• Sonuç bulunamadı

Não se pode negar que isso seja ser feliz: viver sem medo,

sem tristeza, sem desejo,

sem tresloucada alegria.

(Cícero -“Tusculanorum Disputationum,- líber quintus” (A virtude e a felicidade)(CÍCERO, 2005, p. 20).

Marco Túlio Cícero - em latim Marcus Tullius Cicero (Arpino, 03 de janeiro de 106 a.C - Formia 07 de dezembro de 43 a.C) nasceu em uma família abastada, porém provinciana, da ordem equestre do exército romano (FERACINE, 2011, p. 36).

Foi advogado e político atuante. Participou intensamente da vida pública nos últimos anos da República Romana, tendo ocupado cargos de importância, foi senador e cônsul. Contemporâneo de Pompeu, César e Crasso, Cícero foi uma das figuras mais ativas em prol da conservação da República e da restauração dos ideais republicanos.

Ele é, acima de tudo, um homem de ação, comprometido pela luta política. A arma que utiliza é a palavra. É um orador, não um nobre, um financista ou um soldado, “homem novo”, cuja família jamais entrara no Senado antes, ele precisou ao mesmo tempo defender uma tradição na qual ingressara e procurar o seu sentido moderno. E o mais importante é que essa tradição se chama liberdade (HUISMAN, 2004, p.210).

Com o apoio de oligarcas conservadores, Cícero torna-se cônsul, em de 63 a.C, derrotando o patrício Catilina na eleição para o Consulado. Catilina, líder de um grupo de aristocratas arruinados financeiramente, prepara então um golpe de Estado do qual Cícero é informado. Cícero defende-se usando sua eloquência para conseguir maior apoio contra Catilina e seu bando de conjurados (JAGUARIBI, 2001, p. 380).

Em sessão aberta do Senado, Cícero discursa violentamente contra Catilina e seus facciosos. A primeira de suas orações contra Catilina inicia-se com a imorredoura frase - Até quando então, Catilina, abusarás da nossa paciência? (Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?)78

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Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra? - Esse dramático e expressivo início da primeira Catilinária de Cícero ainda é famoso, sendo comumente citado como referência a pessoas - ou coisas - que submeteram a paciência alheia a duras provas. Foi grande sua fama já na Antiguidade sendo usada por outros autores latinos (TOSI, 2000, p.756).

(CÍCERO, 2000, p. 83), e na mesma passagem usa outra frase emblemática - Oh tempos, oh costumes! (O tempora, O mores !)79 (CÍCERO, 2000, p. 84). Essa exclamação, de surpresa e espanto com a moral permissiva de seu tempo decadente, aparece em outros manuscritos ciceronianos. Denominou-se de “In Catilinam” (As Catilinárias) o conjunto das orações contra Catilina.

O político e escritor romano Salústio, que presenciou as orações de Cícero contra Catilina, escreve a “Conjuração de Catilina”, dando sua versão dos fatos. Salústio80, partidário de César, era antagonista político de Cícero, que por sua vez era ligado a Pompeu. Não obstante a rivalidade de ambos, em sua obra, Salústio deixa transparecer as qualidades retóricas de seu oponente, inclusive fazendo referência à supracitada frase inicial do primeiro discurso contra Catilina. Na parte XX da obra salustiana, a frase é posta na boca de Catilina em forma de pergunta retórica: Valentes, até quando

suportareis esta situação? (Quæ quosque tandem patiemini, o fortissimi viri?)

(SALÚSTIO, 1997, p. 49).

Contra Catilina, Cícero teve uma vitória completa, obteve dos senadores um Senatus Consultum Ultimun81 conseguindo executar os

intrigantes. A Conjuração de Catilina marca o ápice da vida política de Cícero, ocasião em que recebe o título de pater patriae82 (pai da pátria).

Entretanto, o escândalo da tentativa de golpe dos conjurados só aumenta a crise republicana e a coragem e a habilidade de Cícero não impediram a decadência da República. No capítulo anterior, já se discorreu de como Pompeu, descontente com o Senado, alia-se a César e Crasso e, assim, criou-se um governo cada vez mais distante do ideal republicano.

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(O tempora, O mores !) O sucesso dessa exclamação, ainda usada para expressar as espantosas depravações de uma época decadente em que se esteja vivendo, deve-se ao fato de ser usada com frequência por Cícero para enfatizar sua indignação com a situação escandalosa. Outros autores já na Antiguidade a usaram com referência explícita a Cícero (TOSI, 2000, p.362).

