“É em obediencia ás solicitações imperiosas de uma formação aprimorada do mestre, bem como ás inevitaveis contingencias de finalidades uniformes para os estabelecimentos de ensino, que o projecto ora submettido á apreciação de V.Ex. eleva, definitivamente, o preparo dos professores ao nivel universitario, criando, na Escola de Professores, que se segue á Escola Secundária, cursos nitidamente profissionaes para o preparo do mestre” (Distrito Federal. Exposição de Motivos, 1932).
Nas exposições dos motivos para a criação do Instituto de Educação do Rio de Janeiro, de 1932, Anísio Teixeira é enfático ao afirmar a necessidade da reorganização da formação de professores elevando-a ao nível superior, com caráter profissional. Segundo Lourenço Filho, além de necessária, esta atitude representaria “a primeira iniciativa, no
país, para prover à formação do magistério, em nível de estudos superiores, ou universitário. Mais do que isso, talvez, assinala uma experiência de preparação de mestres primários, em novas bases, e mediante processos ainda não sistemàticamente utilizados nas escolas brasileiras” (Lourenço Filho, 1934a, 15).
A formação de professores se daria na Escola de Professores do Instituto de Educação que promoveria uma formação calcada em “modernas” técnicas educacionais, com matérias interligadas por seções. Esta formação não só podia como devia ser feita em nível superior, pois, conforme o artigo de abertura do primeiro número da revista Arquivos do Instituto de Educação, publicada em 19341, a Escola de Professores tinha como objetivo
1 Sobre a autoria do artigo de 1936, “O Instituto de Educação no último triênio”, temos apenas uma referência em nota de rodapé: “Dados constantes da Mensagem do Exmo. Sr. Prefeito
“formar professores conscientes de sua missão, não só capazes de realizar, mas também de entender os fundamentos de seus processos de ação, e capazes de perceber quais as modificações que a experiência venha a aconselhar, em vista das diferenças individuais dos alunos, ou dos grupos sociais em que êles vivam” (O Instituto de Educação, 1934, p. 7)2.
Em discurso por ocasião da inauguração da Escola de Professores, Anísio Teixeira afirmava ainda que “não se tratava, somente, de elevar esse preparo ao nivel
universitario, para dar ao professor a cultura basica necessaria á largueza de vistas e á comprehensão exacta do mundo contemporaneo que devem caracterizar um educador da infancia. Era indispensavel que sobre esse edificio de cultura geral, se erguesse o da cultura profissional e scientifica do mestre” (Anísio Teixeira. Discurso proferido, 1932). Lourenço Filho, também durante a inauguração da Escola de Professores, justifica a elevação da formação do professorado primário ao nível superior no Distrito Federal a partir de duas razões: “de ordem tecnica pura e de ordem social”. Lourenço Filho explica estas razões: “de ordem técnica porque, já o dissemos, a preparação dos mestres está a
exigir, cada hora, um maior preparo seja nas bases biologicas da educação, seja na reflexão filosófica e social”; “Mas há ainda o aspecto social que, por si só, justificaria a
creação da Escola de Professores. A elevação do nível, impondo extensão embora um pouco maior dos cursos, discriminará a concorrência. Ainda que a não diminua, porém, a seleção dos candidatos se operará de modo muito mais satisfatório. Si para o magistério se requerem determinadas aptidões de saúde, de inteligência e personalidade, a Escola de Professores dará os meios de os apurar convenientemente” (Lourenço Filho. Discurso de
Municipal, Cônego Olympio de Mello, à Câmara Municipal do Distrito Federal, em maio de 1936”. Não podemos afirmar, no entanto, que o artigo é da autoria de Cônego Olympio de Mello,
pois este artigo possui longos trechos idênticos aos apresentados no artigo publicado em 1934, “O Instituto de Educação”, com dados atualizados em relação a matrículas, pessoal docente e administrativo, despesas de pessoal e material. O artigo de 1934, segundo Liète Accácio (1993) é de autoria de Francisco Venâncio Filho, professor-chefe de Ciências Físicas e Naturais da Escola Secundária do Instituto, professor assistente da Seção de Matérias de Ensino da Escola de Professores e Subdiretor Técnico da Divisão de Secretaria da Diretoria da Instrução Pública do Distrito Federal. Um artigo intitulado “Instituto de Educação do Distrito Federal, Rio de Janeiro, Brasil” fora publicado no Boletim da União Pan-Americana (série Educação, Washington DC, n. 52, jun. 1935) com indicação de autoria. Este artigo seria uma versão modificada do artigo “O Instituto de Educação”, publicado nos Arquivos do Instituto de Educação de 1934, que não possui indicação de autoria.
