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B- EMİRLİĞİN ÜZERİNE KURULDUĞU COĞRAFYA (CİBAL

4. Kürt Coğrafyasinin Konumu Ve Özellikleri

1.2.7. Ebu Mansur b Bedr

Uma pantera negra enjaulada. Uma vez olhei bem nos olhos de uma pantera e ela me olhou bem nos meus olhos. Transmutamos-nos. Aquele medo. Saí de lá

toda ofuscada por dentro, o “X” inquieto.

Clarice Lispector

A literatura de Clarice Lispector é produzida com o corpo e de vários modos coloca em cena uma imagem do homem como corpo. Ainda que isso já tenha sido dito, vale perguntar que corpo é esse que sua escritura deixa entrever. Parece que a figura mais apropriada para pensarmos sua ficção é a do centauro. Um centauro clariciano: metade homem, metade cavalo, mas também adornado por pedras, vegetais e por uma gama de elementos inorgânicos. Esse ser que se abre para a neutralidade, para o que não pode ser nomeado, nem homem, nem animal: o indiscernível, o neutro607. O que se tenta postular aqui é o fato de que, desde o lançamento de seus textos, Clarice manteve uma relação muito complexa com a representação do homem. Sua ficção sempre optou por refletir sobre o homem, mas sem, em nenhum momento, se enveredar por uma dimensão antropocêntrica. Ao

606

LISPECTOR, 1998b, p. 16.

607“O inominável em Clarice Lispector tem nome: o „it‟, a coisa interior, o animal incontrolável que mora nos

contrário, a escritora brasileira, próxima à concepção nietzschiana608, preferiu postular que o homem é um animal inacabado, e, portanto, pensar o homem significa também pensar o animal, já que existe entre esses dois termos, em determinada medida, uma relação de contiguidade609.

É por meio dessa ideia que podemos agora rever seus textos que encenam uma dimensão animal da escritura, desde Perto do coração selvagem, passando por O Lustre, A

cidade sitiada, A maçã no escuro, A paixão segundo G.H., Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, Água viva, A hora da estrela e Um sopro de vida, bem como os contos “Uma

galinha”, “A legião estrangeira”, “O ovo e a galinha”, “Macacos”, “Tentação”, “A quinta história”, “Perdoando Deus”, “O crime do professor de matemática”, “Uma esperança” e “Seco estudo de Cavalos” (tomando aqui os principais textos curtos que encenam um

pensamento animal610), e, ainda percorrendo muitas crônicas/fragmentos reunidos em A

descoberta do mundo e em alguns livros infantis, como A mulher que matou os peixes, A vida íntima de Laura e O mistério do coelho pensante. Constatamos também que todos esses

textos parecem falar do homem a partir do animal e do animal a partir do homem, não elegendo nunca um termo que supere o outro, mas preferindo trabalhar com o pensamento de que ambos fazem parte da construção de um corpo animal-homem e, ao mesmo tempo, servem à caracterização do animal como Outro.

Ao enfatizar que sua literatura se faz a partir do instinto, Clarice Lispector elege o corpo como fio condutor e, mais que isso, escolhe não um corpo qualquer, mas um híbrido – poderíamos dizer que escreve a partir de um corpo singular, no qual a dimensão animal aparece de forma clara. Seu livro Água viva parece ser um dos textos que melhor trabalha a questão de um pensamento animal, de uma escritura animal e da representação de um corpo animal-homem. Ao falar do seu processo de escrita, o corpo-voz do romance mencionado diz

que quer “pôr em palavras mas sem descrição a existência da gruta que faz algum tempo

pintei – e não sei como. Só repetindo o seu doce horror, caverna de terror e das maravilhas, lugar de almas aflitas, inverno e inferno, substrato imprevisível do mal que está dentro de uma

terra que não é fértil”611 .

608 Cf. GLENADEL (2011). No ensaio “„Poesia e verdade‟ da animalidade nietzschiana”, Paula Glenadel discute

a presença dos animais na filosofia de Nietzsche e defende que existe, a partir da figura dos animais, uma aproximação entre filosofia e poesia. Além disso, Glenadel enfatiza a proximidade afetiva que Nietzsche estabeleceu com o universo animal em sua filosofia.