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Caio Salústio Crispo (86 a.C - 34 a.C) - refinado e metódico historiador romano. Na política, era partidário de César e fez uma carreira pública muito inferior às suas obras literárias (LELLO, 1954, p. 821).

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Ver nota 14.

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Cícero conseguiu evitar o golpe de Estado de Catilina com tanta firmeza que entrou para a história, embora isso não tenha impedido que aqueles que realmente exerciam o poder, já com apoio do partido popular ou dos exércitos que controlavam, se aliassem contra o Senado (LIBERATI, 2005, p. 30).

Mesmo após a criação do primeiro triunvirato, Cícero manteve um papel relevante na política romana e também durante toda guerra civil, entre Pompeu e César. Ele sobreviveu a Pompeu, Crasso e César, e defendeu a República até sua morte.

Cícero era um orador notável e escritor diligente. Sua vasta obra publicada, da qual a maior parte se conservou, é até hoje considerada modelo da expressão latina. Pleno de verve, sua eloquência83 foi notória desde a Antiguidade. “Não se lhe pode recusar uma posição eminente nos fastos da eloquência” (BEVILAQUA, 1897, p. 33)

A profusa obra literária ciceroniana abrange diversos gêneros como orações políticas, epístolas morais, obras filosóficas e tratados de retórica. Graças ao estilo preciso, seus textos serviram de inspiração para os autores latinos durante todo o Principado e são admirados como exemplos perfeitos da literatura da Roma clássica.

Graças à obra de Cícero, grande admirador de cultura helênica, Roma conheceu a filosofia. O gosto por especulações filosóficas sem fins pragmáticos era estranho aos romanos. “Em Roma, as doutrinas estoicas progrediram através das atividades literárias de Cícero, que estudara com o estoico Posidônio” (RUSSEL, 2001, p. 155). Cícero é o primeiro autor romano a compor obras filosóficas em latim. Ele encontrou termos específicos em latim que correspondessem à linguagem filosófica grega, criando, assim, um vocabulário latino de filosofia. “Depois de Cícero ter iniciado a história da filosofia em língua latina, formulando sua síntese eclética, o movimento de ideias mais importante dentro do pensamento romano foi desenvolvido das doutrinas estoicas” (CUNHA, 2005, p.40).

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O substantivo masculino cicerone, atualmente no vernáculo de boa parte dos idiomas ocidentais, e que quer dizer: pessoa que guia, mostra e explica a visitantes ou a turistas os aspectos importantes ou curiosos de determinado lugar, foi cunhado dada a célebre eloquência de Cícero, estabelecendo-se uma comparação desse com os guias turísticos romanos, graças à efusividade dos últimos (HOUAISS, texto digital).

Desde a juventude, Cícero estudara filosofia, mas, como qualquer jovem romano, considerava-a um complemento da educação que favoreceria a retórica. Com a maturidade, seu gosto pela filosofia acentuou-se.

Além do estoicismo, ele se interessou pelo epicurismo e pelo platonismo. Escreveu obras filosóficas, principalmente no final de sua vida, quando já em desgraça, talvez como um fármaco para seu ânimo abatido pela idade e pelas derrotas políticas, ou, com a esperança de legar às gerações futuras um instrumento de restauração republicana. “A originalidade de Cícero está sobretudo no papel que a filosofia desempenha em sua vida” (HUISMAN, 2004, p. 210), ou seja, pragmaticamente e em consonância com o momento que vivia. Cícero considerava-se um eclético, no entanto sua filosofia é fortemente ligada ao Pórtico.

Cícero adota o método da discussão do pró e do contra sobre qualquer questão. Esse método oferece-lhe grandes vantagens: em primeiro lugar, oferece-lhe a possibilidade de dar a conhecer as várias posições dos filósofos a respeito do problema, fazendo grande exibição de sua erudição; em segundo lugar, oferece-lhe a possibilidade de avaliar a consistência das teses opostas; em terceiro lugar, o confronto oferece- lhe a possibilidade de escolher a solução mais provável; e, enfim, como bom orador e advogado, vê que esse método constitui um perfeito exercício de eloquência. (REALE, 2011, p. 199-200)

Posto que Cícero confessasse ser um seguidor do sincretismo filosófico, que supunha ser uma fusão do platonismo, aristotelismo e o estoicismo, na verdade as suas ideias derivavam-se muito mais do estoicismo, do que de qualquer outra fonte. Suas principais obras éticas refletem de modo manifesto as doutrinas de Zenão e da escola deste. A base filosófica ética de Cícero era a premissa de que basta a virtude para a felicidade e de que o mais alto bem é a tranquilidade do espírito. Concebia como homem ideal aquele que, orientado pela razão, chegou à indiferença em relação à tristeza e a dor. (BURNS, 1959, p. 226-227).

