A Constituição de 1824 pode ser considerada como um marco histórico por tratar-se da primeira Constituição do Brasil. O art. 179 é o último da referida Constituição cujo conteúdo está transcrito parcialmente, in verbis30. Tal Constituição trazia de maneira
29 GOMES, Orlando; GOTTSCHALK, Élson. Curso de Direito do trabalho. 16. ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: Forense, 2003, p. 25.
30 Art.179. A inviolabilidade dos Direitos Civis, e Politicos dos Cidadãos Brazileiros, que tem por base a liberdade, a segurança individual, e a propriedade, é garantida pela Constituição do Imperio, pela maneira seguinte.
I. Nenhum Cidadão póde ser obrigado a fazer, ou deixar de fazer alguma cousa, senão em virtude da Lei. II. Nenhuma Lei será estabelecida sem utilidade publica.
[...]
XXIV. Nenhum genero de trabalho, de cultura, industria, ou commercio póde ser prohibido, uma vez que não se opponha aos costumes publicos, á segurança, e saude dos Cidadãos.
XXV. Ficam abolidas as Corporações de Officios, seus Juizes, Escrivães, e Mestres. [...]
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constitui%C3%A7ao24.htm. Acesso em: 25 de dezembro de 2010.
incipiente algumas referências sobre a proteção das relações laborais. Durante a vigência desta Constituição surgiram as primeiras normas de natureza infraconstitucional voltadas para a proteção da relação. Sobre este tema Osmani Teixeira de Abreu informa que:
Foi ainda na primeira década de vigência da Carta Magna que surgiu a primeira lei brasileira que consideramos como o embrião da legislação dedicada às relações de trabalho. Foi aprovado pela Assembléia Geral o Decreto que “Regula o contrato por escrito sobre prestação de serviços feitos por brasileiro ou estrangeiro dentro ou fora do império” e que seria a lei de 13 de setembro de 1830.
Complementando ou suprimindo as deficiências da Lei de 1830, surgiu a Lei n. 108, de 11 de outubro de 1837 dando “Várias providências sobre o contrato de locação de serviços dos colonos”.
As disposições dessas leis vigoraram até 15 de março de 1879, quando foram revogadas pelo Decreto n. 2.827. Entretanto, desde 1850, com a vigência do Código Comercial, suas disposições passaram a ser aplicadas aos trabalhadores não vinculados à agricultura.31
A ausência estatal nas atividades laborais consagradas pela doutrina liberal dominante naquele contexto histórico, explica a ausência dos direitos dos trabalhadores dentro da Constituição, fato que só iria mudar aproximadamente após um século. Porém, é possível perceber alguns avanços, caso da explicita proibição das Corporações de Ofício, espelhada na Lei Chapellier de 1791.
A Constituição de 1891 marca o início da vida constitucional brasileira sobre a vertente republicana. Porém, a ideologia liberal ainda dominava fortemente, de modo que havia uma enorme resistência em atribuir status constitucional a matérias concernentes ao direito do trabalho. De toda sorte, esta Constituição trouxe inovações que se perpetuaram ao longo da história constitucional brasileira.
Um dos princípios iniciados da Constituição de 1891 e repetido posteriormente é o princípio da igualdade, consagrado naquela Constituição no art. 72, § 2°, cujo conteúdo albergado dizia, in verbis que, “Todos são iguais perante a lei”.
Outro aspecto consagrado nesta Constituição é a liberdade de associação, conforme disposto no art. 72, § 8°.
31 ABREU, Osmani Teixeira de. As relações de Trabalho no Brasil a partir de 1824. Greves, organização e
movimento sindical, Legislação, Justiça do Trabalho, Contratos Coletivos: Evolução das Convenções e Acordos Coletivos, Evolução dos Dissídios Coletivos. São Paulo: LTr, 2005, p. 23.
No que tange ao exercício de atividade profissional, o art. 72, § 24 garantia expressamente a liberdade em qualquer profissão moral, intelectual e industrial.
