As teorias em que nos ancoramos até o presente momento nos possibilitam afirmar que a produção hipertextual e, conseqüentemente, as interações via computador inauguram novos gêneros discursivos, denominados gêneros digitais. Tais gêneros emergentes valem-se de características daqueles que os precederam, transmutando-os, uma vez que a natureza do contato eletrônico não só altera significativamente a relação social entre os indivíduos, como também suas escolhas lingüísticas nesse novo contexto.
O texto digital distancia-se do texto prototípico em razão de transformar-se em uma estrutura semiótico-discursiva: os elementos não-verbais passam a fazer parte da organização textual, ou seja, som e ilustrações integram o todo do texto sendo também responsáveis pela construção de sentido e possíveis caminhos de leitura. Dessa maneira, a relação com o discurso digital pressupõe um maior gerenciamento de informações29 da parte de seus interlocutores.
Também no nível lingüístico, o discurso produzido na CMC apresenta uma peculiaridade própria que se verifica na maneira como funde as características oral e escrita da língua30. A linguagem distancia-se da norma culta, passando por um processo de adaptação e modificação para servir melhor a seus usuários nesse novo contexto. Assim, o léxico se expande com o surgimento de novas expressões, abreviações, neologismos semânticos, criando uma nova forma lingüística que atenda a rapidez e a velocidade da comunicação digital.
29 Esse maior gerenciamento não se evidencia somente na relação dos usuários com os elementos não-verbais
que se incorporam ao texto, mas também na própria relação com as ferramentas necessárias para produção das mensagens no meio eletrônico.
30 Voiskounsky (1997) aponta em suas pesquisas que, apesar de escrito, o discurso eletrônico guarda muitas
semelhanças com a conversação oral cotidiana. Essa aproximação se evidenciaria por um estilo mais informal da linguagem que inclui o tratamento dos participantes pelo primeiro nome, a adoção de gírias e diferentes tipos de piadas verbais e gráficas entre eles.
Alguns estudiosos, como Wouters e Gerbec (2003), na esteira dos estudos de Thompson (1998), defendem que a comunicação por meio da tecnologia computacional se desenvolve dentro da dicotomia interação mediada e quase-mediada. Segundo esses autores, a interação mediada se caracterizaria pela troca de mensagens entre interlocutores dentro de padrões pré-moldados pelo sistema. Enquadrariam-se nessa tipologia, os chats, e-mails,
fóruns, etc. Já a interação quase-mediada se diferenciaria daquela, a priori, por não se definir
em função especificamente da troca de mensagens entre interlocutores envolvidos no processo. Nesse sentido, se assemelhariam a outras mídias, como o rádio, a televisão e o jornal. No meio eletrônico, fariam parte desse grupo, os sites e blogs, por exemplo.
Partindo dessa definição, em um ambiente de interação mediada, ou seja, centrado na troca de mensagens entre interlocutores, existem também algumas variáveis que precisam ser administradas pelos participantes no momento da conversação, tais como o número de interlocutores que tomam parte no processo comunicativo e o fato de a comunicação acontecer de maneira síncrona ou assíncrona.
Quando comparada ao tradicional modelo da interação face a face, a conversação on-
line apresenta, entre outras, algumas peculiaridades apontadas por Herring (1999), tais como a
impossibilidade de sobreposição de mensagens, a falta de um feedback simultâneo decorrente da ausência de contato áudio-visual e a interrupção dos turnos conversacionais adjacentes em virtude das inúmeras mensagens serem postadas no sistema na ordem em que são recebidas.
Com base em estudos de outros pesquisadores, Primo (1997) salienta que a comunicação mediada apresenta quatro diferenças fundamentais em comparação às formas convencionais de interação. Seriam elas: o anonimato que permite aos internautas esconderem sua própria identidade ou escolherem outras para si; a falta de informações sobre o status social dos interlocutores decorrente desse anonimato; a ausência de dados paralingüísticos e a
espontaneidade das relações já que não existem limitações (ou um feedback regulador) impostas pela aparência ou posição social.