609“O que os animais decerto teriam em comum com o homem seria partilhar essa mesma origem, múltipla,

irredutível a um só fundamento, talvez mesmo sem fundamento simples, tão somente um solo instável e sedioso de multiplicidades”. (NASCIMENTO, 2012, p. 16).

610“O animal nos olha, e estamos nus diante dele. E pensar começa talvez aí”. (DERRIDA, 2002, p. 57). 611 LISPECTOR, 1998d, p. 16.

Clarice marca de certa forma um lugar de enunciação, que no caso de sua literatura é a da condição de devir-animal. “Chamo a gruta pelo nome e ela passa a viver com seu miasma. Tenho medo então de mim que sei pintar o horror, eu, bicho de cavernas ecoantes que sou, e

sufoco porque sou palavra e também o seu eco”612

. Muitos de seus textos colocam em cena animais e, em Água viva, não apenas estão presentes – as baratas, os cavalos, as galinhas, os pintos, os insetos, os macacos, os cachorros, os peixes, os coelhos, os quatis, os ratos, ou seja, todo um bestiário clariciano, que povoa a mente de seus leitores –, como sua presença também parece assinalar que sua própria escritura é realizada a partir de um prisma, de uma perspectiva animal, colocando em evidência que “certo valor de não humano habita o coração

do humano”613

. Trata-se, portanto, não somente de colocar em cena animais, de tematizar sobre eles, de se ver em confronto com esses seres, mas acima de tudo de tentar escrever a

partir da perspectiva deles, ressaltando “uma pesada ancestralidade”614 .

Escrever a partir dessa ótica animal obriga o leitor de Lispector a se ver confrontado com a própria questão do humano, nas palavras de Carlos Mendes de Sousa em seu livro

Clarice Lispector – figuras da escrita: “o lado animal da obra é uma revelação do animal

interior que nos habita – em alguns casos, enjaulado dentro de nós”615. Assim, quando Clarice fala dessa pesada ancestralidade, ela parece dizer que o homem, como animal inacabado, não pode fugir de sua condição de bicho. Trata-se, na verdade, de uma encenação ficcional que expressa, fora do domínio do antropocentrismo, novos modos de configuração do humano. Ou seja, a escritura de Clarice, em especial, a ficção Água viva, propõe interseções entre aquilo que costumamos nomear de humano e aquilo que chamamos animal, ou não-humano. Segundo Benedito Nunes, o animal é uma abertura para se pensar o outro, para pensar o homem em sua dimensão instintiva.

Com o animal, as relações são, sobretudo, transversais, ou seja, o animal é considerado o oposto do homem, mas ao mesmo tempo uma espécie de simbolização do próprio homem. Na acepção comum, simboliza o que o homem teria de mais baixo, de mais instintivo, de mais rústico ou rude na sua existência. Por isso mesmo, o animal para nós é o grande outro da nossa cultura, e essa relação é muito interessante como tópico de reflexão.616

Esse confronto com o animal possibilita transvalorar alguns dados fixos sobre a condição humana. A literatura de Clarice elege o animal, ou melhor, esse confronto com o 612 LISPECTOR, 1998d, p. 16. 613 NASCIMENTO, 2011, p. 119. 614 LISPECTOR, 1998d, p. 16. 615 SOUSA, 2012, p. 286. 616 NUNES, 2011, p. 13.

animal, como forma de salientar o lado mais violento do homem, sua truculência617, sua rusticidade. É claro que não se trata de perceber, em Clarice, essa dimensão como algo negativo, mas como aquilo de que não podemos abrir mão. É dentro dessa perspectiva que podemos ler G.H. e seu confronto com a barata, sua tentativa de comungar com o inseto e, nessa comunhão, encontrar sua própria ancestralidade rasurada pela civilização, sua própria animalidade. De forma bem próxima a esse encontro, há também o conto “O búfalo”, inserido em Laços de família. Esse conto parece ser o texto mais bem acabado sobre o confronto

animal x homem. Nele, uma mulher que fora rejeitada por “um homem cujo crime único era o

de não amá-la”618, decide ir a um jardim zoológico. Ela acredita que seu encontro com os animais pode lhe dar o ódio de que necessita para sobreviver à rejeição do homem que ama. O conto é, na verdade, um texto sobre uma aprendizagem, sobre a aprendizagem de ser animal, de buscar o animal que somos, mas que vive rasurado dentro de nós mesmos. Encontrar esse animal é conseguir odiar.