“No ponto de partida do estoicismo como no das outras morais gregas, como talvez da reflexão filosófica em geral, há uma interrogação sobre a felicidade. Onde procurá-la? Como encontrá-la?” (VALENTE, 1984, p.43). “De todos os assuntos de que trata a filosofia, as preferências de Cícero vão, incontestavelmente, para a moral. Com efeito, a sua concepção peculiar de filosofia tem mais relações com a moral do que com a metafísica” (VALENTE, 1984, p. 19).

Em seus tratados, Cícero aborda os temas recorrentes dos filósofos gregos, como a finalidade da vida, o supremo bem, e o faz sempre buscando uma moral prática que guie a existência para a plenitude e felicidade.

Exaltava a virtude chegando a considerá-la como a única maneira de se alcançar a felicidade. Defende uma virtude estoica, ou seja, ilustrada, que se atinge pela razão e pela vontade, e não está ao alcance do estulto.

No tratado “De fato” (Sobre o Destino), Cícero ocupa-se do destino justamente para demonstrar a força de vontade reta e sã, o fado interessa à moral justamente porque o homem é responsável pelas suas ações. Ele afirma que “para a nossa vontade não há causas externas e antecedentes” (CÍCERO, 2001b, p. 21).

Posto isso, a virtude é uma conquista humana. Cícero versou sobre esse tema na obra “Tusculanrarum disputationum” (Debates em Túsculo, ou Tusculanas), na qual escreveu: “a virtude não é apanágio dos medíocres” (CÍCERO, 2005, p. 64).

Na mesma obra, demonstra como a sabedoria virtuosa, conquistada pela vontade, leva à felicidade. Escreveu; “Dê-se à loucura tudo quanto ela deseje, e ela julgará que ainda não tem o bastante. A sabedoria, ao contrário, sempre satisfeita com o que possui, jamais se lastima da sua sorte” (CÍCERO, 2005, p. 51).

Xerxes84 [...] tão cumulado que era dos favores da fortuna, mas não satisfeito sequer com os exércitos prodigiosos e com a multidão de navios que estavam sob suas ordens, não satisfeito sequer com os seus tesouros inesgotáveis, chegou a prometer uma recompensa a quem lhe pudesse ensinar um novo gênero de voluptuosidade; após tantas volúpias, no entanto, não pode encontrar o segredo de satisfazer-se, precisamente porque a sede do prazer é inesgotável (CÍCERO, 2005, p. 22-23).

Cícero acreditava, como estoico, na validade de uma lei natural. Segundo ele, essa lei natural é fruto da razão divina que governa o mundo e, destarte, é universal e comum a toda a humanidade independente de qualquer barreira civilizatória.

A base da filosofia ciceroniana, como já se disse, é a Stoa. [...]. Desse modo constituída sua filosofia, Cícero não poderia negligenciar o principal contributo do estoicismo, a saber, a ligação do homem com a natureza, ou seja, a formação da ética a partir da intuição natural. Aliado a esse contributo está outro: a ética não se afirmar na contemplação, mas na ação, e é esta que deverá ser julgada boa ou má. Não se pode chegar a outra medida senão à que diz que a justiça não é inata, mas se trata de uma conquista prática da ação humana (BITTAR; ALMEIDA, 2002, p. 178).

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Xerxes I, filho de Dario I, rei da Pérsia de 485 a 465 a.C., submeteu a Babilônia e o Egito revoltados, invadiu a Ática e assolou Atenas. Acabou, porém, por ser vencido em Salamica e teve de fugir para a Ásia. Morreu em Sussa, no Elão, assassinado por um dignatário da sua corte(CÍCERO, 2005, p. 22-23).

Para viver conforme os ditames da Natureza, de acordo com Cícero, o homem deve entendê-la, assim anotou:

[...]aquele que há de viver conforme a natureza deve neces sariamente entender a ordem do mundo e seu regime. E não pode verdadeiramente julgar os bens e os males se não conhece a razão da natureza e da vida dos deuses e da harmonia que a natureza humana tem com a natureza universal. Sem o estudo da física, ninguém pode compreender a grande força daqueles antigos preceitos dos sábios que te mandam acomodar-te ao tempo, tomar a Deus por modelo, conhecer-te a ti mesmo e guardar em tudo a temperança. Só esta ciência nos ensina o que pode a natureza para a conservação da justiça, da amizade e das virtudes. E sem a explicação da natureza não se pode entender a razão do agradecimento que se deve aos deuses (CÍCERO, 2005b, p. 118).

