Um primeiro contacto com Tolosa (Figura 9) revela um povoado sem um centro percetível, com uma rua principal onde se fixam vários serviços, com alguns tecidos densificados, mas também com muitas manchas de paisagem natural integradas na própria malha urbana, com muitos becos e com ruas que terminam em azinhagas.
Fonte: Plano Geral de Urbanização de Tolosa
Figura 9 - Fotografia Aérea de Tolosa
Não há exemplos de reabilitações de imóveis, a construção antiga está bastante desprezada, com muitas casas abandonadas (Figura 10 e Figura 11), algumas com significado individual, nomeadamente palacetes (Figura 12). Existem ainda alguns momentos com unidade mas constantemente agredidos por desfigurações com forte
16
impacto na rua. A descaracterização é nítida, sobretudo ao nível dos materiais de revestimento dos edifícios. Existem algumas alterações de escala que revelam acrescentos de pisos e transgressões do módulo original patente nos lotes, por integração simultânea de dois e mais lotes numa única construção. Há muitos edifícios demolidos que originaram casas dissonantes que têm desvalorizado o casco urbano antigo.
Fonte: PGU de Tolosa Fonte: PGU de Tolosa Fonte: Elaboração Própria
Figura 10 - Rua do Poço Figura 11 - Rua de Nisa Figura 12 - Rua de Abrantes
Os edifícios com interesse são manifestamente poucos e tem havido uma tendência para concentrar serviços e equipamentos em novas construções (Figura 13) o que acentua ainda mais a rejeição da construção antiga. Os poucos largos existentes (Figura 14) transformaram-se em zonas de estacionamento caótico e existem problemas de circulação e de falta de parqueamento automóvel em todo o tecido urbano.
Fonte: Elaboração Própria Fonte: Elaboração Própria
a) Vista para Norte b) Vista para Sul
Figura 13 - Rua Prof. Dr. Gonçalves de Proença Figura 14 - Largo Dr. Tello Gonçalves
As zonas pedonais são praticamente inexistentes. As camadas mais jovens concentram-se junto ao campo de futebol e ao polidesportivo, numa zona sem atrativos para além da presença destes recintos que garantem espaços livres. A oferta a nível de restauração é fraca e sem qualidade, aliás, restaurantes nem sequer existem.
Há algumas extensões com construções novas que se colam aos limites da zona antiga, onde predomina, nos lotes, a casa unifamiliar com um e dois pisos que, nalguns casos, integra queijarias simuladas na própria habitação originando volumes expressivos ou a funcionar em anexos que disputam a escala com a casa principal. Não existe uma zona industrial mas percebe-se a existência de unidades fabris com alguma dimensão, disseminadas por todo o núcleo urbano, sobretudo nas partes mais antigas o que acentua ainda mais a ineficácia da rede viária com reflexos negativos no ambiente urbano. Os traços de uma ruralidade ainda visíveis são evidentes nas muitas propriedades inseridas no tecido que permanecem cultivadas (Figura 15)16. A dinâmica de rua é praticamente inexistente. Não existem locais de convívio ao ar livre.
Fonte: PGU de Tolosa
Figura 15 - Azinhaga da Rua da Cooperativa
Há dois eixos que são determinantes e que encerram o tecido antigo. Estes eixos têm a mesma origem – a rua de Nisa – e seguem direções distintas a partir da Av.ª da República.
