A- EFENDİMİZ'İN AHLÂKI VE KULLUĞU
1. Efendimiz Şefkat ve Merhamet Abidesiydi
A família não é uma instituição natural e o modelo de família nuclear, composto pelo pai, mãe e filhos, e, sobretudo, por uma complexa combinação de autoridade e amor parental, tão propagado e naturalmente disseminado na contemporaneidade, só se consolidou por volta do século XVIII. É a partir do referencial de família burguesa que o universo infantil começa a ser mais valorizado. Nesse período, observa-se a necessidade de educar as crianças para a vida adulta.18
Na aristocracia dos séculos XVI e XVII não havia separação rigorosa entre o público e o privado, as famílias viviam nas ruas, nas festas, não se isolavam. A família não tinha funções afetivas e socializadoras, mas era construída visando apenas à transmissão da vida, a conservação dos bens, a prática de um ofício, a ajuda mútua e a proteção da honra e da vida em caso de crise (BRUSCHINI, 2009, p.58).
Na Europa, entre os séculos XVI e XVII, atribuía-se pouco valor à privacidade, aos cuidados maternos, bem como às relações de afetividade dispensadas às crianças como aponta Elisabeth Badinter. Analisando as estruturas sociais de alguns tipos de famílias podemos confirmar tal realidade.
As famílias camponesas refletiam os hábitos das famílias aristocráticas. Neste caso, a privacidade da família não existia ou era desconhecida, tudo era compartilhado por todos na aldeia. As crianças eram cuidadas pelas mulheres da comunidade. Não havia envolvimento emocional da mãe com o bebê nem preocupação com a higiene e as atividades sexuais das crianças.
Nas famílias burguesas, a autoridade máxima era restringida aos pais. Desenvolveu-se neste momento um processo de valorização da criança, exaltada por um profundo amor, carinho e dedicação parental. Mas ainda assim as crianças eram submetidas a castigos, principalmente físicos, no intuito de discipliná-las para que atendessem aos padrões estipulados socialmente à época.
18 Conforme Donzelot, “entre as últimas décadas do século XVIII e o fim do século XIX os médicos elaboraram
para as famílias burguesas uma série de livros sobre a criação, a educação e a medicação das crianças” (1980, p.22).
No início processo de industrialização, as famílias proletárias viviam em condições extremamente precárias, onde a sobrevivência dependia do trabalho de todos, inclusive das crianças que, junto aos adultos, enfrentavam longas jornadas de trabalho. Posteriormente, a família proletária passa a incorporar os valores das famílias burguesas, absorvendo sua ideologia e tornando-se cada vez mais parecida com esse padrão, que se consolidou a partir do final do século XVIII.
Com o apoio do Estado, a medicina passou a atuar junto às famílias na perspectiva de valorização da infância, do núcleo conjugal e do espaço privado do lar. Assim a família privatiza-se e desenvolve uma cultura própria, privilegiando a autonomia e a intimidade.
A inserção dos médicos no universo familiar, conforme Donzelot (1980), irá introduzir novas formas de organização desta instituição, no sentido de provocar o fechamento da família contra todos os efeitos das promiscuidades sociais, bem como estabelecer uma aliança com a mãe, reconhecendo sua utilidade educativa e também a atuação do médico junto à família. Este novo modelo de organização da instituição familiar teve como foco o enfrentamento a antigas formas de ensino, à disciplina religiosa e ao hábito do internato.
Até a metade do século XVIII a medicina não tinha interesse nas crianças e nas mulheres. Simples máquina de reprodução, estas últimas tinham sua própria medicina que era desprezada pela Faculdade e cuja lembrança foi guardada pela tradição através da expressão “remédio de comadre”. O parto, as doenças das parturientes, as doenças infantis eram coisas de “comadres”, corporação assimilável às domésticas e às nutrizes que compartilhavam seu saber e o colocavam em prática (DONZELOT, 1980, p.24).
A aliança dos médicos com as mães promove o fim da medicina popular das comadres19 e concede à mulher burguesa, dada a importância de suas funções maternas, maior poder na esfera doméstica, posto que os médicos alertavam fervorosamente sobre os efeitos nocivos à criança de uma educação entregue à criadagem e mesmo às nutrizes.
É principalmente recorrendo ao aleitamento materno natural e à condenação da amamentação mercenária que o poder médico formulará todo um discurso, a partir de meados do século XIX, de valorização do papel da mulher, representada pela figura da “guardiã do lar” (RAGO, 1985, p.75).