No período de vigência desta Constituição houve uma incipiente organização da classe operária através de sindicatos, sendo que a primeira Lei Sindical data de 1907. Está etapa da história republicana foi caracterizada por uma rápida ascensão e queda do movimento sindical em face da influência do grande capital. Após uma greve marcada por grandes tumultos em 1917, Osmani Teixeira de Abreu informa que:
Surgiram diversas associações, ligas, federações num total de 57 entidades que resolveram fundar, em 1920, a Confederação Geral dos Trabalhadores do Brasil, de tendência marxista, mas que não conseguiu sobreviver. Nenhuma destas organizações conseguiu influenciar o movimento operário, dada à interferência patronal dispensando os organizadores de sindicatos e do governo, coibindo os movimentos grevistas.
Em 1919, o Brasil passa a participar da OIT e pública, em 15 de janeiro de 1919, a 1ª Lei sobre Acidentes do Trabalho. Nessa data e com essa lei, iniciamos a nossa legislação do trabalho.32
Outro marco histórico ocorreu quando em 1923, “surgia, no âmbito do então Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, o Conselho Nacional do Trabalho (núcleo do futuro TST), instituído pelo Decreto n. 16.027”.33
Getúlio Vargas subia ao poder em face da revolução de 1930 e, através do Decreto n. 19.398, de 11 de novembro de 1930, exerceu com extrema autoridade os anos que se seguiram.34
A Constituição de 1934 foi promulgada no dia 16 de julho. Tal Carta Política possui a peculiaridade de ter iniciado a positivação de elementos concernentes a ordem econômica e social, organizados no título IV.
Ab initio, o art. 115 albergava em seu texto que “A ordem econômica deve ser
organizada conforme os princípios da Justiça e as necessidades da vida nacional, de modo que
32 ABREU, Osmani Teixeira de. Op. cit., p. 30.
33 MARTINS FILHO, Ives Gandra da Silva. Breve História da Justiça do Trabalho. In: FERRARI, Irany; NASCIMENTO, Amauri Mascaro; MARINS FILHO, Ives Gandra da Silva. História do Trabalho do Direito do Trabalho e da Justiça do Trabalho. 2. ed. São Paulo: LTr, 2002, p. 194.
34 O Decreto n. 19398 albergava em seu art. 1° a seguinte redação: “O governo provisório exercerá discricionariamente, em toda sua plenitude, as funções e atribuições, não só do Poder Executivo, como também do Poder Legislativo, até que, eleita a Assembléia Constituinte, estabeleça esta a reorganização constitucional do país”. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1930-1949/D19398.htm. Acesso em: 03/01/2011.
possibilite a todos existência digna. Dentro desses limites, é garantida a liberdade econômica”.35
O art. 121 trazia normas voltadas à proteção do trabalhador. O termo “proteção” aparece explicitamente neste artigo, cabendo reproduzi-lo na integra, in verbis: “A lei promoverá o amparo da produção e estabelecerá as condições do trabalho, na cidade e nos campos, tendo em vista a proteção social do trabalhador e os interesses econômicos do País”.
No parágrafo primeiro do art. 121, estavam previstas normas que deveriam servir de preceito para a legislação laboral, além de outras que visassem à melhora da situação da classe trabalhadora.36
No §2° do art. 121, ficou consagrado que não deve haver distinção entre trabalho manual e trabalho intelectual ou técnico, nem entre os profissionais respectivos. Nas palavras de Alice Monteiro de Barros:
Pelo que se pode constatar, foi essa a primeira Constituição a tratar do salário mínimo, da jornada de oito horas, das férias anuais remuneradas, da proibição de qualquer trabalho a menores de 14 anos, do trabalho noturno a menores de 16 anos e em indústrias insalubres, a menores de 18 anos e a mulheres. Essa mesma Constituição assegurou indenização ao trabalhador dispensado sem justa causa; repouso hebdomadário, de preferência aos domingos. Não dispôs, entretanto, sobre sua remuneração, tampouco estendeu o descanso aos dias santos e feriados. A Constituição de 1934 dedica atenção especial à maternidade, deixando claro que a licença correspondente se faz sem prejuízo do salário e do emprego, mas mediante a instituição de previdência a cargo da União, do empregador e do empregado. Proíbe-se diferença de salário para o mesmo trabalho por motivo de idade, sexo, nacionalidade ou estado civil.37
Um marco trazido pela Constituição de 1934 foi a criação da Justiça do Trabalho, matéria albergada no art. 122, cujo texto traz expressamente como atribuição deste ramo da
35 Esta e as demais citações concernentes a Carta Política de 1934 estão disponíveis em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constitui%C3%A7ao34.htm. Acesso em 03/01/2011.