Também podemos apontar, como outra característica, o fato de a interação mediada ser dotada de uma natureza mais reflexiva do que a comunicação face a face, pois o usuário tem a capacidade de pensar e reformular seu discurso durante todas as etapas do processamento textual, ou seja, o internauta pode pensar seu texto antes de compor sua mensagem, antes de enviá-la, no momento em que lê a contribuição dos outros participantes e mesmo quando lê as repostas de sua mensagem (Glazer, 2003). Tal atitude parece difícil de ser verificada nas situações face a face, em vista do processamento e da realização textual acontecerem de modo concomitante.
Alguns pesquisadores, como Fávero, Andrade e Aquino (1999), ao estudarem a dinâmica da conversação face a face, constatam que um feedback áudio-visual simultâneo desempenha papel significativo na interação, no que se refere à negociação dos turnos e mesmo na manutenção do contato entre os interlocutores. Assim sendo, a conversação eletrônica tenderia à maior descontinuidade, pois a ausência dessa condição fragilizaria o laço entre os participantes.
O envolvimento dos interlocutores também parece ser mais fragilizado nas interações assíncronas, uma vez que a temporalidade distendida favoreceria a dispersão do foco conversacional. Em gêneros digitais assíncronos, como o e-mail e o fórum de discussões, por exemplo, o intervalo entre as mensagens pode levar dias ou meses, ao passo em que, nas interações síncronas, essa diferença no tempo de resposta é menor.
O aspecto sincrônico de algumas interações em gêneros digitais, como os chats e
entrevistas com convidados, aproxima-os da tradicional conversação face a face. Entretanto,
vale ressaltar que a sincronicidade no meio eletrônico distancia-se parcialmente do conceito que conhecemos. Nas interações faladas, o acesso às contribuições dos participantes é
imediato, ao passo em que no discurso eletrônico devemos considerar que a troca de mensagens está condicionada à interface computacional, ficando a interação sujeita a lacunas temporais nos momentos em que os internautas digitam suas mensagens até estas se tornarem disponíveis pelo sistema aos demais interlocutores31.
A supressão de uma linearidade textual e temporal nos faz pensar, à primeira vista, que a conversação na CMC tende a ser confusa, agramatical e incoerente. Na verdade, a interação mediada assume uma dinâmica própria, diferente dos encontros presenciais e, sob essa ótica específica, deve ser estudada.
Quando defendemos a idéia de que o discurso produzido na internet é estruturalmente incoerente, é porque pensamos as questões de coesão e coerência textuais baseadas, ainda, na tradição textual impressa ao invés da realidade digital. Na perspectiva impressa, é comum definir texto como uma seqüência coesa e coerente de enunciados, cabendo ao leitor seguir tal estrutura organizada para entender o que o autor disse (Marcuschi, 2000).
Contrariando essa visão, para os estudiosos da Lingüística de Texto, a coerência não é uma propriedade textual, mas sim uma perspectiva interpretativa. Assim, cabe ao leitor organizar as informações presentes em qualquer texto e delas depreender um sentido. Como afirma Marcuschi (2000), “não se trata de dar predomínio ao leitor, nem de dizer que ele é o responsável direto e único pelo sentido, mas que ele dirige os movimentos que conduzem a construção do sentido”. Ainda, na opinião do autor, a produção hipertextual materializa, de maneira exemplar, a dispersividade discursiva32 a que estamos submetidos.
Também é interessante pensarmos na maneira como os usuários dessa nova tecnologia se adaptam a esse novo meio interacional. Uma vez que as formas tradicionais de feedback
31 Tais lacunas temporais também são conhecidas como lags na literatura especializada.
32 Marcuschi (2000) argumenta que os textos que circulam cotidianamente entre nós por meio dos canais de TV,
rádio, jornais, telefone, conversa com amigos já refletiriam a realidade hipertextual, ou seja, diariamente já estaríamos expostos a uma selva de textos em vertiginosa sucessão. Nesse sentido, a internet representaria, por excelência, o verdadeiro mix discursivo dessa virada de século.
são alteradas por esse jeito de se comunicar, os internautas necessitam adotar outras estratégias que procurem sinalizar a manutenção do contato e mesmo a negociação dos turnos. Em seus estudos, Herring (1999) aponta que a própria dinâmica do sistema favorece a tomada de turno, já que, nas interações mediadas, vale a máxima de que cada mensagem enviada ao sistema corresponderia a um turno. Entretanto, a autora observou que um usuário regular do IRC (internet relay chat) costumava digitar o símbolo % para sinalizar a seus interlocutores mais familiares que havia encerrado seu turno.