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Até o século XVIII, “a ignorância, a delicadeza e o pudor afastavam os médicos e os cirurgiões que deixavam os partos e demais enfermidades de foro ginecológico entregue as mulheres mais ou menos experientes, designadas vulgarmente por comadres” (FERREIRA, 2002, p. 173).
Muito embora, convém destacar que tudo isso é válido para as famílias abastadas, pois eram elas que se enquadravam nesses modelos educativos e as maiores beneficiárias do desenvolvimento da medicina, “os escritos médicos praticamente ignoravam as classes baixas da sociedade” e, desse modo, pode-se considerar que “não eram as crianças das famílias populares que podiam se beneficiar com os argumentos a favor da amamentação, das roupas largas [...] não eram elas que preocupavam os autores mais considerados [...]” (FERREIRA, 2002, p.181). Para as famílias pobres, a intervenção perpassava outros canais, agindo principalmente na moralização dos comportamentos.
Neste contexto, é importante destacar a importância da família como espaço de socialização, proteção, reprodução, formação da personalidade dos indivíduos e ainda como responsável pelo bem-estar físico e emocional de seus dependentes, particularmente as crianças e adolescentes, que devem crescer e se desenvolver em um ambiente de amor, felicidade e compreensão. Conforme Ferrari e Kaloustian, a família “desempenha um papel decisivo na educação formal e informal, é em seu espaço que são absorvidos os valores éticos e humanitários, e onde se aprofundam os laços de solidariedade” (1994, p.12).
O ser humano é complexo e contraditório, ambivalente em seus sentimentos e condutas, capaz de construir e de desconstruir. Em condições sociais de escassez, de privação e de falta de perspectiva, as possibilidades de amar, de construir e de respeitar o outro ficam bastante ameaçadas (VICENTE, 1994, p.55).
O fato de a família ser considerada um lócus privilegiado de convivência e socialização não significa que não passe por conflitos em sua esfera, onde predomina um modelo de relacionamento autoritário, opressor e intolerante, geralmente para com aqueles considerados seu elo mais fraco.
No Brasil colônia, o modelo de família que predominava era o patriarcal que “caracterizou-se pela importância central do núcleo conjugal e da autoridade masculina, consubstanciada na figura do patriarca, chefe ou “coronel”, dono do poder econômico e mando político” (BRUSHINI, 2009, p.74). Esse modelo familiar apresentava uma estrutura extremamente rígida e hierárquica de papéis. Outra característica marcante desse modelo era o grande controle sobre a sexualidade feminina, enquanto a masculina poderia ser exercida livremente.
Para Brushini (2009), com o advento da industrialização e abolição da escravatura no século XIX, essa estrutura familiar acabou perdendo suas funções políticas e econômicas,
passando a absorver funções relacionadas à procriação e à disciplina. A família modifica-se seguindo a lógica do padrão de organização burguês, onde os casamentos começam a ser realizados para atender a interesses individuais. Neste cenário, destaca-se o ingresso da mulher no mercado de trabalho, maior intimidade entre pais e filhos, maior controle da natalidade, maior número de separações e de novos casamentos.
Mas apesar das mudanças, ainda permanecem fortes alguns, traços específicos como a repressão à sexualidade feminina e à tolerância da sociedade para com a sexualidade masculina. Existe uma clara diferenciação dos papéis em relação a meninos e meninas que sedimentam as bases de um comportamento preconceituoso e ambíguo em que as meninas devem se comportar de maneira recatada e pudica, enquanto os meninos devem agir como caçadores e conquistadores, exaltando sua masculinidade e virilidade.
Somente a partir de reivindicações feitas principalmente pelo movimento feminista na busca por igualdade é que foram sendo feitos questionamentos sobre as estruturas das relações sociais, no sentido de desvendar e desnaturalizar as situações de dominação e opressão em que sempre viveram as mulheres em relação aos homens nas mais diferentes culturas e sociedades.
Nas últimas décadas, a família vem passando por diversas transformações e atualmente podemos observar vários tipos de composição familiar que se expressam em arranjos diversificados:
Família nuclear, incluindo duas gerações, com filhos biológicos; Famílias extensas, incluindo três ou quatro gerações; Famílias adotivas temporárias; Famílias adotivas que podem ser bi-radicais ou multiculturais; Casais; Famílias monoparentais, chefiadas por pai ou mãe; casais homossexuais com ou sem crianças; Famílias reconstituídas depois do divórcio; Várias pessoas vivendo juntas, sem laços legais, mas com forte compromisso mútuo (SZYMANSKI apud IAMAMOTO, 2009, p.266).