O texto narra essa busca pelo ódio, pela truculência, pelo desejo de “matar”, talvez de

se matar, numa morte simbólica que representa, acima de tudo, o desejo de deixar de amar ou, ao menos, a capacidade de amar como animal. No entanto, ao chegar ao jardim zoológico, a mulher se depara com um universo animal que indica sempre o amor619. O conto já se inicia com uma conjunção adversativa, “mas”, marcando que o desejo inicial da personagem seria

frustrado: “Mas era primavera. Até o leão lambeu a testa glabra da leoa. Os dois animais

louros. A mulher desviou os olhos da jaula, onde só o cheiro quente lembrava a carnificina que ela viera buscar no jardim zoológico”620. Ainda que ela busque no zoológico o ódio, “o

ponto de ódio”, que ela acredita ser essencialmente animal, num primeiro momento, encontra

uma total adesão da vida animal ao que acredita ser o amor.

Depois de se deparar com os leões, ela então procura outros animais que possam ensiná-la a odiar. No entanto, todas as visões dela são de animais que vivem em paz, numa tranquilidade próxima ao amor. Nesse sentido, a adversativa – que marca a divergência entre seu desejo de ódio e o encontro com o amor, simbolizado pela primavera, pelos signos de vida e pela alegria animal – se justifica, por isso aparece no conto e é sempre reiterada. Enquanto a mulher percorre o jardim zoológico, sentindo-se fraca e cansada, já que quase não comia há

617“A nossa vida é truculenta: nasce-se com sangue e com sangue corta-se a união que é o cordão umbilical. E

quantos morrem com sangue. É preciso acreditar no sangue como parte de nossa vida. A truculência. É amor também”. (LISPECTOR, 1999a, p. 252).

618 LISPECTOR, 2009a, p. 127.

619“„Mas isso é amor, é amor de novo‟, revoltou-se a mulher tentando encontrar-se com o próprio ódio mas era

primavera e dois leões se tinham amado”. (LISPECTOR, 2009a, p. 126).

dois dias, reflete sobre o amor que encontra a cada nova imagem animal com a qual se depara.

“Os olhos baixos viam o chão entre os trilhos. O chão onde simplesmente por amor – amor,

amor, não o amor! – onde por puro amor nasciam entre os trilhos ervas de um verde leve tão

tonto que a fez desviar os olhos em suplício de tentação”621 .

Não encontrando a violência animal que buscava, a mulher se depara com outros animais. Ela continua querendo aquilo que julga ser o mais difícil, odiar, uma vez que reflete

sobre o fato de que nos ensinaram apenas a amar, apenas o amor. “A brisa arrepiou-lhe os

cabelos da nuca, ela estremeceu recusando, em tentação recusando, sempre tão mais fácil o

amor”622

. A condição humana seria marcada por essa concepção de civilização que a mulher recusa: apenas amar. Ela, pelo contrário, deseja uma aprendizagem animal, deseja se reencontrar com esse impulso e com essa potência animal que, mesmo rasurada, existe em cada homem. Durante seu percurso, que se desenha por um jogo do olhar – pelas visões que ela tem e que, de certa forma, cria desse espaço, já que seu olhar é só mais uma perspectiva do real que se apresenta –, ela encontra outros animais que também parecem obliterar a

carnificina, “a potência vital libertadora”623

, que viera buscar no zoológico. Ela se depara com leões calmos, girafa virgem, hipopótamo humilde, macacos felizes, elefante bondoso, camelo paciente, quati ingênuo. Cria-se, então, um bestiário que aponta para, conforme ressaltou

Yudith Rosembaum, “um universo animal marcado pela antítese do ódio”624 .

Interessa, neste momento, observar que Clarice desconstrói a busca, em certo sentido, consolidada, pelos limites entre o homem e o animal, ou seja, a tarefa vã de buscar a definição de animalidade625 e, em vista dela, determinar o humano. Ao colocar uma mulher em confronto com esses outros da cultura e desconstruir as imagens que temos do homem e do animal, Clarice parece dizer que o homem carece, na verdade, de sua própria animalidade626.

A mulher que procura esse aprendizado animal em “O búfalo” sabe que a única salvação para

ela é conseguir se reaver com sua animalidade, abrir-se, como diria Nietzsche, para as forças

estrangeiras. Dominique Lestel faz uma consideração/interrogação importante sobre essa

animalidade e da qual a eliminação a sociedade moderna tentou engendrar.