2 Lopes (2003) em análise da revista Arquivos do Instituto de Educação, ressalta: “Produzido na
grafica da Secretaria de Educação do Distrito Federal, o periódico possuía divulgação e circulação garantidas em todo o país, pois era enviado gratuitamente a toda rede escolar do Distrito federal, bem como às secretarias estaduais de educação. Na verdade, a circulação do periódico ultrapassava mesmo os limites nacionais, sendo divulgado também no exterior, como é o caso, por exemplo, da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, em cuja biblioteca se encontram alguns exemplares, em bom estado de conservação” (p. 93).
Criação, 1932).
Os dois requisitos apontados por Lourenço Filho a um professor primário, expostos em seu discurso durante a inauguração desta que seria a “a primeira iniciativa, no país”, portanto, nos ajudam a compreender o que se pretendia construir com a formação de professores no Instituto de Educação do Rio de Janeiro. Dando continuidade ao mesmo discurso de Lourenço Filho, nos aproximamos, inclusive, do objetivo de “formar
professores conscientes de sua missão”, apontado no artigo dos Arquivos do Instituto de Educação: “A educação não é apenas preparo para a vida, mas já é a vida, no seu
contínuo fazer e desfazer, nos seus choques e adaptação. E o ensino na Escola de Professores, por isso mesmo que visa preparar mestres á altura de nossa época, deve ser penetrado desse espírito sadio que desejamos que os nossos futuros mestres devem levar ás suas escolas” (Lourenço Filho. Discurso de Criação, 1932).
Ao nos referirmos a discursos, artigos e exposições de motivos publicadas juntamente com o decreto de criação do Instituto de Educação do Rio de Janeiro, podemos compreender a importância do gesto de elevar a formação de professores primários ao nível superior e de conceder-lhe caráter profissional. No entanto, compreendemos também que estes discursos se inserem numa estratégia de construção de uma certa memória sobre a atuação dos educadores ali envolvidos. A ação de personagens de destaque no cenário educacional da década de trinta como Anísio Teixeira e Lourenço Filho, nos lança à necessidade de pensar estas falas a partir do contexto em que são produzidas, pois, se deixarmos de ter tal consideração ao trabalharmos com estes personagens, corremos o risco de reproduzir uma memória que eles mesmos buscaram construir sobre si. Em trabalho de crítica à historiografia da educação brasileira, Carvalho (1998b) afirma:
“A hegemonia que os renovadores da educação consolidaram no campo educacional e no mercado editorial lhes possibilitou não somente fixar orientações doutrinárias no campo da pedagogia como também difundir, largamente, representações sobre a história educacional brasileira e sobre o seu próprio papel nela. Tal hegemonia torna pertinente rastrear, em sua extensa produção intelectual, as representações instituintes do modo de conceber a história, a educação e a sociedade que configurou a historiografia educacional brasileira. Essas representações são fortemente perspectivadas em razão das posições de seus autores como intelectuais empenhados na organização da cultura e da educação no país” (Carvalho, 1998b, p. 331 – grifo no original).
Desta forma, a partir da hipótese de que o livro A Cultura Brasileira, de Fernando de Azevedo, consolida um discurso sobre a história da educação no Brasil, Carvalho (1998b) assinala para a construção narrativa de Azevedo, que produz um “personagem-
síntese” – os Renovadores da Educação – no qual pelo menos três sujeitos históricos estariam sempre incluídos: Fernando de Azevedo, Lourenço Filho e Anísio Teixeira. Ao se trabalhar numa discussão historiográfica em que estes três personagens atuam como grupo, torna-se difícil escapar da utilização de termos como “renovadores da educação” ou “pioneiros da educação nova”, porém, Carvalho (1998b) afirma não haver problema nesta utilização, “desde que tais práticas sejam suficientemente determinadas para evitar que o
sentido que o nome carrega se sobreponha à análise” (p. 345).
Ao analisar aspectos da formação de professores do Instituto de Educação do Rio de Janeiro este “personagem-síntese” – ou “megapersonagem” – está muito presente: a formação de professores no Distrito Federal tem a marca de Fernando de Azevedo pela reforma da Escola Normal por ele empreendida entre 1927 e 1930 e pela construção do prédio da rua Mariz e Barros que viria a abrigar o Instituto de Educação do Rio de Janeiro; ao mesmo tempo, Anísio Teixeira é o diretor da Instrução Pública do Distrito Federal, sendo um dos responsáveis pela transformação da Escola Normal em Instituto, e professor do mesmo; e Lourenço Filho é seu diretor geral, diretor da Escola de Professores e professor do Instituto. Além disto, os três são educadores reconhecidos por trabalhos e reformas realizados em outros Estados, membros ativos da Associação Brasileira de Educação e signatários do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova.
