Segundo Silveira (1996), originariamente a região Média Noroeste era povoada por indígenas da Nação Caingangue, nativos que eram também denominados coroados. Entre os grupos indígenas da Nação Caingangue destacava-se a tribo Urutágua que ocupava a área central da região.
Entre as primeiras tentativas de povoamento alóctone, destaca-se a de José Pinto Caldeira que, em 1863, procedente de Rio Preto, tentou introduzir criação de gado nos campos de Avanhandava, nas proximidades de Penápolis, bem como as tentativas de João Justino e Cel. Joaquim de Toledo Piza que, em 1889, estabeleceram as primeiras lavouras de café na área de Pirajuí (SILVEIRA, 1996).
Em 1900, Monsenhor Claro Monteiro Homem de Mello tentou catequizar os coroados, mas não teve êxito. Na realidade, o grande fator de povoamento regional foi a construção da NOB – estações da ferrovia foram o embrião da maior parte das cidades da região –, marcada por sangrentos choques contra os coroados que acabaram sendo expulsos da região. Tal fato ocorreu nos primeiros anos do século XX (1904-1910). Outros fatores que contribuíram para o rápido povoamento foram a fertilidade das terras, a riqueza vegetal, bem como a altitude e o clima favoráveis à lavoura cafeeira, complementa Silveira (1996).
O período técnico testemunha a emergência do espaço mecanizado. São as lógicas e os tempos humanos impondo-se à natureza, situações em que as possibilidades técnicas presentes denotam os conflitos resultantes da emergência de sucessivos meios geográficos, todos incompletamente realizados, todos incompletamente difundidos. Poderíamos assim reconhecer diversos momentos em um processo de evolução que é permanente. No primeiro podemos falar do território brasileiro como um arquipélago, contendo um subsistema que seria o arquipélago mecanizado, isto é, o conjunto de manchas ou pontos do território onde se realiza uma produção mecanizada. Depois, a própria circulação se mecaniza e a industrialização se manifesta. É somente num terceiro momento que esses pontos e manchas são ligados pelas extensões das ferrovias e pela implantação de rodovias nacionais, criando-se as bases para uma integração do mercado e do território. Essa integração revela a heterogeneidade do espaço nacional e de certo modo a agrava, já que as disparidades regionais tendem, assim, a tornar-se estruturais. (SANTOS; SILVEIRA, 2011, p. 31).
Antes da expansão da lógica capitalista de propriedade, o uso e a gestão das terras localizadas no Oeste Paulista, eram feitas pelos indígenas caingangues que viviam e dominavam essa porção territorial, conforme ilustrado na Figura 5. Até o início do século XX, em uma relação de equilíbrio com a natureza, os caingangues não desenvolviam mudanças acentuadas em suas terras. Esse processo de territorialidade significou que eles não construíram objetos-próteses no que se transformou a região, relata Bini (2009).
Figura 5 - Os Indígenas Caingangues em Canoa no início do Século XX.
Fonte: Bini, 2009.
Neste particular, Santos e Silveira, citados por Bini (2009, p. 29), dentro dessa ótica, destacam que:
A imposição à natureza de um primeiro esboço de presença técnica, pois ritmos e regras humanas buscavam sobrepor-se às leis naturais. Todavia a natureza comandava, direta ou indiretamente, as ações humanas. A precariedade ou a pobreza das técnicas disponíveis constituía o corpo do homem como principal agente de transformação tanto na produção como no enfrentamento das distâncias, e ainda aqui a natureza triunfa e o homem se adapta. Era um período de acomodação e morosidade na relação com o meio, pois se permitia que a
floresta voltasse a crescer durante algumas décadas, antes do plantio recomeçar num mesmo lugar.
Bini (2009) cita que no século XVII, com a especulação de haver ouro no Mato Grosso, o Tietê se tornou rota de travessia. Nesse contato com os paulistas, os caingangues resistiram às bandeiras (monções) e às tentativas oficiais de colônias militares. O baixo Tietê apresentava índice de alta insalubridade e mais de uma vez correntes povoadoras tiveram de recuar em suas tentativas de se estabelecerem em tais áreas. Até o início do século XX os caingangues mantiveram seus domínios no que hoje é o extremo oeste paulista.
Com a expansão da lógica capitalista de propriedade da terra, essas terras indígenas foram ocupadas e os caingangues foram praticamente dizimados. Desde meados do século XIX, os conflitos com os invasores paulistas se intensificaram. Ofendidos com a ocupação de suas terras nas proximidades do atual município de Bauru, os caingangues praticaram depredações e assassinaram dezenas de pessoas. Devido a essa resistência, findou- se o século e os interessados na posse das terras não conseguiram adentrar e anexar o Oeste com a pretendente introdução da monocultura cafeeira (BINI, 2009).
A partir de 1901, a luta se torna mais violenta. Em 1904, com o lançamento do decreto de concessão de construção de uma ferrovia de ligação ao Mato Grosso a partir de Bauru, a caça aos caingangues e a limpeza do futuro caminho dos trilhos se inicia de forma rápida e sanguinária, complementa Bini (2009).
A fixação de objetos técnicos instaladores de novas funções ao território do Oeste Paulista, está associada a um processo de transformações recorrentes às escalas estadual, nacional e mundial. Assim, a dizimação dos indígenas caingangues é parte de um desencadear de conquistas territoriais impresso pelo sistema capitalista, no Brasil, desde sua fase comercial. Dessa forma, para se apreender o significado da instalação de um meio técnico sobre o “sertão desconhecido” paulista se precisa analisar o desenrolar da formação sócio-espacial brasileira no momento da expansão da cultura cafeeira. (BINI, 2009, p. 7).
1.2.2 A dinâmica territorial na região Média Noroeste, provocada pela produção do café,