621 LISPECTOR, 2009a, p.129. 622 LISPECTOR, 2009a, p. 129. 623 ROSENBAUM, 1999, p. 116. 624 ROSENBAUM, 1999, p. 116. 625 LESTEL, 2011, p. 24.

626“Certo „não humano‟ clariciano leva a pensar diversas coisas, que listaria sinteticamente: a animalidade em

contraste com a humanidade; o rebaixamento dos bichos à condição de fera; a redução da espécie humana ao gênero masculino (o homem)”. (NASCIMENTO, 20011, p. 128).

Já se intentou, sem sucesso, descrever o animal como uma espécie de autômato: mas que tipo de autômato poderia dar conta de uma competência como a dos animais? E, sobretudo, que máquinas poderiam sofrer como os animais sofrem? À animalidade foram atribuídas características comuns a todos os animais, exceto ao homem. Por que eliminar o homem? Será porque ele é um animal muito particular? Um animal que possui alguma coisa a mais que o animal? Um animal humano? Esse raciocínio poderia muito bem ser invertido: o animal não teria, ele também, qualidades que faltam ao homem? Este não seria um animal desprovido de instinto?627

A literatura de Clarice, a seu modo, também coloca essas perguntas aos seus leitores. Baratas, cavalos, galinhas, peixes, cães, coelhos e tantos outros animais que compõem o bestiário clariciano nos convidam a pensar que falta ao homem essa qualidade de ser instinto, corpo, neutralidade. Essa dimensão que a animalidade traz ao homem pode ser vista no conto

“O búfalo”, em Água viva e em diversos textos de Clarice. O confronto com os animais, com

a própria animalidade, faz pensar na difícil distinção entre as duas classes, uma vez que, se faltam aos animais alguns atributos humanos, faltam também aos homens alguns atributos animais. Assim, a ficção de Clarice faz com que, a partir do confronto entre animal-homem – um confronto que mostra mais a continuidade dos termos que sua possível distinção628–, surja uma perspectiva do humano como abertura, abertura para o neutro, classe em permanente construção, algo que está sempre por se definir, em eterna mudança, sendo, portanto, o homem um animal cuja natureza própria está ausente.

Mais que isso, os textos de Clarice Lispector parecem apontar para o fato de que os animais também estão por se definir sempre. Abertura para a indefinição, eles parecem ser uma presença sempre inquietante, algo que se mostra estranho e familiar ao mesmo tempo. O

ensaio de Sigmund Freud, “O inquietante” (Das unheimliche), comparece aqui como suporte

para ler a presença muda e barulhenta desses seres que perpassam a obra clariciana. Nos textos da escritora brasileira, há uma gama de animais que vão dos domésticos aos selvagens, mas, tanto num caso como noutro, relacionados sempre a essa dimensão do inquietante. Freud diz que o inquietante (Unheimlich) “seria tudo o que deveria permanecer secreto, oculto, mas

apareceu”629

. Assim, a presença dos animais na obra clariciana parece apontar para o terror, mas também para algo bem familiar, para o desconhecido e o conhecido, sendo assim, talvez, mais uma presença do indefinível/indecidível em sua literatura.

627 LESTEL, 2011, p. 24.

628 “O pensamento da relação homem-animal é o pensamento do limite, das zonas fronteiriças e da

impossibilidade de separar completa e simetricamente os dois blocos. É um certo animal no homem e um certo homem no animal que é visado, sem identidades definitivamente constituídas. Questão, mais uma vez, de devir e de tornar-se, em lugar de identidade”. (NASCIMENTO, 2011, p. 132).

Nenhum outro animal aparece como uma presença tão inquietante na obra de Clarice

como o pinto de “A legião estrangeira”. O conto narra a história de uma escritora-dona-de-

casa que entretém suas tardes com a visita de uma vizinha estrangeira, “uma menina belíssima, com longos cachos duros, Ofélia, com olheiras iguais às da mãe, as mesmas

gengivas um pouco roxas, a mesma boca fina de quem se cortou”630

. O texto se inicia com a chegada de um pinto, trazido para a casa da mulher um dia antes do Natal – um pinto que pia,

uma coisa viva, que sabe das coisas do modo “como as coisas vivas sabem: através do susto profundo”631

. A presença inquietante da ave traz à tona as lembranças da narradora sobre Ofélia e desencadeia a narração da história da menina e sua interação com outro pinto anteriormente trazido à casa da narradora, para seus filhos, na época da Páscoa.