Além de Anísio Teixeira, Lourenço Filho e Fernando de Azevedo, o Instituto de Educação conta ainda com a participação de seus outros professores – Venâncio Filho, Maria dos Reis Campos, J.P. Fontenelle, Mario de Brito, Orminda Isabel Marques, Ignacia Guimarães, Gustavo Lessa, Delgado de Carvalho, dentre outros – que, sendo ou não signatários do Manifesto ou membros da ABE, trazem uma atuação marcante para as ações ali empreendidas. Desta forma, estes personagens estão permanentemente em cena nesta história, ora como coadjuvantes ora como protagonistas. Suas atuações, portanto, não podem ser ignoradas, nem menosprezadas, pois são atores numa rede social que, de certa forma, os constitui e é constituída por eles através de dispositivos que agem na produção de novas representações sobre a educação escolar e o papel dos professores. Dentre estes dispositivos, temos a própria transformação da antiga Escola Normal em Instituto de Educação do Rio de Janeiro.
Para compreendermos com clareza algumas das modificações que se operavam na formação de professores do Distrito Federal, é importante destacarmos que a transformação da Escola Normal em Instituto de Educação não se deu apenas por mera mudança de terminologia. Imediatamente antes da criação do Instituto de Educação do Rio de Janeiro, tínhamos no Distrito Federal uma Escola Normal em nível secundário para formação de professores e uma Escola de Aplicação para a prática das professorandas. Segundo Lopes (2003), a reforma empreendida por Fernando de Azevedo no Distrito Federal “já havia reformulado a antiga Escola Normal existente desde a época do
Império, criando uma escola moderna que se adaptasse às novas exigências” (p. 51 – grifos no original). Esta nova Escola Normal trazia como objetivos:
“Dar aos professores condições de elevar-se pela cultura geral à compreensão dos novos problemas com espírito crítico; conhecer os métodos científicos; aplicar essas ciências à educação através da observação e prática de ensino. Para isso se fazia necessário a instalação de laboratórios e ambiente propício às práticas educativas e sociais com escolas de aplicação anexas que permitissem a vivência dessas experiências” (Lopes, 2003, p. 52 – grifo no original).
No dia 19 de março de 1932 é criado o Instituto de Educação do Rio de Janeiro, definido como um complexo educativo e apresentado na legislação da seguinte maneira:
“Art. 3º - O Instituto de Educação constitui-se de: a) Escola Secundária;
b) Escola de Professores, tendo esta, como estabelecimentos anexos, para o fim de experimentação, demonstração e pratica de ensino, um Jardim de Infancia e uma Escola Primaria (grupo escolar). Parágrafo único – A Escola Secundária, embora autonoma e com finalidade propria, servirá egualmente como campo de experimentação, demonstração e pratica de ensino aos cursos de formação de professores secundarios” (Distrito Federal. Decreto nº 3.810, 19/03/32).
Observando brevemente a diferença Escola Normal/Instituto de Educação, destacamos que, enquanto a Escola Normal possui uma Escola de Aplicação em anexo, o Instituto de Educação é composto por várias escolas, sendo a de formação de professores designada Escola de Professores. Esta, diferentemente da Escola Normal, fora elevada ao nível superior e possuía caráter profissionalizante, como define Anísio Teixeira em sua
exposição de motivos ao Decreto 3.810:
“Estivemos, até hoje, a preparar os nossos professores primários em escolas secundárias em que se introduziam, para aquelle fim especial, cursos de pedagogia e de psychologia e uma pratica nominal de ensino.
Confundíamos, assim, finalidades culturaes e profissionaes em um só instituto, servindo mal a umas e outras.
Instituto de educação geral ou de cultura é o instituto em que se ministra o ensino para o proveito individual do alumno na formação de sua personalidade. Instituto de educação profissional é o instituto que ministra o ensino tendo em vista a necessidade do alumno no exercício de sua futura profissão (...).
As nossas escolas normaes soffrem egualmente desse vicio de constituição. Pretendendo ser, ao mesmo tempo, escola de cultura geral e de cultura profissional, falha lamentavelmente aos dous objetivos”.
Mario de Brito, diretor da Escola Secundária do Instituto de Educação, em artigo de homenagem a Lourenço Filho, comenta a reação deste à mínima confusão com os nomes Escola Normal/Instituto de Educação:
“Divertia-me o aborrecimento que lhe [Lourenço Filho] dava qualquer pessoa que se referisse ao Instituto de Educação pelo nome antigo, isto é, da instituição que o precedera. ‘Escola Normal’ era um dístico condenado. Pois, não se estava realizando uma verdadeira revolução, em que métodos e nomes antigos, embora recentes, indicavam a resistência ao progresso?” (Brito, 1959, p. 72).
Esta “revolução” era o que pretendia o grupo dos renovadores da educação, utilizando como estratégia de consolidação de seu ideário a constituição de novas representações e novos espaços de poder para a educação. O Instituto de Educação do Rio de Janeiro, como materialização de uma conquista deste grupo, no entanto, instituía-se com uma marca que também o diferenciava em relação aos modelos pedagógicos dos educadores aliados: com sua criação, a então moderna Escola Normal erigida na reforma de Fernando de Azevedo, passava a ser denominada antiga Escola Normal, como uma estratégia que ressaltava ainda mais as ações dos empreendedores do Instituto de Educação.