Outro conflito socioambiental que ocorreu pela expansão da mina Moro do Ouro é conhecido como o Processo dos Ribeirinhos. Nos autos do Processo nº 0470.07.042.821-9, que corre na 2ª Vara Cível da Comarca de Paracatu, lê-se que, em 26/9/2007, o MPMG celebrou com a RPM um Termo de Compromisso Preliminar, com a interveniência do Município de Paracatu, cujo objeto é a execução de projeto de revitalização do Córrego Rico. A execução desse projeto foi considerada pela FEAM como medida compensatória pró-ativa, prevista como condicionante no processo de licenciamento da expansão da mina.
Foi ajustado entre as partes que a RPM custearia as desapropriações necessárias à execução do projeto, por meio de depósito judicial de R$1.200.000,00, e que o Município de Paracatu faria as desapropriações de 38 imóveis localizados nas áreas de implantação dos parques lineares a serem construídos nas margens do Córrego Rico.
O problema surgiu com o processo de desapropriação dos imóveis. Quem são essas pessoas que ocupam as margens do Córrego Rico, então denominadas Ribeirinhos? São famílias de ex-garimpeiros, muitas delas com remota ascendência de escravos, que ocupam a terra sem título de propriedade. Construíram suas casas frágeis ao longo do Córrego Rico porque ali era terra de ninguém, mas sua ocupação acabou reconhecida pela municipalidade, que lhes concedeu os benefícios urbanos de água e luz, e cobra delas o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). Entretanto, na avaliação realizada por peritos indicados pela RPM e Prefeitura, por se tratar de ocupação ilegal da terra, os valores para desapropriação são vis.
A Sra. Rônia Mariano, conhecida por seu ativismo nas questões ligadas às comunidades atingidas pelos impactos socioambientais da RPM/Kinross, foi solicitada pelos Ribeirinhos a orientá-los e acompanhá-los em suas reivindicações. Em um trecho de sua entrevista, ela assim expõe a questão:
Eles estão vindo nas casas, todas as casas que são ribeirinhas – que estão aí na beira do Córrego Rico, que pagam IPTU, têm água e luz, água da Copasa e luz, Se eles estão ilegais, então não poderiam ter água e luz, e nem pagar IPTU. [...] Aí, a Prefeitura vai nos
coitados que estão pagando IPTU, diz que eles estão ilegais, porque 30 metros pertence à União, da beira do córrego, vai lá e quer pagar 10 mil, 20 mil, que eles tinham que sair de lá e eles não têm onde morar. Como é que eles vão comprar alguma coisa dentro de Paracatu com 10, 20 mil reais? Então, eles me procuraram. Eu arrumei com uma advogada, Luci, fizemos uma reunião com eles [...]. Então, fomos até a Prefeitura conversar com o Prefeito, a respeito dos ribeirinhos, como ficava a posição deles, que eles estavam desapropriando a troco de banana e eles iam morar onde? Debaixo da ponte? Então, lá eu conheci o processo, a Kinross depositou o dinheiro, essa história toda, vi o processo todo, e todos estavam entrando na justiça pra não entregar as casas. Aí, eu te pergunto: cadê o dinheiro? O dinheiro sumiu, o dinheiro acabou, eles não têm dinheiro pra pagar as casas. Pra eles saírem não tem como, então entraram judicialmente [...]. Eu arrumei Luci, eles vieram, fizemos uma reunião, eles foram. Foi até aqui na Cidade Nova, na igreja da Cidade Nova. Eu falo com você que a minha luta continua contra essa injustiça social, eu detesto injustiça social. A injustiça aqui é grande demais. O Prefeito ficou de reavaliar caso a caso, nunca se reavaliou nada, e o dinheiro acabou.
(Entrevista concedida em 25/4/2012)
A Tabela 9 apresenta os valores estabelecidos em algumas ações de desapropriação: Tabela 9: Valores de desapropriação de imóveis dos Ribeirinhos, Paracatu – MG.
Expropriado Decreto de Expropriação Data Valor (R$) Guilhermino Gabriel da Silva 3.709 01/04/2008 33.029,05
José Alves Menino Filho 3.713 01/04/2008 10.474,75
Luiza Costa Pinheiro 3.711 01/04/2008 9.918,00
José Cazuza Silva Ricardo 3.712 01/04/2008 25.151,90
Francisco Ruela 3.710 01/04/2008 67.629,55
Tereza Pinto Fonseca 3.725 01/04/2008 22.320,00
Floriano Mundim da Costa 3.706 01/04/2008 21.300,00
Fonte: TJMG (2006).
Na relação acima, o maior valor, de R$67.629,55, corresponde a um imóvel com 11 cômodos e 104,28 m2 de área construída, e o menor valor, de R$9.918,00, a um imóvel com
quatro cômodos e área construída de 35,28 m2. Com absoluta certeza, os valores indicados para fins de desapropriação não satisfazem às necessidades dos proprietários de adquirirem outra residência em Paracatu, nos mesmos padrões, talvez sequer um lote vazio.
É fato que as residências foram edificadas às margens do Córrego Rico em desacordo com as leis vigentes que fixam uma distância mínima das margens. É um ponto discutível, porque essas ocupações são muito anteriores à lei vigente e também porque o Córrego Rico, atualmente, nada mais é que um filete de água, depois que a RPM destruiu suas nascentes e represou a água das suas cabeceiras. Diante disso, do ponto de vista da justiça ambiental, há que se perguntar quantas pessoas estão residindo ali e qual o impacto dessas desapropriações sobre as famílias. Porém, o processo de desapropriação levou em conta puramente a questão patrimonial, ignorando a questão social. Deve-se distinguir, portanto, valor e preço:
patrimônio tem preço, sim; mas as pessoas não estão no mercado, não têm preço, mas têm valor.
Os processos judiciais que contestam as desapropriações das famílias dos Ribeirinhos ainda correm na justiça. Não existem muitas esperanças de que a justiça reconheça os direitos dessas pessoas humildes, pois no Judiciário o direito patrimonial ainda prevalece sobre o direito social. A se configurar assim, estaremos diante da consagração de mais uma injustiça socioambiental em Paracatu, por conta da mineradora RPM/Kinross.