36 O parágrafo primeiro do art. 121 trazia as seguintes alíneas:
a) proibição de diferença de salário para um mesmo trabalho, por motivo de idade, sexo, nacionalidade ou estado civil; b) salário mínimo, capaz de satisfazer, conforme as condições de cada região, às necessidades normais do trabalhador; c) trabalho diário não excedente de oito horas, reduzíveis, mas só prorrogáveis nos casos previstos em lei; d) proibição de trabalho a menores de 14 anos; de trabalho noturno a menores de 16 e em indústrias insalubres, a menores de 18 anos e a mulheres; e) repouso hebdomadário, de preferência aos domingos; f) férias anuais remuneradas; g) indenização ao trabalhador dispensado sem justa causa; h) assistência médica e sanitária ao trabalhador e à gestante, assegurando a esta descanso antes e depois do parto, sem prejuízo do salário e do emprego, e instituição de previdência, mediante contribuição igual da União, do empregador e do empregado, a favor da velhice, da invalidez, da maternidade e nos casos de acidentes de trabalho ou de morte; i) regulamentação do exercício de todas as profissões; j) reconhecimento das convenções coletivas, de trabalho. 37 BARROS, Alice Monteiro de. Curso de direito do Trabalho. 6. ed. rev. e ampl.. São Paulo: LTr, 2010, p. 72.
Justiça a função de “dirimir questões entre empregadores e empregados, regidos pela legislação social”.
Sob a forte influência dos regimes totalitários presentes na Europa naquele período, notadamente na Alemanha e Itália, foi outorgada em 10 de novembro de 1937 uma nova Constituição.
Foi mantida a Justiça do Trabalho, conforme albergado no art. 139 e consagrada a autonomia do direito do trabalho, pois o art. 16, XVI, do texto constitucional, dispõe como competência privativa à União o poder de legislar, dentre outras matérias, sobre direito operário.
O art. 137 trouxe uma série de normas de natureza trabalhista, tais como a jornada de trabalho de oito horas, cuja redução era permitida, porém o aumento desta jornada só poderia ocorrer em casos expressos na lei, fato normatizado na alínea “i”. Em contrapartida, alguns aspectos concernentes ao campo do direito coletivo do trabalho sofreram forte repressão estatal. A greve e o lock-out foram considerados “recursos anti-sociais nocivos ao trabalho e ao capital e incompatíveis com os superiores interesses da produção nacional”.38
O Decreto-lei n. 1.23739 foi responsável pela estruturação da Justiça do Trabalho. O art. 2° do referido decreto determinava que a administração da Justiça do Trabalho deveria ser exercida pelos seguintes órgãos e tribunais: As Juntas de Conciliação e Julgamento e os Juízes de Direito; os Conselhos Regionais do Trabalho e o Conselho Nacional do Trabalho, na plenitude de sua composição, ou por intermédio de sua Câmara de Justiça do Trabalho.
Foi ainda sob a égide da Constituição de 1937 que, por força do Decreto-lei n. 5.453 de 1° de maio de 1943, que surgiu a CLT cujo objetivo era unificar as normas de natureza laboral que existiam anteriormente.
A Constituição de 1946 Constituição marcou o retorno do Estado brasileiro a vida democrática, refletindo também o momento histórico da vitória dos aliados frente aos modelos totalitários após a segunda grande guerra mundial.
38 Esta e as demais citações da Carta Política de 1937 estão disponíveis em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constitui%C3%A7ao37.htm. Acesso em: 06/01/2011.
