar essa percepção sobre o cotidiano da comunidade e suas lutas, como veremos a seguir.

Benzer Belgeler