16 Sobre as pequenas e médias propriedades inseridas no tecido urbano temos a noroeste, franjas que vão do tecido
consolidado até ao perímetro urbano, desenhado sem ter em conta os limites cadastrais das propriedades. Assim encontramos vegetação de carácter produtivo, como oliveiras, sobreiros e carvalhos, que se diluem pela própria paisagem. A área a sul é uma vasta área de propriedades privadas de médias e grandes dimensões, como é exemplo a herdade da Raposeira, que estão inseridas dentro do desenho do limite urbano de Tolosa. Constitui uma zona onde o carácter rural e produtivo está muito presente, encontrando-se manchas de eucaliptais, sobreiros, pastagens, pomares, olivais e vinhas, proporcionando um mosaico diversificado de culturas, que muito contribuem para o equilíbrio ecológico e visual da paisagem. Surgem, ainda, linhas de água que contribuem para a produção de produtos hortícolas, e pequenas albufeiras, onde ocorrem algumas atividades, que vão desde bebedouro para animais, até à pesca recreativa. Alguns destes espaços evidenciam algum abandono, por pertencerem a antigos residentes que, ao ausentarem-se, perderam o contacto com as propriedades. Assim toda esta área, embora se situe dentro dos limites do perímetro urbano, mantém-se sem construção e integra propriedades abandonadas ou em atividade, o que lhe permite preservar as suas origens rurais, não se diferenciando do restante espaço rural.
18
1.º Eixo: rua de Nisa/Av.ª da República/rua Dr. P. Bettencourt/rua de Abrantes (Figura 16). Este sobrepõe-se à via de atravessamento que outrora estabelecia a ligação entre Nisa e Abrantes.
2.º Eixo: rua de Nisa/Av.ª da República/rua do Arrabalde/largo Dr. Tello Gonçalves/rua de S. Pedro/rua dos Paralelos/rua das Escolas/rua do Chabouco (Figura 17).
Há uma alternativa de circulação que se desenvolve quase paralela ao 1.º eixo, cruzando depois os dois eixos e acabando por se confundir com o segundo (Figura 18). Provavelmente terá contribuído para a definição dos primeiros quarteirões visto que o seu troço inicial coincide com as traseiras da Av.ª da República. Parece ser uma via de serventia às propriedades rurais existentes nesta proximidade. A via integra a rua de Nisa/rua do Outeiro do Poço (Figura 19)/largo Dr. Alves da Costa (Figura 20)/rua do Matadouro/rua da Cooperativa/rua dos Paralelos.
Fonte: Elaboração Própria
Figura 16 - 1.º eixo
Fonte: Elaboração Própria
Figura 17 - 2.º eixo
Fonte: Elaboração Própria
Figura 18 - Eixo alternativo
Fonte: PGU de Tolosa Fonte: PGU de Tolosa
Um 3.º eixo, claramente mais recente, pelo menos parcialmente, que apesar de associar localidades, mormente Gáfete e Nisa – atualmente o contacto com Nisa, pela via de acesso às Termas, está interrompido no IP2 – não deve ter sido a ligação original a Gáfete. Esta possivelmente corresponderia a outra via, talvez ao 2.º eixo de atravessamento já referido. A constatação do seu menor grau de antiguidade assenta no traçado mais regular, na maior largura de alguns troços e na existência de construção nova e menos densificada fora da zona central. Este eixo contribuiu definitivamente para enformar o
aglomerado segmentando-o em duas partes. O grosso do povoado concentra-se a Sul deste eixo. A referida via integra a EN 118/rua Tenente António Falcão/largo Dr. Tello Gonçalves/rua Prof. Dr. Gonçalves de Proença/EN 118 (Figura 21). É no seu desenvolvimento ou nas suas imediações que se implantam os serviços e equipamentos mais representativos, a maioria construída em meados do séc. XX – GNR, Correios, Casa do Povo, campo de futebol, praça de touros, lar de 3.ª idade, etc.
O tecido construído integra um conjunto de becos que permitem aceder a parcelas construídas ou a propriedades localizadas no interior dos quarteirões. Provavelmente a propriedade original terá sido repartida por herdeiros ou terá havido uma faixa periférica que resultou em construção e que provocou o surgimento destas vias sem saída, com um carácter quase privado. Estamos assim perante quarteirões irregulares em que o miolo tem características rurais e é por vezes devassado com ruelas obstruídas que permitiram densificar parcialmente o interior.
O princípio medievo que se traduz na rua principal de acesso às casas e rua secundária de acesso aos quintais é quase inexistente.17
Podemos encontrá-lo eventualmente na Av.ª da República (Figura 22) e na Rua do Outeiro do Poço (Figura 23) e mesmo assim só no início dos troços. Depois o quarteirão ganha configuração triangular.