Dentre as estratégias de manutenção do contato empregadas pelos internautas, podemos citar o uso dos emoticons33 que, usados entre uma contribuição e outra, reforçam o contato e encorajam o interlocutor a prosseguir a conversação. A criação desses caracteres gráficos pretende recuperar o envolvimento emocional entre os interlocutores e representam uma tentativa de expressar sentimentos, mesmo estando afastados fisicamente. “As emoções experimentadas por usuários de computador não deixam de existir simplesmente porque estão sendo mediadas por máquinas, apenas assumem outro formato e circulam de outra forma” (Fontes, 2007:73).
Tais questões revelam-se mais complicadas quando pensamos nas interações assíncronas. Tanto a negociação dos turnos quanto a manutenção do contato seguem uma outra dinâmica quando nos defrontamos com algumas modalidades interativas que se estendem por tempo indeterminado.
Nessas modalidades, parece-nos importante aferir se existe alguma regularidade no período de latência entre a troca de mensagens. Em uma situação assíncrona, qual o tempo aceitável para que uma mensagem seja respondida? Com o objetivo de encontrar essa
33 Expressão criada a partir das palavras emotion (emoção) e icon (imagem). Os emoticons podem ser definidos
como sinais gráficos recorrentes na correspondência eletrônica, utilizados para transmitir emoções e sensações aos interlocutores. Seu sucesso se deve à facilidade de digitação e também por serem visualmente atrativos. O
resposta, Kalman; Ravid; Raban e Rafaeli (2006) estudaram três gêneros digitais assíncronos distintos em busca de um padrão temporal no envio e recebimento de mensagens.
Esses autores analisaram a troca de correspondência eletrônica (e-mail) entre os funcionários da empresa norte-americana Enron, um fórum de discussões mantido por uma Universidade, para que seus alunos discutissem os cursos nela oferecidos e um serviço de suporte pago do site de buscas Google, o Google answers, que fornece respostas às curiosidades e dúvidas científicas de seus assinantes. Ao contabilizarem as mensagens trocadas nesses três gêneros, os pesquisadores observaram que o tempo médio de resposta da maioria delas (cerca de 80%) era de aproximadamente 48 horas. Após esse período, as mensagens de resposta geralmente eram enviadas com pedidos de desculpas ou explicações.
O padrão descrito por esses pesquisadores nos leva a crer que, em interações assíncronas, o período de latência aceitável pelos internautas investigados era de aproximadamente três dias, sendo que, findo esse prazo, o silêncio de uma das partes tendia a ser interpretado como grosseria ou falta de polidez34.
Apesar desses resultados, a violação das regras de polidez nas interações via computador ainda é uma questão muito controversa e mais difícil de ser mensurada. Embora a comunicação por meio da internet esteja muito difundida, não existem, entre os usuários da CMC, regras de etiqueta muito bem definidas de como a interação deva se processar. Como uma determinada mensagem é interpretada dependerá do seu contexto de comunicação, da relação entre os interlocutores envolvidos, das normas sociais e mesmo do conhecimento de mundo e características pessoais do indíviduo (Glazer, 2003).
Outro fator relevante que devemos observar é que a CMC afasta-se do modelo tradicional de conversação diádica. Os gêneros digitais, em sua maioria, possibilitam a participação de diversos interlocutores, revelando a natureza polilógica da comunicação
34 Vale salientar que as lacunas temporais de situações síncronas, mais precisamente da conversação face a face,
foram estudadas por McLaughlin e Cody (1982). Suas pesquisas concluíram que ocorre um “lapso conversacional” quando algum interlocutor permanece sem responder ao outro por mais de três segundos.
mediada. Tal característica torna o jogo interacional mais complicado e a negociação entre os participantes mais conflituosa.
A CMC deve ser entendida como um ambiente complexo composto por múltiplos participantes, interfaces específicas e temporalidade própria - condições típicas difíceis de serem encontradas em outros ambientes. As teorias tradicionais que investigam as relações diádicas são insuficientes para analisar em detalhes as interações nesse meio, pois não incorporam os elementos próprios desse sistema.
Das características aqui apresentadas, a constituição do polílogo não é somente um aspecto distintivo da comunicação digital, mas, como veremos adiante, uma realidade da dinâmica social que nos cerca.