Cícero, nessa passagem do seu tratado “De finibus bonorum et

malorum” (Do sumo bem e do sumo mal), além de concordar com os filósofos

estoicos do Pórtico grego, assimilando e aprofundando as ideias do Hino a Zeus, de Cleantes, antecipa o ideal cristão décadas antes de Jesus Cristo nascer e séculos antes que os filósofos da patrística e depois destes os filósofos da escolástica viessem a elaborar filosoficamente o mesmo ideal.

Nessa mesma obra “De finibus bonorum et malorum” (Do sumo bem e do sumo mal), Cícero demonstra a sabedoria da resignação a da abnegação, instruindo que abrir mão dos prazer dá ao homem prazeres maiores e suportar as dores evita dores superiores: “Mas sempre terá o sábio esta regra: se abandona os deleites, será para conseguir outros, maiores; se sofre as dores, será para livrar-se de outras mais duras”( CÍCERO, 2005b, p. 15).

Tendo sido advogado e estadista, Cícero ocupou-se filosoficamente do Direito. “De re publica” (Da República), “De legibus” (Tratado das Leis), “De officiis” (Dos Deveres), “eis dentre o avultado número de obras que nos deixou Cícero, as que podem oferecer, de um modo completo, sua teoria sobre o direito” (BEVILAQUA, 1897, p. 33).

Cícero foi um filósofo que deixou marcas profundas no pensamento político ocidental, pois, se comparado, por exemplo, a Sêneca - preceptor, conselheiro e ministro de Nero - e a Marco Aurélio - imperador -, foi o único que refletiu filosoficamente sobre a política republicana, escrevendo “Da republica” e “Trado das Leis”. A maneira como, em “Dos deveres”, concebeu a articulação entre a ética e a política por intermédio do conceito e da prática da virtude irá desaguar na construção da figura do Bom Governo quando, destruída a República, os filósofos romanos deixarão de colocar nas leis a origem

das qualidades do regime político para fixá-la na pessoa do príncipe virtuoso (CHAUÍ, 2010, p. 221).

No tratado “De Legibus” (Tratado das Leis), Cícero defende as

velhas leis, pois acredita no Direito Natural e, em vista disso, advoga a favor dos costumes antigos como fontes do Direito. “A lei natural e eterna é fonte desse Direito. Não reside na convenção nem na inteligência do legislador a formação das leis, mas em uma razão natural, insubmissa às corruptelas do pensamento humano” (BITTAR; ALMEIDA, 2002, p. 181). Essas ideias buscam demonstrar que a validade do Direito Natural exorta os cidadãos a entender a afinidade entre a justiça, a Natureza e a vontade divina, para, a partir disso, conceituar a lei como um direito superior e universal. “Cícero ressalta ainda que o Direito positivo que conflita com a lei natural é carente de validade” (FERACINE, 2011, p.92).

Portanto, desde o início devemos convencer os cidadãos de que os deuses são senhores e guias do Universo, que nada é criado sem o concurso do juízo e vontade divinos, que são eles os grandes benfeitores do gênero humano, que observam o caráter e a responsabilidade de cada um, os seus propósitos e a fidelidade no cumprimento dos deveres religiosos, julgando ímpios e piedosos (CÍCERO, 2004b, p. 67).

A Lei não é produto da natureza humana, nem da vontade popular, mas é algo eterno que rege o Universo por meio de sábios mandamentos e de sábias proibições; essa Lei, como se costumava dizer, é tanto a primeira como a última, identifica-se com a mente divina quanto racionalmente, proibindo ou permitindo, dá impulso a todas as coisas. Portanto, é lícito louvar a Lei que é presente dos deuses ao gênero humano, porque é a razão e o pensamento de um ente sábio, apropriada a dar ordens permissivas ou proibitivas (CÍCERO, 2004b, p. 71).

Na verdade, o maior absurdo é supor justas todas as instituições e todas as leis dos povos. Justas serão as leis dos tiranos? Se aqueles Trinta de Antenas85 resolvessem impor leis a cidade e se todos os atenienses suas leis tirânicas aprovassem, teríamos que considerá-las justas? [...] Na verdade existe um só direito, aquele que une a sociedade humana e que nasce de uma só Lei; e essa Lei é a reta razão, quando ordena e proíbe. Quem a ignorar é injusto, esteja ou não escrita em algum lugar (CÍCERO, 2004b, p. 57).