17 Princípio frequente nas “bastides” (vilas-novas, inscritas entre muralhas, que obedecem a um plano regular). No
concelho, o centro histórico de Nisa reproduz fielmente os princípios que identificam as “bastides” (ver Anexo IV - Plano de Pormenor do Centro Histórico de Nisa - exemplo de uma "Bastide" (vistas gerais e ruas).
Fonte: Elaboração Própria
20
Fonte: PGU de Tolosa Fonte: PGU de Tolosa
Figura 22 - Av.ª da República Figura 23 - Rua do Outeiro do Poço
As ruas revelam as frentes dos edifícios e pontualmente há becos ou pequenas serventias que penetram no interior do quarteirão. Em muitos casos estas situações comunicam com vários portões que garantem o acesso a quintais particulares autonomizados em relação aos edifícios. A paisagem humanizada é uma constante visível através dos muros. As ruas que abandonam o aglomerado são prolongadas com azinhagas e antes do seu início existem normalmente construções rurais – palheiros, arrecadações – que refletem a ligação ao campo (Figura 24 e Figura 25). A Nascente do aglomerado, o campo foi rasgado com o atravessamento do IP2 e há propriedades que ficaram irremediavelmente separadas do povoado (Figura 26).
Fonte: PGU de Tolosa Fonte: PGU de Tolosa Fonte: PGU de Tolosa
Figura 24 - Azinhaga da Rua
da Cooperativa Figura 25 - Rua de Nisa
Figura 26 - Quinta das Palmeiras
O tecido construído organiza-se em banda com frentes cerradas de construção com um e dois pisos e muito raramente três pisos, resultante de transformações no edificado existente. As chaminés surgem correntemente implantadas à frente, perpendicularmente ou paralelamente à rua e com grande tamanho, até porque muitas vezes encostam a casas com dois pisos e têm uma dimensão que, por exigências de funcionamento, supera o edifício contíguo. Isto traduz uma tipologia com a cozinha à entrada (Figura 27). O edificado está muito alterado e proliferam elementos dissonantes parciais – cores e revestimentos descontextualizados, transformação descuidada de caixilharias, etc.
Fonte: PGU de Tolosa
a) Sentido ascendente b) Sentido descendente
Figura 27 - Conjunto na Rua de Abrantes
Existem também edifícios que são totalmente dissonantes (alteração da escala primitiva) e que têm uma expressão com algum peso. Fora estas intervenções que, em muitos casos, são construções novas no lugar de casas tradicionais ou então, correspondem a construções antigas com um elevado grau de transformação em que se assiste à demolição de grande parte do modelo inicial mas que, tanto num caso como noutro, se tratam de obras recentes, todo o resto do edificado está bastante abandonado e degradado com muitas casas devolutas, incluindo palacetes o que denota um grande desprezo da população face ao seu centro histórico (Figura 28 e Figura 29). Não há uma relação afetiva com o núcleo antigo e este serve para colmatar a inexistência de loteamentos tornando-se num hábito derrubar edifícios antigos e construir casas novas.
Fonte: Elaboração Própria Fonte: PGU de Tolosa
Figura 28 - Palacete na Rua de Abrantes
Figura 29 - Palacete de D.ª Brígida Biscaia (Fachada para Rua do Poço)
Existem algumas expansões novas que se colam às ruas principais. Predomina fundamentalmente a construção ao longo das vias rasgadas e muito pontualmente há incursões dentro dos miolos dos quarteirões que definem transversais às vias principais recentemente desenhadas.
À medida que se abandona a zona mais central a construção vai sendo mais espaçada revelando mais vegetação (Figura 30) e começam a surgir construções no
22
meio dos quintais ou pelo menos com uma faixa ajardinada à frente (Figura 31). É esta a tipologia dominante nos bairros novos não havendo escalas contrastantes em altura. O piso térreo e os dois pisos são o mais comum. À entrada de Tolosa surgem alguns edifícios afirmativos que refletem as rotas da emigração acrescentando mais uma nota dissonante ao lugar (Figura 32).