39 Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/1937-1946/Del1237.htm. Acesso em: 06/01/2011.
Um dos destaques desta Constituição está na incorporação da Justiça do Trabalho a esfera do Poder Judiciário, conforme disposto no art. 94, V.40
A Constituição de 1946 trouxe no art. 145 uma norma que tratava de maneira expressa da valorização do trabalho humano. Nesse sentido, dispunha o texto constitucional naquela oportunidade que a ordem econômica “deve ser organizada conforme os princípios da justiça social, conciliando a liberdade de iniciativa com a valorização do trabalho humano”. Mesmo legitimando um regime ditatorial, as constituições seguintes mantiveram esta idéia.
No campo do direito coletivo a greve foi reconhecida como direito cujo exercício deveria ser regulado por lei. Tal matéria estava disposta no art. 161.
O art. 157 albergou uma série de dispositivos protetores nos XVII incisos positivados. Dentre eles pode-se citar a estipulação do salário mínimo, que deveria ser capaz de satisfazer as necessidades do trabalhador e de sua família conforme condições de cada região. Está matéria, albergada no inciso I, carregava em seu texto a possibilidade de estipulação de salários mínimos diferenciados, conforme as peculiaridades regionais.
Outro aspecto apontado no art. 157, II, é “a proibição de diferença salarial para um mesmo trabalho por motivo de idade, sexo, nacionalidade ou estado civil. Outras peculiaridades do art. 157 foram resumidas por Alice Monteiro de Barros. De acordo com a autora:
A Constituição de 1946 assegurou o princípio da isonomia, de forma mais minuciosa, vedando diferença de salário para o mesmo trabalho por motivo de idade, sexo, nacionalidade ou estado civil; com isso ficou revogado o decreto de 1940 que permitia que as mulheres recebessem salários inferiores aos dos homens. Essa foi a primeira Constituição a instituir a participação do trabalhador nos lucros da empresa. O descanso semanal e em feriados passou a ser remunerado no inciso VI, do art. 157 da Constituição de 1946. A estabilidade no emprego foi estendida ao meio rural. O trabalho noturno passou a ser proibido aos menores de 18 e não de 16 anos, como previa a Carta anterior. Instituiu-se a assistência aos desempregados e a obrigatoriedade de o empregador fazer seguro contra acidente de trabalho.41
A Constituição de 1967 é resultado do golpe de 1964, cujas seqüelas ainda se fazem presentes até hoje. Mesmo com a anistia amplamente festejada, sobretudo durante o regime de
40 Esta e as demais citações da Carta Política de 1946 estão disponíveis em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constitui%C3%A7ao46.htm. Acesso em: 10/01/2011.
transição democrática, a busca por desaparecidos políticos e a punição daqueles envolvidos em torturas têm sido motivo de acalorados debates e questionamentos.
Coube ao art. 158 albergar os direitos sociais trabalhistas, que permaneceram mesmo após a Emenda Constitucional n. 1. Tal emenda estabeleceu no art. 160 que a ordem econômica e social teria por fim a realização da justiça social e o desenvolvimento nacional, de acordo com princípios albergados em VI incisos, dentre estes princípios estava o da valorização do trabalho como condição da dignidade humana, conforme disposição do inc. II. Quanto ao direito coletivo do trabalho, afirma Süssekind que:
Relativamente ao direito coletivo do trabalho, a Carta Magna de 1967/69 repete as disposições da Constituição de 1946 sobre a organização sindical (art. 166) e inclui, desde logo, entre as funções públicas que podem ser delegadas aos sindicatos, a de arrecadar contribuições para o custeio das atividades de seus órgãos e para a execução de programas de interesse das categorias por eles representadas (§ 1° do art. cit.). Legitimou, assim, a arrecadação, pelos sindicatos, da contribuição anual compulsória (conhecida como “imposto sindical”) – tributo que só a União Federal pode instituir (art. 21, § 2°, n. 1).42
2.9 A IMPORTÂNCIA DA CONSAGRAÇÃO DOS DIREITOS SOCIAIS