É como um espaço passível de mudanças que se deve observar a dinâmica familiar. Desse modo, não se pode eleger um único modelo que represente a família na contemporaneidade, devido aos novos arranjos familiares resultantes de inúmeras transformações econômicas e sociais, sobretudo ligadas ao novo papel da mulher na sociedade, bem como seu ingresso no mercado de trabalho.
Retomando a questão da sexualidade, quando a família é incestuosa, este tipo de relacionamento é, em muitos casos a única, fonte de intimidade e afeto que a criança conhece,
sendo difícil para ela diferenciar esta forma de abuso. Hamon explica que a dinâmica das famílias incestuosas apresenta característica tais como,
Uma grande confusão, ao nível das fronteiras através das gerações, dos papéis e das identidades no interior do próprio sistema; Uma fronteira organizacional muito pouco permeável ao exterior; Uma organização fundada em torno do segredo, às vezes por várias gerações (HAMON, 1997, p.175).
Nesta perspectiva, a criança deve ser ensinada a compreender o seu corpo e o comportamento sexual humano para desse modo estar preparada para se defender contra abusos sexuais. Os adultos, e especialmente os pais, precisam lidar com o tema da sexualidade de forma natural e compreender que falar sobre o assunto não significa despertá-lo precocemente na criança, mas sim ter em mente que as informações fornecidas na dose certa contribuem para o desenvolvimento e fortalecimento de crianças e adolescentes contra o abuso sexual.
O desenvolvimento da sexualidade é uma parte normal do desenvolvimento da criança [...] se os pais não têm acesso às informações sobre o desenvolvimento normal ou ficam constrangidos em discutir o assunto, eles são incapazes de julgar o que constitui o desenvolvimento sexual típico ou atípico na criança [...] o que reduz suas chances de proteger seus filhos do abuso sexual (SANDERSON, 2005, p.28).
Assim os questionamentos feitos sobre a sexualidade devem ser encarados com seriedade e respeito, pois desse modo permitirá a esse ser humano “desenvolver-se com desenvoltura, desembaraço, orgulho, prazer e carinho por si e pelo seu bem mais importante, que é seu próprio corpo” (GAUDERER, 1996, p.111). Aprendendo a respeitar a si próprio consequentemente a criança ou adolescente aprenderá a respeitar o corpo e a sexualidade do outro. 20
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Kung (et al, 2009, p.97) “apontam que crianças e adolescentes são sujeitos em situação peculiar de desenvolvimento biopsicossocial, precisam de cuidados, atenção e proteção, mas com direito à convivência democrática e com relações horizontalizadas em sua essência. Contudo, a cultura adultocêntrica e patriarcal impossibilita a vivência das fases constitutivas do sujeito, inclusive sexual, onde se pode reafirmar o autoritarismo do adulto, pelos cenários diariamente vistos na sociedade brasileira. Crianças e adolescentes, em vez de serem acolhidas e de terem os adultos como referência identitária, são silenciadas, podadas, estimuladas precocemente e cruelmente violentadas”.
A família ocupa, sem dúvida, lugar preponderante nesse processo, pois é o primeiro sistema social no qual o ser humano está inserido: desempenha também, um poderoso papel no desenvolvimento das habilidades comportamentais das crianças. É por meio de sua dinâmica que a família constrói interações que desenvolvem o senso de cooperação e reciprocidade. O sentimento de pertencimento e a percepção de serem amados fortalecem nas crianças e adolescentes a expectativa de que suas necessidades serão atendidas, o que propicia a busca de gratificação de forma efetiva em seu ambiente familiar. Quando os cuidadores, sobretudo os primários, desempenham ações protetivas, as crianças e adolescentes tendem a responder com sucesso a situações de risco (BRITO; KOLLER apud LIMA, 2009, p.39).
Nesse processo de educação para a sexualidade saudável, a escola também pode contribuir como agente de transformação e mudança, permitindo que os alunos pensem e reflitam sobre si próprios, “este vinculo entre educador e crianças e adolescentes permite trabalhar na formação de pessoas fortalecidas e com maiores possibilidades de se defender de eventuais invasões/violações de seu corpo” (SANTOS; HIPPOLITO, 2009, p.125).
Tendo em vista, que uma das grandes inquietações que abrangem o campo da educação e da saúde refere-se ao fato de que cada vez mais cedo os adolescentes vêm iniciando a vida sexual, o crescimento dos índices de gravidez precoce, as doenças sexualmente transmissíveis, Aids, o abuso e a exploração sexual21, é importante que os
profissionais estejam preparados e informados sobre o tema para identificar possíveis situações de risco.
2.3 O CONTEXTO BRASILEIRO: DA INVISIBILIDADE AO RECONHECIMENTO DOS