Fonte: PGU de Tolosa Fonte: PGU de Tolosa Fonte: Elaboração Própria
Figura 30 - Travessa da Catraia
Figura 31 - Rua Prof. Dr.
Gonçalves de Proença Figura 32 - Entrada de Tolosa
A paisagem é um pouco acidentada com afloramentos rochosos pontuais que às vezes se interpõem entre os lotes, criando vazios no tecido, sobretudo nos bairros novos, embora também existam nos logradouros mais extensos, no interior dos quarteirões do núcleo primitivo. O aglomerado implanta-se numa superfície mais elevada do que a envolvente, de forma que a descoberta das cercanias do povoado se faz quase de forma abrupta quando se atingem os seus limites. No núcleo antigo há um apontamento curioso que é o aparecimento de uma azinhaga no meio do tecido (Azinhaga da Cooperativa, Figura 33), que se desenvolve entre propriedades e que constitui um sinal invulgar da ruralidade que o lugar deixa transparecer18.
18 Esta azinhaga em terra batida, que liga duas áreas de Tolosa, o centro do aglomerado e a zona de quarteirões da Rua
da Forca e Rua das Escolas, esconde por detrás dos muros, um caso particular, que quase se podia englobar na definição de “hortas urbanas”. É um espaço de produção agrícola, localizado muito perto do centro de Tolosa, limitado por traseiras de edifícios e ruas. A entrada neste espaço faz-se por diversos locais, casas e ruas (incluindo a azinhaga). A sua manutenção é assegurada pelos poços existentes e pelos próprios habitantes, que de uma forma quase comunitária, cultivam hortas, pomares e oliveiras. Constitui uma agradável surpresa a quem percorre esta azinhaga.
Fonte: Elaboração Própria
Figura 33 - Azinhaga da Cooperativa
Persistem ainda algumas propriedades com dimensão no tecido que contemplam a casa senhorial, habitações mais modestas provavelmente destinadas aos caseiros e as dependências para apoio da atividade agrícola. Depois, com um carácter mais urbano existem alguns palacetes distribuídos entre o casario. Destaca-se ainda a igreja Matriz (Figura 34) com um largo de enquadramento, a torre do relógio entalada entre construção (Figura 35) e o coreto no largo Dr. Tello Gonçalves (Figura 36).
Fonte: PGU de Tolosa Fonte: PGU de Tolosa Fonte: PGU de Tolosa
Figura 34 - Igreja Matriz Figura 35 - Torre do Relógio Figura 36 - Coreto
Os serviços existentes ao longo da rua Prof. Dr. Gonçalves de Proença são obras com algum significado que pertencem a famílias tipológicas disseminadas no país pelo Estado Novo (CTT, GNR, Casa do Povo, escola transformada recentemente em lar de 3.ª idade). Também dentro do mesmo espírito há a escola ainda em funcionamento na rua das Escolas (Figura 37). Entre as obras mais recentes destacam-se o mercado e o lar de 3.ª idade que é uma ampliação de um edifício escolar. O edifício do Matadouro (Figura 38), que, dos equipamentos referidos, é o mais antigo, integra também uma tipologia específica embora de raiz mais popular. Atualmente está devoluto e funciona como arrecadação de material de construção civil e equipamento da Junta de Freguesia.
24
Disseminadas no tecido existem várias oficinas industrializadas (serralharia, fabricação de alumínios com lacagem e anodização, carpintaria, etc.) e diversas queijarias e indústrias de enchidos. Há vários empreiteiros de construção civil com material e equipamento armazenado dentro do aglomerado. Toda esta situação cria naturalmente alguns conflitos ao nível da imagem urbana, afetando o edificado e a envolvente e constitui uma sobrecarga para as infraestruturas existentes (águas, esgotos e eletricidade) que não foram concebidas para o efeito.
Fonte: Elaboração Própria Fonte: PGU de Tolosa
Figura 37 - Rua das escolas a) Edifício b) Logradouro Figura 38 - Instalações do antigo matadouro