A reta razão de Cícero é a consciência de uma lei superior que está acima da lei posta pelo homem, a sua busca é pela justiça, pois, se assim não fosse, cumprir ou não a lei seria relativizado pela conveniência pessoal do indivíduo em relação ao que poderia vir a perder ou a ganhar agindo de acordo

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Os Trinta Tiranos que o espartano Lisandro impôs à vencida Atenas em 404 a.C. Seu chefe foi Crítias, discípulo dos sofistas e de Sócrates. Permaneceram, ao longo dos séculos, como símbolo do regime oligárquico e cruel (CÍCERO, 2004b, p. 57).

com as prescrições legais, seria um utilitarismo e não justiça. Portanto, conclui que a Natureza é a base do Direito.

Se a Justiça consistisse em obedecer às leis escritas e agir conforme as instituições dos povos, tudo seria medido pelo padrão de utilidade e qualquer um, quando lhe fosse proveitoso, poderia ignorar ou violar as leis. Resulta daí que não existe justiça se não assentada na Natureza, e que a Justiça fundada na utilidade acaba com qualquer justiça. Se a Natureza não for a base do Direito, acabam todas as virtudes. Realmente, onde ficariam a generosidade, o amor à pátria, o respeito e a vontade de servir os outros ou de ser grato pela ajuda recebida? Tais virtudes nascem de uma inclinação natural que nos leva a amar os homens, e nela reside o Direito. Não seria apenas o dever com os demais homens que ruiria, também ruiriam os deveres com os deuses, porque, a meu juízo, estes devem conservar-se pelo temor, tendo em vista a união que existe entre o homem e a divindade, e não pelo medo (CÍCERO, 2004b, p. 57).

No mesmo “Tratado das Leis”, Cícero ocupou-se, também, da religião, mas, mesmo nessa parte da obra, o foco não se perde e aponta sempre para a razão natural. Por exemplo, quando comenta os ritos funerários, demonstra como é apropriado unir-se à mãe Natureza, viver e morrer em harmonia com ela, criticando quem por algum motivo desobedece a essa lei ditada pela razão, nestes termos:

Porém, a meu juízo, o tipo mais antigo de sepultura é o que, segundo Xenofonte86, foi constituído por Ciro87: devolve-se o corpo à terra e é ajeitado de tal modo que parece coberto pelo manto de sua mãe. Diz a tradição que, sob esse ritual, em uma sepultura que está há pouca distância do altar da Fonte88, foi sepultado o rei Numa89, e sabemos que ainda o clã dos Cornélios90 adota esse procedimento. Sila, depois da vitória, fez jogar no rio Ânio os exumados restos de Caio Mário. No episódio deixou-se conduzir pelo ódio, demonstrando que sua sabedoria estava aquém de seu ódio (CÍCERO, 2004b, p. 93-94). Cícero não abandona a filosofia do Pórtico nem mesmo quando escreve sobre política. Em “De re publica” (Da republica), obra escrita por volta de 55 a.C., na qual ele expõe o modelo de governo de Roma, não se abstém de fazer o nexo entre a moral, a virtude e a política. A última parte de “Da re

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Xenofonte (c.430 a.C. - 355 a.C.), historiador grego nascido na Ática, foi discípulo de Sócrates. (CÍCERO, 2004b, p. 93).

87

Ciro II, o Grande, fundador do Império Persa no século VI a.C. (LELLO, 1954, p. 560).

88

Fonte era a deusa da água (CÍCERO, 2004b, p. 94).

89

Numa Pompílio, segundo rei lendário de Roma, que teria reinado de 714 a.C. a 671 a.C. Era de origem sabina e presidiu a organização da cidade romana, à qual deu as primeiras leis (LELLO, 1954, p. 366).

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publica”, livro VI, ficou conhecida desde a antiguidade como “Somnium Scipionis” (Sonho de Cipião) graças ao escritor e filósofo Macróbio91. No Sonho de Cipião, Cícero faz uma alegoria descrevendo um sonho no qual Cipião Emiliano92 encontra os seus falecidos avô e pai na vida post mortem e, conversando com eles, aprende que a imortalidade da alma é destinada aos homens virtuosos. A alma do homem bom, depois de se libertar do corpo, volta para a plenitude de onde veio, enquanto a alma do homem ímpio permanecerá errante por séculos. No trecho que encerra a obra, lê-se:

Uma vez afirmada e demonstrada a eternidade do ser que se move por si mesmo, quem pode negar que a imortalidade é atributo da alma humana! Tudo o que recebe impulso externo é inanimado; todo ser animado deve ter, pelo contrário, um movimento interior e próprio; esta é, pois, a natureza e a força da alma. Com efeito, se somente ela, em todo o Universo, se move por si só, é certo que não teve nascimento e

Benzer Belgeler