Nesse texto existe um confronto inicial entre a mulher e a criança. Enquanto a narradora adulta se comporta de forma mais instintiva em relação ao mundo, deixando-se não saber, escrevendo e tentando viver a partir do susto com as coisas, Ofélia, ainda que seja criança, nutre um amor-ódio pela narradora e se vale de sua “racionalidade” para tentar se confrontar com ela e se lhe sobressair. A menina parece um adulto, ainda que seja criança. Ela, na verdade, não se permite o susto de viver, a entrega ao desconhecido, não se permite ser um pouco animal, corpo, vida, sem ressentimentos.

Desanimada, eu abria a porta. Ofélia entrava. A visita era para mim, meus dois meninos daquele tempo eram pequenos demais para sua sabedoria pausada. Eu era grande e ocupada, mas era para mim a visita: com uma atenção toda interior, como se para tudo houvesse um tempo, levantava com cuidado a saia de babados, sentava-se, ajeitava os babados – e só então me olhava. Eu, que então copiava o arquivo do escritório, eu trabalhava e ouvia. Ofélia, ela dava-me conselhos. Tinha opinião formada sobre tudo. Tudo o que eu fazia era um pouco errado, na sua

opinião. Dizia “na minha opinião” em tom ressentido, como se eu devesse lhe ter

pedido conselhos e, já que eu não pedia, ela dava. Com seus oito anos altivos e bem vividos, dizia que na sua opinião eu não criava bem os meninos; pois meninos quando se dá a mão querem subir na cabeça. Banana não se mistura com leite. Mata. Mas é claro a senhora faz o que quiser; cada um sabe de si. Não era mais hora de estar de robe; sua mãe mudava de roupa logo que saía da cama, mas cada um termina levando a vida que quer. Se eu explicava que era porque ainda não tomara banho, Ofélia ficava quieta, olhando-me atenta. Com alguma suavidade, então, com alguma paciência, acrescentava que não era hora de ainda não ter tomado banho. Nunca era minha a última palavra. Que última palavra poderia eu dar quando ela me dizia: empada de legume não tem tampa. Uma tarde numa padaria vi-me inesperadamente diante da verdade inútil: lá estava sem tampa uma fila de empadas de legumes.632

630

LISPECTOR, 1999d, p. 100.

631 LISPECTOR, 1999d, p. 97. 632 LISPECTOR, 1999d, p. 100-101.

A racionalidade de Ofélia, todo o seu jeito de quem sabe tudo633, de quem não erra, no

entanto, é desconstruída, gerando um “leve estrabismo de pensamento”634

, quando, numa das visitas à mulher, ela descobre com susto a presença inquietante de um animal. Trata-se do pinto que havia sido trazido para os filhos da mulher, já que era véspera da Páscoa. Quando Ofélia escuta o piar na cozinha, fica congelada pela presença do pinto, que só pelo som já se faz concretizada. A partir daí ocorre uma espécie de metamorfose que é observada pela mulher, que estava à maquina, escrevendo. Ela vê a criança-adulta se transformar em criança. A presença do animal faz com que Ofélia se desarme e se entregue ao desconhecido, ao assustador, ao inominável da presença animal. Diante do estranho familiar, a menina se vê exposta ao melhor do mundo: a um pinto, a um animal635. A menina se permite, pela primeira vez, estar nua diante da presença animal, no sentido de se despir de valores, pré-julgamentos e saberes, aceitando apenas a força de uma alegria que brota pela visão do animal.

Ofélia, mesmo tentando resistir, acaba se rendendo à presença barulhenta do animal. Ela se transfigura então numa criança, acaba entrando no jogo inocente de ser criança. A presença esquisita636, estranha, mas ao mesmo tempo familiar, doméstica, do pinto, ajuda a menina nessa metamorfose que é testemunhada com dependência recíproca pela mulher: “Não sem dor. Em silêncio eu via a dor de sua alegria difícil. A lenta cólica de um caracol. Ela passou devagar a língua pelos lábios finos. [...] Mais e mais se deformava, quase idêntica a si